
02 de março de 2026
Coordenação pedagógica como fator de bem-estar e satisfação docente
Geraldine Thomas da Silva Juchem; Maria Angélica Penatti Pipitone
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisou o papel da coordenação pedagógica na promoção do bem-estar docente, utilizando a satisfação no trabalho como métrica. Partiu-se do pressuposto de que a gestão pedagógica é um elemento determinante para um ambiente escolar saudável, influenciando a qualidade das práticas educativas e a permanência dos profissionais. A relevância da análise reside em um cenário onde a valorização docente transcende questões salariais, englobando reconhecimento, condições de trabalho e relações interpessoais. Compreender como a liderança pedagógica impacta o clima organizacional é fundamental para desenvolver estratégias que fortaleçam o corpo docente e a instituição, fornecendo subsídios para que gestores aprimorem suas práticas com foco na dimensão humana do trabalho.
A discussão sobre bem-estar no ambiente de trabalho tem ganhado proeminência, sendo reconhecida como fator crítico para a produtividade. Pesquisas como a de Neves (2018) demonstram uma correlação direta entre condições de trabalho favoráveis e o engajamento dos profissionais. No contexto educacional, essa relação é vital, pois o bem-estar docente é um pilar para a qualidade do ensino. Conforme aponta Oliveira (2020), as condições de trabalho, incluindo carreira e remuneração, são indicadores da valorização da profissão. Nesse ecossistema, a coordenação pedagógica emerge com um papel estratégico, atuando como articuladora entre as políticas institucionais e a prática docente diária, responsável por fomentar um ambiente de suporte mútuo.
O bem-estar, segundo Snyder e Lopez (2009), é uma autoavaliação subjetiva da vida, influenciada por experiências de prazer e recompensa. No ambiente de trabalho, manifesta-se na motivação e no alinhamento com os objetivos da organização (Machado e Bandeira, 2012). A qualidade de vida no trabalho é um conceito mais amplo, que engloba a harmonia entre as esferas profissional e pessoal (Martins e Michaloski, 2015). Trabalhadores motivados e valorizados tendem a apresentar melhores resultados e maior autoestima, contribuindo para sua saúde integral (Silva e Furtado, 2015). Portanto, um ambiente que promove o bem-estar oferece condições para o desenvolvimento pleno do indivíduo.
Para que o engajamento floresça, o ambiente organizacional deve ser satisfatório e motivador (Garcez e Antunes, 2018). Um clima favorável é caracterizado por relações harmoniosas, garantindo segurança e bem-estar coletivo (Hipólito et al., 2017), e a coordenação pedagógica é responsável por cultivar esse ambiente. A literatura reforça que a motivação e a satisfação docente resultam em maior rendimento profissional (CARVALHO et al., 2013). Ao implementar práticas de gestão com suporte contínuo, a coordenação pode fortalecer o comprometimento dos professores e sua permanência na profissão (MARTINS ET AL., 2018), atuando além das tarefas administrativas para construir uma cultura de valorização.
Fatores como remuneração, condições de trabalho e um ambiente relacional harmonioso são cruciais para a satisfação profissional (Pena e Remoaldo, 2019). Quando o trabalho é exercido em condições favoráveis, torna-se fonte de prazer (DEJOURS, 1993); em contrapartida, a ausência desses elementos pode levar à insatisfação e ao sofrimento psíquico (KLEIN, PEREIRA E LEMOS, 2019). A complexidade da função docente torna os professores vulneráveis a esses riscos. Nesse contexto, a coordenação pedagógica atua como agente mediador, com potencial para identificar tensões e implementar ações que promovam um clima de confiança, mitigando pressões institucionais. Esta pesquisa se debruça sobre essa dinâmica.
A metodologia adotada foi uma pesquisa descritiva com abordagem quantitativa e de caráter aplicado. O objetivo foi compreender a relação entre o bem-estar docente e a atuação da coordenação pedagógica para gerar subsídios práticos. A abordagem descritiva permitiu mapear as percepções dos docentes, enquanto a quantitativa viabilizou a mensuração dos níveis de satisfação, possibilitando a identificação de padrões. O foco aplicado visa traduzir os achados em recomendações para gestores escolares.
O instrumento de coleta de dados foi a Escala de Satisfação no Trabalho (EST) de Siqueira (2008), escolhida por sua robustez. A ferramenta mensura o contentamento em cinco dimensões: “salário” (percepção de justiça da remuneração); “chefia” (qualidade da relação com o superior imediato); “promoções” (oportunidades de crescimento na carreira); “natureza do trabalho” (nível de interesse e variedade das tarefas); e “colegas de trabalho” (qualidade das relações interpessoais). A escala é composta por 25 questões objetivas, com respostas em formato de 1 (“totalmente insatisfeito”) a 7 (“totalmente satisfeito”).
A coleta de dados ocorreu por meio de um questionário online, com a participação voluntária de 45 docentes de uma escola privada no Rio Grande do Sul, de um total de 55, conferindo relevância estatística à amostra. Foram adotados rigorosos procedimentos éticos para assegurar a confidencialidade. O anonimato foi garantido, e todos os respondentes assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo informados sobre os objetivos do estudo e a liberdade de desistir da participação a qualquer momento.
A instituição pesquisada é uma escola de grande porte, com 655 estudantes da Educação Infantil ao Ensino Médio e Técnico. O corpo docente é composto por 55 professores, apoiados por 27 assistentes escolares, serviço de orientação educacional, psicólogo escolar, coordenação pedagógica e direção. Essa estrutura de apoio consolidada oferece um campo fértil para analisar as dinâmicas relacionais e o impacto da liderança pedagógica, mas também evidencia a complexidade da gestão de pessoas em um ambiente diversificado.
A análise dos dados da Escala de Satisfação no Trabalho (Siqueira, 2008) com os 45 docentes revelou uma dualidade na percepção profissional. Evidenciou-se um contraste entre a insatisfação com aspectos estruturais (salário, carreira) e a satisfação com as dimensões humanas e relacionais. Essa dicotomia sugere que, enquanto a instituição apresenta fragilidades em políticas de remuneração, a qualidade das relações interpessoais e da liderança imediata atua como fator de compensação, reforçando a hipótese central do estudo sobre o papel mediador da coordenação pedagógica.
Na dimensão do salário, os resultados apresentaram os mais baixos índices de satisfação. A maioria dos professores atribuiu notas entre 2 (“medianamente insatisfeito”) e 4 (“indiferente”), sinalizando insatisfação generalizada com a remuneração. Esta percepção alinha-se a estudos como o de Carvalho & Vital (2020), que identificam a defasagem salarial como fonte de desmotivação. A sensação de que o salário não corresponde ao esforço e à sobrecarga de trabalho compromete o bem-estar, podendo gerar frustração e levar ao abandono da profissão.
De forma semelhante, a dimensão relacionada às promoções revelou uma percepção crítica. A maior parte das respostas concentrou-se na faixa entre as notas 3 (“insatisfeito”) e 5 (“satisfeito”), com tendência negativa. Este resultado indica uma visão de estagnação na carreira, com poucas oportunidades de ascensão. A ausência de um plano de carreira claro, somada à percepção de desvalorização, alimenta o desestímulo. Conforme destacam Oliveira e Duarte (2020), a falta de incentivos para o desenvolvimento profissional é um dos principais fatores de insatisfação. Embora a coordenação não possa alterar planos de carreira, pode mitigar parte dessa frustração por meio de reconhecimento simbólico.
Em contraste, a satisfação com a chefia imediata, representada pela coordenação pedagógica, apresentou tendência positiva. A maioria das respostas se concentrou entre as notas 6 (“medianamente satisfeito”) e 7 (“totalmente satisfeito”), indicando forte valorização da liderança. O dado sugere uma gestão próxima, empática e que oferece suporte efetivo. Os professores reconhecem gestões que praticam a escuta ativa e fornecem orientação consistente. Segundo Noronha et al. (2018), a qualidade da liderança escolar está intrinsecamente ligada à satisfação no trabalho, especialmente quando gestores atuam como facilitadores.
A dimensão referente às relações com os colegas de trabalho também registrou altos níveis de satisfação, com predominância de notas entre 6 e 7. Este resultado evidencia um ambiente colaborativo, pautado por respeito e solidariedade, o que contribui para um clima organizacional positivo. O apoio entre colegas, como apontado por Antunes (2021) e Tardif (2002), é essencial para mitigar o desgaste emocional da profissão, funcionando como rede de suporte. A coordenação pedagógica, ao incentivar espaços de troca e projetos colaborativos, potencializa essa dimensão relacional.
Os dados relativos à natureza do trabalho foram predominantemente positivos, com forte concentração de respostas nas notas 6 e 7. Este achado revela que, mesmo diante de limitações estruturais, os docentes mantêm forte conexão com o propósito de sua profissão, encontrando realização e sentido nas atividades diárias. A motivação intrínseca, como descrita por Antunes (2021), emerge como elemento estruturante do bem-estar, conferindo resiliência. A coordenação pedagógica pode fortalecer essa dimensão ao promover autonomia e protagonismo, preservando essa motivação.
A síntese dos resultados expõe uma clara dualidade: os maiores níveis de satisfação estão associados às dimensões humanas e relacionais – qualidade da chefia, apoio dos colegas e significado do trabalho. Em contrapartida, as dimensões institucionais e estruturais – salário e promoções – emergem como os principais pontos de insatisfação. Esta dicotomia confirma a relevância da coordenação pedagógica como figura mediadora do bem-estar docente. Ao atuar diretamente nos aspectos relacionais, o coordenador pode influenciar a construção de um ambiente de trabalho mais acolhedor e significativo.
A atuação da coordenação torna-se, portanto, um fator de equilíbrio. Mesmo diante de limitações sistêmicas que afetam a valorização material, como políticas salariais que fogem de sua alçada, o coordenador pode fortalecer os pilares da motivação no dia a dia. Ao promover uma cultura de diálogo, reconhecimento e suporte contínuo, a gestão pedagógica cria um “capital social” na escola que funciona como amortecedor contra frustrações externas. Essa mediação é crucial para que os aspectos positivos do trabalho prevaleçam, garantindo o bem-estar dos professores e a qualidade do projeto pedagógico.
O presente estudo permitiu compreender como a coordenação pedagógica pode atuar como mediadora do bem-estar docente. A análise evidenciou que, embora fatores estruturais como salário e promoções representem fontes de insatisfação, os aspectos relacionais – interações com a chefia e colegas, e o sentido do trabalho – são fundamentais para a motivação e permanência na carreira. Ficou demonstrado que a atuação da coordenação contribui decisivamente para o fortalecimento dessas dimensões humanas, por meio do estímulo à escuta, cooperação e reconhecimento. Ao favorecer um ambiente de diálogo e apoio mútuo, o coordenador desempenha um papel central na construção de um clima escolar positivo e resiliente. O investimento em práticas de gestão humanizadas mostra-se essencial para que os professores encontrem sentido em sua atuação, mesmo diante de desafios sistêmicos. Conclui-se, portanto, que o objetivo central da pesquisa foi plenamente atingido: demonstrou-se que a coordenação pedagógica exerce um papel estratégico e mediador na promoção da satisfação docente, potencializando os aspectos positivos do ambiente relacional e mitigando as fragilidades institucionais.
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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