Imagem Grau de alavancagem financeira e a volatilidade dos preços de commodities sucroalcooleiras

02 de março de 2026

Grau de alavancagem financeira e a volatilidade dos preços de commodities sucroalcooleiras

Gabriella Minati Ribeiro; Helenice Souza Gonçalves

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo verificou a correlação entre a variação do grau de alavancagem financeira (GAF) e as variações nos preços de venda do açúcar e do etanol. A investigação analisou as flutuações do GAF de uma usina sucroalcooleira em São Paulo e o comportamento histórico dos preços de seus produtos ao longo de dez safras. A premissa é que a volatilidade dos mercados de commodities influencia as decisões de financiamento e a estrutura de capital das empresas, o que se reflete no GAF. A análise quantifica essa relação, detalhando como as oscilações de receita, impulsionadas pelos preços, se conectam ao risco financeiro da companhia. A compreensão dessa dinâmica é fundamental para a gestão estratégica, permitindo ajustar políticas de endividamento para otimizar o retorno sobre o capital próprio e mitigar riscos.

O agronegócio brasileiro, representando 23,5% do PIB nacional em 2024 (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada [CEPEA], 2025), é um pilar da economia. Nele, o setor sucroalcooleiro destaca-se, posicionando o Brasil como líder global na produção de cana-de-açúcar e exportador de açúcar e etanol (Medeiros, 2024). Essa posição se deve a mais de sete milhões de hectares cultivados e à expertise em biocombustíveis (D’Alessandro e Cavichioli, 2024). A safra 24/25, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento [CONAB] (2025), projeta 677 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, um crescimento de 5,2% sobre a safra anterior, evidenciando a robustez do setor, especialmente na região Sudeste.

A rentabilidade das usinas depende das flutuações nos preços do açúcar e do etanol. Como commodities, seus preços são influenciados por cotações internacionais, pelo preço do petróleo e da gasolina, e pela taxa de câmbio. Essa volatilidade exige uma gestão flexível do mix de produção para priorizar o produto mais rentável (Melo e Sampaio, 2014). Estudos mostram que produtores reagem com maior sensibilidade às variações no preço do açúcar, preferindo sua produção em períodos de alta no mercado internacional (Melo e Sampaio, 2016). No mercado interno, a demanda por etanol é influenciada pela paridade de preços com a gasolina, devido aos veículos flex, o que complexifica o planejamento financeiro das usinas.

Os ciclos econômicos brasileiros também influenciam os preços das commodities. Análises identificaram múltiplos ciclos de alta e baixa, mostrando que a recuperação dos preços nem sempre se traduz em retomada econômica robusta devido a outros fatores (Cunha et al., 2021). Nesse cenário, as decisões de financiamento são críticas. Empresas com maior alavancagem financeira tendem a investir menos, indicando que o endividamento pode restringir a expansão (Albuquerque e Matias, 2013). A fragilidade financeira de muitas usinas, com elevadas taxas de insolvência, é atribuída à ausência de políticas de gestão de risco eficazes, tornando-as vulneráveis a crises (Cunha, 2023; Santos e Sampaio, 2023).

Diante dessa complexidade, métricas de desempenho financeiro são indispensáveis. O grau de alavancagem financeira (GAF) é uma ferramenta essencial para avaliar o uso de capital de terceiros para ampliar a rentabilidade do capital próprio (Queiroz, 2009). O GAF mede o impacto das variações no resultado operacional sobre o lucro líquido, servindo como um termômetro do risco financeiro. A análise de seu comportamento em relação a indicadores de rentabilidade mostrou uma relação linear em outros setores (Nogueira, 2023), mas sua interação com a volatilidade de preços no setor sucroalcooleiro carece de investigações. Este estudo propõe-se a preencher essa lacuna, com uma análise quantitativa que pode subsidiar estratégias financeiras mais resilientes (Silva e Silva, 2024).

O estudo é uma pesquisa aplicada, com objetivos descritivos e explicativos. A natureza descritiva está na caracterização da evolução das variáveis financeiras e dos preços das commodities, enquanto o caráter explicativo reside na investigação da correlação entre essas flutuações. A abordagem foi quantitativa, baseada em dados numéricos públicos, como demonstrações financeiras e séries históricas de preços, permitindo um tratamento estatístico rigoroso. A pesquisa documental foi a técnica de coleta de dados, utilizando fontes primárias e confiáveis (Yonaha, 2024).

O delineamento combinou um levantamento de dados públicos com um estudo de caso de uma usina sucroalcooleira de grande porte e capital aberto, com ações na B3 e registros na CVM. Localizada em São Paulo, a empresa tem capacidade de moagem de 24 milhões de toneladas de cana por ano-safra e faturamento bruto de R$ 7 bilhões na safra 2023/2024. A escolha se justifica pela sua representatividade e pela disponibilidade de informações financeiras auditadas, permitindo uma análise longitudinal consistente.

O período de análise abrangeu dez anos-safra, de 2015 a 2024. Este intervalo foi escolhido por englobar a crise econômica de 2014 (Barbosa, 2017), o impeachment de 2016, a pandemia de COVID-19 e a recuperação subsequente. Esses eventos macroeconômicos influenciaram juros, câmbio e a demanda por commodities, tornando o período rico para a análise. Os dados de preços das commodities (açúcar, etanol anidro e hidratado) foram obtidos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA, 2025).

As métricas foram calculadas seguindo procedimentos padronizados. O grau de alavancagem financeira (GAF) foi apurado pela fórmula que relaciona a variação percentual do Lucro por Ação (Δ%LPA) com a variação percentual do Lucro Antes dos Juros e Impostos (Δ%LAJIR) (Araújo, 2014; Silva et al., 2022). As variações percentuais foram calculadas ano a ano (Almeida et al., 2012). As variações nos preços das commodities também foram calculadas percentualmente. Por fim, aplicou-se a análise de correlação de Pearson para medir a força e a direção da relação linear entre as variáveis, com o coeficiente variando de -1 a +1 (Figueiredo et al., 2014).

A análise dos dados financeiros revelou flutuações significativas no Lucro por Ação (LPA) e no Lucro Antes dos Juros e Impostos (LAJIR). A variação do LPA teve média de 32,40% e desvio-padrão de 57,39%, oscilando de -75,97% (safra 15/16) a 111,27% (safra 14/15). O LAJIR teve volatilidade menor, com média de 29,61% e desvio-padrão de 29,13%. A transição da safra 13/14 para 14/15 foi marcada pela aquisição de uma usina, impulsionando os resultados. Já a safra 15/16 foi impactada por aumento de despesas financeiras, perdas cambiais e com derivativos, que pressionaram o LPA.

O GAF refletiu essas dinâmicas. O indicador atingiu o ponto mais crítico na safra 15/16, com -6,8067, indicando que as despesas financeiras consumiram o lucro operacional. Em contraste, o GAF atingiu o pico de 8,8121 na safra 18/19, um aumento de 165,73% impulsionado por mais empréstimos e perdas com câmbio e derivativos, evidenciando maior dependência de capital de terceiros e maior risco. A safra 19/20 mostrou uma gestão mais eficiente, com o GAF reduzindo para 1,3129, refletindo benefícios de uma aquisição, manutenção de custos e receitas extraordinárias.

Paralelamente, os preços das commodities exibiram a volatilidade esperada. O preço do açúcar variou de uma queda de -27,92% na safra 17/18 para um aumento de 46,63% na safra 21/22. Os preços do etanol seguiram tendências similares, com aumentos superiores a 65% na safra 21/22. As altas nas safras 14/15 e 15/16 foram impulsionadas por políticas como a Portaria 75/2015 (MAPA, 2015), que aumentou a mistura de etanol na gasolina, e pela redução nos estoques globais de açúcar e valorização do dólar (CEPEA, 2016). A queda no preço do açúcar na safra 17/18 resultou da elevada oferta global, enquanto os preços do etanol se mantiveram estáveis pela paridade com a gasolina (CONAB, 2017).

O período recente (safras 22/23 e 23/24) foi marcado pela preferência pelo mix mais açucareiro, estimulado pelos altos preços externos. Simultaneamente, os preços do etanol caíram no mercado interno, influenciados pela política de preços da Petrobras e por medidas fiscais como a Lei Complementar 194 (Brasil, 2022) e Medidas Provisórias (Brasil, 2022; Brasil, 2023) que alteraram a tributação sobre combustíveis. Essas intervenções impactaram a rentabilidade do etanol. A maior alta do período, na safra 21/22, foi atribuída à recuperação da demanda pós-pandemia e a uma quebra de produção por condições climáticas (CEPEA, 2021; Baldan, 2022).

A análise de correlação revelou uma relação inversamente proporcional. O coeficiente de Pearson entre a variação do GAF e a variação no preço do açúcar foi de -0,42. Para o etanol, os valores foram de -0,26 (anidro e hidratado). Os resultados indicam uma correlação negativa moderada para o açúcar e fraca para o etanol. Isso significa que, em períodos de aumento nos preços das commodities, a empresa tende a reduzir seu GAF. Inversamente, quando os preços caem, o GAF tende a aumentar, sugerindo que a companhia recorre mais ao endividamento para sustentar seus resultados em cenários de preços desfavoráveis.

A interpretação aponta para uma estratégia financeira reativa. Com o aumento dos preços, a geração de caixa operacional melhora, elevando a rentabilidade sobre os ativos (ROA) e diminuindo a necessidade de capital de terceiros. A redução do endividamento torna-se uma decisão para diminuir encargos financeiros e risco. Conforme Nogueira (2023), a alavancagem só é benéfica quando o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) supera o ROA. A maior correlação com o preço do açúcar (-0,42) corrobora que os produtores são mais sensíveis a este mercado, que é de exportação e dolarizado (Melo e Sampaio, 2016).

Os resultados confirmam estudos anteriores sobre a fragilidade do setor. Santos e Sampaio (2023) demonstraram que flutuações nos preços do açúcar e do petróleo foram determinantes para crises em usinas entre 2000 e 2019. Este estudo avança ao mostrar como essas flutuações de receita se traduzem em mudanças na alavancagem financeira. A interdependência entre os preços do açúcar e do etanol, que se movem em conjunto, cria um efeito amplificado sobre os resultados operacionais, impactando o LAJIR e, consequentemente, o GAF (Flores, 2025).

A volatilidade dos preços das commodities, portanto, molda a estrutura de capital da empresa a médio e longo prazo. A gestão do GAF é central na estratégia de crescimento. Em períodos de baixa de preços, a capacidade de se alavancar pode ser crucial, mas arriscada. Em períodos de alta, a disciplina para reduzir o endividamento prepara a empresa para o próximo ciclo de baixa. A correlação identificada não implica causalidade direta; a variação de preço não “causa” a variação do GAF, mas ambas respondem a um conjunto inter-relacionado de fatores de mercado e decisões gerenciais.

O trabalho demonstrou a existência de uma correlação entre a variação do grau de alavancagem financeira e as variações nos preços de venda das commodities para a usina analisada entre 2015 e 2024. A análise revelou uma correlação negativa para o açúcar e o etanol, indicando que a empresa tende a reduzir seu endividamento em períodos de alta de preços e a aumentá-lo em períodos de baixa. Esta descoberta oferece contribuições práticas: para gestores, evidencia a importância de monitorar os ciclos de preços para ajustar a estrutura de capital; para investidores, a relação serve como indicador adicional para avaliar o risco financeiro de empresas do setor.

Como limitação, o estudo se concentrou em uma única empresa, o que restringe a generalização dos resultados. A análise focou na correlação, não explorando a causalidade. Sugere-se para pesquisas futuras a ampliação da amostra para incluir outras empresas e a utilização de modelos econométricos, como a análise de causalidade de Granger, para investigar se as variações de preços precedem e influenciam as decisões de alavancagem. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se a existência de uma correlação negativa entre a variação do grau de alavancagem financeira e as variações nos preços das commodities sucroalcooleiras, com maior intensidade para o açúcar.

Referências:
Albuquerque, A. A.; Matias, A. B. 2013. Identificando a relação entre alavancagem financeira e investimento nas empresas brasileiras não financeiras de capital aberto. Revista Contemporânea de Economia e Gestão. Vol. 11, Nº 2: jul/dez.
Almeida, J. E. F.; Sarlo Neto, A. Bastianello, R. F.; Moneque, E. Z. 2012. Alguns aspectos das práticas de suavização de resultados no conservadorismo das companhias abertas listadas na BM&FBOVESPA. Revista de Economia Contemporânea, 4ª versão.
Araújo, W. F. 2014. Grau de alavancagem operacional e financeira no processo decisório: uma abordagem teórica quanto aos seus benefícios. Faculdade de Ciências Contábeis da UniRV. Rio Verde – Goiás.
Baldan. 2022. Setor de açúcar e etanol: como foi a safra 2021/22 e o que esperar no próximo ano? Disponível em: www. baldan. com. br/setor-de-acucar-e-etanol-como-foi-a-safra-202122-e-o-que-esperar-no-proximo-ano. Acesso em: 03 de jun. 2025.
Barbosa, F. H. F. 2017. A crise econômica de 2014/2017. SciELO – Scientific Electronic Library Online.
Brasil. 2022. Lei Complementar nº 194, de 23 de junho de 2022. Disponível em: https://www. planalto. gov. br/ccivil03/leis/lcp/lcp194. htm. Acesso em 09 de dez. 2025.
Brasil. 2022. Medida Provisória nº 1.157, de 27 de dezembro de 2022. Prorroga a vigência até 28 de fevereiro de 2023. Disponível em: https://www. planalto. gov. br/ccivil
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Brasil. 2023. Medida Provisória nº 1.163, de 1º de março de 2023. Disponível em: https://www. planalto. gov. br/ccivil
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Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada [CEPEA]. 2016. Índices de exportação do Agronegócio. Disponível em: www. cepea. org. br/upload/kceditor/files/2016. pdf. Acesso em: 03 de jun. 2025.
Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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