13 de abril de 2026
Fatores determinantes do desempenho financeiro no varejo da B3
Nguyen Thi Hoang Yen; Leila Chaves Cunha
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A análise financeira constitui um pilar fundamental para a mensuração da saúde econômica e do desempenho das organizações, servindo como base para a formulação de decisões estratégicas em ambientes de alta incerteza (Gitman, 2010). No cenário corporativo contemporâneo, a utilização de métodos quantitativos permite que gestores e investidores identifiquem tendências subjacentes, avaliem riscos inerentes às operações e planejem trajetórias de crescimento que sejam financeiramente sustentáveis a longo prazo. Conforme preconiza Assaf Neto (2019), a análise financeira desempenha um papel diagnóstico crucial ao verificar a viabilidade operacional e a solidez de empresas, especialmente em mercados caracterizados por uma competitividade acirrada, como o brasileiro. Nesse contexto, as mudanças nas variáveis macroeconômicas exigem que as organizações apresentem respostas rápidas e fundamentadas em dados concretos, transformando a contabilidade em uma ferramenta estratégica de gestão.
Os indicadores econômico-financeiros funcionam como métricas derivadas das demonstrações contábeis, a exemplo dos balanços patrimoniais e das demonstrações de resultados do exercício, permitindo a quantificação de aspectos específicos do desempenho empresarial (Bomfim et al., 2013). Tais métricas são agrupadas em dimensões distintas, como rentabilidade, liquidez, endividamento e eficiência operacional, sendo amplamente utilizadas para o monitoramento contínuo e para a comparação de performance entre empresas do mesmo setor. A eficácia dessa análise é potencializada quando integrada a técnicas estatísticas avançadas, como a análise fatorial exploratória. Segundo Silva Pereira et al. (2019), essa técnica permite a identificação de padrões em grandes volumes de variáveis, reduzindo a complexidade dos dados a fatores latentes que são mais facilmente interpretáveis, oferecendo assim uma visão estruturada e integrada do desempenho organizacional.
O setor varejista brasileiro, classificado como consumo cíclico na B3, destaca-se por sua elevada sensibilidade às oscilações econômicas e pela dependência direta do poder de compra da população. Este segmento enfrenta desafios constantes relacionados à sazonalidade das vendas e à necessidade de adaptações operacionais rápidas, como a digitalização de processos e a gestão rigorosa do fluxo de caixa (Assaf Neto, 2019). A relevância de investigar a viabilidade operacional em mercados competitivos tornou-se ainda mais evidente no contexto pós-pandemia da COVID-19. Esse período foi marcado por impactos severos, incluindo o fechamento temporário de unidades físicas e a estagnação do consumo em diversos nichos, o que exigiu das empresas varejistas a implementação de estratégias financeiras e tecnológicas robustas para garantir a sobrevivência.
As empresas varejistas listadas na B3 operam em um ambiente dinâmico que demanda ajustes contínuos em suas estruturas de capital e modelos de negócio. Por essa razão, os indicadores financeiros tornam-se instrumentos essenciais para orientar as decisões de investidores, focando em variáveis que refletem a capacidade de adaptação às mudanças de mercado (Gitman, 2010). Diferentemente de outros setores da economia, o varejo exige métricas que capturem com precisão a eficiência na gestão de recursos de curto prazo e a velocidade de rotação dos ativos. A análise desses indicadores emerge como uma ferramenta estratégica capaz de identificar os fatores que exercem maior influência sobre o desempenho financeiro global das companhias.
Estudos anteriores, como o de Ferreira Netto et al. (2022), analisaram empresas não financeiras listadas na bolsa brasileira e observaram que indicadores de rentabilidade, como a margem líquida e o retorno sobre o patrimônio líquido, explicavam uma parcela significativa da variância no desempenho, enquanto os indicadores de liquidez apresentavam uma contribuição menor. No entanto, variáveis como a margem bruta e o giro de ativos foram descartadas em certas análises por apresentarem baixa correlação ou contribuição insuficiente para os modelos fatoriais propostos. No setor varejista, a sazonalidade e a dependência crítica do volume de vendas podem alterar significativamente essas relações, justificando a realização de uma investigação específica que considere as particularidades deste segmento entre os anos de 2021 e 2023.
A relevância desta investigação reside na necessidade de ferramentas analíticas que identifiquem os fatores-chave para a sustentabilidade financeira no varejo, contribuindo para a elaboração de estratégias baseadas em evidências empíricas. O objetivo central é identificar os fatores latentes que determinam a estrutura dos indicadores econômico-financeiros e explicam o desempenho das empresas varejistas listadas na B3 durante o triênio mencionado. Para tanto, adota-se uma abordagem que busca simplificar a estrutura dos dados sem perder a profundidade necessária para a compreensão dos fenômenos financeiros que regem o setor.
A metodologia empregada possui caráter documental, descritivo e quantitativo, com um enfoque aplicado às áreas de finanças e controladoria. O delineamento da pesquisa foi inspirado no modelo de Ferreira Netto et al. (2022), utilizando a análise fatorial exploratória para investigar a inter-relação entre os indicadores financeiros. Os dados foram extraídos de relatórios trimestrais públicos disponíveis no Portal de Dados da B3, abrangendo um período de 12 trimestres consecutivos, de 2021 a 2023. A amostra selecionada compreende dez empresas de grande porte do setor varejista, todas com receita líquida média anual superior a R$ 1 bilhão no período analisado. Estas organizações possuem operações tanto físicas quanto digitais e estão sediadas em diversas regiões do território nacional, totalizando 120 observações individuais. Este volume de dados é considerado adequado para a aplicação da análise fatorial, respeitando o critério de ao menos cinco observações para cada variável incluída no modelo (Silva Pereira et al., 2019).
As empresas foram organizadas em subsegmentos para representar a diversidade do varejo brasileiro, incluindo eletrodomésticos, supermercados, moda, farmácias, beleza e pet shop. Essa segmentação permite uma avaliação abrangente das possíveis diferenças de performance financeira entre os distintos ramos de atuação. Para a análise, foram selecionados 10 indicadores econômico-financeiros que cobrem as dimensões de lucratividade, liquidez, endividamento, estrutura de capital e eficiência operacional. Na categoria de lucratividade, utilizou-se a margem líquida, que representa o ganho líquido em relação às vendas; a margem EBIT, que mede a lucratividade operacional antes de encargos financeiros e tributários; e o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE), que indica o retorno gerado sobre o capital dos acionistas.
No grupo de indicadores de liquidez, foram calculadas a liquidez corrente, que mede a capacidade de solver obrigações de curto prazo com ativos circulantes, e a liquidez geral, que estende essa análise para o longo prazo. O endividamento foi mensurado pelo índice de endividamento total, que reflete a proporção dos ativos financiada por terceiros, e pelo grau de endividamento, que relaciona as dívidas totais ao patrimônio líquido. A estrutura de capital foi avaliada pela relação dívida/EBIT, indicando a sustentabilidade da dívida frente à geração de lucro operacional. Por fim, a eficiência operacional foi representada pelo índice estoque/ativo total, que aponta a alocação de recursos em inventário, e pelo giro de ativos, que mede a eficiência na utilização dos ativos para gerar receita.
O processamento estatístico foi realizado por meio de planilhas eletrônicas e do software R, aplicando a técnica de análise fatorial exploratória para reduzir as variáveis correlacionadas a um conjunto menor de fatores latentes. A análise fatorial baseia-se na matriz de correlações, agrupando variáveis com alta covariância. As cargas fatoriais obtidas após a rotação indicam a força da associação entre as variáveis originais e os fatores extraídos, onde valores mais elevados refletem maior relevância para o desempenho organizacional (Fávero et al., 2009). O modelo matemático considerou a padronização das variáveis para garantir que diferenças de escala não distorcessem os resultados.
O processo seguiu quatro etapas rigorosas: validação da matriz de correlações, extração de fatores, rotação e interpretação. Na validação, utilizou-se o teste de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO), exigindo valores superiores a 0,5, e o teste de esfericidade de Bartlett para rejeitar a hipótese de ausência de correlação entre as variáveis. As comunalidades foram verificadas para garantir que a variabilidade de cada indicador fosse bem representada pelos fatores. A extração foi realizada via análise de componentes principais, retendo fatores com autovalores superiores a um, conforme o critério de Guttman-Kaiser. Para facilitar a interpretação, aplicou-se a rotação Quartimax, que simplifica a associação entre indicadores e fatores, permitindo identificar as variáveis mais representativas de cada dimensão.
A análise fatorial foi inicialmente validada por uma matriz de correlação que não apresentou evidências de multicolinearidade excessiva, uma vez que nenhuma correlação ultrapassou o patamar de 0,9. Isso confirmou a viabilidade técnica do modelo, permitindo a manutenção inicial de todos os dez indicadores. O teste KMO inicial resultou em 0,608 e o teste de Bartlett apresentou significância estatística igual a zero, confirmando que os dados eram adequados para a fatoração. No entanto, ao examinar as comunalidades, observou-se que os indicadores dívida/EBIT, estoque/ativo total e giro de ativos apresentaram valores extremamente baixos, respectivamente 0,005, 0,049 e 0,075. Devido à baixa representatividade dessas variáveis no modelo, optou-se pela exclusão das mesmas, seguindo as recomendações de Bomfim et al. (2013).
Após a exclusão dessas três variáveis, a análise estatística foi processada novamente com os sete indicadores remanescentes. Essa nova rodada resultou em um valor de KMO de 0,577. Embora tenha ocorrido uma leve redução, o índice permaneceu dentro dos limites aceitáveis para a pesquisa acadêmica. O teste de esfericidade de Bartlett continuou a indicar significância máxima, validando a continuidade do estudo. Nesta etapa, todas as comunalidades apresentaram valores superiores a 0,5, com destaque para o índice de endividamento total (0,955) e a margem líquida (0,913), evidenciando que as variáveis selecionadas compartilhavam variância comum suficiente com os fatores extraídos.
A partir da análise de componentes principais e do critério de autovalores superiores a um, foram extraídos dois fatores principais que, juntos, explicam 82,72% da variância total dos dados. O primeiro fator responde por 45,038% da variância, enquanto o segundo fator explica 37,686%. A aplicação da rotação Quartimax permitiu uma redistribuição equilibrada da variância, facilitando a nomeação dos fatores com base nas cargas fatoriais das variáveis predominantes. O primeiro fator foi denominado Liquidez e Endividamento, sendo composto pelas variáveis índice de endividamento total, liquidez corrente, grau de endividamento e liquidez geral. O segundo fator foi nomeado Lucratividade, agrupando a margem líquida, a margem EBIT e o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE).
A análise detalhada das cargas fatoriais no primeiro fator revelou que o índice de endividamento total possui uma carga negativa elevada (-0,950), enquanto a liquidez corrente apresenta uma carga positiva robusta (0,909). Essa relação inversa indica que, no setor varejista, o aumento do endividamento está diretamente associado a uma redução na capacidade de pagamento imediata. Este achado é particularmente crítico dado que o varejo opera com margens estreitas e depende fortemente do fluxo de caixa para financiar suas operações diárias e enfrentar períodos de baixa demanda (Assaf Neto, 2015). A predominância deste fator na explicação da variância total reforça a importância da gestão de passivos e do controle da liquidez como elementos centrais para a sobrevivência financeira das empresas varejistas no Brasil.
No segundo fator, a lucratividade demonstrou ser uma dimensão altamente coesa. O ROE apresentou uma carga de 0,923, a margem EBIT de 0,917 e a margem líquida de 0,954. Esses resultados refletem a capacidade das empresas de converter vendas em lucro e gerar retorno sobre o capital investido, o que é essencial para atrair investimentos em um mercado de capitais competitivo (Gitman, 2010). A alta variância explicada por este fator confirma que, após garantida a estabilidade financeira e a liquidez, a eficiência na geração de lucros torna-se o principal diferencial competitivo das varejistas listadas.
Os resultados obtidos corroboram parcialmente os pressupostos teóricos, mas apresentam divergências interessantes em relação a estudos realizados em outros períodos ou setores. Enquanto Ferreira Netto et al. (2022) identificaram a rentabilidade como o fator preponderante para empresas não financeiras em geral, este estudo demonstrou que, para o varejo entre 2021 e 2023, a liquidez e o endividamento assumiram o papel de maior protagonismo. Essa inversão de prioridade pode ser explicada pelo contexto macroeconômico brasileiro do período, caracterizado pela elevação da taxa Selic, que encareceu o crédito, e por uma inflação persistente que corroeu o poder de compra dos consumidores. Tais fatores pressionaram o fluxo de caixa das empresas, tornando a gestão da liquidez uma questão de sobrevivência imediata, sobrepondo-se, em certos momentos, à busca por margens de lucro mais elevadas.
Por outro lado, a expectativa de que os indicadores de eficiência operacional, como o giro de estoques, tivessem uma contribuição significativa não foi confirmada estatisticamente. A exclusão dessas variáveis devido às baixas comunalidades sugere que a eficiência operacional não se configurou como uma dimensão independente ou dominante no desempenho financeiro das empresas analisadas durante o triênio. No cenário de restrições de crédito e volatilidade de demanda, as dinâmicas de solvência e estrutura de capital prevaleceram sobre os aspectos de otimização logística e operacional. Essa constatação indica que, embora a gestão de estoques seja vital no dia a dia do varejo, seu impacto nos indicadores financeiros agregados foi secundário frente ao peso do endividamento e da liquidez.
Para os gestores das empresas varejistas, os achados indicam a necessidade imperativa de priorizar a manutenção de níveis adequados de liquidez corrente e geral, especialmente para fazer frente às obrigações de curto prazo em períodos de sazonalidade desfavorável. Estratégias voltadas à redução do endividamento total e do grau de endividamento mostram-se fundamentais para fortalecer a resiliência financeira. Simultaneamente, a maximização da lucratividade por meio do controle rigoroso de custos operacionais e da otimização das margens líquida e EBIT continua sendo o motor para a criação de valor aos acionistas.
Do ponto de vista dos investidores, os indicadores de liquidez e endividamento agrupados no primeiro fator devem ser monitorados como sinais de alerta para a estabilidade financeira. A liquidez corrente, em particular, serve como um termômetro da saúde financeira imediata. Já os indicadores de lucratividade do segundo fator, como o ROE, funcionam como métricas de potencial de crescimento e atratividade de retorno. A análise conjunta desses dois fatores permite uma avaliação mais equilibrada do risco e do retorno, auxiliando na tomada de decisões de alocação de capital no mercado de ações brasileiro (Martins et al., 2020).
Apesar da robustez estatística do modelo, a investigação apresenta limitações que devem ser reconhecidas. A exclusão das variáveis operacionais, embora justificada tecnicamente, limita a compreensão da eficiência logística no desempenho global. Além disso, o foco em empresas com receita superior a R$ 1 bilhão pode não refletir a realidade de varejistas de pequeno e médio porte, que enfrentam desafios de acesso ao crédito ainda mais severos. A amostra restrita a dez empresas, embora suficiente para a técnica aplicada, sugere cautela na generalização dos resultados para todo o universo do varejo nacional.
Para pesquisas futuras, recomenda-se a expansão da amostra e a inclusão de variáveis macroeconômicas, como a variação do Produto Interno Bruto e as taxas de juros reais, para verificar como fatores externos interagem com os indicadores internos das companhias. A incorporação de métricas de margem bruta também poderia enriquecer a análise da eficiência operacional. O estudo reforça que o desempenho financeiro no varejo é um fenômeno multidimensional, onde a sobrevivência depende da capacidade de equilibrar a solvência de curto prazo com a rentabilidade de longo prazo em um ambiente econômico volátil.
Conclui-se que o objetivo foi atingido ao identificar que a estrutura dos indicadores econômico-financeiros das empresas varejistas listadas na B3 entre 2021 e 2023 é determinada por dois fatores latentes principais: Liquidez e Endividamento, que exerce a maior influência sobre a variância do desempenho, e Lucratividade, que sintetiza a capacidade de geração de valor. A predominância do fator relacionado à liquidez e ao endividamento evidencia que, no contexto macroeconômico analisado, a gestão do fluxo de caixa e o controle das dívidas foram mais determinantes para a performance das organizações do que a eficiência operacional isolada. O modelo estatístico demonstrou alta consistência, explicando mais de 80% da variabilidade dos dados, o que valida a utilização da análise fatorial como ferramenta de síntese e diagnóstico para o setor varejista brasileiro.
Referências Bibliográficas:
Assaf Neto, A. 2015. Estrutura e análise de balanços: um enfoque econômico-financeiro. 11. ed. São Paulo, SP, Brasil: Atlas.
Assaf Neto, A. 2019. Valuation: métricas de Valor e Avaliação de Empresas. 3. ed. São Paulo, SP, Brasil: Atlas.
Bomfim, P. R. C. M.; Macedo, M. A. S.; Marques, J. A. V. C. 2013. Indicadores financeiros e operacionais para a avaliação de desempenho de empresas do setor de petróleo e gás. Contabilidade, Gestão e Governança 16(1): 1-20.
Ferreira Netto, M. T.; Rossetti, N.; Meirelles, J. L. F. 2022. Análise de indicadores financeiros e operacionais utilizados na avaliação de desempenho de empresas não-financeiras listadas na B3. Revista de Gestão e Secretariado 13(3): 1993-2008.
Fávero, L. P.; Belfiore, P.; Silva, F. L.; Chan, B. L. 2009. Análise de dados: modelagem multivariada para tomada de decisões. Rio de Janeiro, RJ, Brasil: Elsevier.
Gitman, L. J. 2010. Princípios de administração financeira. 12. ed. São Paulo, SP, Brasil: Pearson Prentice Hall.
Martins, E.; Diniz, J. A.; Miranda, G. J. 2020. Análise Avançada das Demonstrações Contábeis: Uma Abordagem Crítica. 3ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Silva Pereira, A.; Paludo, B.; Vieira, M.; Cerbaro, R. H. 2019. Apostila Análise Fatorial. Passo Fundo, RS, Brasil: Universidade de Passo Fundo – UPF.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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