Resumo Executivo

03 de março de 2026

Correlação entre notas ESG e desempenho de ações no mercado brasileiro

Giovanna Barbosa da Silva; Éllen Rimkevicius Carbognin

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O objetivo desta pesquisa foi analisar se as notas de Environmental, Social and Governance (ESG) atribuídas por duas instituições a empresas de capital aberto na B3 estão estatisticamente correlacionadas com o valor de mercado de suas ações, avaliando o impacto imediato da divulgação. O estudo também buscou compreender se essas métricas são consideradas pelos investidores em decisões de curto prazo, para aferir a maturidade do mercado de capitais brasileiro em relação à sustentabilidade corporativa. A premissa é que, em um mercado maduro, informações ESG positivas deveriam gerar valorização acionária, enquanto as negativas resultariam em penalizações.

A relevância da análise se intensifica com a crescente proeminência do ESG no discurso corporativo, nas políticas governamentais e nas expectativas sociais. As empresas são vistas como agentes centrais na mitigação de impactos ambientais e na promoção do desenvolvimento sustentável (Passos e Campos-Rasera, 2024). Este movimento é global, com potências econômicas estabelecendo metas como a redução de emissões de dióxido de carbono, sinalizando uma transformação na economia mundial (Zhang-Hangjian et al., 2024). Apesar da disseminação do acrônimo, a definição de ESG carece de padronização, embora seus três pilares — ambiental, social e de governança — sejam reconhecidos como cruciais para o desenvolvimento de longo prazo das organizações.

A implementação de práticas ESG impacta a reputação e a percepção de valor das empresas (Guochao et al., 2023). Para fomentar a transparência, órgãos como o International Sustainability Standards Board (ISSB) desenvolveram normas como a IFRS S1 e a IFRS S2, visando padronizar a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. Contudo, a adoção dessas normas ainda é voluntária no Brasil, o que mantém uma assimetria informacional e dificulta a avaliação consistente do desempenho ESG (IFRS Foundation, 2023). Essa lacuna regulatória e a falta de consenso metodológico contribuem para a controvérsia acadêmica sobre a real influência do ESG no valor de mercado, um debate com evidências conflitantes (Aich et al., 2021).

A literatura aponta que a evidência empírica sobre o impacto econômico do ESG é de difícil interpretação e aplicação por gestores e investidores (Zhang-Hangjian et al., 2024). Essa dificuldade é acentuada em mercados emergentes como o brasileiro; a pesquisa sobre o tema é incipiente e as dinâmicas de mercado diferem das observadas em economias desenvolvidas (Guochao et al., 2023). A carência de estudos focados na reação do mercado brasileiro à divulgação de notas ESG justifica esta investigação, que propõe uma análise quantitativa sobre a capacidade dessas métricas de influenciar os preços das ações no curto prazo.

A questão central do trabalho é: o mercado de capitais brasileiro reage de forma imediata e mensurável à divulgação de informações sobre o desempenho ESG? Ao investigar essa questão, o estudo testa a hipótese da eficiência de mercado e oferece insights para empresas, investidores e reguladores sobre a integração dos fatores ESG na cultura de investimento do país. A análise foca no impacto de curtíssimo prazo, pressupondo que uma reação imediata seria o indicador mais claro da relevância atribuída pelos agentes a essas informações, isolando-as de outros eventos corporativos.

A metodologia é uma pesquisa descritiva com abordagem quantitativa, baseada em dados secundários. As fontes para as métricas ESG foram dois rankings: um do Monitor Empresarial de Reputação Corporativa (Merco) e outro de uma parceria entre a revista Integridade e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), utilizando as publicações de 2024 e 2025. As notas do Merco foram divulgadas em 26 de junho de 2024 e 24 de fevereiro de 2025 (Merco, 2024; Merco, 2025), e as do ranking FGV em 18 de outubro de 2024 e 20 de agosto de 2025 (FGV, 2024; Integridade ESG, 2025).

A coleta de dados financeiros foi automatizada com scripts em Python (versão 3.12), usando o pacote yfinance para extrair os preços de fechamento das ações na B3. Para cada data de divulgação, foi definida uma janela de evento de três dias úteis: o dia anterior (D-1), o dia da publicação (D) e o dia seguinte (D+1). Essa janela curta foi escolhida para isolar o impacto imediato da divulgação das notas ESG. A variável dependente foi a variação percentual do preço da ação na janela. A amostra foi composta por empresas presentes nos rankings com ações negociadas na B3 e dados disponíveis para as datas analisadas.

A análise dos dados incluiu estatística descritiva para caracterizar as amostras. Para investigar a relação entre as variáveis, foram aplicados modelos de regressão linear simples; a variação do preço das ações foi a variável dependente (Y) e a pontuação ESG ou a variação na posição do ranking foi a variável explicativa (X). A força da relação foi avaliada pelo coeficiente de determinação (R²) e a significância estatística pelo p-valor. As análises foram implementadas em Python com os pacotes pandas, numpy, statsmodels e scipy.

Como os modelos de regressão linear pressupõem a normalidade dos resíduos, foi realizado o teste de Shapiro-Francia. A constatação de que os dados de variação de preços não seguiam uma distribuição normal na primeira fase levou à adoção de uma abordagem não paramétrica. As empresas foram segmentadas em três grupos (alto, médio e baixo desempenho ESG) e aplicou-se o teste de Kruskal-Wallis para verificar se existiam diferenças significativas nas medianas da variação dos preços entre os grupos. Na segunda fase, que analisou a variação da posição no ranking entre 2024 e 2025, os dados se mostraram normais, permitindo o uso exclusivo dos modelos de regressão linear.

A análise inicial, focada na correlação entre pontuação ESG e variação de preços, revelou ausência de relação linear significativa. As matrizes de correlação de Pearson para os quatro conjuntos de dados (FGV 2024, Merco 2024, FGV 2025 e Merco 2025) apresentaram coeficientes próximos de zero. Este resultado preliminar indicou que a pontuação ESG, por si só, não possuía associação linear com os movimentos de curto prazo nos preços das ações. A divulgação dos rankings não pareceu desencadear uma reação uniforme e previsível dos investidores.

Para aprofundar, foram construídos modelos de regressão linear simples. Os resultados corroboraram a análise de correlação. Para os dados da FGV de 2024, o modelo que relacionou a pontuação ESG com a variação das ações resultou em um R² de 0,007 e um p-valor de 0,536. Para os dados da Merco de 2024, o R² foi 0,000 e o p-valor de 0,968. Os resultados para 2025 seguiram o mesmo padrão: o modelo da FGV apresentou R² de 0,002 (p-valor = 0,752) e o da Merco, R² de 0,003 (p-valor = 0,753). Em todos os casos, os valores de R² extremamente baixos indicam que a pontuação ESG não explica a variação nos preços das ações, e os p-valores, muito acima do nível de significância de 5%, demonstram que a relação não é estatisticamente significativa.

Dada a não normalidade dos dados na primeira fase, o teste de Kruskal-Wallis serviu como validação. Ao comparar as medianas da variação dos preços das ações entre os grupos de alto, médio e baixo desempenho ESG, o teste também não encontrou diferenças estatisticamente significativas. Os p-valores obtidos foram consistentemente altos, reforçando a conclusão de que o mercado não diferenciou as empresas com base em seus níveis de performance ESG na precificação imediata. O achado sugere que, na janela analisada, os investidores não recompensaram as líderes em ESG nem penalizaram aquelas com pontuações mais baixas.

A segunda etapa investigou se uma mudança na posição de uma empresa no ranking entre anos teria um impacto mais perceptível. A hipótese era que uma melhora ou piora significativa poderia ser um sinal mais forte para o mercado. Contudo, os modelos de regressão que utilizaram a variação da posição no ranking (2024 para 2025) como variável explicativa também não mostraram relação significativa. Para os dados da FGV, o modelo que analisou a variação no dia da divulgação apresentou um R² de 0,005 (p-valor = 0,637), enquanto para o dia seguinte o R² foi de 0,003 (p-valor = 0,703).

Os resultados para o ranking da Merco foram ligeiramente maiores, mas ainda não significativos. O modelo para o dia da divulgação obteve um R² de 0,056 (p-valor = 0,171), e para o dia seguinte, um R² de 0,066 (p-valor = 0,135). Embora o R² tenha sido mais elevado, os p-valores permaneceram bem acima do limiar de 0,05, indicando que não se pode rejeitar a hipótese nula de ausência de efeito. Portanto, mesmo uma mudança relativa no status ESG de uma empresa não provocou uma reação de preço estatisticamente discernível no mercado de ações brasileiro.

A discussão dos resultados aponta para uma desconexão entre o discurso sobre a importância do ESG e a prática de valoração de ativos no mercado brasileiro em reações de curto prazo. A ausência de correlação sugere que os investidores não utilizaram a divulgação desses rankings como gatilho para decisões de compra ou venda. Diversas hipóteses podem explicar o fenômeno. Primeiro, o mercado pode considerar que as informações já estão precificadas, tornando a divulgação do ranking um não-evento.

Alternativamente, pode haver ceticismo dos investidores quanto à metodologia ou relevância das notas ESG. A falta de padronização pode levar o mercado a tratar essas informações com cautela, aguardando impactos mais tangíveis no desempenho financeiro de longo prazo. Esta interpretação alinha-se com a literatura que aponta dificuldades em traduzir dados ESG em estratégias de investimento (Zhang-Hangjian et al., 2024). A evidência deste estudo corrobora a visão de que o mercado brasileiro pode estar em um estágio inicial de maturação na integração de fatores não financeiros na análise de investimentos.

É crucial reconhecer que o impacto do ESG pode se manifestar em horizontes de tempo mais longos ou por outros canais, como custo de capital ou lealdade do consumidor. A pesquisa, com foco no curto prazo, não captura essas dinâmicas mais lentas. No entanto, a ausência de uma reação imediata é um achado relevante, pois indica que a divulgação de notas ESG, nos moldes analisados, não funciona como um catalisador de mercado no Brasil, contrastando com o que seria esperado dada a proeminência do tema.

Em suma, a análise quantitativa demonstrou a ausência de uma relação estatisticamente significativa entre as notas ESG, e suas variações anuais nos rankings, e o comportamento imediato dos preços das ações na bolsa brasileira. Os modelos de regressão e os testes não paramétricos falharam em identificar qualquer padrão de bonificação ou penalização do mercado em resposta direta à divulgação dessas informações em 2024 e 2025. Este resultado sugere que, para o período e fontes analisadas, o mercado de capitais brasileiro apresenta baixa sensibilidade à incorporação de métricas ESG em decisões de investimento de curto prazo. Os investidores parecem não atribuir valor financeiro imediato a essas classificações, indicando que o discurso sobre sustentabilidade ainda não se traduziu em um fator de precificação claro no país.

A aparente indiferença do mercado pode refletir ceticismo quanto à materialidade financeira dessas notas ou a percepção de que tais informações já estão diluídas em outros dados. O que se propõe sobre ESG, embora relevante no campo estratégico, parece necessitar de maior clareza e padronização para que suas implicações se reflitam no retorno financeiro. Para trabalhos futuros, recomenda-se a análise de horizontes de tempo mais longos, a investigação de outros mercados ou o foco em nichos específicos onde o impacto do ESG possa ser mais pronunciado. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que as notas de ESG e suas variações anuais nos rankings analisados não apresentam correlação estatisticamente significativa com a variação imediata dos preços das ações de empresas na bolsa brasileira nos períodos de 2024 e 2025.

Referências:
Aich, S., Thakur, A., Nanda, D., Tripathy, S., & Kim, H.-C., 2021. Factors Affecting ESG towards Impact on Investment: A Structural Approach. Sustainability, 13(19), 10868.
Fundação Getulio Vargas (FGV). 2024. ESG: Anuário revela as 100 empresas que lideram a sustentabilidade no Brasil. Disponível em: < https://portal. fgv. br/noticias/esg-anuario-revela-100-empresas-lideram-sustentabilidade-brasil>. Acesso em: 17 de março de 2025
Guochao W., Ahmad Y. D., Somsak C., Siva S. R., 2023. Hotspots and trends of environmental, social and governance (ESG) research: a bibliometric analysis. Data Science and Management, Volume 6, Issue 2, Pages 65-75.
IFRS Foundation. (2023). IFRS S1: General requirements for disclosure of sustainability-related financial information. London: IFRS Foundation. < https://www. ifrs. org/issued-standards/ifrs-sustainability-standards-navigator/ifrs-s1-general-requirements. html/content/dam/ifrs/publications/html-standards-issb/english/2025/issued/issbs1/ >. Acesso em: 25 de dezembro de 2025
IFRS Foundation. (2023). IFRS S2: Climate-related disclosures. London: IFRS Foundation. <https://www. ifrs. org/issued-standards/ifrs-sustainability-standards-navigator/ifrs-s2-climate-related-disclosures. html/content/dam/ifrs/publications/html-standards-issb/english/2025/issued/issbs2/>. Acesso em: 25 de dezembro de 2025
Integridade ESG. 2025. Anuário Integridade ESG 2025. Disponível em: https://integridadeesg. insightnet. com. br/anuario-integridade-esg-2025/. Acesso em 21 de agosto de 2025
Monitor empresarial de reputação corporativa (Merco). 2024. Ranking Merco Corporate Responsibility ESG Brasil. Disponível em: <https://www. merco. info/br/ranking-merco-responsabilidad-gobierno-corporativo>. Acesso em: 05 de setembro de 2025
Monitor empresarial de reputação corporativa (Merco). 2025. Ranking Merco Corporate Responsibility ESG Brasil. Disponível em: <https://www. merco. info/br/ranking-merco-responsabilidad-gobierno-corporativo>. Acesso em: 17 de março de 2025
Passos, G. de A.; Campos-Rasera, P. 2024. Do ESG Controversies Influence Firm Value? An Analysis with Longitudinal Data in Different Countries. BBR. Brazilian Business Review, v. 21, n. 4, p. e20221326.
Zhang-Hangjian C., JingWen K., Kees G. K., Xiang G., ZhenHua G. 2024. Short-term market reactions to ESG ratings disclosures: An event study in the Chinese stock market, Journal of Behavioral and Experimental Finance, Volume 43, 100975.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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