
03 de março de 2026
Análise fundamentalista e governança corporativa no setor de mineração brasileiro
Giovani Lopes dos Santos; Ricardo de Souza
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo realiza uma análise fundamentalista do setor de mineração, com foco em governança corporativa (GC), avaliando o desempenho financeiro da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), CSN Mineração (CSN) e Vale S. A (VALE) de 2020 a 2024. A investigação busca responder à pergunta: “Qual é o desempenho financeiro das empresas do setor de mineração com nível maior de GC?”. A relevância do tema se ancora na expansão do mercado de capitais brasileiro, que saltou de 2,7 milhões de investidores pessoa física em 2020 para 5,3 milhões em 2024, com um saldo de R$528,2 bilhões (B3, 2025). Esse crescimento impulsiona a demanda por transparência e segurança nos investimentos.
Nesse contexto, as práticas de governança corporativa são pilares para a sustentabilidade das companhias. Conforme Assaf Neto (2012), elas visam conciliar interesses entre administradores e acionistas, protegendo-os e promovendo o crescimento sustentável. A Teoria da Agência, de Jensen e Meckling (1976), já expunha os conflitos de interesse inerentes à separação entre propriedade e gestão; gestores (agentes) podem tomar decisões em detrimento dos acionistas (principais). O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC, 2023) reforça que a promoção de um clima de confiança é crucial para a reputação e o valor da empresa no longo prazo.
A B3 estruturou segmentos de listagem (Nível 1, Nível 2 e Novo Mercado) com base na adesão a práticas de governança, sendo o Novo Mercado o mais rigoroso (B3, 2025). Essa segmentação sinaliza o compromisso da empresa com transparência, equidade e prestação de contas, influenciando a decisão do investidor, que avalia tanto os indicadores financeiros quanto a robustez da governança para mitigar riscos e alinhar objetivos.
O setor de mineração foi selecionado por sua relevância estratégica para a economia brasileira. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC, 2025), o setor foi responsável por um saldo de US$34,95 bilhões na balança comercial de 2024, correspondendo a 47% do saldo total de US$74,55 bilhões. Sua contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB) e a geração de divisas o posiciona como pilar da economia (IBGE, 2025), tornando a análise de suas empresas relevante para investidores e analistas.
A análise comparativa de CBA (Novo Mercado), CSN Mineração (Nível 2) e Vale (Novo Mercado) investiga como diferentes níveis de governança e estratégias financeiras se manifestam em um setor cíclico, dependente de commodities e com altos impactos socioambientais. A comparação busca entender se um nível de governança formalmente superior, como o Novo Mercado, se traduz em desempenho financeiro mais robusto e estável, ou se outros fatores operacionais e estratégicos se sobrepõem a essa classificação.
A metodologia adotada foi mista, combinando os métodos quantitativo e qualitativo (Zanella, 2011). A abordagem quantitativa foi aplicada na análise fundamentalista dos indicadores financeiros, focando em objetividade e confiabilidade. A qualitativa, de natureza exploratória, foi usada para interpretar as práticas de governança e seus impactos. A pesquisa é um estudo de caso múltiplo com CBA, CSN e VALE, permitindo a comparação e identificação de padrões no setor.
Os dados foram coletados de fontes como as demonstrações financeiras na B3 (2020-2024), dados macroeconômicos do Banco Central do Brasil (BCB) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e dados setoriais do MDIC, com análise realizada no Microsoft Excel. As empresas foram selecionadas por serem de capital aberto no setor de mineração, listadas nos segmentos de maior governança da B3 (Nível 2 e Novo Mercado), garantindo a comparabilidade da amostra.
A análise financeira baseou-se nos indicadores de Assaf Neto e Lima (2019), divididos em cinco categorias. Foram utilizados indicadores de rentabilidade (Retorno sobre o Ativo – ROA, Retorno sobre o Patrimônio Líquido – ROE, e Retorno sobre o Investimento – ROI) para avaliar a geração de lucros; de lucratividade (Margem Operacional e Margem Líquida) para medir a conversão de receitas em resultados; e de liquidez (Corrente, Seca e Imediata) para aferir a saúde financeira de curto prazo. A estrutura de capital foi examinada pelos indicadores de endividamento (Relação Capital de Terceiros/Ativo Total – CT/AT e Relação Capital de Terceiros/Capital Próprio – CT/CP). Por fim, o Múltiplo de EBITDA foi usado para avaliar a percepção de valor do mercado. Esse conjunto de indicadores forneceu uma visão abrangente do desempenho financeiro.
O período de 2020 a 2024 foi marcado por alta volatilidade. Em 2020, a pandemia de COVID-19 resultou em contração do PIB de -3,30% e Selic a 2,00% ao ano. Em 2021, houve recuperação com PIB de 5,00%, mas com pico inflacionário (IPCA de 10,06%), iniciando a alta da Selic. Os anos de 2022 e 2023 mantiveram crescimento moderado com Selic elevada. Em 2024, desafios fiscais e desvalorização cambial (dólar a R$6,18) pressionaram a inflação (BCB, 2025; IBGE, 2025), impactando o desempenho das empresas.
A análise da receita líquida mostrou que, após um forte crescimento geral em 2021 impulsionado por commodities, os caminhos divergiram. A partir de 2022, a VALE iniciou uma queda contínua na receita, reflexo da menor demanda chinesa e da queda no preço do minério de ferro. A CSN demonstrou alta volatilidade, com queda acentuada em 2022, recuperação em 2023 e nova queda em 2024. A CBA também apresentou instabilidade, influenciada pelo preço do alumínio, mas com leve recuperação em 2024. O EBITDA seguiu tendência similar, com queda em 2022 para todas. A CBA se destacou negativamente em 2023 com EBITDA negativo, mas apresentou recuperação de 512,3% em 2024. A CSN manteve seu EBITDA oscilante, enquanto a VALE registrou quedas sucessivas. O lucro líquido refletiu essas tendências: a CBA registrou prejuízo em 2023 e 2024, a CSN mostrou resiliência e a VALE entrou em ciclo de queda desde 2022.
A análise do fluxo de caixa ofereceu insights sobre a gestão financeira. No caixa operacional, a VALE liderou em volume, apesar da retração no lucro. A CSN demonstrou forte capacidade de recuperação após um 2022 negativo, enquanto a CBA enfrentou dificuldades de consistência. Nas atividades de investimento, todas apresentaram fluxos negativos, indicando investimentos contínuos em modernização, expansão e, no caso da VALE, pagamentos relacionados a desastres ambientais. O fluxo de financiamento revelou que a VALE realizou desembolsos com dividendos e recompra de ações, a CSN reduziu a captação de recursos de terceiros e a CBA buscou equilibrar novos financiamentos com redução da alavancagem.
Os indicadores de rentabilidade confirmaram as trajetórias divergentes. No ROA, a CSN se destacou com os maiores retornos na maior parte do período, enquanto a CBA apresentou os menores índices, inclusive negativos em 2023. A VALE, após um pico em 2021, entrou em declínio. O ROE mostrou cenário semelhante: CSN resiliente, VALE em queda e CBA com retornos voláteis e negativos em três dos cinco anos. O ROI reforçou a superioridade da CSN em gerar retorno sobre o capital total investido, contrastando com a dificuldade da CBA e a tendência descendente da VALE.
As margens de lucratividade evidenciaram a eficiência operacional. A CSN e a VALE apresentaram margens operacionais e líquidas robustas, embora com tendência de queda para a VALE. A CSN demonstrou controle de custos superior, mantendo margens elevadas. A CBA, por outro lado, operou com margens significativamente inferiores e instáveis, chegando a registrar margens negativas, o que aponta para desafios estruturais na conversão de receita em lucro.
A análise de liquidez revelou fragilidade para a VALE e força para a CSN. A CSN melhorou progressivamente seus indicadores (Corrente, Seca e Imediata), terminando o período com a posição mais sólida. Em contrapartida, a VALE apresentou deterioração contínua, operando com índices abaixo do recomendável em 2022 e 2024, sinalizando risco financeiro. A CBA manteve boa liquidez corrente, mas sua liquidez seca e imediata foram mais restritas, refletindo a alta representatividade dos estoques.
No endividamento, a VALE demonstrou a gestão mais conservadora, mantendo seus indicadores (CT/AT e CT/CP) estáveis e controlados. A CBA apresentou a maior dependência de capital de terceiros e alta alavancagem. A CSN iniciou com baixa alavancagem, mas aumentou progressivamente seu endividamento, superando as demais na Relação CT/CP em 2024. Os múltiplos de EBITDA mostraram a VALE com os maiores índices até 2023, apesar da queda. A CBA, após um múltiplo negativo em 2023, teve forte recuperação em 2024, superando as concorrentes, enquanto a CSN manteve múltiplos mais estáveis e inferiores.
A pesquisa contribui academicamente ao enriquecer o debate sobre análise fundamentalista e governança no setor de mineração. Profissionalmente, aprofunda competências em finanças corporativas. Socialmente, serve como material de referência para investidores e estudantes, promovendo a educação financeira e a tomada de decisão informada ao demonstrar a complexidade da avaliação de empresas em um setor estratégico.
Em suma, a análise dos indicadores financeiros revelou trajetórias de desempenho distintas. A CBA demonstrou elevada volatilidade e dificuldades em manter a rentabilidade. A CSN Mineração exibiu desempenho mais consistente em rentabilidade e liquidez, embora com maior alavancagem. A VALE, apesar de sua escala, apresentou tendência de declínio em rentabilidade e fragilidade na liquidez, mas com endividamento controlado. Não ocorreram alterações formais nos níveis de listagem durante o período. Notavelmente, a CSN, listada no Nível 2, obteve um desempenho financeiro comparável e, em diversas métricas, superior ao das empresas do Novo Mercado (CBA e VALE), sugerindo que o desempenho não depende exclusivamente do nível formal de governança. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que, no setor de mineração, uma empresa com um nível de governança formalmente inferior pode apresentar um desempenho financeiro superior, indicando que fatores operacionais, estratégicos e de gestão de mercado são determinantes para os resultados.
A principal limitação do estudo é o número reduzido de empresas do setor listadas na B3. Para trabalhos futuros, sugere-se a expansão da análise para incluir empresas de outros países, permitindo uma comparação internacional, e a investigação da correlação estatística entre indicadores específicos de governança e o desempenho financeiro no setor.
Referências:
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Assaf Neto, Alexandre. 2012. Finanças corporativas e valor. Ed. 6. São Paulo. Editoria: Atlas.
Assaf Neto, Alexandre; Guasti Lima, Fabiano. 2019. Curso de administração financeira. Ed. 4. São Paulo. Editoria: Atlas.
Banco Central do Brasil [BCB]. 2025. Taxas de Juros Básicas – Histórico. Disponível em: <https://www. bcb. gov. br/controleinflacao/historicotaxasjuros>. Acesso em: 21/05/2025.
Brasil, Bolsa E Balcão [B3]. 2025. Segmentos de listagem. Disponível em:<https://www. b3. com. br/ptbr/produtos-e-servicos/solucoes-para-emissores/segmentos-de-listagem/sobre-segmentos-de-listagem/>. Acesso em: 13/03/2025.
Brasil, Bolsa E Balcão [B3]. 2025. Uma análise da evolução dos investidores na B3. Disponível em:<https://www. b3. com. br/ptbr/market-data-e-indices/servicos-de-dados/market-data/consultas/mercado-a-vista/perfil-pessoas-fisicas/perfil-pessoa-fisica/>. Acesso em: 12/03/2025.
Companhia Brasileira De Alumínio [CBA]. 2025. Quem somos. Disponível em:<https://www. cba. com. br/quem-somos/>. Acesso em: 26/03/2025.
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Instituto Brasileiro De Geografia E Estatística [IBGE]. 2025. Produto interno bruto [PIB]. Disponível em:<https://www. ibge. gov. br/explica/pib. php>. Acesso em: 13/03/2025.
Jensen, Michael C.; Meckling, William H. Theory of the firm: Managerial behavior, agency costs and ownership structure. Journal of Financial Economics. 1976. Disponível em:<https://www. sciencedirect. com/science/article/pii/0304405X7690026X>. Acesso em: 19/03/2025.
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Resultados do Comercio Exterior Brasileiro [MDIC]. 2025. Disponível em:<https://balanca. economia. gov. br/balanca/publicacoesdadosconsolidados/pg. html>. Acesso em: 19/03/2025.
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Zanella, Liane Carly Hermes. 2011. Disponível em:<https://www. atfcursosjuridicos. com. br/repositorio/material/3-leitura-extra-02. pdf>. Acesso em: 26/03/2025.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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