Artigo

05 de agosto de 2026

Transição de sistema pecuário bovino extensivo para o sistema semi-intensivo: estudo de caso em uma propriedade rural no Tocantins

João Carlos Pereira Gomes; Pedro Henrique Rodrigues da Silva

DOI: 10.22167/2675-6528-202600949

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A pecuária extensiva tradicional no Brasil enfrenta pressões para adotar sistemas mais eficientes. Neste cenário, analisou-se a transição de um sistema pecuário bovino extensivo para um modelo semi-intensivo em uma propriedade rural no Tocantins, no período de 2022 a 2025, com foco nas transformações estruturais, produtivas, gerenciais e econômicas. O estudo foi realizado como um estudo de caso descritivo, de natureza aplicada, com abordagem quantitativa e qualitativa, em uma propriedade de gestão familiar localizada em Araguacema, Tocantins. Para isso, utilizaram-se registros administrativos, zootécnicos e financeiros da propriedade, abrangendo a evolução de pastagens, rebanho, indicadores reprodutivos, receitas, custos, investimentos e comercialização. Os resultados revelaram uma ampliação significativa das divisões de pastagem (de 29 para 42 unidades), recuperação e formação de áreas forrageiras, e a implementação de práticas gerenciais avançadas. Notou-se também a diversificação de receitas por meio do arrendamento agrícola. O período de maior investimento, concentrado em 2024 (R$ 882.024,34), coincidiu com uma redução temporária da rentabilidade, com a margem líquida da pecuária atingindo 0,2%, mas foi seguido por uma consistente recuperação econômica em 2025. A atividade pecuária demonstrou elevada sensibilidade às oscilações de mercado e à eficiência operacional. Concluiu-se que a transição para o sistema semi-intensivo mostrou-se tecnicamente viável e economicamente promissora para a propriedade, desde que conduzida com planejamento técnico rigoroso, disciplina financeira e monitoramento contínuo de indicadores produtivos e econômicos, fortalecendo a sustentabilidade da atividade.

Palavras-chave: Agronegócio; Gestão rural; Intensificação produtiva; Pastagens; Rentabilidade.

1. Introdução

O agronegócio brasileiro passou por transformações significativas nas últimas quatro décadas, impulsionadas pela expansão da fronteira agrícola, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Norte. Esse período foi marcado pela introdução de novas tecnologias, aprimoramento genético, avanço da mecanização e modernização da gestão rural, elevando a produtividade e competitividade dos produtos agropecuários (Carvalho e De Zen, 2017; Martha Júnior et al., 2012). Nesse cenário, a pecuária extensiva tradicional, caracterizada pelo uso de grandes áreas com baixa tecnologia e manejo menos intensivo, enfrenta pressões crescentes para adotar sistemas mais eficientes. Essa transição é crucial para otimizar a produção em menor área, com maior controle técnico e melhor desempenho econômico, garantindo a sustentabilidade e a participação do país em mercados internacionais. Adicionalmente, o setor confronta desafios complexos, como o crescimento populacional, as demandas sociais por práticas mais sustentáveis e a intensificação de eventos climáticos extremos, que exigem uma produção de alimentos mais resiliente e responsável (Barbosa et al., 2015).

A bovinocultura de corte pode ser categorizada em sistemas extensivo, semi-intensivo e intensivo, diferenciados pelo regime alimentar e grau de intensificação (Cezar et al., 2005). O sistema extensivo baseia-se predominantemente em pastagens, com mínima suplementação, controle limitado da lotação animal e alta dependência das condições naturais, o que frequentemente acarreta baixa produtividade e vulnerabilidade. O sistema semi-intensivo, por sua vez, representa uma modalidade intermediária e mais avançada, caracterizada pelo uso de pastagens cultivadas de melhor qualidade, suplementação mineral e proteico-energética estratégica, subdivisão de áreas para manejo rotacionado e planejamento nutricional rigoroso. Esse modelo visa otimizar o uso da terra e dos recursos, elevando a capacidade de suporte e a eficiência do rebanho. A transição para sistemas como o semi-intensivo é uma estratégia crucial para superar as limitações do modelo extensivo, promovendo maior rentabilidade e resiliência produtiva.

No cenário regional, o estado do Tocantins possui uma bovinocultura de corte de grande relevância econômica e territorial, figurando como o segundo maior produtor de bovinos na região Norte e na área de influência da MATOPIBA. Com um rebanho que ultrapassa onze milhões de cabeças (IBGE, 2023), a pecuária tocantinense tem passado por um processo de modernização, com a crescente adoção de tecnologias e expansão de sistemas produtivos mais tecnificados. Contudo, muitas propriedades ainda operam em sistemas extensivos, enfrentando desafios como baixa produtividade por área, degradação de pastagens, sazonalidade da oferta de forragem e maior exposição às oscilações de mercado (Borghi et al., 2015; Dias-Filho, 2017). O desempenho técnico e econômico das fazendas é influenciado por uma complexa interação de fatores, incluindo aspectos climáticos, nutricionais, genéticos, reprodutivos, sanitários, gerenciais, tecnológicos e comerciais, bem como a qualidade das pastagens e a taxa de lotação (Euclides Filho et al., 2002; Euclides Filho, 2007). A busca por um modelo de produção mais eficiente e sustentável torna-se, portanto, imperativa, demandando um planejamento integrado que inclua investimentos em infraestrutura, recuperação de pastagens, suplementação e gestão estratégica.

Diante da necessidade de aumentar a eficiência e a sustentabilidade na produção de carne bovina, e considerando as pressões ambientais e econômicas sobre os sistemas extensivos, torna-se essencial investigar a viabilidade e os impactos da transição para modelos de produção mais intensificados. A análise aprofundada de casos reais oferece *insights* valiosos sobre os desafios e oportunidades desse processo, permitindo identificar as melhores práticas e os fatores críticos para o sucesso. Nesse contexto, o presente trabalho tem como objetivo geral analisar a transição de um sistema pecuário bovino extensivo para um modelo semi-intensivo em uma propriedade rural no Tocantins, no período de 2022 a 2025, com foco nas transformações estruturais, produtivas, gerenciais e econômicas que permeiam essa evolução.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa aplicada, de natureza descritiva, com abordagem quantitativa e qualitativa, conduzida por meio de estudo de caso. A opção por esta metodologia fundamentou-se na possibilidade de analisar, em profundidade, as transformações estruturais, produtivas, gerenciais e econômicas ocorridas em uma propriedade rural. O foco recaiu sobre um processo de transição de manejo pecuário extensivo para práticas associadas a uma maior intensificação produtiva, permitindo uma compreensão holística do fenômeno em seu contexto real.

A unidade de análise consistiu em uma propriedade rural de gestão familiar, localizada no município de Araguacema, no estado do Tocantins. O período analisado para a coleta e tratamento dos dados compreendeu janeiro de 2022 a dezembro de 2025. Para alguns indicadores zootécnicos específicos, foram utilizados dados parciais referentes ao ano de 2026, exclusivamente com a finalidade de descrever tendências recentes na composição do rebanho, sem aprofundar em análises conclusivas sobre este período.

A propriedade em estudo possuía uma área útil principal de 2.500 hectares, equivalente a 31,25 módulos rurais, que foi subdividida em três segmentos distintos. Destes, 1.500 hectares foram alocados para a atividade pecuária, enquanto 500 hectares foram arrendados para o cultivo de soja. Os 500 hectares restantes encontravam-se em transição de uso, passando de pecuária para arrendamento agrícola. Adicionalmente, considerou-se uma área complementar de 720 hectares, situada a aproximadamente 18 km da propriedade principal, que também foi destinada ao arrendamento agrícola após uso pecuário.

As informações necessárias para a pesquisa foram obtidas a partir de diversas fontes primárias e secundárias da própria propriedade. Utilizaram-se registros administrativos internos, planilhas de controle zootécnico e financeiro, documentos contábeis e informações detalhadas de comercialização. Adicionalmente, foram consultados os inventários anuais encaminhados à Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Tocantins (ADAPEC). Complementarmente, foram consideradas anotações internas da administração da propriedade, que detalhavam a evolução das áreas de pastagem, a subdivisão de piquetes, a adubação de cobertura, a formação de novas pastagens, a aquisição de reprodutores, as melhorias operacionais e as mudanças de manejo implementadas.

As variáveis analisadas foram organizadas em cinco grupos principais para facilitar a compreensão e o tratamento dos dados. O primeiro grupo, denominado estrutura física e produtiva, incluiu o número de pastos, as subdivisões internas, as áreas de pastagem, as benfeitorias, a rede hídrica, as máquinas, os veículos e os implementos disponíveis na propriedade. O segundo grupo, focado na composição e dinâmica do rebanho, considerou as diferentes categorias animais registradas nos controles internos da fazenda, permitindo acompanhar a evolução do plantel ao longo do período de estudo.

O terceiro grupo de variáveis abrangeu os indicadores produtivos e reprodutivos, essenciais para avaliar a eficiência zootécnica do sistema. Incluíram-se o número de nascimentos, a relação entre nascimentos e o total de vacas, a relação entre nascimentos e vacas acima de 36 meses, a relação vaca/touro e a lotação animal expressa em cabeça por hectare. O quarto grupo, dedicado aos indicadores econômicos, contemplou as receitas, os custos, as despesas, os investimentos, os impostos e tributos, as parcelas de financiamentos pagas, as margens e os resultados anuais da propriedade, fornecendo uma visão abrangente do desempenho financeiro.

O quinto e último grupo de variáveis analisadas concentrou-se nos aspectos comerciais e gerenciais da propriedade. Este grupo incluiu a composição das receitas, o volume físico de animais comercializados, a receita por categoria vendida, a diversificação das fontes de renda e a adoção de práticas de gestão. Os dados econômicos foram organizados em séries anuais, abrangendo o período de 2022 a 2025, conforme os registros financeiros disponíveis. A receita bruta foi definida como a soma das receitas provenientes da comercialização de bovinos, do arrendamento para produção de soja e de outras receitas acessórias registradas em cada exercício fiscal.

Os desembolsos foram classificados, de acordo com os controles internos da propriedade, em custos e despesas fixas, custos e despesas operacionais e custos e despesas não operacionais, seguindo a estrutura utilizada nas tabelas de resultados econômicos. Os investimentos foram apresentados separadamente, pois corresponderam a aplicações de capital destinadas à ampliação ou melhoria da capacidade produtiva. Isso incluiu a formação e recuperação de pastagens, melhorias estruturais, aquisição de bens e outros dispêndios de natureza patrimonial. Os impostos e tributos incidentes, bem como as parcelas de financiamentos pagas, foram demonstrados em separado, servindo como indicadores do comprometimento do fluxo de caixa.

O desempenho econômico foi analisado em duas dimensões distintas para proporcionar uma visão completa da viabilidade da transição. A primeira dimensão foi o resultado consolidado da propriedade, que considerou todas as fontes de receita registradas, incluindo as receitas bovinas, o arrendamento agrícola e outras receitas acessórias. A segunda dimensão consistiu na análise específica da atividade pecuária, conduzida de forma segregada, buscando mensurar o desempenho econômico relacionado diretamente à comercialização de bovinos, sem incorporar a receita oriunda do arrendamento agrícola. Para ambas as abordagens, utilizaram-se indicadores como receita bruta, resultado operacional, resultado líquido, margem operacional e margem líquida.

Como indicadores complementares para a avaliação da atividade pecuária, foram calculados o custo por cabeça ao ano, a receita líquida por cabeça ao ano e o resultado líquido por cabeça ao ano. Adicionalmente, foram determinados a receita líquida por hectare de pastagem ao ano e o resultado líquido por hectare de pastagem ao ano. Os indicadores por cabeça foram estimados com base no total de animais contabilizados em maio de cada ano, conforme o critério adotado nos controles internos da propriedade. Os indicadores por hectare consideraram a área total destinada à atividade pecuária em cada exercício, permitindo uma análise comparativa da eficiência econômica do sistema ao longo do tempo.

A análise dos dados foi realizada de forma descritiva e comparativa entre os anos estudados, com o objetivo de identificar tendências e padrões associados às mudanças observadas no sistema produtivo. Isso incluiu a avaliação de alterações na infraestrutura, na composição do rebanho, nos indicadores reprodutivos, na estrutura de custos, na composição das receitas, na estratégia comercial e nos resultados econômicos. Os dados foram apresentados em formato de tabelas e figuras, e interpretados à luz da literatura especializada em pecuária baseada em pastagens, gestão econômica rural e processos de intensificação produtiva, buscando contextualizar os achados da propriedade.

Como limitação metodológica, destaca-se que o presente trabalho configurou-se como um estudo de caso único. Consequentemente, os resultados obtidos refletem as condições específicas da propriedade analisada, incluindo sua localização geográfica, estrutura fundiária, histórico de manejo, disponibilidade de registros, o contexto de mercado e as decisões gerenciais adotadas durante o período. Além disso, alguns dados referentes a 2026 foram parciais e utilizados apenas como indicativo complementar de tendência. Contudo, os resultados podem oferecer referências úteis para outras propriedades com características semelhantes que buscam elevar a eficiência produtiva e econômica em sistemas pecuários baseados em pastagens.

3. Resultados e Discussão

Durante o período analisado, a propriedade em estudo demonstrou uma série de transformações estruturais e operacionais que se alinham consistentemente com a transição de um sistema pecuário extensivo para um modelo semi-intensivo de produção bovina. Uma das mudanças mais notáveis foi a reorganização física da área produtiva, evidenciada pelo aumento significativo no número de divisões de pastagem. Em janeiro de 2023, a propriedade contava com 29 unidades de pasto, número que se expandiu para 42 unidades ao final de 2025, representando um incremento de 44,8% na quantidade de piquetes e pastos operacionais. Este movimento não é meramente uma alteração numérica, mas sim uma indicação clara da adoção progressiva de práticas de manejo rotacionado, que visam otimizar o uso da forragem, controlar a pressão de pastejo e promover uma distribuição mais equitativa dos animais na área.

A fragmentação racional das áreas de pastagem é uma estratégia fundamental em sistemas de intensificação, pois permite um período de descanso adequado para as plantas forrageiras, favorecendo sua recuperação e rebrota, o que, por sua vez, eleva a eficiência de colheita da forragem e minimiza o desperdício. Euclides et al. (2014) destacam que, em sistemas tropicais, a subdivisão de pastagens, quando acompanhada de correção da fertilidade do solo e manejo adequado da taxa de lotação, resulta em incrementos substanciais na produtividade por área. Portanto, a simples ampliação do número de piquetes, embora seja uma base estrutural crucial, não garante por si só um desempenho econômico superior; ela deve ser integrada a um conjunto de práticas agronômicas e zootécnicas para maximizar seus benefícios. A implicação prática dessa reorganização é a criação de um ambiente mais controlado para o pastejo, permitindo que a propriedade se aproxime de uma capacidade de suporte mais elevada e sustentável, reduzindo a degradação das pastagens e prolongando sua vida útil.

Paralelamente à reorganização espacial, a propriedade realizou investimentos substanciais no fortalecimento da base forrageira, um pilar essencial para a intensificação. Em 2023, foi implementada a adubação de cobertura em 485 hectares de pastagens já estabelecidas, que incluíam cultivares como Brachiarão, Mavuno, Zuri e Quênia. Essa ação demonstra uma estratégia deliberada de recuperação e incremento da produtividade das áreas existentes, visando otimizar a produção de biomassa e a qualidade nutricional da forragem. Em 2024, o processo de modernização avançou com a implantação de 160 hectares de novas pastagens com capim Zuri, uma cultivar reconhecida pelo seu potencial produtivo em regiões tropicais. No mesmo ano, 80 hectares foram preparados para futura produção de silagem, com a retirada de pedras, indicando um planejamento estratégico para a segurança alimentar do rebanho, especialmente em períodos de escassez de forragem. Em 2025, a continuidade do processo foi confirmada com uma nova adubação de cobertura, abrangendo tanto os 160 hectares recém-formados quanto outros 140 hectares cultivados com Zuri, Quênia e Brachiarão, reforçando o compromisso com a manutenção da fertilidade e produtividade das áreas.

Os investimentos concentrados em 2024, que totalizaram R$ 882.024,34, conforme ilustrado na Figura 1, marcam uma fase intensiva de capitalização produtiva. Este montante reflete uma clara diretriz para a modernização da base forrageira e da infraestrutura da propriedade. A literatura especializada, como a de Martha Júnior et al. (2007) e Dias-Filho (2017), enfatiza a recuperação e o manejo adequado de pastagens como estratégias centrais para aumentar a capacidade de suporte, garantir maior estabilidade na oferta de forragem e mitigar os impactos da sazonalidade climática. Tais elementos são cruciais para a intensificação sustentável da pecuária de corte em sistemas tropicais. A decisão de investir pesadamente em um único ano, como observado em 2024, pode gerar uma pressão financeira de curto prazo, mas é um passo necessário para construir uma base sólida para ganhos de produtividade e rentabilidade a longo prazo. Este padrão de investimento inicial seguido por recuperação é frequentemente observado em processos de modernização agrícola, onde a fase de capitalização precede a colheita dos benefícios.

Figura 1. Evolução anual das receitas, custos e investimentos da propriedade (2022-2025).

Fonte: Elaborado pelos autores com base nos registros financeiros da propriedade.

Além dos investimentos em infraestrutura física, a transição produtiva na propriedade também abrangeu o plano gerencial. A implantação de controles gerenciais, a mensuração da altura de entrada e saída do capim e a maior especialização da mão de obra são indicativos de uma abordagem mais técnica e profissionalizada. Este aspecto é frequentemente subestimado, mas é um fator determinante para que os investimentos em infraestrutura se traduzam efetivamente em ganhos de produtividade e eficiência. A intensificação não se limita à aplicação de insumos ou à construção de novas estruturas; ela exige uma mudança cultural e gerencial, com a adoção de práticas de gestão baseadas em dados e um monitoramento contínuo dos indicadores. Carvalho e De Zen (2017) ressaltam a importância da gestão na cadeia da pecuária de corte, destacando que a modernização exige não apenas tecnologia, mas também um gerenciamento eficaz para otimizar os resultados. A capacitação da equipe e a implementação de rotinas de controle são, portanto, componentes indispensáveis para o sucesso de um sistema semi-intensivo, garantindo que os recursos sejam utilizados de forma eficiente e que as decisões sejam tomadas com base em informações precisas.

A dinâmica do rebanho, a lotação animal e o desempenho reprodutivo revelaram um período de reorganização zootécnica estratégica. O número total de animais na propriedade apresentou uma variação significativa, diminuindo de 2.478 cabeças em 2023 para 2.017 em 2025, com uma recuperação parcial para 2.106 animais em 2026, conforme detalhado na Tabela 1. Esta redução inicial, seguida de uma estabilização, sugere um movimento deliberado de ajuste do tamanho do rebanho à capacidade de suporte das pastagens recém-recuperadas e formadas. Simultaneamente, o número de vacas acima de 36 meses, categoria crucial para a reprodução, também foi reduzido de 1.334 cabeças em 2023 para 920 em 2026. Essa diminuição pode ser interpretada como um descarte estratégico de matrizes menos produtivas, visando a renovação do plantel reprodutivo e a melhoria da eficiência genética e produtiva do rebanho. A seleção e o descarte de animais com baixa performance são práticas essenciais em sistemas intensificados, pois liberam recursos forrageiros e financeiros para animais mais produtivos, otimizando o retorno sobre o capital investido.

Tabela 1. Evolução da composição do rebanho e lotação animal (2022–2026)

Rebanho (Maio)

2022

2023

2024

2025

2026*

Vacas >36m

1300

1334

1282

1133

920

Vacas 25-36m

161

75

113

81

76

Novilhas 13-24m

252

101

72

108

294

Fêmeas 9-12m

335*

70

48

130

167

Fêmeas 3-8m

**

279

195

192

155

Fêmeas 0-2m

**

140

92

94

126

Touros >36m

49

45

38

25

30

Machos 25-36m

4

1

3

3

0

Machos 13-24m

1

0

8

3

5

Machos 9-12m

191*

10

2

1

40

Machos 3-8m

**

297

223

166

149

Machos 0-2m

**

126

98

81

144

Total

2191

2478

2174

2017

2106

Lotação cabeça por ha

1,33

1,17

1,08

1,13

Fonte: Elaborado pelo autor com base nos registros financeiros da propriedade.

A taxa de lotação, expressa em cabeça por hectare, também refletiu essa reorganização, diminuindo de 1,33 cabeça/ha em 2022 para 1,08 cabeça/ha em 2025, com uma discreta recuperação posterior para 1,13 cabeça/ha em 2026 (Tabela 1). Embora uma redução na lotação possa, à primeira vista, ser interpretada como uma perda de eficiência, no contexto da recuperação e formação de pastagens, essa decisão é frequentemente uma medida técnica necessária e estratégica. Dias-Filho (2017) argumenta que a manutenção de uma carga animal acima da capacidade de suporte das pastagens acelera os processos de degradação e compromete a sustentabilidade produtiva a longo prazo. Assim, a redução observada na lotação pode ter sido uma medida intencional para permitir a recuperação da base forrageira, melhorar a qualidade do pasto e, consequentemente, estabelecer uma capacidade de suporte mais elevada e sustentável no futuro. Essa abordagem, embora possa impactar a produção de carne por hectare no curto prazo, visa garantir a perenidade e a produtividade do sistema em médio e longo prazos, alinhando-se com os princípios da intensificação sustentável.

Os indicadores reprodutivos do rebanho, conforme apresentado na Tabela 2, mostraram uma melhora temporária em 2024, com 958 nascimentos, equivalentes a 0,68 nascimento por vaca total e 0,75 por vaca acima de 36 meses. Contudo, em 2025, os nascimentos recuaram para 718 animais, indicando que o sistema ainda se encontrava em uma fase de ajuste e não havia atingido uma estabilidade reprodutiva consolidada. Essa oscilação pode ser atribuída a diversos fatores, como a adaptação do rebanho às novas condições de manejo, variações na qualidade da forragem ou mesmo a um período de transição na gestão reprodutiva. A relação vaca/touro também apresentou variações, atingindo 45,3 em 2025 e retornando a 33,2 em 2026, após a aquisição de novos reprodutores. Valores elevados na relação vaca/touro podem comprometer a eficiência de cobertura, especialmente em ambientes onde o manejo é menos intensivo ou há desafios nutricionais. Euclides Filho et al. (2002) e Euclides Filho (2007) enfatizam a importância de um planejamento reprodutivo integrado, que inclua a avaliação andrológica dos touros, a definição de uma estação de monta estratégica, o diagnóstico gestacional e o descarte criterioso de matrizes improdutivas. A flutuação nesses indicadores reforça a necessidade de um monitoramento contínuo e ajustes finos no manejo reprodutivo para alcançar a estabilidade e a eficiência desejadas em um sistema semi-intensivo. A aquisição de novos reprodutores em 2026, por exemplo, é uma medida que visa corrigir a relação vaca/touro e potencialmente melhorar a taxa de prenhez, indicando uma resposta gerencial às deficiências identificadas.

Tabela 2. Indicadores reprodutivos do rebanho (2022–2026)

Categorias

2022

2023

2024

2025

2026

Touros

49

45

38

25

30

Vacas

1461

1409

1395

1214

996

Vacas/touro

29,8

29,6

33,7

45,3

33,2

0-12m bezerras fêmeas

335

489

363

416

448

0-12m bezerros machos

191

433

323

248

333

0-12m total

522

922

686

664

771

N° doses sêmen compradas

0

400

400

500

0

Nascimentos machos/ano

414

492

375

144

Nascimentos fêmeas/ano

401

466

343

126

Total de nascimentos/ano

815

958

718

270

Nascimentos/vacas

0,58

0,68

0,59

Nascimentos/vacas >36m

0,61

0,75

0,63

Fonte: Elaborado pelo autor com base nos registros financeiros da propriedade.

O desempenho econômico da propriedade revelou um comportamento cíclico da receita bruta ao longo do período avaliado. Observou-se uma redução de R$ 3.371.528,90 em 2022 para R$ 2.024.503,84 em 2024, seguida por uma recuperação notável para R$ 3.325.529,68 em 2025, conforme ilustrado na Figura 1 e Tabela 3. Essa trajetória reflete uma complexa interação entre fatores internos e externos. Internamente, o volume e a categoria de animais comercializados desempenharam um papel crucial. Externamente, o ciclo pecuário e as oscilações de preços de mercado exerceram influência significativa. A retração da receita em 2024, por exemplo, coincidiu com um período de preços menos favoráveis para o bezerro e para a vaca gorda, como evidenciado na Figura 2. Em sistemas de cria, a sensibilidade aos preços de mercado é particularmente relevante, visto que grande parte da receita depende da comercialização de categorias jovens e do descarte estratégico de matrizes.

Figura 2. Evolução do preço estimado de venda do bezerro (A) e da vaca gorda (B) no sul do Tocantins (2022–2026).

Fonte: Elaborado pelos autores com base em referências de mercado regionais.

A recuperação da receita em 2025, por outro lado, ocorreu em um cenário de mercado mais positivo, demonstrando a capacidade da propriedade de se beneficiar de condições favoráveis quando o ambiente externo permite. Essa volatilidade ressalta a importância de uma gestão comercial ágil e da capacidade de adaptação às flutuações do mercado. A diversificação de receitas, que será discutida adiante, também se mostra como um mecanismo crucial para mitigar os riscos associados a essa sensibilidade. A análise do desempenho econômico não pode, portanto, ser dissociada da conjuntura de mercado, que atua como um pano de fundo constante para as decisões gerenciais e os resultados financeiros da propriedade.

Os custos e despesas da propriedade também apresentaram oscilações, variando entre R$ 1.737.891,76 e R$ 2.244.594,54 no período, com o maior valor registrado em 2025 (Figura 1; Tabela 3). O aumento dos custos e despesas, especialmente no ano de recuperação da receita, pode ser interpretado como uma consequência esperada do processo de intensificação produtiva. Sistemas mais intensivos demandam um maior uso de insumos, como suplementação mineral e proteico-energética, além de exigir mais mão de obra qualificada, manutenção de infraestrutura, investimentos em sanidade animal e maior consumo de energia e combustíveis. Carvalho e De Zen (2017) argumentam que, embora sistemas tecnificados tendam a operar com custos absolutos superiores, eles também possuem um potencial significativamente maior de produtividade e retorno por unidade de área ou animal. A elevação dos custos, portanto, não é necessariamente um indicativo de ineficiência, mas sim um reflexo da mudança no modelo de produção, onde o aumento da produtividade por animal e por hectare justifica os maiores dispêndios. A gestão eficaz desses custos, focando na otimização do uso dos recursos e na obtenção de ganhos de produtividade, é fundamental para garantir a rentabilidade do sistema intensificado.

Os investimentos foram particularmente relevantes em 2024, atingindo R$ 882.024,34 (Figura 1; Tabela 3). Este dado é central para compreender a queda temporária das margens naquele ano. A compressão econômica observada não foi meramente resultado de uma piora operacional, mas sim de um ciclo deliberado de reinvestimento na propriedade. Em 2025, já se observam sinais de captura econômica parcial desses aportes, com a recuperação das margens e resultados. Este padrão é consistente com a “curva J” de investimentos, onde há uma queda inicial na rentabilidade devido aos altos custos de implementação e modernização, seguida por uma recuperação e crescimento à medida que os benefícios dos investimentos começam a se materializar. A decisão de concentrar investimentos em 2024 demonstra uma visão de longo prazo por parte da gestão da propriedade, priorizando a construção de uma base produtiva mais robusta e eficiente em detrimento de ganhos imediatos. A capacidade de suportar essa fase de investimento e a subsequente recuperação em 2025 validam a estratégia adotada, indicando a viabilidade do processo de transição.

A estrutura de custos e os principais direcionadores econômicos da propriedade revelam a predominância de despesas operacionais. A composição dos custos demonstrou que as despesas operacionais representaram 91,0% do total acumulado no período, enquanto os custos fixos corresponderam a 4,3% e os não operacionais a 4,7% (Tabela 3). Essa distribuição indica que a rentabilidade do sistema depende majoritariamente da eficiência cotidiana da operação, e não apenas da estrutura administrativa ou de custos fixos. Em outras palavras, a capacidade de gerar lucro está intrinsecamente ligada à forma como as atividades diárias são executadas, desde o manejo do rebanho até a utilização dos insumos.

Tabela 3. Estrutura de custos e despesas da propriedade (2022–2025) em reais (R$)

Categorias

2022

2023

2024

2025

Total

%

Despesas administrativas

59.474,60

65.431,90

62.175,21

103.323,43

290.405,14

3,8

Comunicação

8.427,80

9.656,80

10.450,48

8.302,90

36.837,98

0,5

Manutenção geral

10.185,00

25.370,00

14.110,00

39.232,20

88.897,20

1,2

Pessoal

409.297,41

435.249,25

438.241,24

543.144,71

1.825.932,61

23,7

Nutrição animal

573.517,80

411.438,21

390.266,53

513.562,47

1.888.785,01

24,5

Energia elétrica

25.505,90

45.429,89

45.840,28

80.075,40

196.851,47

2,6

Combustíveis

100.994,10

92.109,83

171.801,57

86.776,51

451.682,01

5,9

Veículos

19.715,80

9.266,10

12.575,69

72.609,23

114.166,82

1,5

Sanidade animal

113.424,90

95.840,78

100.592,73

161.570,74

471.429,15

6,1

Defensivos agrícolas

17.588,30

83.425,46

58.842,00

96.666,49

256.522,25

3,3

Pastagem

79.419,10

556.662,66

83.156,28

152.586,89

871.824,93

11,3

Rede hídrica

61.501,40

15.503,70

12.464,33

17.464,92

106.934,35

1,4

Cercas e curral

76.549,10

16.239,00

52.284,00

70.483,02

215.555,12

2,8

Ferramentas

39.508,00

7.362,00

16.077,02

11.960,20

74.907,22

1,0

Peças e mecânica

97.239,70

81.984,90

114.414,38

78.391,05

372.030,03

4,8

Fretes

10.471,50

4.450,00

16.525,00

26.920,00

58.366,50

0,8

Seguro financeiro

1.599,30

3.871,49

5.470,79

0,1

Tarifas bancárias

13.396,17

13.396,17

0,2

Serviços ambientais

52.000,00

7.000,00

110.389,40

156.886,00

326.275,40

4,2

Taxas ambientais

2.698,60

1.001,04

8.448,77

12.148,41

0,2

TOTAL DE CUSTOS E DESPESAS

1.757.519,01

1.964.019,78

1.737.891,76

2.244.594,54

7.704.025,09

100

Fonte: Elaborado pelo autor com base nos registros financeiros da propriedade.

Os maiores grupos de custo foram nutrição animal (24,5%) e pessoal (23,7%), seguidos por pastagens (11,3%), sanidade animal (6,1%) e combustíveis (5,9%) (Tabela 3). O peso da nutrição e da mão de obra é um reflexo direto da intensificação do sistema. Em sistemas semi-intensivos, o desempenho animal depende crescentemente de uma suplementação estratégica e balanceada, que otimiza o ganho de peso e a eficiência reprodutiva. A mão de obra, por sua vez, exige maior qualificação e manejo frequente, o que implica em custos mais elevados com salários, treinamentos e encargos. A literatura, como a de Cezar et al. (2005), destaca que a intensificação da pecuária exige um controle mais rigoroso dos indicadores produtivos e econômicos, o que naturalmente eleva a demanda por mão de obra especializada e insumos de maior valor agregado.

Do ponto de vista gerencial, esse perfil de custos sugere que os maiores ganhos econômicos não virão de cortes lineares e indiscriminados de despesas, mas sim do aumento da eficiência em áreas-chave. Isso inclui a realização de compras técnicas de insumos, a formulação nutricional precisa por categoria animal, o treinamento contínuo da equipe, a implementação de um manejo preventivo sanitário robusto e o uso racional de máquinas e equipamentos. Em outras palavras, a gestão de custos em um sistema semi-intensivo torna-se inseparável da gestão técnica. A otimização não reside em gastar menos, mas em gastar melhor, investindo em insumos e práticas que gerem o maior retorno produtivo e econômico. A participação relevante dos gastos com pastagens (11,3%) reforça que a base econômica da cria permanece fortemente dependente da produtividade forrageira. Investimentos em solo e capim, quando tecnicamente bem conduzidos, podem apresentar um retorno superior a diversas despesas corretivas que seriam necessárias posteriormente, como a compra de alimentos concentrados para compensar a baixa qualidade da forragem. Isso sublinha a importância de uma abordagem holística, onde a saúde do pasto é vista como um ativo fundamental que impacta diretamente a rentabilidade geral da propriedade.

A diversificação de receitas e a estratégia comercial adotada pela propriedade foram elementos cruciais para a resiliência econômica durante o período de transição. Embora a pecuária tenha se mantido como a principal fonte de faturamento, observou-se um crescimento progressivo da receita oriunda do arrendamento para o cultivo de soja. Este componente, que era inexistente em 2022, elevou-se para R$ 385.951,38 em 2025, conforme ilustrado na Figura 3 e detalhado na Tabela 4. O arrendamento agrícola atuou como um mecanismo eficaz de diversificação de renda, mitigando parcialmente o risco inerente à atividade pecuária, que é suscetível a flutuações de mercado e eventos climáticos.

Figura 3. Composição anual das receitas por origem (2022–2025).

Fonte: Elaborado pelos autores com base nos registros financeiros da propriedade.

Tabela 4. Composição das receitas por origem (2022–2025) em reais (R$)

Categoria

2022

2023

2024

2025

Bezerros

2.143.700,00

1.729.255,00

979.900,00

1.283.933,84

Novilhas

511.700,00

216.000,00

Descarte

707.415,90

781.817,00

490.659,19

1.372.752,06

Soja

121.751,90

336.344,75

385.951,38

Outros

8.713,00

13.537,00

1.500,00

65.592,90

Receita total

3.371.528,90

2.646.361,70

2.024.503,84

3.325.529,68

Fonte: Elaborado pelo autor com base nos registros financeiros da propriedade.

Em 2024, por exemplo, quando a margem líquida da atividade pecuária foi próxima de zero (Tabela 6), a renda proveniente do arrendamento agrícola desempenhou um papel vital na sustentação do resultado consolidado da propriedade (Tabela 7). Este achado reforça a relevância de estratégias integradas de uso da terra, como o arrendamento, a integração lavoura-pecuária (ILP) ou a combinação de atividades complementares, especialmente em regiões sujeitas à volatilidade climática e de preços. A diversificação de receitas não apenas estabiliza o fluxo de caixa, mas também proporciona maior segurança financeira, permitindo que a propriedade absorva choques de mercado em uma das atividades sem comprometer a viabilidade geral do negócio. Barbosa et al. (2015) e Borghi et al. (2015) discutem a importância da diversificação para a sustentabilidade e resiliência das propriedades rurais na região amazônica e no Tocantins, respectivamente, corroborando a estratégia adotada.

A análise do volume físico comercializado de bovinos também reforça essa interpretação estratégica. Conforme apresentado na Tabela 8, o número total de bovinos vendidos variou expressivamente entre os anos, passando de 1.338 animais em 2023 para 773 em 2024 e 945 em 2025. A retração observada em 2024 sugere uma postura comercial mais conservadora, provavelmente influenciada por um ambiente de preços desfavoráveis e pelo período de reorganização produtiva. A retomada em 2025 indica uma recomposição parcial do fluxo comercial, em um cenário de melhora de mercado e um ajuste estratégico das categorias vendidas.

Além do número total de animais, a composição das vendas também se mostrou relevante. Alterações na participação relativa de bezerros, novilhas e animais de descarte indicam que a propriedade utilizou a comercialização não apenas como um mecanismo de geração de receita imediata, mas também como uma ferramenta de manejo do rebanho e adequação da estrutura produtiva. A participação da venda de bezerros/as foi dominante em 2022 e 2023, mas perdeu espaço relativo nos anos seguintes, enquanto a importância econômica dos animais de descarte aumentou (Figura 4; Tabela 9). Em 2025, a receita com descarte superou a de bezerros/as, indicando uma estratégia de ajuste do rebanho e captura de valor em categorias adultas. Essa mudança pode representar não apenas uma necessidade de caixa, mas também um reposicionamento técnico: a venda de matrizes improdutivas, a renovação genética e uma maior seletividade do plantel. Quando bem executado, o descarte estratégico melhora os indicadores reprodutivos futuros e libera recursos para categorias mais eficientes, contribuindo para a otimização do sistema produtivo como um todo.

Os resultados consolidados da propriedade e a viabilidade da transição produtiva demonstram um percurso característico de processos de intensificação. O resultado líquido consolidado da propriedade, que era de R$ 1.611.677,99 em 2022, caiu para R$ 349.914,58 em 2024, mas apresentou uma recuperação robusta para R$ 1.129.524,76 em 2025 (Tabela 7). A margem líquida seguiu a mesma trajetória: 49,4% em 2022, 24,0% em 2023, 18,7% em 2024 e 39,0% em 2025. Esses dados indicam que 2024 representou o ponto mais crítico do ciclo analisado, com 2025 sinalizando uma retomada consistente e promissora.

Quando a análise se restringe exclusivamente à atividade pecuária, o movimento foi ainda mais evidente. O resultado líquido da pecuária reduziu-se para apenas R$ 13.569,93 em 2024, equivalente a uma margem de 0,2% (Tabela 6). Esse desempenho demonstra que, naquele ano, a pecuária operou praticamente no ponto de equilíbrio econômico, refletindo o impacto dos investimentos e da reorganização. Em contraste, 2025 apresentou uma recuperação significativa, com o resultado líquido atingindo R$ 743.552,78 e uma margem líquida de 28,0%.

Esses resultados confirmam que processos de intensificação raramente geram retorno linear e imediato. No curto prazo, é comum observar um aumento de custos, uma necessidade de capital intensiva e uma compressão das margens de lucro. No entanto, em médio e longo prazos, sistemas bem conduzidos tendem a capturar ganhos substanciais de produtividade, maior flexibilidade comercial e um melhor aproveitamento da área. No caso estudado, os dados sugerem que 2024 concentrou os custos da mudança e os desafios inerentes à transição, enquanto 2025 apresentou os primeiros sinais concretos de retorno econômico dos investimentos realizados.

A transição do sistema extensivo para o semi-intensivo mostrou-se tecnicamente viável e economicamente promissora, desde que conduzida com planejamento técnico rigoroso, disciplina financeira e monitoramento contínuo de indicadores produtivos e econômicos. A capacidade de adaptação da propriedade às condições de mercado, a diversificação de receitas e a gestão estratégica dos investimentos foram fatores determinantes para o sucesso dessa transição. A continuidade desse processo, com a manutenção das melhorias estruturais e gerenciais, tende a ampliar a produtividade por hectare, melhorar a eficiência do uso da terra e fortalecer a sustentabilidade econômica da atividade no médio e longo prazo, consolidando a propriedade como um modelo de pecuária de corte mais competitivo e resiliente no Cerrado tocantinense.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, ao analisar a transição de um sistema pecuário bovino extensivo para um modelo semi-intensivo em uma propriedade rural no Tocantins, no período de 2022 a 2025. O estudo demonstrou que essa evolução é tecnicamente viável e economicamente promissora, embora exija investimentos substanciais e planejamento rigoroso. As transformações incluíram a ampliação das divisões de pastagem, a recuperação e formação de áreas forrageiras, e a adoção de práticas gerenciais mais estruturadas. Economicamente, o período de maior investimento, especialmente em 2024, resultou em uma compressão temporária das margens e do resultado líquido, mas foi seguido por uma recuperação consistente em 2025, evidenciando o início do retorno dos aportes. A diversificação de receitas, por meio do arrendamento agrícola, mostrou-se crucial para a resiliência econômica da propriedade durante essa fase de transição.

Contudo, este trabalho possui limitações inerentes ao seu caráter de estudo de caso único, cujos resultados refletem as condições específicas da propriedade analisada, incluindo sua localização, estrutura fundiária, histórico de manejo e o contexto de mercado particular do período. Dados parciais de 2026 foram utilizados apenas para indicar tendências. Para estudos futuros, sugere-se a realização de análises comparativas entre múltiplas propriedades em diferentes regiões, a fim de generalizar os achados. Recomenda-se também o monitoramento de longo prazo para avaliar a consolidação dos ganhos de produtividade e rentabilidade, bem como a investigação de impactos ambientais e sociais da intensificação, aprofundando a compreensão da sustentabilidade do agronegócio.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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