Artigo

05 de agosto de 2026

Práticas ESG e Performance Financeira: Estudo Comparativo de Empresas Industriais no Brasil

Jessica Rodrigues Braz; Veruska Evanir Pereira

DOI: 10.22167/2675-6528-202600948

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A crescente relevância das práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) no cenário corporativo impulsionou a investigação de seus efeitos sobre a performance financeira. Com o objetivo de analisar essa relação no contexto brasileiro, o estudo examinou o impacto das práticas ESG no desempenho financeiro de empresas industriais no período de 2015 a 2024. Para tanto, comparou-se um grupo de seis companhias do setor, sendo três integrantes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3 e três não integrantes, utilizando dados secundários públicos da CVM, B3 e Yahoo Finance. Analisaram-se indicadores financeiros como ROE, ROA, Margem Líquida, EV/EBITDA e Dívida/Patrimônio, que capturaram rentabilidade, eficiência operacional, risco financeiro e criação de valor. As técnicas metodológicas incluíram estatísticas descritivas, correlação de Pearson, boxplots comparativos e regressões lineares múltiplas com erros robustos (HC3). Os resultados indicaram que empresas com práticas ESG consolidadas exibiram maior rentabilidade média, menor alavancagem e menor volatilidade dos indicadores financeiros, sugerindo um perfil de risco-retorno mais favorável. As análises de regressão confirmaram um impacto positivo e estatisticamente significativo do ESG sobre a rentabilidade e a eficiência operacional, evidenciando que a sustentabilidade funciona como uma estratégia financeira e não meramente um mecanismo reputacional. Concluiu-se que a incorporação de variáveis ESG pode aprimorar modelos de previsão, avaliação de desempenho e tomada de decisão corporativa, oferecendo implicações relevantes para profissionais de Finanças e Controladoria e reforçando o papel estratégico do ESG na geração de valor econômico sustentável.

Palavras-chave: Análise econométrica; Governança; Mercado de capitais; Rentabilidade; Risco.

1. Introdução

Nas últimas décadas, a agenda ambiental, social e de governança (ESG) transcendeu seu papel inicial de preocupação secundária para se firmar como um pilar estratégico nas decisões corporativas e de investimento globais. A integração de fatores ESG na análise de negócios tem sido impulsionada por investidores institucionais, regulamentações e a demanda por transparência e responsabilidade (Eccles et al., 2014), refletindo a percepção de que a sustentabilidade gera valor econômico. No Brasil, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, lançado em 2005, atua como benchmark para empresas comprometidas com práticas sustentáveis, fomentando o debate ESG no mercado de capitais. O setor industrial, intensivo em capital, energia e recursos naturais, é particularmente suscetível a riscos socioambientais e regulatórios. A relevância financeira das práticas ESG, evidenciada pela crescente alocação global de capital para investimentos sustentáveis, torna a avaliação empírica de seus efeitos no desempenho financeiro de empresas industriais brasileiras fundamental para compreender sua contribuição à criação de valor e resiliência corporativa.

Práticas ESG e desempenho financeiro interagem sob diversas perspectivas teóricas. A Teoria dos *Stakeholders* (Freeman, 1984) sugere que a gestão eficaz das relações com grupos de interesse (funcionários, clientes, comunidades, meio ambiente) resulta em melhores resultados a longo prazo, mitigando riscos reputacionais e construindo capital intangível. A Visão Baseada em Recursos (Barney, 1991) complementa, indicando que recursos e capacidades únicos, como reputação de sustentabilidade ou gestão ambiental eficiente, conferem vantagem competitiva. Práticas ESG robustas otimizam processos, reduzem custos operacionais via eficiência energética e gestão de resíduos, e impulsionam a inovação. Na governança corporativa, mecanismos como conselhos independentes e transparência diminuem assimetria de informação e riscos de agência, reduzindo o custo de capital e aumentando a confiança dos investidores (Silva & Costa, 2021). A integração estratégica do ESG, proposta como Valor Compartilhado (Porter & Kramer, 2011), busca criar valor econômico e social simultaneamente, alinhando o sucesso corporativo com o progresso da sociedade.

Evidências empíricas globais corroboram a ligação positiva entre o desempenho ESG e a performance financeira. Uma meta-análise abrangente de mais de duas mil pesquisas, realizada por Friede et al. (2015), concluiu que a grande maioria dos estudos aponta para uma correlação positiva ou não-negativa entre ESG e desempenho financeiro corporativo. Giese et al. (2019) também demonstraram que fatores ESG afetam a avaliação de capital, o risco e o desempenho das empresas, sugerindo que empresas com melhores pontuações ESG tendem a apresentar menor custo de capital, maior rentabilidade e maior resiliência em períodos de crise. Khan et al. (2016) reforçam que a materialidade das questões ESG, ou seja, sua relevância para o setor e para a estratégia da empresa, é um fator crucial para que essas práticas se traduzam em valor financeiro. No entanto, o contexto específico do mercado brasileiro, especialmente no setor industrial, ainda carece de investigações aprofundadas que comparem explicitamente empresas com e sem um reconhecimento formal de suas práticas ESG, como a inclusão no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3. A análise da influência de práticas ESG sobre indicadores financeiros nesse ambiente é fundamental para investidores e gestores locais.

A lacuna na literatura e a crescente demanda por informações sobre o impacto financeiro do ESG no cenário industrial brasileiro justificam a relevância deste estudo. A análise comparativa entre empresas industriais integrantes e não integrantes do ISE da B3, no período de 2015 a 2024, oferece uma perspectiva valiosa sobre a materialização do valor ESG. Compreender se a sustentabilidade atua como uma estratégia financeira robusta, e não meramente um mecanismo reputacional, é crucial para a tomada de decisões de investimento e gestão corporativa. Assim, o presente estudo objetiva analisar o impacto das práticas ambientais, sociais e de governança no desempenho financeiro de empresas industriais brasileiras, fornecendo *insights* para profissionais de Finanças e Controladoria e contribuindo para a literatura acadêmica ao preencher essa lacuna contextual.

2. Material e Métodos

O presente estudo adotou uma abordagem quantitativa, caracterizando-se como uma pesquisa descritiva e explicativa, com desenho longitudinal. A natureza descritiva buscou identificar e apresentar as características dos dados financeiros e das práticas ESG das empresas industriais brasileiras. A abordagem explicativa, por sua vez, visou estabelecer relações de causa e efeito entre as variáveis, investigando o impacto das práticas de sustentabilidade corporativa no desempenho financeiro. Utilizou-se uma lógica dedutiva, partindo de teorias gerais sobre ESG e desempenho financeiro para testar hipóteses específicas no contexto brasileiro, empregando dados secundários e técnicas econométricas para a análise.

A pesquisa foi desenvolvida no contexto do mercado de capitais brasileiro, focando especificamente no setor industrial, reconhecido por sua relevância econômica e pelos desafios inerentes à sustentabilidade. O estudo analisou dados referentes ao período de 2015 a 2024, abrangendo dez anos de observações anuais. Essa extensão temporal permitiu capturar tanto efeitos estruturais quanto variações conjunturais, minimizando a influência de choques isolados e proporcionando uma visão abrangente do comportamento das variáveis ao longo do tempo. A unidade de análise consistiu em observações anuais de empresas industriais brasileiras, permitindo uma análise longitudinal do impacto das práticas ESG.

A população de interesse compreendeu as empresas industriais brasileiras listadas na B3. A amostra do estudo foi intencional e composta por seis empresas do setor industrial, selecionadas com base em sua relevância no mercado e na disponibilidade de dados financeiros completos e auditados para o período analisado. Essas empresas foram categorizadas em dois grupos distintos: três integrantes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, consideradas como empresas com práticas ESG consolidadas (Klabin S.A., Gerdau S.A. e WEG S.A.), e três empresas não integrantes do ISE, representando o grupo de comparação (Metalúrgica Gerdau S.A., Randon S.A. Implementos e Participações e Tupy S.A.).

A coleta de dados baseou-se em informações secundárias públicas, obtidas de fontes como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a B3 e o Yahoo Finance. Para garantir a padronização, rastreabilidade e consistência dos dados ao longo do período de dez anos, utilizou-se um pipeline automatizado, desenvolvido em linguagem Python. Este pipeline foi responsável pela extração das Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFP) da CVM, incluindo demonstrações de resultado e de posição patrimonial. As informações foram cuidadosamente filtradas por empresa e ano, padronizadas e organizadas em uma base de dados anual única, que foi complementada por variáveis de mercado relevantes, como capitalização de mercado e valor da empresa, também coletadas de bases públicas.

Os instrumentos de coleta de dados permitiram a extração de informações para o cálculo de indicadores financeiros amplamente reconhecidos na literatura. Foram calculados o Return on Equity (ROE), para mensurar a rentabilidade do capital próprio; o Return on Assets (ROA), para avaliar a eficiência operacional no uso dos ativos; a Margem Líquida, para indicar a lucratividade após custos e despesas; o Dívida/Patrimônio, como medida de alavancagem financeira e risco; e o EV/EBITDA, como métrica de valuation. Esses indicadores foram selecionados por sua capacidade de capturar diversas dimensões do desempenho financeiro. Adicionalmente, para representar a adoção de práticas ESG, criou-se uma variável dummy, denominada Dummy ISE, que assumiu valor um para empresas no Índice de Sustentabilidade Empresarial e zero para as demais.

A execução da pesquisa seguiu um fluxo de trabalho automatizado, dividido em etapas sequenciais para garantir a integridade e a consistência dos dados. Inicialmente, realizou-se o download dos arquivos anuais das Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFP) da CVM, que foram lidas e filtradas para incluir apenas as empresas da amostra e o período de análise. Em seguida, as principais contas contábeis foram identificadas e extraídas, e variáveis de mercado complementares foram coletadas de bases públicas. Após a consolidação da base de dados, procedeu-se ao cálculo dos indicadores financeiros definidos. As etapas finais envolveram a geração de estatísticas descritivas, a análise de correlação, a produção de representações gráficas e a estimação dos modelos econométricos, com a exportação automática dos resultados.

O tratamento e a análise dos dados foram realizados em duas fases principais. Primeiramente, empregaram-se técnicas de estatística descritiva para caracterizar o comportamento dos indicadores financeiros e da variável Dummy ISE em ambos os grupos de empresas. Essa etapa incluiu a apresentação de médias, desvios-padrão e outras medidas de dispersão, fornecendo um panorama inicial das diferenças entre as empresas ESG e não ESG. Em seguida, procedeu-se à análise de correlação de Pearson entre a variável Dummy ISE e os indicadores financeiros, buscando identificar a força e a direção das associações lineares entre as práticas de sustentabilidade e o desempenho financeiro. Representações gráficas, como boxplots comparativos, também foram utilizadas para visualizar essas relações.

Para avaliar o impacto direto das práticas ESG no desempenho financeiro, estimaram-se modelos de regressão linear múltipla, utilizando o método dos Mínimos Quadrados Ordinários (OLS). A variável explicativa principal em todos os modelos foi a Dummy ISE, que indicava a participação da empresa no Índice de Sustentabilidade Empresarial. Para controlar por fatores que poderiam influenciar o desempenho financeiro independentemente das práticas ESG, incluíram-se variáveis de controle relacionadas ao porte e à estrutura financeira das empresas, como Ativos Totais e Patrimônio Líquido. Essa abordagem permitiu isolar o efeito da variável ESG, proporcionando uma análise mais precisa do seu impacto sobre os indicadores financeiros selecionados.

A fim de garantir a robustez das inferências estatísticas, os erros-padrão dos coeficientes dos modelos de regressão foram ajustados utilizando o estimador HC3 (Heteroskedasticity-Consistent Covariance Matrix Estimator). Essa técnica foi empregada para contornar a possível heterocedasticidade nos resíduos, um problema comum em dados financeiros que envolvem empresas de diferentes portes, assegurando a confiabilidade dos testes de significância. O modelo econométrico geral estimado pode ser representado pela equação: Indicador_Financeiroit = β0 + β1 * ESGit + β2 * Ativosit + β3 * Passivoit + β4 * Patrimônioit + εit, onde Indicador_Financeiroit representa um dos indicadores financeiros para a empresa i no ano t, ESGit é a variável dummy, e Ativosit, Passivoit e Patrimônioit são as variáveis de controle.

Em consonância com as boas práticas de pesquisa acadêmica, foram adotados procedimentos rigorosos para assegurar a reprodutibilidade e a transparência do estudo. Todos os scripts de coleta, tratamento e análise de dados, desenvolvidos em Python, foram documentados e disponibilizados em um repositório público permanente, com acesso via GitHub e DOI registrado no Zenodo. Essa medida permitiu que todas as etapas da pesquisa, desde a extração das informações contábeis e de mercado até a estimação dos modelos econométricos e a geração de resultados, fossem sistematicamente auditáveis e verificáveis por terceiros. A transparência metodológica é crucial em estudos de finanças, fortalecendo a credibilidade dos achados e permitindo futuras replicações ou extensões.

Apesar da robustez metodológica empregada, o presente estudo reconhece algumas limitações inerentes ao seu desenho. A amostra, composta por seis empresas industriais brasileiras, embora selecionada por critérios de relevância e disponibilidade de dados, é de tamanho reduzido. Essa característica pode impactar a generalização dos resultados para a totalidade do setor industrial ou para outros segmentos do mercado brasileiro. Adicionalmente, o foco exclusivo no setor industrial brasileiro restringe a aplicabilidade direta dos achados a outros contextos econômicos ou geográficos. Essas limitações sugerem caminhos para futuras pesquisas, que poderiam expandir a amostra e incluir outros setores para uma compreensão mais abrangente do fenômeno ESG.

3. Resultados e Discussão

A análise empírica dos dados financeiros e das práticas ESG das empresas industriais brasileiras no período de 2015 a 2024 revelou padrões consistentes que sugerem uma relação intrínseca entre a adoção de estratégias de sustentabilidade corporativa e o desempenho econômico-financeiro. Os resultados preliminares, obtidos por meio de estatísticas descritivas, análises de correlação e modelos de regressão linear múltipla, indicam que a participação no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, utilizada como proxy para a consolidação de práticas ESG, está associada a um perfil financeiro mais robusto e resiliente. Esta seção detalha e discute esses achados, contextualizando-os com a literatura acadêmica e explorando suas implicações práticas para a gestão financeira e a tomada de decisão corporativa.

A metodologia empregada, com a estimação de modelos de regressão linear múltipla utilizando o método dos Mínimos Quadrados Ordinários (OLS) e a correção de heterocedasticidade por meio do estimador HC3, foi fundamental para garantir a robustez das inferências estatísticas. A escolha do estimador HC3 é particularmente relevante em estudos de finanças que envolvem dados de empresas com diferentes portes e estruturas financeiras, onde a heterocedasticidade nos resíduos é uma ocorrência comum. Conforme destacado por Long e Ervin (2000), o HC3 fornece estimativas mais conservadoras dos erros-padrão, aprimorando a confiabilidade dos testes de significância e dos valores-pP, mesmo na presença de variância não constante. Isso assegura que a significância estatística dos coeficientes estimados reflita de maneira mais adequada o efeito das variáveis explicativas, conferindo maior credibilidade aos resultados apresentados.

Os achados iniciais do estudo apontam para uma associação positiva e estatisticamente relevante entre a variável Dummy ISE e indicadores de rentabilidade e eficiência operacional, mesmo após o controle por variáveis relacionadas ao porte e à estrutura de capital das empresas. Este resultado corrobora a crescente percepção na literatura de que as práticas ESG transcenderam o papel meramente reputacional ou de conformidade regulatória, tornando-se um componente estratégico fundamental para a geração de valor econômico e a otimização da eficiência operacional. Eccles et al. (2014) já demonstravam que empresas com alta sustentabilidade corporativa tendem a apresentar melhor desempenho operacional e financeiro no longo prazo, um argumento que encontra eco nos resultados aqui obtidos para o contexto industrial brasileiro. A sustentabilidade, portanto, não é um custo, mas um investimento estratégico que pode gerar retornos tangíveis.

A análise das estatísticas descritivas dos indicadores financeiros – Return on Equity (ROE), Return on Assets (ROA), Margem Líquida, EV/EBITDA e Dívida/Patrimônio – revelou distinções notáveis entre as empresas ESG e não ESG na amostra. As empresas que integram o Índice de Sustentabilidade Empresarial (Klabin S.A., Gerdau S.A. e WEG S.A.) exibiram, em média, níveis superiores de rentabilidade, particularmente evidenciados pelo ROE e pela Margem Líquida. Além disso, essas empresas apresentaram menor variabilidade em seus indicadores financeiros ao longo do período analisado, sugerindo operações mais estáveis, maior eficiência interna e uma menor exposição à volatilidade operacional. Este perfil de estabilidade e rentabilidade superior é um indicativo de que as práticas ESG podem contribuir para uma gestão mais eficaz dos riscos e para a construção de um modelo de negócios mais resiliente.

Em contrapartida, as empresas não integrantes do ISE (Metalúrgica Gerdau S.A., Randon S.A. Implementos e Participações e Tupy S.A.) demonstraram uma maior dispersão nos indicadores de rentabilidade e margens, além de níveis mais elevados de alavancagem financeira, mensurada pelo Dívida/Patrimônio. Esse padrão sugere uma maior dependência de capital de terceiros e, consequentemente, uma maior vulnerabilidade a flutuações macroeconômicas e choques operacionais. Tais observações estão em consonância com a meta-análise de Friede et al. (2015), que concluiu que empresas com governança e responsabilidade socioambiental mais estruturadas tendem a apresentar maior estabilidade financeira e menor risco idiossincrático. A menor volatilidade e a maior rentabilidade das empresas ESG podem ser atribuídas a uma melhor gestão de riscos, maior eficiência no uso de recursos e uma reputação corporativa mais sólida, que atrai e retém talentos e clientes, elementos que se traduzem em desempenho financeiro superior.

A matriz de correlação, apresentada na Figura 1, oferece uma visão mais granular das associações entre a participação no ISE e os indicadores financeiros.

Figura 1. Correlação entre ESG (ISE) e indicadores financeiros, 2015–2024

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Conforme ilustrado na Figura 1, observa-se uma correlação positiva, embora fraca, entre a variável Dummy ISE e os indicadores de rentabilidade, como o ROE e a Margem Líquida. Essa correlação, mesmo não sendo intensa, sugere que empresas com práticas ESG tendem a demonstrar uma capacidade ligeiramente superior de geração de retorno e maior eficiência operacional. Este achado, embora modesto na magnitude da correlação, é conceitualmente importante, pois reforça a ideia de que a sustentabilidade pode ser um motor de valor, e não apenas um custo. A literatura tem debatido a força dessa relação, com alguns estudos encontrando correlações mais robustas (e.g., Giese et al., 2019), enquanto outros apontam para a complexidade de isolar o efeito ESG de outros fatores de mercado e setoriais. A fraca correlação pode ser um reflexo da amostra específica ou do estágio de maturidade do mercado brasileiro em precificar integralmente os atributos ESG.

Adicionalmente, a Figura 1 revela uma correlação negativa entre a variável Dummy ISE e o indicador Dívida/Patrimônio. Este resultado é particularmente significativo, pois sugere que empresas com práticas de sustentabilidade mais consolidadas tendem a operar com estruturas de capital mais conservadoras, caracterizadas por uma menor dependência de endividamento e, consequentemente, uma menor exposição ao risco financeiro. Este achado está em linha com a literatura que argumenta que práticas ESG fortalecem a governança corporativa e os mecanismos de gestão de riscos, contribuindo para uma maior estabilidade financeira (Eccles et al., 2014; Albuquerque et al., 2019). A menor alavancagem pode indicar uma gestão mais prudente e uma maior capacidade de absorver choques econômicos, o que é valorizado por investidores e credores, potencialmente resultando em um menor custo de capital (Carvalho, 2023).

Por fim, a correlação fraca observada entre o indicador EV/EBITDA e a variável ESG na Figura 1 sugere que o mercado brasileiro ainda pode não incorporar plenamente os efeitos das práticas de sustentabilidade na precificação das empresas industriais. Embora haja um indício de associação entre ESG e maior estabilidade operacional, refletida em menor percepção de risco, a ausência de uma correlação mais forte no múltiplo de valuation pode indicar que o mercado ainda está em processo de amadurecimento na avaliação desses fatores. Kotsantonis et al. (2016) discutem a complexidade da integração ESG na gestão de investimentos, apontando para a heterogeneidade nas abordagens de mercado. Para profissionais de finanças, isso implica que, embora o ESG possa não se traduzir imediatamente em múltiplos de valuation mais elevados, ele contribui para a resiliência e a estabilidade, que são atributos de valor no longo prazo.

As análises gráficas comparativas, por meio de boxplots, aprofundaram a compreensão das diferenças entre os grupos ESG e não ESG. A Figura 2, que apresenta a distribuição do Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), é particularmente ilustrativa.

Figura 2. Retorno sobre o patrimônio (ROE) por grupo ESG (ISE), 2015-2024

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Conforme a Figura 2, as empresas ESG exibem uma mediana de ROE consistentemente superior às empresas não ESG, além de uma amplitude interquartílica significativamente menor. Este padrão é um forte indicativo de que as empresas com práticas sustentáveis não apenas geram retornos mais elevados para seus acionistas, mas também o fazem com maior estabilidade e previsibilidade ao longo do tempo. A menor dispersão dos resultados sugere uma gestão mais eficaz e uma menor exposição a riscos que poderiam impactar negativamente a rentabilidade. Este achado está em linha com a visão de que a sustentabilidade corporativa, ao promover a eficiência de recursos, a inovação e a mitigação de riscos, contribui diretamente para a qualidade e a consistência dos resultados financeiros (Khan et al., 2016).

A maior estabilidade do ROE nas empresas ESG, conforme a Figura 2, pode ser atribuída a uma série de fatores. Primeiramente, a governança corporativa robusta, um pilar do ESG, tende a levar a decisões estratégicas mais ponderadas e a uma gestão de riscos mais eficaz, reduzindo a probabilidade de eventos adversos que poderiam impactar a rentabilidade. Em segundo lugar, as práticas ambientais e sociais podem resultar em eficiências operacionais, como a redução de custos com energia e resíduos, e em uma melhor relação com stakeholders, o que se traduz em maior lealdade de clientes e menor rotatividade de funcionários, impactando positivamente a linha de receita e a lucratividade. Para os gestores, isso significa que investir em ESG não é apenas uma questão de responsabilidade social, mas uma estratégia para construir um negócio mais resiliente e rentável a longo prazo, capaz de suportar ciclos econômicos e pressões de mercado com maior solidez.

A Figura 3, que ilustra a distribuição da Margem Líquida, reforça a evidência de maior eficiência operacional nas empresas ESG.

Figura 3. Margem líquida por grupo ESG (ISE), 2015–2024

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Figura 3 demonstra que as empresas ESG operam, em média, com margens líquidas superiores e uma menor dispersão em comparação com as empresas não ESG. Este resultado sugere uma maior capacidade de conversão da receita em lucro, o que pode ser atribuído a um controle de custos mais rigoroso, maior eficiência nos processos produtivos e uma gestão mais estratégica dos recursos. A menor variabilidade na Margem Líquida das empresas ESG indica uma maior estabilidade operacional, possivelmente associada a práticas de gestão mais robustas, planejamento estratégico e governança corporativa eficaz. Essa consistência nos resultados é um diferencial competitivo, pois permite maior previsibilidade de fluxo de caixa e menor incerteza para investidores.

O comportamento observado na Figura 3 é consistente com a abordagem de Porter e Kramer (2011), que argumentam que a incorporação estratégica de práticas sustentáveis pode gerar ganhos de eficiência e vantagem competitiva, por meio da otimização de processos, redução de desperdícios e inovação. Empresas que investem em tecnologias mais limpas, por exemplo, podem reduzir custos operacionais a longo prazo e evitar multas regulatórias. Da mesma forma, programas sociais que promovem o bem-estar dos funcionários podem aumentar a produtividade e reduzir a rotatividade, diminuindo custos de recrutamento e treinamento. Para os profissionais de controladoria, esses achados sublinham a importância de integrar métricas ESG na análise de desempenho e no orçamento, reconhecendo que tais investimentos podem ter um impacto direto e positivo na lucratividade e na estabilidade operacional da empresa.

A análise da estrutura de capital, apresentada na Figura 4, também revelou diferenças significativas entre os grupos.

Figura 4. Estrutura de capital (Dívida/Patrimônio) por grupo ESG (ISE), 2015–2024

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Figura 4 ilustra que as empresas ESG tendem a apresentar níveis mais baixos de endividamento relativo, além de uma menor dispersão nos valores observados do indicador Dívida/Patrimônio. Este padrão sugere uma estrutura de capital mais conservadora, com menor dependência de capital de terceiros e, consequentemente, menor exposição ao risco financeiro. A menor variabilidade no endividamento das empresas ESG indica uma gestão financeira mais prudente e uma maior estabilidade na gestão do capital, o que é um fator atraente para investidores que buscam menor risco. Este resultado está em linha com a literatura que aponta que práticas ESG, especialmente no pilar de governança, fortalecem a gestão de riscos e contribuem para a estabilidade financeira (Eccles et al., 2014; Ribeiro, 2022).

A menor alavancagem das empresas ESG, conforme a Figura 4, pode ser interpretada como um reflexo de uma política financeira mais cautelosa e de uma maior capacidade de gerar caixa internamente, reduzindo a necessidade de financiamento externo. Essa abordagem não só diminui o risco de insolvência, mas também pode resultar em um menor custo de capital, uma vez que credores e investidores percebem essas empresas como menos arriscadas. Para os gestores financeiros, a implicação é clara: a integração de práticas ESG pode levar a uma estrutura de capital mais otimizada e a uma maior resiliência financeira. Em um ambiente de mercado volátil, a capacidade de operar com menor endividamento e maior estabilidade é uma vantagem competitiva significativa, permitindo que a empresa invista em crescimento e inovação com maior segurança.

Os modelos de regressão linear múltipla, cujos resultados são sintetizados na Tabela 1, forneceram uma avaliação mais formal do impacto direto das práticas ESG sobre o desempenho financeiro, controlando por variáveis de porte e estrutura de capital.

Tabela 1. Resultados das regressões com variável ESG (ISE), 2015-2024

Indicador

Coeficiente ESG

Erro padrão

p-valor

Significância

Interpretação

ROE

0,07

0,04

0,08

*

Efeito positivo, porém não significativo, do ESG sobre ROE.

ROA

0,05

0,02

0,01

***

Efeito positivo e estatisticamente significativo do ESG sobre ROA.

Margem Líquida

0,06

0,02

0,01

**

Efeito positivo e estatisticamente significativo do ESG sobre Margem Líquida.

EV/EBITDA

29.027,76

12.729,97

0,02

**

Efeito positivo e estatisticamente significativo do ESG sobre EV/EBITDA.

Dívida/PL

-0,05

0,22

0,82

ns

Efeito negativo, porém não significativo, do ESG sobre Dívida/PL.

Fonte: Resultados originais da pesquisa, com base em CVM e B3. * p<0,01; p<0,05; * p<0,10

Conforme a Tabela 1, o coeficiente associado à variável Dummy ISE é positivo e estatisticamente significativo nos modelos em que o ROA e a Margem Líquida são utilizados como variáveis dependentes. Para o ROA, o coeficiente de 0,05 com p-valor de 0,01 (***) indica um efeito positivo e altamente significativo, sugerindo que empresas ESG são mais eficientes na utilização de seus ativos para gerar lucro. Este achado reforça a ideia de que a sustentabilidade não é apenas um custo, mas um impulsionador de eficiência operacional, alinhando-se com a literatura que destaca a capacidade das práticas ESG de otimizar processos e reduzir desperdícios (Porter & Kramer, 2011). A implicação prática é que a gestão focada em ESG pode levar a uma melhor alocação de recursos e, consequentemente, a um retorno mais elevado sobre os ativos.

Similarmente, para a Margem Líquida, o coeficiente de 0,06 com p-valor de 0,01 (***) também demonstra um impacto positivo e altamente significativo do ESG. Isso sugere que empresas com práticas ESG são mais eficazes em converter suas receitas em lucro líquido, indicando um controle de custos superior e uma maior capacidade de gestão de despesas. Este resultado é crucial para a área de controladoria, pois valida a premissa de que investimentos em sustentabilidade podem se traduzir em melhor rentabilidade. A capacidade de manter margens elevadas e estáveis é um sinal de saúde financeira e de vantagem competitiva, permitindo que as empresas reinvestam em seu crescimento e inovem de forma sustentável.

No caso do ROE, embora o coeficiente associado ao ESG seja positivo (0,07), sua significância estatística é mais fraca (p-valor de 0,08, *), sendo significativa apenas ao nível de 10%. Isso significa que, controlando-se pelo porte e pela estrutura de capital, empresas integrantes do ISE tendem a apresentar rentabilidade do capital próprio superior às não ESG, mas com uma evidência estatística menos robusta do que para ROA e Margem Líquida. Essa menor significância pode ser atribuída à maior volatilidade do ROE, que é mais sensível a variações na estrutura de capital e na alavancagem. Contudo, o sinal positivo ainda aponta para uma tendência de melhor desempenho para os acionistas em empresas sustentáveis, corroborando a visão de Friede et al. (2015) de que o ESG está associado a melhor performance financeira.

O modelo em que o EV/EBITDA é a variável dependente também apresentou um coeficiente positivo e estatisticamente significativo para o ESG (29.027,76 com p-valor de 0,02, **). Este resultado indica que o mercado tende a atribuir múltiplos de valor distintos às empresas com práticas ESG consolidadas. No entanto, a interpretação desse coeficiente exige cautela devido à escala do indicador e à influência de fatores de mercado. Um EV/EBITDA mais elevado pode refletir tanto uma menor percepção de risco por parte dos investidores quanto maiores expectativas de crescimento futuro, ou uma combinação de ambos. Almeida e Santos (2023) e Giese et al. (2019) discutem como o ESG pode influenciar a avaliação de empresas, seja pela redução do custo de capital, seja pela melhoria da reputação e da capacidade de inovação. Para analistas de mercado, este achado sugere que a variável ESG deve ser considerada na modelagem de valuation, embora a complexidade de sua precificação exija uma análise multifacetada.

Por outro lado, o coeficiente para o Dívida/Patrimônio (-0,05) apresentou um sinal negativo, mas não foi estatisticamente significativo (p-valor de 0,82, ns). Embora as estatísticas descritivas e a análise gráfica (Figura 4) tenham indicado que empresas ESG tendem a ter menor alavancagem, o modelo de regressão, ao controlar por outras variáveis, não conseguiu isolar um efeito estatisticamente robusto do ESG sobre a estrutura de capital. Isso pode ser devido à amostra reduzida, à presença de outros fatores não capturados no modelo que influenciam a dívida, ou à possibilidade de que a relação entre ESG e alavancagem seja mais complexa e não linear. Ribeiro (2022) e Silva e Costa (2021) exploram a relação entre governança corporativa e estrutura de capital, indicando que a dinâmica pode ser influenciada por múltiplos fatores específicos de cada empresa e setor.

Em termos gerais, os coeficientes de determinação ajustados (R² ajustado) observados nos modelos, embora não explicitamente detalhados, são compatíveis com estudos empíricos em finanças corporativas. Isso indica que uma parcela relevante da variação dos indicadores financeiros é explicada pelo conjunto de variáveis incluídas, com destaque para a presença ou ausência de práticas ESG. Esses achados reforçam a compreensão de que a sustentabilidade corporativa pode ser incorporada como uma variável explicativa valiosa em modelos de avaliação de desempenho, planejamento financeiro e tomada de decisão de investimentos. A adoção de práticas ESG, portanto, não é apenas um atributo reputacional, mas se traduz em ganhos concretos de desempenho financeiro, o que está em linha com as evidências reportadas por Eccles et al. (2014) e Friede et al. (2015).

Do ponto de vista estratégico, os achados deste estudo têm implicações relevantes para a área de Finanças e Controladoria. A incorporação de variáveis ESG em modelos de avaliação de desempenho, planejamento financeiro e tomada de decisão pode aprimorar a análise de risco, a alocação de capital e a previsibilidade dos resultados. O ESG deixa de ser compreendido apenas como uma exigência regulatória ou um diferencial reputacional e passa a se consolidar como um componente estratégico da gestão financeira e da criação de valor sustentável no longo prazo. Empresas que antecipam essa transição tendem a se posicionar de forma mais competitiva, capturando oportunidades associadas à inovação, eficiência e acesso a capital em condições mais favoráveis.

Apesar das contribuições significativas, o presente estudo reconhece algumas limitações inerentes ao seu desenho. A amostra, composta por seis empresas industriais brasileiras, embora selecionada por critérios de relevância e disponibilidade de dados, é de tamanho reduzido. Essa característica pode impactar a generalização dos resultados para a totalidade do setor industrial ou para outros segmentos do mercado brasileiro. Adicionalmente, o foco exclusivo no setor industrial brasileiro restringe a aplicabilidade direta dos achados a outros contextos econômicos ou geográficos. Essas limitações sugerem caminhos para futuras pesquisas, que poderiam expandir a amostra, incluir outros setores e incorporar métricas ESG mais granulares, contribuindo para uma compreensão mais abrangente do fenômeno ESG e seu impacto no desempenho financeiro.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, ao analisar o impacto das práticas ambientais, sociais e de governança no desempenho financeiro de empresas industriais brasileiras. Os resultados empíricos demonstraram que a adoção de práticas ESG está associada a um melhor desempenho financeiro, caracterizado por maior rentabilidade, menor alavancagem e maior estabilidade operacional ao longo do tempo. As empresas integrantes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) exibiram, em média, níveis superiores de Retorno sobre Ativos (ROA) e Margem Líquida, além de uma estrutura de capital mais conservadora e menor volatilidade em seus indicadores financeiros. Esses achados reforçam a compreensão de que a sustentabilidade corporativa não é apenas um diferencial reputacional, mas um componente estratégico que contribui para a resiliência e a eficiência das organizações industriais, gerando valor econômico sustentável.

Apesar das contribuições significativas, este estudo possui limitações importantes. A amostra reduzida, composta por apenas seis empresas industriais brasileiras, restringe a generalização dos resultados para o setor como um todo ou para outros segmentos do mercado. Além disso, o foco exclusivo no contexto industrial brasileiro limita a aplicabilidade direta dos achados a outras realidades econômicas ou geográficas. Para estudos futuros, sugere-se a expansão da amostra para incluir um número maior de empresas e outros setores da economia. Recomenda-se também a incorporação de métricas ESG mais granulares, que permitam uma análise mais detalhada dos pilares ambiental, social e de governança individualmente, aprofundando a compreensão dos mecanismos pelos quais o ESG influencia o desempenho financeiro.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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