Artigo

30 de setembro de 2026

Suporte à decisão em remediação de áreas contaminadas com algoritmos de machine learning

Suporte à Decisão em Remediação de Áreas Contaminadas com Algoritmos de Machine Learning

Deivid Lucas dos Santos Migueleti; Aimée Shirozono

DOI: 10.22167/2675-6528-202602835

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A remediação de áreas contaminadas por hidrocarbonetos em aquíferos sujeitos a oscilações sazonais do nível d’água demanda instrumentos quantitativos para planejamento e otimização, cuja eficiência é limitada pelo trapeamento de derivados de petróleo. O trabalho demonstrou a aplicabilidade de modelos estatísticos de aprendizado de máquina na predição de séries temporais da carga hidráulica em uma área contaminada por querosene de aviação no polo petroquímico de Paulínia-SP, como evidência para suporte à decisão em remediação. Utilizaram-se registros mensais de carga hidráulica de poços de monitoramento e precipitação pluviométrica acumulada mensal de um período de 10 anos. A análise do comportamento da série temporal, a engenharia de variáveis e a análise de correlação auxiliaram na estimação de modelos SARIMA e SARIMAX. Modelos com capacidade preditiva adequada foram selecionados e ajustados com base em critérios de parcimônia e diagnóstico de resíduos. A modelagem de séries temporais com variáveis exógenas aprimorou o desempenho dos modelos em comparação com os modelos SARIMA. O modelo com precipitação acumulada em 3 meses apresentou um erro médio absoluto (MAE) de 0,1041 metros para previsão de 12 meses, considerado satisfatório. Isso constituiu uma prova de conceito relevante para apoiar o planejamento da remediação e o gerenciamento de longo prazo de áreas contaminadas por hidrocarbonetos.

Palavras-chave: Água subterrânea; Contaminação; LNAPL; Precipitação; Solo.

1. Introdução

A água subterrânea representa 99% das reservas de água doce do planeta, sendo um recurso estratégico fundamental para a adaptação climática das sociedades. Nesse contexto, políticas públicas voltadas para a proteção e recuperação de mananciais subterrâneos são de extrema relevância (UNESCO, 2022).

A contaminação do solo e da água subterrânea, entretanto, pode comprometer severamente o uso desse recurso vital. No Estado de São Paulo, o Sistema de Informações de Áreas Contaminadas e Reabilitadas (SIACR), mantido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), registrava, em outubro de 2025, 7.253 áreas contaminadas, das quais 4.846, aproximadamente 66,8%, estavam afetadas por combustíveis automotivos derivados de petróleo (CETESB, 2025).

Os derivados de petróleo presentes no meio subterrâneo em sua forma pura são conhecidos como LNAPL, sigla para Light Non Aqueous Phase Liquid, ou fase líquida não aquosa imiscível. Essas misturas complexas podem conter substâncias tóxicas, como benzeno e naftaleno, que contaminam a água subterrânea e representam riscos à saúde humana (Alden et al. 2024).

O processo de reabilitação de uma área contaminada envolve etapas de intervenção para mitigar ou reduzir os riscos de exposição a substâncias químicas de interesse (CETESB, 2017). As informações sobre a distribuição dos contaminantes e sua interação com o meio físico e os receptores são consolidadas no Modelo Conceitual Ambiental (MCA) (Alden et al. 2024).

As medidas de remediação utilizam tecnologias para tratar o meio atingido, removendo os contaminantes ou restringindo sua mobilidade (contenção) (CETESB, 2017). O Decreto Estadual de São Paulo número 59.263/2013 prioriza as medidas que promovem a remoção e redução da massa dos contaminantes (ALESP, 2013). As técnicas de remediação mais comuns para áreas contaminadas por derivados de petróleo baseiam-se na remoção hidráulica do LNAPL do aquífero, incluindo extração multifásica, bombeamento e tratamento, recuperação de fase livre e barreira hidráulica (ITRC, 2023; CETESB, 2017).

Apesar de sua ampla aplicação, a eficiência das técnicas de remoção hidráulica é limitada por diversos fatores e deve ser otimizada conforme o MCA da área é atualizado (ITRC, 2023). Um dos fenômenos que restringe a recuperação de LNAPL é o trapeamento, onde o LNAPL fica aprisionado nos poros do solo abaixo do nível d’água devido às diferenças nas forças capilares e tensão interfacial entre o óleo e a água (Isler et al. 2018; Teramoto et al., 2020). Este fenômeno foi observado por Pede (2009) em uma área do polo petroquímico de Paulínia.

Em regiões com regimes pluviométricos bem definidos, o trapeamento do LNAPL pode ser intensificado pela oscilação sazonal do nível d’água em resposta à precipitação (Teramoto et al., 2020). As mudanças climáticas e eventos extremos, como secas prolongadas e chuvas torrenciais, adicionam complexidade à gestão de áreas contaminadas (UNESCO, 2022). Precipitações muito abaixo da média intensificam o trapeamento, dificultando a remediação por métodos hidráulicos.

Embora modelos matemáticos e computacionais para simular e prever o nível d’água de aquíferos existam há tempo, sua aplicação é restrita devido à complexidade e à necessidade de recursos especializados. Pesquisas anteriores utilizaram Redes Neurais Artificiais, Máquinas de Vetor de Suporte e modelos estatísticos como ARMA e ARIMA para prever níveis d’água, alguns com capacidade de antecipar em até quatro meses (Tao et al., 2022; Nayak et al. 2006). Mais recentemente, modelos baseados na arquitetura Transformer demonstraram capacidade preditiva superior (Sun et al. 2024).

A necessidade de modelos de machine learning robustos e mais acessíveis, capazes de predizer o nível d’água, é evidente. Tais modelos, aliados ao conhecimento sobre a distribuição vertical do LNAPL, podem fornecer uma linha de evidência crucial para a tomada de decisão e negociação com órgãos ambientais sobre a descontinuidade dos esforços de remediação em áreas contaminadas onde o trapeamento do LNAPL ocorreu. O objetivo deste trabalho foi demonstrar a aplicabilidade de ao menos um modelo de aprendizado de máquina na predição de séries temporais do nível d’água em uma área contaminada por LNAPL como subsídio à tomada de decisão acerca da continuidade da remediação por meio de técnicas de remoção hidráulica.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza quantitativa, com abordagem metodológica focada na análise de séries temporais. O objetivo foi demonstrar a aplicabilidade de modelos de aprendizado de máquina na predição do nível d’água em uma área contaminada por LNAPL, fornecendo subsídio à tomada de decisão sobre a continuidade da remediação por técnicas hidráulicas. A pesquisa foi realizada em uma área contaminada por querosene de aviação no polo petroquímico de Paulínia, São Paulo, onde o vazamento foi estancado em 2006 e o fenômeno de trapeamento do LNAPL foi previamente observado por Pede (2009).

A unidade de análise consistiu em registros mensais de carga hidráulica de 118 poços de monitoramento (janeiro de 2013 a setembro de 2025) e 180 registros de precipitação pluviométrica acumulada mensal (janeiro de 2011 a dezembro de 2025). Os dados foram coletados de poços de monitoramento e de uma estação meteorológica de superfície na mesma planta industrial. A utilização desses dados, de propriedade da empresa, foi autorizada mediante termo de anuência. Os dados brutos foram inicialmente processados no Microsoft PowerBI Desktop para limpeza e tratamento, e a carga hidráulica foi calculada subtraindo-se o nível d’água da cota altimétrica da boca do tubo.

As etapas subsequentes de tratamento, preenchimento de informações faltantes e preparação dos dados foram conduzidas em linguagem Python, no ambiente Google Colaboratory (Google, 2026), utilizando bibliotecas como Pandas, NumPy, Matplotlib, Seaborn, Scipy, Scikit-learn, Statsmodels e pmdarima. Para preencher lacunas nas séries temporais, empregou-se a função `interpolate` do Pandas. Para a estimação dos modelos, utilizou-se o período de janeiro de 2016 a setembro de 2025, excluindo-se o período da crise hídrica de 2014-2015. A partir das variáveis originais, calcularam-se seis variáveis de carga hidráulica defasadas (um a seis meses) e cinco variáveis de precipitação baseadas no Índice de Precipitação Padronizada (SPI) para escalas de um, dois, três, seis e doze meses, utilizando o pacote SPEI (Vonk, 2025), conforme McKee et al. (1993). Variáveis de precipitação acumulada foram criadas com a função `shift` do Pandas.

Realizou-se uma etapa de clusterização exploratória dos registros de carga hidráulica, empregando o algoritmo DBScan da biblioteca Scikit-Learn (Ester et al., 1996), após padronização dos valores com StandardScaler. Os parâmetros `eps` e `min_samples` do DBScan foram ajustados com base em um gráfico de k-vizinhos. A análise exploratória dos dados incluiu análises descritivas, gráficos de box-plot, gráficos de linha e barras, e uma matriz de correlação de Pearson, visualizada através de um mapa de calor gerado com o pacote Seaborn.

A decomposição da série temporal da carga hidráulica foi realizada utilizando a função `seasonal_decompose` da biblioteca Statsmodels (Hyndman e Athanasopoulos, 2021). A autocorrelação e autocorrelação parcial (FAC e FACP) foram avaliadas com as funções `plot_acf` e `plot_pacf` da mesma biblioteca. A estacionariedade da série temporal foi verificada por meio dos testes de Dickey-Fuller Aumentado (ADF) e Kwiatkowski-Phillips-Schmidt-Shin (KPSS), utilizando as funções `adfuller` e `kpss` do módulo `tsa` da biblioteca Statsmodels, ao nível de significância de cinco por cento (Morettin e Toloi, 2018). A série da carga hidráulica necessitou de duas diferenciações para atingir a estacionariedade.

Para a estimação dos modelos, utilizou-se a função `auto_arima` do pacote pmdarima, que minimiza os critérios de informação de Akaike (AIC) e Bayesiana (BIC) (Morettin e Toloi, 2018). Foram estimados modelos Autorregressivos Integrados de Médias Móveis (ARIMA) e suas extensões sazonais (SARIMA), bem como modelos SARIMAX, que incorporam variáveis exógenas explicativas (Nelson, 1973). O ajuste dos modelos selecionados considerou apenas as variáveis exógenas com coeficientes estatisticamente significativos. O desempenho foi avaliado por predições da carga hidráulica para doze meses, utilizando as funções `get_forecast`, `predicted_mean` e `conf_int`. As métricas de erro utilizadas foram o Erro Médio Absoluto (MAE) e a Raiz do Erro Quadrático Médio (RMSE) (Hyndman e Athanasopoulos, 2021).

O diagnóstico dos resíduos foi realizado para verificar sua representatividade, incluindo a geração de gráficos de resíduos padronizados, histogramas, Q-Q plots e correlogramas. A verificação formal das características dos resíduos incluiu o teste de Ljung-Box para autocorrelação, e os testes de Jarque-Bera, Shapiro-Wilk e Heteroskedasticity para aderência à normalidade e homoscedasticidade (Fávero e Belfiore, 2024).

3. Resultados e Discussão

A análise dos dados da área contaminada por querosene de aviação em Paulínia-SP revelou padrões hidrológicos e pluviométricos que influenciam diretamente o comportamento da carga hidráulica do aquífero, fornecendo subsídios essenciais para a aplicação de modelos preditivos. Inicialmente, a exploração dos registros de carga hidráulica dos poços de monitoramento permitiu identificar agrupamentos espaciais, embora a informação detalhada dos clusters não tenha sido incorporada nas análises subsequentes para focar no comportamento geral do nível d’água na área. A distribuição espacial dos poços de monitoramento, conforme observado, apresentou um agrupamento que seguia o sentido do fluxo da água subterrânea, de nordeste para sudoeste, com alguns poços classificados como “outliers” devido a medições discrepantes.

A série temporal da carga hidráulica, composta por 106 registros de nível d’água após interpolação de 9,40% dos dados faltantes, demonstrou uma mediana de 589,092 metros e uma média de 589,093 metros. A interpolação linear foi aplicada para preencher lacunas, uma limitação metodológica reconhecida, mas cujo impacto foi considerado limitado pela natureza da resposta do aquífero à precipitação e pela curta duração das falhas de medição. A distribuição mensal da carga hidráulica revelou um padrão sazonal claro, com picos nos meses de março e abril e mínimos em outubro e novembro, indicando a influência sazonal sobre o nível d’água.

A precipitação acumulada mensal, com 117 registros, apresentou uma mediana de 75,000 milímetros e média de 99,150 milímetros, com uma leve assimetria à direita. A distribuição mensal da precipitação confirmou o padrão sazonal esperado para a região, caracterizado por verões chuvosos e invernos secos. Essa sazonalidade é um fator crucial para entender a dinâmica da recarga do aquífero e, consequentemente, as oscilações da carga hidráulica, que são fundamentais para o planejamento da remediação de áreas contaminadas por LNAPL.

Correlação entre variáveis

A avaliação da correlação entre as variáveis originais e construídas, incluindo a carga hidráulica, precipitação pluviométrica mensal, variáveis defasadas da carga hidráulica e índices de precipitação padronizada (SPI), revelou relações significativas. Observou-se uma correlação de 41% entre os valores da carga hidráulica e o SPI de 6 meses (spi6), 41% com a precipitação acumulada em 2 meses (pluv_acum2) e 54% com a precipitação acumulada em 3 meses (pluv_acum3). Esses resultados são consistentes com a compreensão de que a resposta do aquífero à precipitação não é imediata, mas sim defasada, devido aos processos de infiltração e recarga da água no solo.

A análise das séries temporais da carga hidráulica em conjunto com a precipitação pluviométrica acumulada mensal, o SPI de 6 meses e a precipitação acumulada em 3 meses, demonstrou visualmente que a carga hidráulica tende a aumentar em períodos de maior precipitação, confirmando a relação de dependência. Essa observação é vital para a modelagem, pois a inclusão de variáveis exógenas que capturem essa defasagem temporal pode aprimorar significativamente a capacidade preditiva dos modelos, alinhando-se com a literatura que destaca a importância da precipitação na dinâmica de aquíferos (Teramoto et al., 2020).

Análise da decomposição da variável resposta

A decomposição da série temporal da carga hidráulica, realizada pelo método aditivo, permitiu identificar claramente a presença de componentes de tendência, sazonalidade e um resíduo. A tendência observada na carga hidráulica ao longo do tempo reflete mudanças de longo prazo no sistema hidrogeológico, enquanto a sazonalidade capta os padrões anuais de oscilação do nível d’água, fortemente influenciados pelo regime pluviométrico da região. A identificação desses componentes é um passo fundamental para a estimação de modelos de séries temporais, pois permite que os modelos capturem e expliquem esses padrões de comportamento (Hyndman e Athanasopoulos, 2021).

Os gráficos da Função de Autocorrelação (FAC) e da Função de Autocorrelação Parcial (FACP) da variável resposta confirmaram a existência de tendência e sazonalidade nos dados. Os picos na FACP indicaram que a série temporal da carga hidráulica pode ser modelada como um processo autorregressivo de ordem 2 ou 3. Essas informações foram cruciais para a escolha dos parâmetros iniciais da função `auto_arima` do pacote `pmdarima`, orientando a estrutura dos modelos SARIMA e SARIMAX a serem estimados.

Testes de estacionariedade da série temporal

A avaliação da estacionariedade da série temporal da carga hidráulica foi realizada por meio dos testes de Dickey-Fuller Aumentado (ADF) e Kwiatkowski-Phillips-Schmidt-Shin (KPSS), ao nível de significância de 5%. O teste ADF inicialmente indicou a não estacionariedade da série original, com um p-valor de 0,286026, que é superior ao nível de significância. Após uma diferenciação (d=1), o p-valor reduziu para 0,129114, ainda indicando não estacionariedade. Somente após duas diferenciações (d=2), o p-valor atingiu 7,300095e-13, confirmando a estacionariedade da série.

O teste KPSS, que assume a estacionariedade como hipótese nula, também corroborou a necessidade de diferenciação. Com um p-valor inicial de 0,100000, o teste não rejeitou a hipótese nula de estacionariedade, mas a combinação com o teste ADF e a análise gráfica da série diferenciada duas vezes, que mostrou um comportamento estável em torno da média, confirmou a adequação do parâmetro d=2 para a modelagem. A estacionariedade é um pré-requisito para a aplicação de modelos ARIMA e SARIMA, garantindo que a média e a variância da série sejam constantes ao longo do tempo (Morettin e Toloi, 2018).

Estimação e ajuste dos modelos

A estimação dos modelos SARIMA e SARIMAX foi realizada utilizando a função `auto_arima` do pacote `pmdarima`, buscando minimizar os critérios de informação de Akaike (AIC) e Bayesiano (BIC), que avaliam a parcimônia e a qualidade do ajuste do modelo. Inicialmente, modelos SARIMA, sem variáveis exógenas, foram estimados para comparação. O modelo SARIMA(1,2,0)(2,0,1)[12] apresentou um AIC de -15,377, enquanto o SARIMA(3,2,0)(2,0,0)[12] teve um AIC de -18,023, indicando um melhor ajuste.

A introdução de variáveis exógenas nos modelos SARIMAX demonstrou uma melhoria significativa no desempenho. O modelo SARIMAX(0,2,3)(2,0,0)[12], com todas as variáveis exógenas da Tabela 1, alcançou um AIC de -38,882, uma queda substancial em relação aos modelos SARIMA puros. No entanto, este modelo apresentou autocorrelação nos resíduos, conforme indicado pelo teste de Ljung-Box (p<0,05), o que sugere que nem todas as informações foram capturadas adequadamente.

A análise dos coeficientes dos modelos SARIMAX com todas as variáveis exógenas revelou que algumas variáveis SPI e `pluv_acum2in`, bem como certos termos autorregressivos e de médias móveis, não foram estatisticamente significativos. Essa observação pode ser atribuída à multicolinearidade entre as variáveis preditoras, um fenômeno comum em séries temporais (Fávero e Belfiore, 2024). Modelos com variáveis exógenas como `pluv_acum3` (precipitação acumulada nos 3 meses anteriores) e `spi1` (índice de precipitação padronizada de 1 mês) apresentaram os menores erros, o que é coerente com a resposta defasada do aquífero à precipitação.

O modelo SARIMAX(2,2,3)(2,0,1)[12] com a variável `pluv_acum3` destacou-se com um erro médio absoluto (MAE) de 0,1041 metros para uma previsão de 12 meses, considerado satisfatório para o objetivo do estudo. Outro modelo notável foi o SARIMAX(2,2,2)(2,0,0)[12] com `spi1`, que obteve um AIC de -52,144 e BIC de -31,066, indicando um ajuste robusto. A seleção final dos modelos para ajuste e diagnóstico de resíduos foi baseada nos critérios AIC, BIC e na estatística Ljung-Box, priorizando a parcimônia e a significância estatística dos coeficientes.

Diagnóstico dos resíduos

O diagnóstico dos resíduos dos modelos ajustados foi realizado para verificar sua representatividade, conforme preconizado por Morettin e Toloi (2018). A avaliação dos gráficos de dispersão dos resíduos padronizados de todos os modelos ajustados revelou uma distribuição aleatória em torno da média zero ao longo do tempo, indicando homoscedasticidade. Essa característica foi formalmente confirmada pela estatística Heteroskedasticity, que, segundo a documentação da biblioteca `Statsmodels`, é análoga ao teste de Goldfeld-Quandt, cuja hipótese nula é a não heterocedasticidade dos resíduos.

No entanto, os gráficos Quantil-Quantil indicaram que a distribuição dos resíduos em todos os modelos não aderiu totalmente à normalidade, possivelmente devido à presença de valores de cauda. Essa não aderência foi corroborada pelos testes estatísticos de Jarque-Bera e Shapiro-Wilk, que apresentaram p-valores inferiores a 0,05 para todos os modelos ajustados. Embora a não normalidade dos resíduos não invalide os modelos, ela pode ter implicações na determinação dos intervalos de confiança (Fávero e Belfiore, 2024). A transformação da variável dependente, como a transformação de Box-Cox, poderia mitigar esse problema, mas não foi explorada no presente trabalho.

Em síntese, os resultados demonstraram a aplicabilidade de modelos estatísticos de aprendizado de máquina na predição da carga hidráulica em uma área contaminada, com destaque para os modelos SARIMAX que incorporam variáveis exógenas de precipitação. A capacidade de prever o nível d’água com um erro médio absoluto de 0,1041 metros, utilizando a precipitação acumulada em 3 meses, representa uma prova de conceito robusta. Essa evidência quantitativa é crucial para apoiar o planejamento da remediação e o gerenciamento de longo prazo de áreas contaminadas por hidrocarbonetos, especialmente em contextos de trapeamento de LNAPL e oscilações sazonais do nível d’água.

4. Conclusão

O presente trabalho demonstrou a aplicabilidade de modelos de aprendizado de máquina na predição de séries temporais da carga hidráulica em uma área contaminada por querosene de aviação, fornecendo subsídio para a tomada de decisão acerca da continuidade da remediação por técnicas hidráulicas. Verificou-se que a carga hidráulica do aquífero exibe padrões sazonais claros e uma resposta defasada à precipitação pluviométrica. A estimação de modelos SARIMAX, que incorporaram variáveis exógenas de precipitação, aprimorou significativamente a capacidade preditiva em comparação com modelos SARIMA puros. Um modelo SARIMAX, utilizando a precipitação acumulada em três meses, alcançou um erro médio absoluto de 0,1041 metros para uma previsão de doze meses, o que se considera satisfatório. Este resultado estabeleceu uma prova de conceito robusta, oferecendo uma linha de evidência quantitativa crucial para o planejamento da remediação e o gerenciamento de longo prazo de áreas contaminadas por hidrocarbonetos, especialmente em cenários de trapeamento de LNAPL e oscilações sazonais do nível d’água.

Apesar da relevância dos achados, o estudo apresentou limitações, como a interpolação linear de 9,40% dos dados faltantes, cujo impacto na sensibilidade dos modelos não foi avaliado, e a não aderência total dos resíduos à normalidade, o que pode influenciar a determinação dos intervalos de confiança. Observou-se também a multicolinearidade entre algumas variáveis exógenas de SPI, que resultou em coeficientes não significativos para certas variáveis. Para estudos futuros, sugere-se aprofundar a investigação sobre a multicolinearidade e a utilização dos clusters identificados pelo algoritmo DBScan na estimação dos modelos. Recomenda-se ainda testar abordagens como o Método de Previsão Global e explorar modelos mais avançados, como LSTM, NeuralProphet e aqueles baseados em Transformers, para capturar não linearidades e aprimorar a capacidade preditiva em poços piezométricos específicos.

Referências Bibliográficas

Alden, D.F.; García-Rincón, J.; Rivett, M.O.; Wealthall, G.P.; Thomson, N.R. 2024. Complexities of Petroleum Hydrocarbon Contaminated Sites. p. 1-19. In: García-Rincón, J.; Gatsios, E.; Lenhard, R.J.; Atekwana, E.A.; Naidu, R. Advances in the Characterisation and Remediation of Sites Contaminated with Petroleum Hydrocarbons. Environmental Contamination Remediation and Management. Springer, Cham.

Companhia Ambiental do Estado de São Paulo [CET

Companhia Ambiental do Estado de São Paulo [CETESB], 2025. Sistema de Áreas Contaminadas e Reabilitadas. Relatório de Áreas Contaminadas e Reabilitadas no Estado de São Paulo. Disponível em: < https://sigam.ambiente.sp.gov.br/sigam3/Default.aspx?idPagina=17653>. Acesso em: 10 out. 2025.

Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura [UNESCO]. 2022. UN World Water Development Report 2022: Groundwater: Making the invisible visible. Disponível em: <https://www.unwater.org/publications/un-world-water-development-report-2022>. Acesso em: 12 out. 2025.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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22 de outubro de 2026

Fatores de Engajamento das Partes Interessadas na Transferência Internacional de Tecnologia para um Hospital Público

Este estudo descreveu os fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia em um hospital público, com foco no planejamento. O objetivo foi descrever esses fatores condicionantes, conforme a percepção de profissionais. Realizou-se um estudo de caso único, aplicando um questionário a 25 profissionais e utilizando análise de conteúdo, complementada por tabulações descritivas. Os principais obstáculos identificados foram resistência à mudança (72%), financiamento (64%), falta de comunicação (60%) e burocracia (40%). Apenas 28% dos respondentes reconheceram a existência de ferramentas adequadas para gestão de stakeholders, enquanto 48% negaram e 24% não souberam informar. Cruzamentos exploratórios indicaram variações na avaliação de influência conforme o tempo de atuação, mas não estabeleceram relações causais. A falta de engajamento foi associada a atrasos, baixa adesão, desperdício de recursos, falhas de comunicação, comprometimento da absorção de conhecimento e riscos à segurança do paciente. As conclusões restringiram-se às percepções do grupo pesquisado e fundamentaram recomendações preliminares para comunicação e coordenação intersetorial.

Palavras-chave: Estudo de caso; Gestão de projetos; Inovação em saúde; Partes interessadas; Setor público.

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