22 de outubro de 2026
Observatório Digital da Amazônia: Ciência de Dados Aplicada à Análise de Indicadores Sociais, Econômicos, Ambientais e de Saúde
João Carlos Silva de Oliveira; Igor Pinheiro de Araújo Costa
DOI: 10.22167/2675-6528-202603759
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O estado do Amazonas enfrentou desafios históricos na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), decorrentes de barreiras geográficas, desigualdades socioeconômicas e limitações estruturais. Descreveu-se, neste estudo, o desenvolvimento e a implementação de um geoportal de informações em saúde, concebido para apoiar o monitoramento, a avaliação e o planejamento no contexto amazônico. Adotou-se uma abordagem de estudo de caso descritivo, baseada em análise documental e dados secundários, abrangendo o mapeamento de funcionalidades, a infraestrutura técnica e as etapas de validação da ferramenta. O Portal foi desenvolvido com tecnologias abertas e integrou múltiplas bases de dados nacionais, oferecendo dashboards interativos, mapas temáticos e repositório digital de documentos. Entre os resultados, destacaram-se a visualização georreferenciada de indicadores-chave, a possibilidade de análises comparativas temporais e a utilização da plataforma na revisão de planos de saúde e no redirecionamento de ações estratégicas. O portal pode representar um avanço na governança digital e na gestão baseada em evidências, com potencial de replicabilidade para outros territórios de alta complexidade, desde que acompanhada de investimentos em infraestrutura tecnológica, capacitação profissional e articulação interinstitucional.
Palavras-chave: Amazônia; Avaliação em Saúde; Saúde Digital; Sistemas de Informação em Saúde.
1. Introdução
O Sistema Único de Saúde (SUS) representa um marco histórico para a saúde no Brasil, consolidando os princípios de universalidade, integralidade e equidade no acesso à saúde. Fundamentado na Constituição Federal de 1988 e na Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/1990), o modelo foi concebido para assegurar que todo cidadão tenha acesso a serviços de qualidade, independentemente de sua condição social, localização geográfica ou perfil epidemiológico.
Apesar dos avanços estruturais alcançados, o SUS ainda enfrenta desafios significativos, especialmente em regiões periféricas caracterizadas por baixa densidade demográfica e complexas barreiras logísticas. A Amazônia Legal, com sua extensão continental e características ambientais singulares, impõe limitações diretas à formulação e execução de políticas públicas, exigindo abordagens inovadoras e adaptativas.
No estado do Amazonas, esses desafios são acentuados pela dispersão geográfica de seus 62 municípios. A integração regional depende fortemente de uma vasta malha hidrográfica com mais de 25 mil quilômetros de rios navegáveis e, em menor escala, de rotas aéreas. A logística é frequentemente comprometida pela sazonalidade das cheias e secas, impactando a continuidade da atenção à saúde e a efetividade das ações de vigilância (Fausto, 2022; IBGE, 2024).
O Amazonas apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) médio de 0,700, classificado como desenvolvimento humano médio. Dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2021) indicam que 55% da população vive em situação de pobreza e 34,7% reside em áreas de favelização. A economia regional é vulnerável a crises cíclicas e eventos ambientais extremos, como a estiagem de 2023-2024, que agravou vulnerabilidades estruturais e comprometeu o abastecimento de insumos essenciais (IBGE, 2022; PNUD, 2024). O perfil populacional, marcado por diversidade étnica e cultural, com comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, demanda modelos de atenção diferenciados. Fatores como desigualdade social, baixa escolaridade e infraestrutura básica insuficiente contribuem para elevados indicadores de morbimortalidade por causas evitáveis (IBGE, 2022).
O município de Manaus, capital do Amazonas, registrou um crescimento populacional expressivo entre 2010 e 2022, com um aumento de aproximadamente 14,5%, tornando-se a sétima capital mais populosa do país e a maior da Região Norte (Agência Brasil, 2023; IBGE, 2022). Esse crescimento acelerado gera desafios estruturais e sociais significativos, especialmente na expansão da infraestrutura urbana e na oferta de serviços públicos essenciais, como saúde, saneamento e habitação. A densidade demográfica de 181,01 habitantes por quilômetro quadrado reflete uma ocupação territorial que, muitas vezes, ocorre de forma desordenada, contribuindo para vulnerabilidades socioespaciais e a formação de assentamentos precários (Agência Brasil, 2023; IBGE, 2022).
Diante dessa complexidade, o desenvolvimento deste trabalho fundamenta-se na necessidade de fortalecer a gestão em saúde por meio de instrumentos que ampliem a capacidade analítica, promovam a integração de dados e qualifiquem a tomada de decisão baseada em evidências. A crescente complexidade dos sistemas de saúde exige a incorporação de soluções tecnológicas para assegurar maior eficiência, transparência e capacidade de resposta, sobretudo em territórios com elevada vulnerabilidade social e desafios logísticos, como a Amazônia. A informação em saúde é um campo estratégico, apoiando a decisão do gestor e o desenvolvimento tecnocientífico (Brasil, 2016). As tecnologias em saúde, embora não substituam o cuidado integral, potencializam-no ao qualificar diagnósticos, planejamento e monitoramento (Brasil, 2011).
A incorporação de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) é reconhecida como estratégica para a modernização da gestão e o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (Brasil, 2016; Ministério da Saúde, 2023; WHO, 2021). Iniciativas como as conduzidas pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (DECIT) e a Fiocruz reforçam a importância da pesquisa aplicada ao SUS (Guimarães, 2019). A avaliação em saúde, por sua vez, consolida-se como ferramenta essencial de governança (Hartz & Vieira-da-Silva, 2005). No contexto amazônico, a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2021) recomenda a ampliação do uso das TIC como eixo estruturante da saúde digital, dialogando com a necessidade de soluções adaptáveis às dinâmicas territoriais, especialmente em um “território líquido” (Haesbaert, 2011).
Nesse cenário, a relevância deste estudo reside na contribuição para o avanço da saúde digital no SUS, ao propor e analisar uma solução tecnológica capaz de integrar múltiplas bases de dados, promover inteligência territorial e subsidiar decisões clínicas e gerenciais mais qualificadas. O objeto de estudo é o desenvolvimento e a implementação do Portal GESP (Gestão Estratégica em Saúde Pública), concebido como uma plataforma integrada de dados em saúde, com funcionalidades de análise georreferenciada, dashboards interativos e apoio à tomada de decisão, voltada à realidade do estado do Amazonas. O presente estudo tem como objetivo geral descrever o desenvolvimento, a implementação e a utilização do Portal GESP como ferramenta de apoio ao monitoramento, à avaliação e ao planejamento em saúde, contribuindo para o fortalecimento da gestão baseada em evidências no âmbito do SUS.
2. Material e Métodos
Delineamento e Cenário do Estudo
Este estudo adotou uma abordagem metodológica de estudo de caso descritivo, focada na análise detalhada do desenvolvimento, implantação e operacionalização do Portal GESP (Gestão Estratégica em Saúde Pública) no estado do Amazonas. A pesquisa concentrou-se na aplicação do portal como ferramenta de monitoramento e suporte à tomada de decisão baseada em evidências, com ênfase no acompanhamento de indicadores estratégicos da Atenção Primária e Vigilância em Saúde, como a cobertura vacinal da Poliomielite Inativada (VIP) e da Pentavalente. O estudo foi desenvolvido no contexto institucional da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), considerando a complexidade territorial amazônica e seus desafios logísticos e de conectividade.
Fonte de Dados e Estratégia da Coleta
A investigação fundamentou-se na utilização de dados secundários e documentos institucionais oficiais disponibilizados pela Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), complementados por registros técnicos produzidos durante o desenvolvimento e manutenção do Portal GESP. As principais fontes analisadas incluíram relatórios epidemiológicos e gerenciais, planos estaduais de saúde, atas de reuniões técnicas e administrativas, documentos normativos, especificações e requisitos do sistema, registros de versionamento e scripts automatizados, interfaces e fluxos operacionais do portal, além de documentos de validação e homologação com gestores. A coleta foi conduzida por meio de três estratégias complementares: análise documental sistemática, levantamento técnico da plataforma e triangulação dos dados, registrados em notas técnicas para análise integrada e interpretativa.
Desenvolvimento Tecnológico do Portal
O desenvolvimento do sistema digital foi conduzido utilizando o Sistema de Gerenciamento de Conteúdo (CMS WordPress), aliado à linguagem de programação PHP e ao sistema gerenciador de banco de dados MySQL. A arquitetura da aplicação foi estruturada com hospedagem em servidor institucional, assegurando governança e autonomia operacional. Foram considerados documentos vinculados ao processo de homologação com gestores públicos para identificar ajustes e garantir a aderência às necessidades da gestão estadual.
O portal incorporou mecanismos de interoperabilidade com sistemas nacionais do SUS, incluindo CNES, e-SUS APS, SINAN e SISAB, visando favorecer a integração, padronização e atualização automatizada das informações. Entre as funcionalidades implementadas, destacam-se recursos de visualização interativa de dados, com painéis dinâmicos, mapas temáticos, dashboards personalizados e filtros por município, região de saúde e séries temporais. O portal também integrou a disponibilização estruturada de documentos normativos e instrumentos de planejamento por meio de painéis desenvolvidos no Power BI.
A segurança da informação e a conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD/Lei nº 13.709/2018) foram asseguradas por controle de acesso por perfil, autenticação segura, criptografia de informações sensíveis, registro de logs e rastreabilidade de operações, além da definição de políticas institucionais de privacidade e responsabilidade.
A gestão do projeto seguiu um modelo híbrido, combinando práticas ágeis e princípios tradicionais de gerenciamento, conforme ilustrado na Figura 1.
Figura 1 – Fluxograma do método de desenvolvimento do portal.

Fonte: Resultados originais da pesquisa
As etapas de validação envolveram reuniões com gestores municipais e técnicos estaduais para testar a navegabilidade, compreender demandas e ajustar o sistema às rotinas de planejamento da saúde. Ao final do processo, os dados coletados foram organizados em categorias temáticas para sistematização dos resultados e realização de análise qualitativa interpretativa.
3. Resultados e Discussão
A implementação do Portal GESP consolidou-se como uma inovação digital estratégica para fortalecer a gestão, o monitoramento, a avaliação e o planejamento em saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) no estado do Amazonas.
Desenvolvido para atender às especificidades territoriais e operacionais da região amazônica, o portal disponibiliza aos gestores públicos uma visualização interativa, analítica e georreferenciada dos principais indicadores de desempenho em saúde, ampliando a capacidade de tomada de decisão baseada em evidências. A plataforma está disponível para acesso em: https://gespfiocruz.com.br/.
A iniciativa resultou na criação do primeiro Geoportal de Informações em Saúde do Amazonas, concebido como uma sala de situação virtual. Essa plataforma permite o acompanhamento em tempo real de diversos indicadores de saúde dos municípios amazonenses e viabiliza a geração de mapas temáticos, gráficos e relatórios dinâmicos, tanto para públicos técnicos quanto para o público em geral. Seu objetivo é apoiar o monitoramento da atenção básica, caracterizar as condições das redes de atenção à saúde, analisar o acesso aos serviços e estimar o índice de performance e resiliência dos sistemas locais.
Por utilizar tecnologias abertas e de fácil acesso, o sistema fortalece a política de inclusão digital e permite sua replicação e integração com outros sistemas estaduais ou municipais. O uso de software livre também amplia a interoperabilidade e reduz barreiras técnicas para a adoção em novos contextos, promovendo a sustentabilidade tecnológica da ferramenta.
Do ponto de vista técnico, o portal foi desenvolvido na plataforma WordPress, com linguagem PHP e banco de dados MariaDB. Conta com infraestrutura de servidor própria e recursos como tradutor automático em tempo real para 108 idiomas, o que amplia sua acessibilidade. Além dos indicadores de saúde, o portal abriga um repositório digital com documentos normativos, boletins epidemiológicos, notícias, documentários, relatos de experiências e informações sobre eventos e publicações científicas.
A Figura 2 apresenta a captura da tela da página inicial do portal de Gestão e Políticas de Saúde Pública na Amazônia (GESP/FIOCRUZ), com os principais recursos disponíveis para consulta de dados em saúde. A interface destaca quatro módulos principais: Relatórios Dinâmicos (visualização de indicadores em PDF), Tabelas (síntese de indicadores selecionados), Gráficos (comparação entre municípios e regiões de saúde) e Mapas (visualização georreferenciada de indicadores).
Figura 2 – Página inicial do portal GESP/FIOCRUZ.

Fonte: Resultados originais da pesquisa
O portal GESP/FIOCRUZ disponibiliza um conjunto de indicadores estratégicos para o monitoramento da atenção básica e da vigilância sanitária, oferecendo subsídios essenciais à gestão da saúde pública. Entre os indicadores de atenção básica, incluem-se métricas relacionadas à hipertensão e ao diabetes, como o percentual de diabéticos com solicitação de hemoglobina glicada, fundamentais para o acompanhamento clínico e a prevenção de complicações. A cobertura vacinal também é acompanhada, tanto em termos gerais quanto de forma segmentada, como nos casos da poliomielite inativada e da pentavalente, permitindo avaliar a efetividade das campanhas de imunização e a proteção coletiva da população.
Na atenção à saúde da mulher, o portal disponibiliza indicadores relevantes para o pré-natal e a detecção precoce de agravos. Um exemplo é a proporção de gestantes com realização de exames para sífilis e HIV (Figura 3), que apresenta de forma clara os percentuais alcançados por município ou região de saúde, possibilitando identificar áreas que necessitam de maior atenção. Esse tipo de informação é crucial para orientar políticas públicas e ações de prevenção, contribuindo para a redução da transmissão vertical dessas infecções.
Figura 3 – Proporção de Gestantes com Realização de Exames para Sífilis e HIV.

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Outros indicadores igualmente relevantes incluem a cobertura de exame citopatológico, voltado ao rastreamento do câncer do colo do útero, a proporção de gestantes com atendimento odontológico realizado e aquelas que realizaram pelo menos seis consultas de pré-natal, com início até a 20ª semana de gestação. Em conjunto, esses dados fornecem um panorama abrangente da cobertura e da qualidade da atenção básica, permitindo aos gestores monitorar o desempenho das equipes de saúde e direcionar recursos de forma mais eficiente.
Uma das funcionalidades de maior destaque é a possibilidade de realizar comparações temporais entre os dados dos Censos Demográficos de 2010 e 2022. Essa ferramenta permite a análise de tendências e mudanças na estrutura populacional, fornecendo subsídios valiosos para o planejamento sanitário. Gestores podem, por exemplo, acompanhar o crescimento populacional de municípios como Iranduba, Manacapuru ou Itacoatiara e reavaliar a adequação da infraestrutura de saúde frente às novas demandas demográficas, como o envelhecimento da população ou o aumento da densidade populacional. Essas análises possibilitam o reposicionamento estratégico de recursos humanos e materiais, bem como a redefinição de investimentos em saúde. Municípios que apresentaram crescimento acentuado ou transformações em seu perfil etário passaram a demandar maior atenção nos planos estaduais e municipais.
O portal também oferece funcionalidades de construção de dashboards personalizados, filtros avançados e geração de gráficos comparativos, facilitando a leitura dos dados por gestores, pesquisadores e cidadãos. Além disso, permite associar indicadores sociais, econômicos e ambientais aos desfechos em saúde, ampliando a capacidade de diagnóstico situacional dos territórios.
Na prática, o Portal GESP tem demonstrado impactos concretos na gestão municipal e estadual. Relatos de uso indicam que os dados disponibilizados foram utilizados para revisar Planos Municipais de Saúde, redirecionar ações de vigilância epidemiológica e justificar solicitações ao Ministério da Saúde, como o credenciamento de novas equipes da Estratégia Saúde da Família.
O indicador de cobertura vacinal da Poliomielite Inativada e da Pentavalente (Figura 4) é fundamental para avaliar a efetividade das ações de imunização e a capacidade do sistema de saúde em proteger a população infantil contra doenças preveníveis. Altos índices de cobertura garantem a manutenção da imunidade coletiva, prevenindo surtos e reduzindo a circulação dos agentes infecciosos, o que é essencial para preservar os avanços alcançados no controle e, em alguns casos, na erradicação de enfermidades. Além disso, o acompanhamento sistemático desse indicador permite identificar desigualdades regionais, direcionar recursos e planejar intervenções mais eficientes, contribuindo para a equidade no acesso à saúde e para o fortalecimento das políticas públicas de prevenção.
Figura 4 – Cobertura vacinal da Poliomielite Inativada e da Pentavalente entre 2018 e 2022.

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Os indicadores também desempenham um papel essencial na identificação de áreas de risco, no monitoramento e na avaliação das políticas públicas em curso, além de permitirem análises preditivas e prognósticas. Isso inclui desde a estimativa da carga de morbidade até a projeção de desfechos clínicos para grupos populacionais específicos, apoiando decisões estratégicas em diferentes níveis de gestão.
O repositório digital e o observatório de políticas públicas de saúde associados ao GESP, desenvolvidos em parceria entre a SES-AM e a Fiocruz, representam uma contribuição com benefícios de longo prazo. A consolidação dessa infraestrutura técnica e institucional reforça o compromisso com a governança em saúde digital e o fortalecimento da cultura de monitoramento e avaliação no estado do Amazonas.
Os resultados evidenciam que o Portal GESP representa um marco na institucionalização da avaliação em saúde no contexto amazônico, ao oferecer uma solução tecnológica capaz de integrar dados dispersos, transformar informações complexas em análises acessíveis e apoiar de forma concreta a gestão pública em saúde. Em um cenário marcado por desigualdades territoriais, vulnerabilidades socioeconômicas e desafios logísticos, o GESP simboliza uma mudança significativa na forma de planejar e monitorar políticas de saúde, priorizando evidências locais e uma abordagem sensível às especificidades do território.
A plataforma se destaca ainda por promover uma cultura de monitoramento e avaliação contínua, ao possibilitar a visualização georreferenciada de indicadores-chave da atenção básica e de vigilância em saúde. A integração de bancos de dados nacionais como o e-SUS AB, o CNES e o SINAN em uma única interface digital interativa fornece aos gestores públicos subsídios técnicos valiosos para decisões fundamentadas, readequação de estratégias e alocação mais eficiente de recursos, tanto humanos quanto materiais.
A interoperabilidade se consolida como um dos principais diferenciais técnicos da ferramenta. A capacidade do GESP de articular bases distintas, apresentar análises comparativas e permitir cruzamentos de informações com interface amigável favorece não apenas o uso institucional, mas também sua apropriação por diferentes perfis de usuários, incluindo gestores locais, pesquisadores e cidadãos. Essa arquitetura informacional, somada à adoção de software livre, torna o sistema escalável, replicável e sustentável, possibilitando sua expansão para outros estados, regiões e municípios.
Entretanto, a trajetória de implementação do portal não foi isenta de obstáculos. A resistência de alguns gestores locais à adoção de novas tecnologias, a carência de infraestrutura mínima em áreas remotas, como acesso estável à internet, equipamentos e suporte técnico, e a necessidade constante de capacitação de profissionais representam desafios reais à consolidação e ao uso pleno da ferramenta. Esses fatores demonstram que a transformação digital na gestão em saúde exige, além de inovação, investimentos estruturantes e políticas públicas que valorizem a formação técnica e a equidade digital.
Comparando-se com experiências semelhantes desenvolvidas em outras unidades federativas, como nos estados de Goiás e do Distrito Federal, o GESP se diferencia por sua concepção territorializada e por ter sido pensado desde o início com foco na superação de barreiras amazônicas, como a dispersão geográfica, a baixa densidade populacional em áreas remotas e a escassez de conectividade. Enquanto muitas plataformas nacionais seguem uma lógica centralizada e homogênea, o GESP apresenta-se como um modelo flexível e adaptável às realidades regionais, sendo, portanto, mais adequado para territórios de alta complexidade como a Amazônia Legal (Figura 5).
Figura 5 – Tela de indicadores com territórios da Amazônia.

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Outro ponto de destaque é a incorporação do portal à lógica de um observatório digital de políticas públicas. A possibilidade de reunir indicadores em tempo real, documentos normativos, boletins epidemiológicos, dados censitários e relatórios técnicos em um repositório sustentável e acessível amplia o potencial de uso da ferramenta para além da gestão burocrática, fortalecendo a transparência e o controle social. Nesse sentido, o GESP também contribui para a democratização da informação e para o empoderamento de comunidades e organizações da sociedade civil.
O Portal GESP representa uma estratégia de transformação institucional, que simboliza a convergência entre tecnologia, planejamento territorial e inteligência coletiva, ao mesmo tempo em que aponta caminhos concretos para fortalecer a saúde digital no SUS. Sua concepção e resultados reforçam a importância de soluções baseadas em evidências e construídas com foco no contexto local, especialmente em regiões historicamente invisibilizadas pelas grandes estratégias nacionais. Consolidar essa experiência e expandi-la requer um compromisso contínuo com a inovação, a equidade e a formação profissional, além de políticas que favoreçam a sustentabilidade tecnológica no setor público. A articulação entre diferentes esferas de governo e instituições como a Fiocruz, aliada ao uso estratégico da informação, pode ser a chave para um novo ciclo de planejamento e gestão em saúde na Amazônia, mais eficaz, mais participativo e mais conectado com a realidade dos territórios.
4. Conclusão
O presente estudo descreveu o desenvolvimento e a implementação do Portal GESP como uma ferramenta de apoio ao monitoramento, avaliação e planejamento em saúde no estado do Amazonas. Verificou-se que o portal se consolidou como o primeiro geoportal de informações em saúde da região, concebido como uma sala de situação virtual. A plataforma foi desenvolvida com tecnologias abertas e integrou múltiplas bases de dados nacionais, como e-SUS AB, CNES, SINAN e SISAB, oferecendo dashboards interativos, mapas temáticos e um repositório digital de documentos. Entre os principais achados, destacou-se a visualização georreferenciada de indicadores-chave da atenção básica e vigilância em saúde, a possibilidade de análises comparativas temporais entre os Censos Demográficos de 2010 e 2022, e a utilização da plataforma na revisão de Planos Municipais de Saúde e no redirecionamento de ações estratégicas. A principal contribuição do estudo reside no fortalecimento da gestão em saúde por meio de uma solução tecnológica que promove a inteligência territorial e qualifica a tomada de decisão baseada em evidências, adaptada às complexidades do contexto amazônico.
Apesar dos avanços, a implementação do Portal GESP enfrentou limitações, como a resistência de alguns gestores locais à adoção de novas tecnologias, a carência de infraestrutura mínima em áreas remotas, incluindo acesso estável à internet e equipamentos, e a necessidade contínua de capacitação profissional. Para a consolidação e expansão dessa iniciativa, sugere-se investimentos estruturantes em infraestrutura tecnológica, a ampliação da capacitação de profissionais e o fortalecimento da articulação interinstitucional. O estudo aponta que a incorporação estratégica de tecnologias da informação, orientada por evidências e sensível às especificidades territoriais, representa um caminho promissor para a construção de um Sistema Único de Saúde mais eficiente, equitativo e responsivo às demandas da população amazônica, com potencial de replicabilidade para outros territórios de alta complexidade.
Referências Bibliográficas
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Fausto, M. C. R. (2022). Sustentabilidade da Atenção Primária à Saúde em territórios rurais remotos na Amazônia fluvial: Organização, estratégias e desafios. Ciência & Saúde Coletiva, 27(4), 1605-1618. https://www.scielo.br/j/csc/a/zZdBtL6QPw35vSPYz75XRPv
Guimarães, 2019 [Referência completa não encontrada no documento original]
Haesbaert, R. (2011). Ο mito da desterritorialização: Do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Bertrand Brasil.
Hartz, Z. M. A., & Vieira-da-Silva, L. M. (2005). Avaliação em saúde: Dos modelos conceituais à prática na análise da implantação de programas. Editora Fiocruz.
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Ministério da Saúde. (2023). Programa Informatiza APS. Secretaria de Atenção Primária à Saúde.
Organização Mundial da Saúde – OMS. (2021). Global strategy on digital health 2020–2025. World Health Organization.
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD Brasil. (2024, junho). Construir caminhos, pactuando novos horizontes: 25 anos do IDH no Brasil. https://www.ibge.gov.br/geociencias/organizacao-do-territorio/estrutura-territorial/15819-amazonia-legal.html
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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