Artigo

30 de setembro de 2026

Previsão de “churn” em plataformas de “iGaming” com uso de “machine learning” e “marketing analytics”

Previsão de “Churn” em Plataformas de “Igaming” com Uso de “Machine Learning” e “Marketing Analytics”

Douglas Caldeira Silva; Nuno Manoel Martins Dias Fouto

DOI: 10.22167/2675-6528-202602832

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A predição de “churn” em plataformas de “iGaming” mostrou-se relevante devido ao caráter não contratual desse ambiente, onde a evasão é inferida a partir de sinais comportamentais e transacionais observáveis. O trabalho objetivou desenvolver e avaliar modelos preditivos capazes de estimar a probabilidade de “churn” de usuários em plataformas de “iGaming”, com base em variáveis comportamentais e transacionais, para apoiar decisões de marketing analytics voltadas à antecipação da evasão. Realizou-se uma pesquisa aplicada, quantitativa, preditiva e observacional retrospectiva, utilizando dados secundários de uma empresa do setor. A base analítica foi estruturada em painel diário por usuário, com variáveis derivadas de recência, frequência, intensidade de uso e maturidade do relacionamento. A definição operacional de “churn” considerou janelas de inatividade de 15 e 30 dias, adotando a de 30 dias como cenário principal. Modelos de Regressão Logística e Random Forest foram empregados e avaliados. Os resultados indicaram que ambos os algoritmos apresentaram desempenho preditivo elevado. A Regressão Logística destacou-se como alternativa principal por combinar alta acurácia (0,8980), melhor desempenho em AUC-ROC, AUC-PR e precisão, além de maior interpretabilidade, enquanto o Random Forest obteve recall ligeiramente superior e F1-score equivalente. Concluiu-se que o uso de técnicas de machine learning é viável para apoiar ações de segmentação, priorização de usuários e retenção em “iGaming”, desde que acompanhado de validação contínua, monitoramento de desempenho e revisão periódica da definição operacional de “churn”.

Palavras-chave: Ambiente não contratual; Evasão de clientes; Random Forest; Regressão logística; Retenção de clientes.

1. Introdução

A transformação digital tem impulsionado a capacidade das organizações de coletar, armazenar e analisar dados sobre o comportamento dos consumidores, tornando as decisões cada vez mais baseadas em evidências. Nesse cenário, o marketing analytics assume uma posição estratégica, auxiliando na identificação de padrões de consumo, segmentação de públicos e personalização de ofertas, bem como no desenvolvimento de ações para aquisição, retenção e maximização do valor do cliente. Erevelles et al. (2016) destacam que os avanços tecnológicos ampliaram o volume, a velocidade e a variedade dos dados disponíveis, criando novas possibilidades para a compreensão do comportamento do consumidor e a orientação de decisões de marketing. De forma complementar, Kumar e Reinartz (2018) ressaltam a contribuição da analítica em CRM e marketing para a segmentação, campanhas, retenção e gestão do valor do cliente. Dentro desse contexto, o fenômeno do churn, ou evasão de clientes, emerge como um dos principais desafios para empresas em mercados digitais, pois está diretamente associado à interrupção ou ao enfraquecimento do relacionamento do cliente com a organização (Jahromi et al., 2014).

No setor de iGaming, essa discussão adquire relevância particular devido às características do segmento, que engloba plataformas digitais de apostas esportivas, cassino online e poker, operando em um ambiente altamente competitivo, dinâmico e dependente do engajamento recorrente dos usuários. Nesses mercados, a retenção de clientes é crucial, uma vez que a concorrência é intensa, a migração entre plataformas pode ocorrer com facilidade e a recorrência de uso impacta diretamente o desempenho do negócio. A capacidade de identificar sinais prévios de evasão torna-se, portanto, fundamental para as organizações que buscam mitigar perdas de receita, aumentar a permanência dos usuários e otimizar suas estratégias de relacionamento. Merchie e Ernst (2022) reforçam que a predição de churn em online gambling é compatível com abordagens preditivas baseadas no histórico de atividade dos usuários.

A literatura indica que o abandono do cliente geralmente não ocorre de forma aleatória, sendo frequentemente precedido por alterações observáveis em seu comportamento, como variações em recência, frequência e valor monetário das interações. Kaya et al. (2018) demonstram que padrões comportamentais dinâmicos, extraídos de registros transacionais, podem prever decisões de churn de maneira mais eficaz do que atributos demográficos. Mena et al. (2024) complementam, afirmando que medidas de recência, frequência e valor monetário, variantes no tempo, constituem uma base relevante para a predição de churn. Essa perspectiva é ainda mais crítica em modelos de negócio não contratuais, nos quais a perda do cliente não se manifesta por um cancelamento explícito, mas por sinais de redução ou interrupção da atividade observável. Fader e Hardie (2007) explicam que, em contextos não contratuais, o momento em que o cliente se torna inativo não é diretamente observável pela empresa, o que aproxima o fenômeno do churn da realidade das plataformas de iGaming, onde a evasão é inferida a partir do comportamento transacional do usuário.

No Brasil, a importância do tema foi intensificada pela recente regulamentação do mercado de apostas de quota fixa e jogos online. A Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023, estabeleceu o marco normativo para a exploração da aposta de quota fixa e incluiu os jogos online, condicionando a operação à autorização prévia do poder público (BRASIL, 2023). Adicionalmente, o Ministério da Fazenda registrou o início da operação plena do mercado regulado em janeiro de 2025 (BRASIL, 2024), o que reforça a institucionalização do setor e a necessidade de práticas de gestão mais estruturadas. Em um ambiente regulado, competitivo e intensivo em dados, a compreensão do comportamento dos usuários e a antecipação de movimentos de evasão tornam-se ainda mais relevantes para decisões mercadológicas e gerenciais.

A escolha do tema também se alinha ao crescente uso de dados na tomada de decisão organizacional. Com a maior disponibilidade de registros comportamentais e transacionais, é possível empregar métodos analíticos para identificar padrões e classificar perfis de usuários, subsidiando decisões baseadas em evidências. Mitchell (1997) explica que o aprendizado de máquina se baseia na construção de sistemas que melhoram seu desempenho a partir da experiência, oferecendo suporte teórico para sua aplicação em problemas com grandes volumes de dados e reconhecimento de padrões. No contexto do iGaming, essa abordagem é particularmente adequada, pois o churn nem sempre se manifesta por um cancelamento explícito; em muitos casos, o usuário apenas reduz sua atividade ou deixa de interagir com a plataforma, exigindo que o abandono seja identificado por sinais observados no próprio comportamento.

Diante desse cenário, emerge a seguinte questão de pesquisa: em que medida variáveis comportamentais e transacionais permitem predizer churns em plataformas de iGaming, em ambiente não contratual? Sob a perspectiva acadêmica, o estudo integra os campos de marketing analytics, retenção de clientes e aprendizado de máquina, alinhando-se à Ciência de Dados. Do ponto de vista prático, a pesquisa pode contribuir para a identificação antecipada de usuários com maior risco de evasão, favorecendo a priorização de ações de retenção, segmentação e relacionamento orientadas por dados. Nesse contexto, o objetivo geral deste trabalho consiste em desenvolver e avaliar modelos preditivos capazes de estimar a probabilidade de churn de usuários em plataformas de iGaming, com base em variáveis comportamentais e transacionais, a fim de apoiar decisões de marketing analytics voltadas à antecipação da evasão.

2. Material e Métodos

A pesquisa caracterizou-se como aplicada, de abordagem quantitativa, finalidade preditiva e delineamento observacional retrospectivo. O objetivo preditivo consistiu em estimar a probabilidade de “churn” em plataformas de iGaming, utilizando dados estruturados de comportamento e transações de usuários, analisados por técnicas estatísticas e de machine learning (Gil, 2002; Prodanov e Freitas, 2013). Para isso, empregaram-se dados secundários de uma empresa de grande porte do setor de iGaming, cuja identidade foi preservada por confidencialidade. A unidade de análise foi a instância usuário-data, estruturada em um painel diário por usuário. A extração inicial dos dados foi realizada por consultas SQL sobre a base `kpis_usuarios_daily`, reunindo variáveis como depósitos, saques, “cashback”, “turnover” de cassino, prêmio de cassino e “gross gaming revenue” (GGR), relacionadas ao início do relacionamento, volume transacional e intensidade de atividade na plataforma.

Para a construção da base analítica, definiu-se uma coorte de usuários que realizaram o primeiro depósito (FTD) em janeiro de 2025, acompanhada ao longo do ano. O painel diário completo por usuário foi construído para representar explicitamente os dias com e sem movimentação, essencial para a rotulagem do “churn” em ambiente não contratual. A base passou por procedimentos de consistência e preparação, incluindo padronização de dados, verificação de duplicidades e checagem de datas inconsistentes. Observações com FTD posterior à data de referência e instâncias sem janela futura suficiente para a rotulagem da variável-alvo foram excluídas para evitar vazamento temporal.

A variável-alvo, “churn”, foi inferida com base na interrupção observável da atividade transacional do usuário, considerando movimentação financeira (depósito ou saque) como atividade relevante. Foram avaliadas janelas de inatividade de 15 e 30 dias consecutivos, sendo a de 30 dias adotada como cenário principal por ser mais conservadora e reduzir a sensibilidade do rótulo a pausas temporárias.

As variáveis incluídas na modelagem foram selecionadas por sua disponibilidade empírica e aderência teórica ao problema de “churn”, priorizando atributos de recência, frequência, intensidade monetária, maturidade do relacionamento e mudanças temporais no padrão de movimentação (Kaya et al., 2018; Mena et al., 2024). Entre as principais, destacaram-se `valor_ftd_usuario`, `tempo_desde_ftd`, `ticket_medio_deposito_30d`, `desaceleracao_atividade`, `dias_ativos_15d`, `qtd_deposito_15d` e `proporcao_dias_ativos_30d`, que sintetizaram a atividade recente do usuário.

Para a predição de “churn”, utilizaram-se algoritmos supervisionados de classificação. A Regressão Logística foi adotada como modelo principal e baseline, devido à sua simplicidade e interpretabilidade (James et al., 2021). O algoritmo Random Forest foi empregado como modelo comparativo, por sua capacidade de capturar relações não lineares (Breiman, 2001).

A validação dos modelos foi realizada por meio de holdout temporal, estratégia adequada a bases com estrutura cronológica (Roberts et al., 2017). O corte temporal para separação analítica foi em 25 de setembro de 2025, assegurando que os preditores fossem calculados com informação disponível até a data de referência.

Na especificação conservadora, a Regressão Logística foi treinada com 739.349 observações e testada em 197.232. O Random Forest foi treinado com 738.995 observações e testado em 196.979. O desempenho preditivo foi analisado por “accuracy”, AUC-PR, AUC-ROC, precisão, “recall”, “F1-score” e matriz de confusão (Fawcett, 2006; Powers, 2011; Saito e Rehmsmeier, 2015).

Os procedimentos computacionais foram realizados em ambiente Databricks. A extração inicial dos dados foi feita por consultas SQL, enquanto a preparação da base, criação de variáveis e definição da variável-alvo foram conduzidas em PySpark. A modelagem utilizou bibliotecas de machine learning. O estudo foi desenvolvido com dados secundários de uma empresa de iGaming, com identidade preservada por confidencialidade, focando em padrões de comportamento transacional e temporal, sem objetivo de identificação individual dos usuários, respeitando o sigilo informacional.

3. Resultados e Discussão

Esta seção apresenta os resultados obtidos na etapa empírica do estudo, com ênfase na definição da variável-alvo, nas características da base analítica e na comparação entre os algoritmos Regressão Logística e Random Forest no cenário principal de “churn” em 30 dias. A análise foi conduzida a partir dos resultados observados na execução dos modelos no ambiente Databricks, buscando interpretar os achados não apenas em termos estatísticos, mas também em função de sua utilidade analítica e gerencial para o marketing analytics em iGaming. A discussão articula desempenho preditivo, o perfil de erro dos classificadores e as implicações operacionais para ações de retenção em ambiente não contratual, oferecendo uma compreensão abrangente da aplicação de modelos de machine learning neste contexto.

A variável-alvo, que representa o “churn”, foi construída com base na ausência de movimentação futura do usuário em um ambiente não contratual. Inicialmente, foram avaliados dois cenários operacionais de “churn”: 15 e 30 dias consecutivos sem ocorrência de depósito ou saque. No cenário de 15 dias, a classe positiva de “churn” representou 79,58% das instâncias, enquanto a classe negativa correspondeu a 20,42%. Ao ampliar a janela de inatividade para 30 dias, a classe positiva passou a representar 73,90% das observações e a classe negativa 26,10%. Este comportamento indica que a adoção de uma janela mais longa reduz a sensibilidade do rótulo a pausas temporárias de curta duração.

A definição de 30 dias mostrou-se mais conservadora para fins analíticos e foi adotada como cenário principal para a comparação entre os algoritmos, embora a escolha permaneça operacional e dependente do contexto de negócio. Essa janela mais longa é mais aderente ao comportamento intermitente típico de plataformas digitais de iGaming. Em ambientes não contratuais, a simples ausência de atividade por poucos dias não representa necessariamente abandono efetivo, podendo refletir pausas naturais no padrão de uso. Assim, o horizonte de 30 dias tende a produzir um rótulo mais estável para a modelagem e mais compatível com decisões de retenção que exigem distinção entre oscilação temporária e evasão provável (Fader et al., 2010; Merchie e Ernst, 2022).

Do ponto de vista descritivo, a base analítica apresentou forte concentração de valores iguais a zero em variáveis transacionais diárias, como depósitos, saques, “turnover” e GGR. Esse padrão é coerente com a estrutura usuário-data utilizada no estudo e com a natureza descontínua da atividade dos usuários em plataformas de iGaming. Analiticamente, isso significa que parte importante da base é formada por dias sem movimentação, o que não constitui erro de construção, mas característica substantiva do fenômeno observado. Em contrapartida, após o refinamento das variáveis, o atributo `valor_ftd_usuario` passou a representar de forma mais consistente uma característica estrutural do usuário ao longo de sua trajetória, ampliando a utilidade informacional do “first-time deposit” para a modelagem.

Esse comportamento descritivo já sugere, antes mesmo da etapa preditiva, que a identificação do “churn” tende a depender menos de um único evento monetário isolado e mais da combinação entre intensidade, frequência e recência do uso. As estatísticas descritivas indicam que a base combina duas propriedades relevantes para o problema de “churn”: elevada assimetria em variáveis monetárias e forte presença de inatividade diária. Em termos de marketing analytics, esse padrão é particularmente importante porque indica que a perda de vínculo com a plataforma não decorre apenas de uma queda abrupta em grandes valores transacionais, mas também de mudanças graduais de frequência e intensidade de uso.

No processo de construção da base, dois aspectos foram particularmente relevantes para a coerência temporal do problema. Em primeiro lugar, a criação do painel diário completo por usuário permitiu representar explicitamente os dias sem movimentação, condição necessária para a correta rotulagem do “churn” em ambiente não contratual. Em segundo lugar, a variável-alvo foi construída sempre a partir de uma janela futura de observação, de modo a evitar o uso de informação posterior ao momento da predição. No cenário principal de “churn” em 30 dias, a separação analítica foi realizada com corte temporal em 25 de setembro de 2025.

Essa separação resultou em 739.349 observações no treino e 197.232 no teste para a Regressão Logística conservadora, e 738.995 observações no treino e 196.979 no teste para o Random Forest conservador. Em termos metodológicos, esse cuidado é central, pois a utilidade de um modelo de “churn” depende de sua capacidade de operar com informação disponível até a data de referência, e não de reproduzir retrospectivamente um comportamento já consumado. A interpretação dos resultados deve considerar que, em problemas dessa natureza, a robustez da evidência também depende da distância temporal entre observação e evento e de validações adicionais fora da amostra.

A comparação entre os algoritmos foi realizada no cenário principal de “churn” em 30 dias. A Regressão Logística foi tratada como modelo principal conservador por combinar desempenho preditivo elevado com maior interpretabilidade, enquanto o Random Forest foi utilizado como modelo comparativo, permitindo verificar se uma abordagem não linear baseada em árvores produziria ganhos substantivos de desempenho. Essa escolha também permite avaliar se a estrutura do problema exige maior complexidade algorítmica ou se parte relevante do sinal pode ser capturada por um classificador mais simples e auditável. O caráter conservador da comparação é especialmente relevante porque, na especificação principal, foram excluídas variáveis excessivamente próximas da definição operacional do “churn”.

A Regressão Logística conservadora apresentou uma “accuracy” de 0,8980, um AUC-ROC de 0,9212 e um AUC-PR de 0,9743. Adicionalmente, obteve uma “precision” de 0,9232, um “recall” de 0,9540 e um “F1-score” de 0,9384. Esses valores indicam um desempenho preditivo robusto, com alta capacidade de discriminação entre as classes de “churn” e “não churn” em diferentes limiares de decisão. A combinação de métricas elevadas reforça a viabilidade do modelo para a antecipação da evasão em plataformas de iGaming, oferecendo um suporte significativo para decisões de marketing analytics.

O Random Forest conservador, por sua vez, obteve uma “accuracy” de 0,8976, um AUC-PR de 0,9641, um AUC-ROC de 0,9044, uma “precision” de 0,9127, um “recall” de 0,9664 e um “F1-score” de 0,9388. Em termos estritamente numéricos, as diferenças entre os modelos foram pequenas. Esse resultado sugere que parte substantiva do sinal preditivo pode ser capturada mesmo por uma fronteira de decisão mais simples. Contudo, a proximidade entre desempenhos também recomenda cautela: em problemas com variáveis recentes muito informativas, resultados elevados podem refletir tanto a capacidade de antecipação quanto a forte proximidade entre o comportamento observado e o evento que se busca prever.

A leitura das métricas precisa ser feita com cautela, especialmente devido à distribuição assimétrica das classes. Como a classe positiva de “churn” representa 73,90% da base no cenário de 30 dias, a “accuracy”, isoladamente, possui utilidade limitada como critério de decisão. Como referência mínima, um classificador ingênuo que previsse sempre “churn” já alcançaria acurácia de aproximadamente 0,7390, sem oferecer capacidade discriminatória comparável. Nesse contexto, a Regressão Logística conservadora elevou a “accuracy” para 0,8980, o que representa um ganho de cerca de 15,9 pontos percentuais sobre esse baseline trivial.

Por essa razão, as métricas mais relevantes para a interpretação dos resultados são AUC-PR, AUC-ROC, “precision”, “recall”, “F1-score” e, complementarmente, a matriz de confusão. Sob essa perspectiva, a Regressão Logística apresentou melhor desempenho em AUC-ROC, AUC-PR e “precision”, enquanto o Random Forest alcançou “recall” ligeiramente superior e “F1-score” praticamente equivalente. Esse padrão indica que o Random Forest foi um pouco mais agressivo na recuperação de “churns” reais, ao passo que a Regressão Logística preservou melhor a separação entre as classes ao longo dos limiares e o controle relativo de falsos positivos.

A análise da matriz de confusão reforça essa diferença de perfil. Na execução consolidada, a Regressão Logística conservadora produziu 23.931 verdadeiros negativos, 12.691 falsos positivos, 7.350 falsos negativos e 152.553 verdadeiros positivos. O Random Forest conservador, por sua vez, produziu 22.207 verdadeiros negativos, 14.781 falsos positivos, 5.376 falsos negativos e 154.479 verdadeiros positivos. Em termos substantivos, isso significa que o Random Forest recuperou mais “churns” reais, porém ao custo de acionar incorretamente um número maior de usuários.

Como essas matrizes dependem do limiar de classificação adotado na execução dos experimentos, elas devem ser lidas como retrato operacional do “trade-off” entre cobertura e seletividade no cenário testado. Em termos de negócio, essa diferença é relevante porque a escolha do modelo não depende apenas do desempenho estatístico agregado, mas também da lógica operacional das ações de retenção. Em um contexto em que o custo de contatar ou bonificar usuários seja elevado, um modelo com maior “precision” pode ser mais adequado. Por outro lado, em estratégias nas quais a prioridade seja maximizar a cobertura dos usuários com risco de evasão, um modelo com “recall” mais alto pode ser preferível.

Essa interpretação aproxima os resultados do campo de marketing analytics. Em aplicações práticas, um modelo de “churn” não é utilizado apenas para classificação abstrata, mas para orientar decisões como priorização de campanhas, definição de públicos para CRM, segmentação de risco e alocação de orçamento promocional. Nesse sentido, a diferença entre os algoritmos pode ser lida como uma diferença entre estratégias de acionamento: uma mais seletiva, com menor dispersão de esforços, e outra mais abrangente, com maior cobertura, mas com maior risco de contatos desnecessários.

Em termos gerenciais, isso significa que o score preditivo pode ser incorporado a réguas distintas de relacionamento, combinando risco de evasão com valor do usuário, sensibilidade promocional e custo esperado de intervenção. Tal leitura é convergente com estudos que situam a predição de “churn” como instrumento relevante para a retenção e para a tomada de decisão em CRM no setor de online gambling (Coussement e De Bock, 2013). A análise das importâncias das variáveis no modelo Random Forest evidenciou a predominância de atributos associados à atividade recente e à frequência transacional.

No caso do Random Forest, entre os seis atributos mais relevantes, destacaram-se `dias_ativos_15d`, `qtd_deposito_15d`, `qtd_deposito_30d`, `deposito_15d`, `proporcao_dias_ativos_30d` e `deposito_30d`. Esses achados indicam que a distinção entre usuários com maior e menor probabilidade de “churn” está fortemente associada à intensidade e à recorrência recente da atividade. Esse resultado é coerente com a literatura sobre “churn” em contextos não contratuais, que tende a destacar a centralidade de indicadores ligados à recência, à frequência e à intensidade comportamental (Fader et al., 2010).

No caso específico do iGaming, a relevância dessas variáveis sugere que o enfraquecimento do vínculo com a plataforma se torna observável sobretudo por meio da redução da atividade transacional nas janelas mais próximas da data de referência, em linha com a formulação do “churn” como problema de classificação em online gambling apresentada por Merchie e Ernst (2022). Ao mesmo tempo, a predominância de atributos muito recentes impõe uma ressalva importante: parte do desempenho pode decorrer do fato de que tais variáveis funcionam como marcadores bastante próximos do próprio evento de “churn”.

Isso fortalece a previsão de curto prazo, mas não elimina a necessidade de testes adicionais para avaliar generalização em horizontes mais distantes. Em termos gerenciais, isso significa que modelos preditivos podem ser particularmente úteis para identificar sinais precoces de afastamento, permitindo acionar usuários antes que a evasão se consolide. Entretanto, os achados sugerem utilidade maior para intervenções de curto prazo do que para decisões estratégicas de horizonte longo, já que a força das variáveis recentes tende a reduzir a distância entre detecção de enfraquecimento comportamental e materialização do “churn”.

Assim, embora os resultados sejam favoráveis à utilização de machine learning para antecipação do “churn”, eles devem ser compreendidos no recorte específico deste estudo, sem generalizações excessivas e sem presumir desempenho equivalente em outras janelas temporais ou em bases estruturadas de modo distinto. Em relação à interpretabilidade da Regressão Logística, os coeficientes do modelo representam a variação no logaritmo das chances de “churn” associada a cada variável, mantidas as demais constantes. Coeficientes positivos indicam associação com aumento das chances de “churn”, enquanto coeficientes negativos indicam associação com redução dessas chances.

A exponenciação do coeficiente fornece a razão de chances (“odds ratio”): valores acima de 1 indicam aumento das chances relativas e valores abaixo de 1 indicam redução. Entretanto, a versão consolidada da modelagem utilizada neste trabalho não preservou a tabela com os coeficientes individuais das variáveis. Por esse motivo, não são apresentados valores específicos que não estejam registrados nos resultados originais. A interpretação substantiva da Regressão Logística permanece, portanto, apoiada nas métricas de desempenho, no perfil de erros observado e na lógica comportamental das variáveis utilizadas na modelagem.

A escolha da Regressão Logística como modelo principal é defensável no contexto analisado. Embora o Random Forest tenha apresentado “recall” ligeiramente superior e “F1-score” praticamente equivalente, a Regressão Logística obteve resultados melhores em AUC-ROC, AUC-PR e “precision”, além de oferecer maior interpretabilidade. Esse padrão sugere que a introdução de maior complexidade algorítmica não produziu ganho proporcional nas métricas mais úteis para uma aplicação gerencial seletiva. Em termos práticos, a diferença entre os modelos equivale a privilegiar maior cobertura de “churns” reais, no caso do Random Forest, ou menor volume de acionamentos indevidos, no caso da Regressão Logística.

Em contexto empresarial, essa característica possui relevância concreta, pois facilita a comunicação com áreas de negócio, a auditabilidade do processo analítico e a incorporação do modelo em rotinas de decisão orientadas por marketing. Assim, a opção pelo modelo logístico não decorre apenas de preferência metodológica, mas de uma combinação entre desempenho competitivo, parcimônia analítica e maior transparência para uso aplicado. Essa abordagem permite que as equipes de marketing compreendam melhor os fatores que influenciam o “churn” e desenvolvam estratégias de retenção mais eficazes e direcionadas.

Como exercício ilustrativo de aplicação gerencial, considerou-se o conjunto associado à matriz de confusão da Regressão Logística, totalizando 196.525 instâncias. Com 165.244 casos classificados como positivos pelo modelo, obtidos pela soma entre verdadeiros positivos e falsos positivos, uma estratégia orientada pelo “score” reduziria em aproximadamente 16% o volume de acionamentos em comparação com o contato indiscriminado de toda a base. Admitindo-se, apenas para fins de simulação, um custo médio de R$ 5,00 por contato ou ação de retenção, o custo estimado passaria de R$ 982.625,00 para R$ 826.220,00.

Essa redução corresponde a uma economia potencial de R$ 156.405,00 por ciclo. Esse valor não representa ganho financeiro efetivamente observado pela empresa, pois a simulação não incorpora taxa de conversão das campanhas, valor do cliente, custo de incentivos ou retorno incremental das ações de retenção. Seu objetivo é demonstrar como a priorização baseada no risco de “churn” pode contribuir para uma alocação mais eficiente do orçamento de marketing. A capacidade de otimizar os recursos de marketing é um benefício significativo para as empresas do setor de iGaming.

Os resultados, portanto, indicam que a aplicação de técnicas de machine learning ao marketing analytics em iGaming é promissora para a antecipação do “churn” no horizonte de 30 dias adotado neste estudo. As evidências obtidas sugerem que variáveis comportamentais e transacionais recentes possuem forte capacidade de discriminar usuários com maior probabilidade de evasão e que diferentes algoritmos podem oferecer perfis distintos de utilidade gerencial. Nesse sentido, os achados reforçam a viabilidade do uso de modelos preditivos como suporte à segmentação, à priorização de usuários e ao planejamento de ações de retenção em ambientes não contratuais.

Em síntese, a predição de “churn” em iGaming pode gerar valor analítico e gerencial quando integrada a práticas de marketing analytics, especialmente em atividades de segmentação, priorização de usuários e planejamento de retenção. Entre os modelos avaliados, a Regressão Logística conservadora foi adotada como alternativa principal por reunir desempenho estatístico competitivo, melhor comportamento em AUC-ROC, AUC-PR e “precision” e maior interpretabilidade para uso aplicado, mantendo “accuracy” de 0,8980 mesmo em uma especificação mais prudente. O Random Forest, por sua vez, contribuiu como benchmark relevante, ampliou a compreensão do “trade-off” entre cobertura e seletividade e reforçou a importância das variáveis de atividade recente e frequência transacional para a leitura do risco de evasão. Considerados em conjunto, os resultados sustentam a viabilidade do uso de modelos preditivos no problema estudado, mas também indicam que sua adoção prática deve ser acompanhada de validação contínua, monitoramento de desempenho e revisão periódica da definição operacional de “churn”.

4. Conclusão

O presente trabalho objetivou desenvolver e avaliar modelos preditivos para estimar a probabilidade de churn de usuários em plataformas de iGaming, utilizando variáveis comportamentais e transacionais, com o intuito de apoiar decisões de marketing analytics na antecipação da evasão. Verificou-se que tanto a Regressão Logística quanto o Random Forest apresentaram desempenho preditivo elevado no cenário principal de churn, definido por 30 dias de inatividade. A Regressão Logística destacou-se como a alternativa principal, combinando alta acurácia de 0,8980, melhor desempenho em AUC-ROC e AUC-PR, e maior precisão, além de oferecer maior interpretabilidade para aplicação gerencial. Observou-se que o Random Forest obteve um recall ligeiramente superior e F1-score equivalente, mas com um custo maior em falsos positivos. Os achados indicaram que a capacidade de discriminar usuários com maior probabilidade de evasão está fortemente associada a atributos de atividade recente e frequência transacional, como dias ativos e quantidade de depósitos em janelas de 15 e 30 dias. A principal contribuição do estudo reside em demonstrar a viabilidade do uso de técnicas de machine learning para gerar valor analítico e gerencial em iGaming, subsidiando a segmentação, a priorização de usuários e o planejamento de ações de retenção de forma mais eficiente, com potencial de otimização de recursos de marketing.

Contudo, o estudo apresentou algumas limitações que merecem consideração. A definição operacional de churn adotada foi específica para o contexto analisado e dependente da janela temporal de 30 dias, o que pode não se generalizar para outros cenários. A predominância de variáveis muito recentes, embora útil para a previsão de curto prazo, pode não assegurar o mesmo nível de desempenho preditivo em horizontes mais longos ou em bases de dados com estruturas distintas. Além disso, a avaliação dos modelos foi realizada em um recorte temporal específico, sem validações adicionais em diferentes períodos ou com dados externos. Para estudos futuros, sugere-se a realização de testes com outros horizontes de inatividade e limiares de classificação, a implementação de estratégias adicionais de validação temporal, a calibração dos escores preditivos e a integração com métricas de valor do cliente e retorno das ações de retenção. Recomenda-se também ampliar a comparação entre algoritmos, incorporar novas variáveis comportamentais e promocionais, e investigar o desempenho dos modelos em diferentes contextos operacionais do setor, a fim de fortalecer a robustez analítica e a aplicabilidade prática dos resultados obtidos.

Referências Bibliográficas

Brasil. 2023. Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023. Dispõe sobre a modalidade lotérica denominada aposta de quota fixa, altera as Leis nº 5.768, de 20 de dezembro de 1971, nº 13.756, de 12 de dezembro de 2018, e n° 14.183, de 14 de julho de 2021, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14790.htm . Acesso em: 8 abr. 2026.

Brasil. Ministério da Fazenda. 2024. Regulamentação feita pela Secretaria de Prêmios e Apostas coloca Brasil em mercado regulado de apostas em 2025. Brasília, DF, 26 dez. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2024/dezembro/regulamentacao-feita-pela-secretaria-de-premios-e-apostas-coloca-brasil-em-mercado-regulado-de-apostas-em-2025 . Acesso em: 8 abr. 2026.

Breiman, L. 2001. Random forests. Machine Learning, v. 45, n. 1, p. 5-32. DOI: 10.1023/A:1010933404324.

Erevelles, S.; Fukawa, N.; Swayne, L. 2016. Big data consumer analytics and the transformation of marketing. Journal of Business Research, v. 69, n. 2, p. 897-904. DOI: 10.1016/j.jbusres.2015.06.041.

Fader, P. S.; Hardie, B. G. S. 2007. How to project customer retention. Journal of Interactive Marketing, v. 21, n. 1, p. 76-90. DOI: 10.1002/dir.20074.

Gil, A. C. 2002. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas.

Jahromi, A. T.; Stakhovych, S.; Ewing, M. 2014. Managing B2B customer churn, retention and profitability. Industrial Marketing Management, v. 43, n. 7, p. 1258-1268. DOI: 10.1016/j.indmarman.2014.06.016.

James, G.; Witten, D.; Hastie, T.; Tibshirani, R. 2021. An introduction to statistical learning: with applications in R. 2. ed. New York: Springer. DOI: 10.1007/978-1-0716-1418-1.

Kaya, E.; Dong, X.; Pentland, A. S. 2018. Behavioral attributes and financial churn prediction. EPJ Data Science, v. 7, art. 41. DOI: 10.1140/epjds/s13688-018-0165-5.

Kumar, V.; Reinartz, W. 2018. Customer relationship management: concept, strategy, and tools. 3. ed. Berlin: Springer. DOI: 10.1007/978-3-662-55381-7.

Mena, G.; Coussement, K.; De Bock, K. W.; De Caigny, A.; Lessmann, S. 2024. Exploiting time-varying RFM measures for customer churn prediction with deep neural networks. Annals of Operations Research v. 339, p. 765-787. DOI: 10.1007/s10479-023-05259-9.

Merchie, F.; Ernst, D. 2022. Churn prediction in online gambling. Future Generation Computer Systems, v. 132, p. 108-123. DOI: 10.1016/j.future.2022.02.013.

Mitchell, T. M. 1997. Machine learning. ISBN 9780071154673. McGraw-Hill.

Prodanov, C. C.; Freitas, E. C. 2013. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo: Feevale.

Roberts, D. R.; Bahn

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Você também pode gostar

13 de outubro de 2026

Preditores de óbitos em idosos com síndrome respiratória aguda grave confirmados por Influenza A(H1N1)pdm09

A infecção pelo vírus influenza A(H1N1)pdm09 pode evoluir para Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), com maior risco de óbitos em idosos. O objetivo foi analisar fatores preditores de óbito em casos de SRAG confirmados para influenza A(H1N1)pdm09, entre idosos com 60 anos ou mais, considerando fatores individuais e contextuais das Regiões Administrativas (RA) do Estado de São Paulo (ESP), e comparar o desempenho de modelos de regressão. Realizou-se um estudo descritivo e analítico no ESP, de 2023 a 2024, utilizando dados do SIVEP-Gripe e da Fundação SEADE. Incluíram-se 714 casos confirmados por RT-PCR de influenza A(H1N1)pdm09 em residentes do ESP com 60 anos ou mais. Analisaram-se variáveis sociodemográficas, clínicas, de internação, tratamento, vacinação e local de residência. Empregou-se regressão logística binária e hierárquica logística, com o desfecho de evolução para óbito. Dos 714 casos, 202 resultaram em óbito. O modelo final de regressão logística binária associou maior chance de óbito ao sexo masculino, idade avançada, saturação de oxigênio inferior a 95%, internação em UTI e uso de suporte ventilatório invasivo. A presença de tosse e o uso de antiviral foram associados a menor chance de óbito. O modelo hierárquico logístico apresentou desempenho semelhante, com pequena contribuição contextual residual das RA. Concluiu-se que o modelo de regressão logística binária foi suficiente e mais simples para representar os dados, sendo adotado como modelo final.

Palavras-chave: Influenza A(H1N1)pdm09; Modelagem hierárquica logística; Óbito por Influenza A(H1N1)pdm09; Regressão logística; Síndrome Respiratória Aguda Grave.

13 de outubro de 2026

Uma visão geral comparativa das frotas de veículos elétricos no Brasil e na União Europeia

O transporte rodoviário contribui para aproximadamente 20% das emissões globais de CO2, impulsionando a busca por soluções de mobilidade mais limpas, como veículos elétricos. O objetivo deste estudo foi comparar os mercados de veículos elétricos no Brasil e na União Europeia, contrastando suas políticas, adoção por consumidores e desenvolvimento de infraestrutura. Empregou-se um desenho de pesquisa descritiva comparativa, analisando dados quantitativos da Associação Brasileira do Veículo Elétrico, Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, European Alternative Fuels Observatory e European Environment Agency para o período de 2015 a 2024, complementados por análise qualitativa de documentos de política. Os resultados revelaram uma divergência estrutural fundamental: o Brasil apresentou crescimento exponencial de 80,7% ao ano (2022-2025), com híbridos compreendendo aproximadamente 66% das vendas e impulsionado por incentivos fiscais que alavancam a bioeconomia do etanol. A União Europeia, por sua vez, mostrou expansão em fase de consolidação a uma taxa anual de 8,35% (2008-2025), com veículos elétricos a bateria superando 40% dos novos registros, impulsionados por mandatos regulatórios vinculativos. A análise de densidade de infraestrutura indicou que a rede pública de carregamento da União Europeia (55,3 pontos por mil veículos de combustível alternativo) era o dobro da brasileira (27,9 pontos por mil veículos eletrificados). A quantificação ambiental confirmou que a matriz energética predominantemente renovável do Brasil (64 gCO2/kWh) resultou em emissões well-to-wheel substancialmente menores em comparação com a matriz da União Europeia (246 gCO2/kWh). Concluiu-se que o modelo brasileiro, com incentivos fiscais neutros em tecnologia e aproveitamento da infraestrutura de biocombustíveis, pode acelerar a adoção de híbridos em economias emergentes com baixo gasto público. Para mercados maduros, o modelo da União Europeia, com mandatos regulatórios, estabeleceu um mercado dominante de veículos elétricos a bateria, embora com custo fiscal mais elevado.

Palavras-chave: Energia renovável; Mercado; Qualitativo; Quantitativo.

13 de outubro de 2026

População e Imigração no Japão: Projeções com Séries Temporais e Análise Causal Demográfica até 2044

O envelhecimento populacional e a baixa taxa de fecundidade configuram desafios demográficos complexos no Japão, acompanhados pela expansão da imigração estrangeira como resposta às restrições de oferta de mão de obra. O estudo teve como objetivo analisar as tendências demográficas japonesas e projetar sua evolução até 2044, com ênfase nas relações entre declínio populacional, fecundidade e imigração. Aplicaram-se os modelos de séries temporais ARIMA e Prophet a dados históricos do Banco Mundial, do Instituto Nacional de Pesquisa Populacional e Segurança Social do Japão e da Agência de Serviços de Imigração do Japão, abrangendo o período de 2003 a 2023 para a série populacional e de 2014 a 2024 para a série imigratória. A análise incluiu estatísticas descritivas, correlação de Pearson, teste de estacionariedade de Dickey-Fuller aumentado e testes de causalidade de Granger, além da avaliação preditiva por meio das métricas MAE e MAPE. Os resultados evidenciaram a continuidade da redução populacional e o crescimento do contingente de imigrantes nas projeções até 2044. O Prophet apresentou menores valores de MAE e MAPE nos conjuntos de teste, embora a curta extensão da série imigratória limitasse a capacidade de generalização. Os testes de causalidade temporal não identificaram evidências estatisticamente significativas de precedência entre população e imigração. Concluiu-se que a imigração pode contribuir para mitigar restrições de oferta de mão de obra, mas não constitui, isoladamente, mecanismo suficiente para reverter o declínio populacional japonês.

Palavras-chave: Declínio populacional; Demografia; Fertilidade; Fluxos migratórios; Séries temporais.

13 de outubro de 2026

Marketing digital e engajamento no youTube: estratégias para canais de crimes reais no Brasil

O fenômeno dos crimes reais consolidou-se como um nicho de crescimento no YouTube brasileiro, impulsionado pela expansão das mídias digitais e pelo fascínio do público. Contudo, muitos criadores enfrentaram dificuldades para alcançar crescimento sustentável. Analisou-se como as estratégias de marketing digital influenciaram o crescimento, o engajamento e a monetização de canais brasileiros de crimes reais na plataforma YouTube. Adotou-se pesquisa de abordagem mista, qualitativa e quantitativa, de natureza exploratória e descritiva. Analisaram-se quatro canais brasileiros do nicho por meio de análise documental de conteúdos, coleta de métricas públicas via Social Blade e Noxinfluencer, e aplicação de questionários a quatro criadores e a 104 espectadores. Os resultados evidenciaram que os canais de maior desempenho adotaram estratégias distintas, como abordagem narrativa linear e contextualizada, comunicação emocional personalizada, postura técnico-informativa ou conteúdo opinativo provocativo. Verificou-se convergência entre criadores e audiência sobre a centralidade do storytelling para retenção, com a maioria dos espectadores afirmando que a forma como a história era contada determinava a continuidade da visualização. Os criadores indicaram o tempo médio de retenção como métrica mais preditiva para crescimento sustentável, embora 100% dependessem exclusivamente do AdSense para monetização, revelando vulnerabilidade financeira. Concluiu-se que o sucesso no nicho depende da integração entre marketing digital, identidade narrativa consistente e responsabilidade ética.

Palavras-chave: creator economy; engajamento digital; marketing de conteúdo; storytelling; true crime.

13 de outubro de 2026

Utilização de técnicas de Machine Learning Não Supervisionado para planejamento de trabalho de revisão de remunerações para aposentadoria

O dimensionamento de pessoal e a gestão de fluxos de aposentadoria em órgãos públicos federais configuraram desafios estratégicos complexos. O estudo teve como objetivo aplicar técnicas de Machine Learning não supervisionado, especificamente Agrupamento (K-means) e Análise de Correspondência Múltipla (ACM), para aprimorar o planejamento de revisões funcionais em uma autarquia federal brasileira. A metodologia consistiu no processamento de uma base validada de 487 servidores ativos. Inicialmente, variáveis quantitativas, como idade, tempo de contribuição e remuneração, foram submetidas ao algoritmo K-means, resultando na formação de cinco clusters, apoiada no Método do Cotovelo e Coeficiente de Silhueta. Subsequentemente, os grupos foram integrados a variáveis qualitativas via ACM, projetadas em um mapa perceptual que explicou 74,81% da inércia dos dados. Os resultados revelaram que os clusters 0 e 3 representaram os perfis de maior criticidade previdenciária, concentrando todos os beneficiários de abono de permanência e a maioria dos cargos extintos. A pesquisa gerou um Plano de Ação escalonado, priorizando os 75 servidores desses clusters que integralizaram os requisitos de aposentadoria até 2025, com diretriz similar para 2026. Em contrapartida, o cluster 2 apresentou menor risco, com inatividade prevista apenas a partir de 2031. O modelo mostrou-se amplamente favorável como ferramenta de auditoria e saneamento, embora sua plena eficácia dependa de uma governança de dados mais rigorosa no serviço público.

Palavras-chave: Agrupamento; Análise de Correspondência Múltipla (ACM); Aposentadoria; Clusterização.

13 de outubro de 2026

Gestão de vendas para o desempenho de uma empresa do setor imobiliário

A gestão de vendas desempenha um papel estratégico no desempenho organizacional, especialmente em setores de desenvolvimento imobiliário, caracterizados por complexidade comercial. Este estudo teve como objetivo analisar a contribuição das práticas de gestão de vendas para o desempenho comercial e organizacional de uma empresa do setor imobiliário, considerando seu modelo de atuação e estrutura comercial. A pesquisa caracterizou-se como exploratória, com abordagem qualitativa e quantitativa, adotando um estudo de caso único. Coletaram-se dados por meio de triangulação, utilizando pesquisa documental e questionário estruturado aplicado à equipe de vendas terceirizada. Os resultados indicaram que a empresa estruturou suas práticas de gestão comercial com metas mensais e anuais, campanhas de marketing e sistemas de incentivos. O desempenho foi acompanhado por indicadores quantitativos, como volume de vendas e percentual de atingimento de metas. No período analisado, realizaram-se 179 vendas, correspondendo a 74,6% da meta anual estabelecida. Observaram-se oportunidades de aprimoramento no alinhamento entre planejamento comercial, acompanhamento de resultados e efetividade das estratégias. A percepção dos corretores apontou limitações nos sistemas de incentivo, como a ausência de progressividade nas comissões e a duração das premiações. Concluiu-se que, embora a gestão de vendas influencie o desempenho organizacional, existem fragilidades no alinhamento entre esforço, recompensa e motivação da força de vendas. Recomendaram-se o fortalecimento do acompanhamento sistemático, a melhoria da comunicação, a definição de metas mais realistas e a implementação de incentivos progressivos para potencializar os resultados comerciais.

Palavras-chave: Estratégias de vendas; Força de vendas; Gestão comercial; Indicadores de desempenho; Setor imobiliário.

13 de outubro de 2026

Delineo: Adaptação de modelo de difusão para prototipagem de interface de usuário guiada por esboço

A evolução da inteligência artificial e das redes neurais profundas revolucionou as interações humano-máquina. Modelos generativos, embora promissores para a síntese de imagens, enfrentam desafios na prototipagem de interfaces de usuário (UI) ao falhar em respeitar a estrutura espacial. Para solucionar essa divergência, propôs-se uma abordagem de difusão latente condicionada, integrando uma arquitetura de controle a um modelo de larga escala ajustado para interfaces móveis, que suportou esboços de UI para guiar a inferência de imagens. A base de dados de treinamento foi composta por aproximadamente 12.400 imagens de UI e esboços de fontes públicas, pré-processadas e enriquecidas com dados sintéticos e instruções textuais. A abordagem utilizou um modelo Stable Diffusion 3.5 Large como base, adaptado com ControlNet canny edges e um adaptador LoRA. A viabilidade da abordagem foi validada por avaliação quantitativa, empregando uma métrica de similaridade semântica normalizada (SSN) baseada em Sentence-BERT, e por análise qualitativa com 20 especialistas da indústria. Os resultados confirmaram que o método superou as capacidades do modelo original. Contudo, a avaliação evidenciou que a eficácia na estruturação lógica da interface ainda enfrentava degradação estética e perda de elementos funcionais. Concluiu-se que, embora a tecnologia comprove sua viabilidade técnica para otimizar a transição entre requisitos e a implementação de código, a automatização de processos criativos demanda aprimoramentos arquiteturais para atingir o rigor visual exigido pela indústria de desenvolvimento de software.

Palavras-chave: Adaptação de baixo posto; Aprendizado de máquina; Difusão latente condicionada; Redes neurais profundas.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade