Artigo

30 de setembro de 2026

Preferências do consumidor no mercado de carnes premium no Brasil

Preferências do Consumidor no Mercado de Carnes Premium no Brasil

Bruno Chagury Salcedo; Adriano Matos de Oliveira

DOI: 10.22167/2675-6528-202602735

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

O mercado de carne bovina premium no Brasil destacou-se devido a mudanças no comportamento do consumidor e à valorização de atributos de qualidade e experiência de consumo. O objetivo do estudo foi analisar as preferências dos consumidores brasileiros nesse mercado. Para isso, realizou-se uma pesquisa quantitativa, descritiva e exploratória, com coleta de dados por meio de questionário on-line aplicado a 166 respondentes entre junho e julho de 2025. Os dados foram analisados por estatística descritiva e exploratória. Os resultados evidenciaram que o consumo de carnes premium associou-se majoritariamente a ocasiões específicas, reforçando seu caráter não cotidiano e de maior valor simbólico. A decisão de compra foi influenciada principalmente por atributos sensoriais, como maciez e sabor, e por experiências prévias e recomendações interpessoais. Identificou-se preferência por canais físicos de compra, possivelmente ligada à busca por maior confiança e avaliação direta da qualidade do produto, e disposição moderada para pagar valores adicionais, condicionada ao poder aquisitivo. Concluiu-se que a construção de valor no mercado de carnes premium depende da entrega consistente de qualidade, exigindo alinhamento entre as expectativas e a experiência de consumo.

Palavras-chave: Atributos sensoriais; Comportamento de consumo; Decisão de compra; Experiência de consumo; Percepção de valor.

1. Introdução

O mercado de carne bovina no Brasil possui elevada relevância econômica e cultural, consolidando o país como um dos principais produtores e consumidores mundiais de proteína animal. A cadeia produtiva da pecuária de corte desempenha um papel estratégico no agronegócio nacional, contribuindo significativamente para o Produto Interno Bruto e para a geração de empregos, além de apresentar forte inserção no comércio internacional (Malafaia et al., 2021; Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, 2024; Hötzel e Vandresen, 2022). O consumo de carne é amplamente disseminado entre diferentes perfis populacionais, sendo influenciado por fatores socioeconômicos, regionais e culturais, o que reforça sua importância no contexto alimentar e econômico do país (Bonfim et al., 2024).

Nos últimos anos, observa-se uma transformação no padrão de consumo, impulsionada por mudanças no estilo de vida e pelo aumento da exigência dos consumidores (Tonsor e Lusk, 2019; da Veiga et al., 2023). Países com forte dependência da produção animal, como o Brasil, estão inseridos em um contexto de transformação no setor de proteínas, impulsionado por mudanças tecnológicas, sociais e de consumo. Esse cenário reforça a necessidade de adaptação das cadeias produtivas tradicionais às novas demandas do consumidor, especialmente quanto à valorização de atributos como a qualidade, a origem e a sustentabilidade (da Silva e Conte-Junior, 2024). Nesse contexto, destaca-se o crescimento do segmento de carnes premium, caracterizado por produtos com atributos diferenciados, como qualidade superior, rastreabilidade, certificações e práticas associadas ao bem-estar animal e à sustentabilidade (Morais et al., 2023; Lisbinski, 2019).

O crescimento desse mercado está diretamente relacionado às mudanças no comportamento do consumidor, que passa a valorizar atributos como qualidade, origem, rastreabilidade e experiência sensorial no consumo de carne bovina (Ribeiro, 2022). A decisão de compra deixa de estar predominantemente centrada no preço e passa a incorporar critérios associados à qualidade percebida, à segurança dos alimentos e à confiança no produto, refletindo uma mudança mais ampla na forma como os consumidores avaliam produtos alimentícios (Tonsor e Lusk, 2019; Font-i-Furnols e Guerrero, 2014). A evolução do comportamento do consumidor evidencia uma mudança significativa na forma como os produtos alimentícios são avaliados, incorporando fatores intangíveis, como confiança na marca, atributos sensoriais e percepção de qualidade, que influenciam diretamente o comportamento do consumidor (da Veiga et al., 2023; Grunert, 2020; Asioli et al., 2021). Características como maciez, marmoreio, sabor, certificações e origem tornam-se determinantes na decisão de compra, influenciando diretamente a disposição do consumidor a pagar preços mais elevados (Font-i-Furnols e Guerrero, 2014; Asioli et al., 2021). Aspectos relacionados à sustentabilidade e à produção responsável têm ganhado relevância crescente, impactando a percepção de valor e contribuindo para a diferenciação no mercado de carnes premium (Andreazza et al., 2024).

Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender como os consumidores brasileiros percebem e valorizam os atributos das carnes premium, bem como analisar se as estratégias de posicionamento adotadas pelas empresas estão alinhadas a essas expectativas (Hötzel e Vandresen, 2022; Morais et al., 2023; Grunert, 2020). A crescente competitividade no setor exige que os agentes da cadeia produtiva adotem abordagens mais estratégicas, baseadas em um entendimento aprofundado do comportamento do consumidor, a fim de se diferenciarem no mercado e atenderem às novas demandas (Bonfim et al., 2024; Morais et al., 2023). Apesar dos avanços nos estudos sobre o comportamento do consumidor no mercado de carnes, ainda há lacunas na integração entre a percepção do consumidor e as estratégias de posicionamento no segmento de carnes premium (Grunert, 2020; Asioli et al., 2021; Hötzel e Vandresen, 2022; Banović et al., 2020; da Silva e Conte-Junior, 2024). Grande parte dessas pesquisas concentra-se na análise desses atributos de forma isolada, sem explorar aprofundadamente como esses fatores podem ser traduzidos em estratégias de diferenciação e posicionamento (Tonsor e Lusk, 2019; da Veiga et al., 2023; Lim et al., 2022). Além disso, observa-se uma limitação de estudos aplicados ao contexto brasileiro, o que reforça a necessidade de investigações que considerem as particularidades culturais, econômicas e de consumo do país (da Veiga et al., 2023; Hötzel e Vandresen, 2022).

A relevância deste estudo está associada à crescente importância do segmento premium no agronegócio brasileiro e à necessidade de geração de conhecimento aplicado que auxilie na tomada de decisão estratégica pelos agentes da cadeia produtiva da carne. Ao compreender melhor as preferências do consumidor e as dinâmicas de posicionamento de mercado, espera-se contribuir para o desenvolvimento de estratégias mais eficientes e alinhadas às demandas contemporâneas. Assim, o objetivo deste estudo é analisar as preferências dos consumidores brasileiros no mercado de carnes premium e as estratégias de posicionamento adotadas pelas empresas do setor.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de abordagem predominantemente quantitativa, com suporte qualitativo, de natureza aplicada. A abordagem quantitativa foi empregada para mensurar padrões de comportamento e identificar relações entre atributos valorizados e a decisão de compra no segmento de carnes premium, permitindo a análise estruturada dos dados coletados (Malhotra, 2019; Hair et al., 2019). O suporte qualitativo, por sua vez, contribuiu para a interpretação dos resultados, especialmente na compreensão de percepções subjetivas associadas à qualidade, confiança e valor percebido (Creswell, 2014).

Quanto aos objetivos, a pesquisa foi classificada como aplicada, buscando gerar conhecimentos voltados à tomada de decisão e ao aprimoramento de estratégias de posicionamento no mercado. Adicionalmente, caracterizou-se como descritiva, ao identificar e analisar padrões de comportamento do consumidor, e exploratória, ao investigar relações ainda pouco aprofundadas entre atributos de qualidade e estratégias de diferenciação no contexto brasileiro (Malhotra, 2019; Gil, 2022).

A população-alvo do estudo foi composta por consumidores adultos com potencial ou hábito de consumo de carne bovina no Brasil, abrangendo indivíduos de diferentes regiões e perfis sociodemográficos. O estudo foi inserido no contexto do mercado brasileiro de carnes premium. A amostra final consistiu em 166 respondentes válidos, que compuseram a base de dados analisada.

A amostragem adotada foi do tipo não probabilística, por conveniência, com seleção intencional dos participantes, considerando características relacionadas ao consumo de carne bovina premium. A divulgação ocorreu de forma orgânica, utilizando a técnica de amostragem em cadeia, conhecida como “bola de neve”, na qual os participantes compartilharam o questionário com suas redes de contato, permitindo maior alcance do público-alvo em contextos digitais (Bockorni e Gomes, 2021; Ribeiro et al., 2024).

O instrumento de coleta de dados foi um questionário on-line, estruturado em cinco seções. A primeira seção apresentou a pesquisa e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A segunda abordou a caracterização sociodemográfica e socioeconômica dos respondentes. A terceira seção investigou hábitos de consumo relacionados à carne bovina premium, enquanto a quarta explorou a percepção de valor e atributos relevantes no processo de escolha. Por fim, a quinta seção incluiu questões abertas para compreender motivações, experiências e sugestões de consumo. As questões quantitativas utilizaram perguntas de múltipla escolha e escalas ordinais, baseadas no modelo de escala Likert (Likert, 1932).

A coleta de dados foi realizada por meio de um formulário on-line, elaborado na plataforma Google Forms, disponibilizado entre os meses de junho e julho de 2025. O instrumento foi divulgado por meio de redes sociais, grupos temáticos e compartilhamento direto entre contatos, sendo autoaplicável e sem interação direta entre pesquisador e respondentes. Antes da aplicação definitiva, o questionário passou por um pré-teste com três indivíduos do público-alvo, visando avaliar a clareza e adequação das questões. Com base nos retornos, foram realizados ajustes no instrumento, incluindo a ampliação de opções e a retirada de redundâncias.

Os dados coletados foram organizados e tabulados com o auxílio de planilhas eletrônicas e analisados em duas etapas. Primeiramente, realizou-se a análise descritiva, com cálculo de frequências e distribuição das respostas. Em seguida, procedeu-se à análise exploratória, por meio de cruzamentos entre variáveis sociodemográficas e comportamentais, para identificar padrões e relações relevantes. As respostas abertas foram analisadas por meio de análise de conteúdo, o que permitiu identificar padrões, tendências e percepções recorrentes.

A pesquisa foi conduzida em conformidade com a Resolução nº 510, de 07 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 2016). Foram assegurados os princípios éticos, incluindo a não identificação dos participantes, a confidencialidade das informações e a participação voluntária, mediante aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). De acordo com o Formulário de Dispensa de Ética (FDE), o estudo foi classificado como pesquisa de opinião pública, com participantes não identificados, e dispensado de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa e à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).

3. Resultados e Discussão

A presente seção apresenta e discute os resultados da pesquisa realizada com consumidores de carne bovina premium, buscando compreender seus padrões de comportamento e a percepção de valor neste segmento específico. A análise foi estruturada para oferecer uma visão progressiva dos achados, começando pela caracterização sociodemográfica dos participantes, avançando para a avaliação dos hábitos de consumo, dos atributos mais valorizados e da disposição a pagar. A discussão dos dados foi cuidadosamente articulada com a literatura pertinente, conforme abordado no TCC original, visando interpretar os achados de forma a gerar insights estratégicos para o posicionamento de mercado das carnes premium. Essa abordagem permitiu ir além da mera descrição, conectando os dados empíricos com os conceitos teóricos que fundamentam o estudo do comportamento do consumidor.

Perfil dos respondentes

No que concerne aos dados sociodemográficos dos 166 respondentes, observou-se uma predominância do sexo masculino, representando 60,8% da amostra, em contraste com 39,2% do feminino. A faixa etária mais representativa foi a de 42 a 57 anos, abrangendo 46,4% dos participantes, seguida por 34,3% na faixa de 26 a 41 anos. Indivíduos com 57 anos ou mais corresponderam a 16,3%, e a faixa de 12 a 25 anos representou apenas 3%. Em termos de estado civil, a maioria, 73,5%, era casada, enquanto 16,3% eram solteiros, 8,4% divorciados e 1,8% viúvos. Esses dados fornecem um panorama inicial do público-alvo, indicando uma base de consumidores mais madura e estabelecida, o que pode influenciar diretamente seus hábitos de consumo e poder aquisitivo.

A análise da renda mensal dos participantes revelou uma concentração significativa na faixa entre R$ 7.591,00 e R$ 15.180,00, com 31,3% dos respondentes. Adicionalmente, 21,7% dos participantes estavam na faixa acima de R$ 15.181,00, e outros 21,7% na faixa entre R$ 15.181,00 e R$ 22.770,00. A escolaridade também se mostrou elevada, com 42,2% dos respondentes possuindo pós-graduação, e 30,1% com ensino superior completo. A região Sudeste concentrou a maior parte dos participantes, com 70,5%, seguida pela região Sul (12,7%), Centro-Oeste (9%), Norte (4,2%) e Nordeste (3,6%). A maioria dos respondentes, 65,1%, afirmou possuir filhos. Esse perfil socioeconômico e demográfico sugere um público com maior poder aquisitivo e nível educacional, características que se alinham à expectativa de consumo de produtos premium, como a carne bovina de alta qualidade.

Consumo de carne bovina premium

Em relação à frequência de consumo de carne bovina premium, os resultados indicaram que 30,7% dos respondentes consumiam ocasionalmente, ou seja, uma vez ao mês. Outros 25,9% consumiam frequentemente, de duas a três vezes ao mês, e 15,7% consumiam muito frequentemente, uma vez por semana. Em contrapartida, 13,9% afirmaram consumir raramente (a cada dois ou três meses) e outros 13,9% muito raramente (uma a duas vezes ao ano). Essa distribuição revela que o consumo de carne bovina premium não é um hábito diário para a maioria dos participantes, mas sim um evento mais esporádico, associado a momentos específicos, o que reforça o seu caráter de produto diferenciado e de maior valor simbólico no contexto alimentar dos consumidores brasileiros.

Esse padrão de consumo não cotidiano está em consonância com a literatura sobre comportamento do consumidor, que sugere que produtos premium são frequentemente associados a experiências diferenciadas e a momentos de consumo específicos, sendo percebidos como itens de maior valor simbólico (Kotler e Keller, 2016). Nesse contexto, o consumo transcende a mera necessidade funcional de alimentação, incorporando aspectos emocionais e experienciais que contribuem para a percepção de valor. A carne bovina premium, portanto, é vista como um item para ocasiões especiais, onde a experiência e o significado do momento são tão importantes quanto o produto em si. Essa percepção de valor agregado é um fator crucial para as estratégias de marketing e posicionamento no mercado.

A análise cruzada dos dados revelou que a frequência de consumo de carne bovina premium variava significativamente entre as faixas etárias. Aproximadamente 58% dos respondentes com idade superior a 45 anos relataram consumir carne premium com frequência mensal ou semanal. Em contraste, nas faixas etárias mais jovens, até 35 anos, esse percentual foi de cerca de 37%. Esse achado sugere que o consumo mais regular de carnes premium está associado a faixas etárias mais elevadas, o que pode ser explicado por fatores como maior estabilidade financeira, renda mais elevada e hábitos de consumo já consolidados. Essa correlação entre idade e frequência de consumo indica a importância de segmentar as estratégias de mercado, considerando as particularidades de cada grupo demográfico.

Locais de compra de carne bovina premium

Ao investigar os locais preferidos para a aquisição de carne bovina premium, os participantes puderam indicar até duas opções. O açougue especializado emergiu como o local mais citado, com 82 indicações, correspondendo a 49,4% das respostas. Em seguida, os supermercados foram mencionados por 70 respondentes, totalizando 42,2%. As demais opções apresentaram menor representatividade, com feiras e eventos e a compra direta do produtor recebendo 5 indicações cada, ou 3,0% do total. A compra on-line foi a menos citada, com apenas 4 respondentes, representando 2,4%. Essa predominância de canais físicos na decisão de compra sugere que a credibilidade e a segurança percebida pelo consumidor são fatores cruciais, superando a conveniência de outros canais.

Esse padrão de preferência por canais físicos, especialmente açougues especializados e supermercados, indica a relevância do ponto de venda na decisão de compra de carne bovina premium. A escolha do local de aquisição parece estar intrinsecamente ligada à busca por maior confiança e à possibilidade de avaliação direta da qualidade do produto, indo além de suas características intrínsecas. Tais achados estão alinhados com estudos sobre o comportamento do consumidor de alimentos, que apontam para uma preferência por canais que transmitam maior confiabilidade, especialmente para produtos com atributos sensoriais e critérios de escolha mais rigorosos (Grunert, 2020; Verbeke et al., 2010). Portanto, as estratégias de mercado devem considerar não apenas o produto em si, mas também o ambiente de comercialização como um componente integral do processo de escolha do consumidor.

Tipo de ambiente preferido para compra

A pesquisa também investigou o tipo de ambiente ideal para a compra de carne bovina premium. A loja mais próxima foi a alternativa mais citada, com 66 respondentes, representando 39,8% das preferências. A opção “indiferente” foi a segunda mais escolhida, com 56 respondentes (33,7%), indicando que para uma parcela significativa dos consumidores, o ambiente físico específico não é um fator determinante. O ambiente moderno foi mencionado por 29 respondentes (17,5%), enquanto o ambiente rústico obteve apenas 9 indicações (5,4%). A compra on-line foi citada por 6 respondentes (3,6%). Esses resultados sugerem que a conveniência e a acessibilidade do ponto de venda são mais valorizadas do que as características estéticas ou conceituais do ambiente de compra.

A predominância da opção pela loja mais próxima e a alta proporção de respondentes indiferentes ao tipo de ambiente reforçam a ideia de que fatores relacionados à praticidade e à acessibilidade exercem uma influência significativa na escolha dos consumidores. Embora o canal de compra seja relevante, como visto na preferência por açougues especializados, o ambiente físico em si parece desempenhar um papel secundário no processo decisório. Isso sugere que o consumidor, neste segmento, tende a priorizar critérios funcionais, como a conveniência e a facilidade de acesso, em detrimento de características estéticas do espaço físico. Essa percepção indica que a eficiência do processo de compra é um diferencial importante para o consumidor de carne bovina premium.

Ocasiões de consumo de carne bovina premium

Ao analisar as ocasiões de consumo de carne bovina premium, constatou-se que festas e ocasiões especiais foram as situações mais citadas, com 77 respondentes, correspondendo a 46,4% das indicações. O consumo no dia a dia foi a segunda opção mais frequente, com 49 respondentes (29,5%). Restaurantes especializados foram mencionados por 30 respondentes (18,1%), e eventos em que os participantes eram convidados por 14 respondentes (8,4%). A opção “quando desejo causar boa impressão” apresentou a menor representatividade, com apenas 1 indicação (0,6%). Esses dados reforçam o caráter não cotidiano do consumo de carne premium, associando-o a momentos de celebração e maior relevância social, onde o produto adquire um valor simbólico e experiencial.

Esse comportamento está alinhado à literatura sobre comportamento do consumidor, que aponta que produtos de maior valor percebido tendem a ser associados a contextos de consumo diferenciados, nos quais aspectos simbólicos e sociais assumem maior relevância (Kotler e Keller, 2016). O consumo de carne bovina premium, portanto, transcende a função nutricional, incorporando elementos relacionados à experiência e ao significado do momento. Estratégias de mercado devem considerar esses diferentes momentos de consumo como elementos relevantes na construção de valor e no posicionamento do produto, focando na comunicação de que a carne premium é ideal para celebrar e tornar ocasiões especiais ainda mais memoráveis. A baixa representatividade do consumo para “causar boa impressão” sugere que a motivação é mais intrínseca à experiência do que à ostentação.

Disposição a pagar por carne bovina premium

A pesquisa investigou a disposição dos consumidores em pagar um valor adicional por carne bovina premium. A maioria dos respondentes, 49,4%, indicou estar disposta a pagar entre 11% e 25% a mais em comparação com produtos convencionais, totalizando 82 respostas. Em seguida, 22,3% dos participantes (37 respondentes) afirmaram disposição para pagar até 10% a mais. Uma parcela de 19,9% (33 respondentes) estaria disposta a pagar entre 26% e 50% a mais. Apenas 6,6% (11 respondentes) não pagariam valor adicional, e a faixa acima de 50% apresentou a menor representatividade, com apenas 3 indicações (1,8%). Esses resultados indicam uma disposição moderada para pagar mais, com um limite percebido pelos consumidores quanto ao preço adicional aceitável, sugerindo que o valor percebido deve ser equilibrado com a acessibilidade.

Esse padrão de disposição a pagar está em consonância com a literatura sobre comportamento do consumidor, que aponta que a decisão de pagar mais está relacionada ao equilíbrio entre os benefícios percebidos e os custos associados (Kotler e Keller, 2016). Embora a carne bovina premium seja reconhecida por seus atributos diferenciados, a decisão de pagar um preço mais elevado envolve uma avaliação econômica por parte do consumidor. A análise cruzada revelou que o poder aquisitivo influencia significativamente essa disposição: aproximadamente 64% dos respondentes com renda familiar superior a cinco salários mínimos indicaram disposição para pagar entre 11% e 50% a mais, enquanto entre aqueles com renda inferior a três salários mínimos, esse percentual foi de cerca de 28%. Isso demonstra que a capacidade financeira é um fator determinante, e as estratégias de precificação devem considerar diferentes faixas de público, buscando equilibrar o valor percebido com a acessibilidade para maximizar a atratividade do produto.

Atributos que influenciam a decisão de compra

Ao questionar os participantes sobre os atributos que mais influenciavam sua decisão de compra de carne bovina premium, permitindo a escolha de até três fatores, a maciez foi o atributo mais citado, com 89 respondentes (53,6%). O sabor apareceu em segundo lugar, com 43 respondentes (25,9%). Os demais atributos apresentaram menor representatividade: marmoreio foi citado por 12 respondentes (7,2%), preço por 7 (4,2%), e origem por 6 (3,6%). Atributos como cor (1,8%), marca (1,2%), sustentabilidade (1,2%), criado a pasto (0,6%) e raça (0,6%) tiveram baixa frequência de escolha. Essa concentração expressiva nas respostas de maciez e sabor evidencia que os atributos sensoriais são os principais critérios considerados pelos consumidores, refletindo a importância da experiência direta com o produto.

A predominância dos atributos sensoriais, como maciez e sabor, na decisão de compra de carne bovina premium, está alinhada à literatura sobre comportamento do consumidor de alimentos. Estudos indicam que características diretamente relacionadas à experiência de consumo exercem maior influência na escolha, especialmente em produtos de maior valor percebido (Kotler e Keller, 2016). Nesse sentido, os atributos intrínsecos do produto, que podem ser percebidos no momento do consumo, desempenham um papel central na decisão. Fatores complementares, como marca, origem e sustentabilidade, embora relevantes para alguns nichos, atuam de forma secundária para a maioria dos consumidores. Isso reforça a importância da entrega consistente de atributos sensoriais de alta qualidade como elemento central para a atração e fidelização do consumidor no mercado de carnes premium.

Importância da história do produto/fazenda na decisão de compra

A relevância atribuída à história do produto ou da fazenda na decisão de compra de carne bovina premium revelou uma distribuição de percepções relativamente equilibrada entre os respondentes. Cinquenta e cinco participantes (33,1%) consideraram esse aspecto importante, enquanto 53 (31,9%) o classificaram como pouco importante. Vinte e sete respondentes (16,3%) indicaram que era muito importante, e 19 (11,4%) o consideraram nada importante. Onze respondentes (6,6%) o classificaram como extremamente importante, e houve uma resposta em branco (0,6%). Essa ausência de consenso sugere que a história do produto ou da fazenda atua como um atributo complementar, valorizado por uma parcela dos consumidores, mas não como um fator determinante para a maioria.

Esse comportamento indica que a relevância da narrativa de origem está associada a perfis específicos de consumidores, que são mais sensíveis a aspectos simbólicos e informacionais do produto. A literatura aponta que atributos extrínsecos, como origem e narrativa, tendem a influenciar segmentos específicos do mercado, especialmente em produtos alimentares de maior valor agregado (Grunert, 2020; Verbeke, 2010). Portanto, estratégias de comunicação baseadas na história do produto ou da fazenda podem ser eficazes para nichos de mercado que valorizam esses diferenciais, mas não devem ser consideradas como um fator de impacto amplo para todo o mercado de carne bovina premium. A heterogeneidade na importância atribuída a esse fator sugere a necessidade de abordagens de marketing segmentadas.

Fatores que mais influenciam a decisão de compra

Ao investigar os fatores que mais influenciam a decisão de compra de carne bovina premium, os resultados mostraram que as experiências anteriores foram o elemento mais citado, com 98 respondentes, representando 59,0% das escolhas. A indicação de amigos foi o segundo fator mais relevante, com 48 respostas (28,9%). Os demais fatores apresentaram menor representatividade: facilidade de acesso foi mencionada por 14 respondentes (8,4%), enquanto embalagem (2,4%), redes sociais (0,6%) e influenciadores (0,6%) tiveram baixa frequência de escolha. Essa predominância de experiências prévias e recomendações interpessoais indica que a vivência direta com o produto e a validação social desempenham um papel central na formação das preferências do consumidor.

A forte orientação da decisão de compra por experiências prévias e validação social próxima está alinhada à literatura que destaca a experiência direta como um dos principais determinantes do comportamento de compra de alimentos, especialmente em produtos com forte componente sensorial (Grunert, 2020; Verbeke et al., 2010). A confiança no produto é construída principalmente a partir do contato direto e é reforçada por interações interpessoais, como a recomendação de amigos. Em contrapartida, fatores relacionados à comunicação indireta, como redes sociais e influenciadores, apresentaram baixa relevância, sugerindo que, para o consumidor de carne bovina premium, a avaliação prática e a validação social se sobrepõem aos estímulos de marketing indiretos. A fidelização do consumidor, portanto, depende da consistência da experiência ao longo do tempo.

Fatores que levam à preferência por carne bovina premium

Em relação aos fatores que levam os consumidores a preferir carne bovina premium, a qualidade superior foi o atributo principal, sendo citado por 135 respondentes, o que corresponde a 81,3% das escolhas. Esse fator se destacou expressivamente em comparação com as demais opções. A procedência confiável foi mencionada por 20 respondentes (12,0%), enquanto a opção “mais saudável” (3,6%) e a “maior variedade de cortes” (3,0%) apresentaram baixa representatividade. Essa clara preferência pela qualidade superior indica que os consumidores buscam diferenciação e um padrão elevado de consumo, onde a expectativa de desempenho do produto é o principal motor da escolha, superando fatores complementares como origem, saudabilidade e variedade.

A forte associação da preferência por carne bovina premium à percepção de superioridade do produto está em consonância com a literatura que aponta a qualidade percebida e os atributos sensoriais como determinantes centrais na avaliação e escolha de carnes, especialmente em produtos de maior valor agregado (Felderhoff et al., 2020; Font-i-Furnols e Guerrero, 2014; Tonsor e Lusk, 2019). Esse comportamento reforça a ideia de que estratégias de posicionamento devem priorizar a entrega consistente desse atributo como elemento central de atração e fidelização. A percepção de qualidade não se limita apenas aos aspectos sensoriais, mas engloba também a confiança na procedência, embora em menor grau, indicando que a excelência do produto é o pilar fundamental para a preferência do consumidor.

Melhorias e diferenciais desejados nas marcas de carne bovina premium

Ao questionar sobre as melhorias e diferenciais desejados nas marcas de carne bovina premium, os participantes indicaram que certificações e selos de qualidade foram os fatores mais citados, com 60 respondentes (36,1%). A variedade de cortes foi a segunda opção mais mencionada, com 39 respostas (23,5%). Trinta respondentes (18,1%) demonstraram interesse por mais informações no rótulo, enquanto 28 (16,9%) mencionaram a oferta de venda on-line, delivery e degustações. A opção relacionada a embalagens ecológicas ou sustentáveis apresentou a menor representatividade, com apenas 9 indicações (5,4%). Esses resultados evidenciam que os consumidores valorizam elementos que reforçam a confiança e a transparência na relação com o produto, buscando reduzir incertezas no processo de escolha.

A predominância de respostas associadas a certificações e informações claras no rótulo sugere que, além da qualidade percebida, há uma demanda por maior suporte informacional e garantia de procedência. Esse achado está alinhado à literatura que aponta a informação e a credibilidade como fatores centrais na construção de confiança em produtos alimentares, especialmente quando a qualidade não é totalmente observável no momento da compra (Asioli et al., 2021; Lim et al., 2022). Em paralelo, a relevância atribuída à variedade de cortes e à conveniência (venda on-line/delivery) aponta para a importância de ampliar a oferta e facilitar o acesso ao produto. As estratégias de mercado, portanto, devem integrar confiança, informação e conveniência para fortalecer o posicionamento e ampliar a atratividade das marcas no segmento de carnes premium.

Experiências marcantes com carne bovina premium

Em relação às experiências marcantes com carne bovina premium, os participantes indicaram que o preparo e o sabor foram os fatores mais citados, com 109 respondentes, representando 65,7% das escolhas. Esse resultado se destacou de forma expressiva em relação aos demais fatores. A excelente relação custo-benefício foi mencionada por 27 respondentes (16,3%), enquanto a companhia ou ocasião especial foi indicada por 20 respondentes (12,0%). Os fatores relacionados ao atendimento diferenciado (3,0%) e ao ambiente ou apresentação marcante (3,0%) apresentaram menor representatividade. Essa predominância do preparo e sabor como elementos centrais das experiências marcantes sugere que o desempenho intrínseco do produto no momento do consumo é o fator determinante para a satisfação do consumidor.

A análise dos resultados evidencia que as experiências marcantes estão predominantemente associadas ao desempenho do produto, especialmente no que se refere aos atributos sensoriais de preparo e sabor. Embora elementos contextuais, como a companhia e a ocasião, contribuam para a experiência geral, o fator determinante está diretamente relacionado às características intrínsecas da carne. Aspectos como atendimento e ambiente tiveram menor influência, indicando um papel secundário na construção dessas experiências. Esses achados estão alinhados à literatura que destaca o papel central dos atributos sensoriais na formação da experiência de consumo de carnes, sendo o sabor e a qualidade percebida determinantes para a satisfação do consumidor, enquanto fatores contextuais atuam como elementos complementares (Font-i-Furnols e Guerrero, 2014; Felderhoff et al., 2020). A construção de experiências marcantes, portanto, depende principalmente da consistência na entrega do produto, reforçando a importância de garantir a qualidade da experiência no momento do consumo como principal fator de diferenciação no mercado.

Preferência por cortes de carne bovina premium

Para complementar a análise, os participantes foram solicitados a indicar o corte de carne bovina premium que preferiam. A picanha foi o corte mais citado, com 27 respondentes (16,3%), seguida pelo ancho, com 23 respondentes (13,9%). Outros cortes, como contrafilé (6,6%), costela (6,0%) e filé mignon (5,4%), também tiveram relevância, enquanto os demais apresentaram menor representatividade. Essa preferência por cortes já consolidados no mercado, como picanha e ancho, indica a influência da familiaridade na escolha do consumidor. Embora haja abertura à experimentação, a decisão tende a ser orientada por referências já conhecidas, o que contribui para reduzir a incerteza no momento da escolha. A familiaridade e o conhecimento prévio desempenham um papel relevante na decisão de consumo de carnes, influenciando a percepção de qualidade e a confiança do consumidor no produto (Font-i-Furnols; Guerrero, 2014; Tonsor e Lusk, 2019; da Veiga et al., 2023).

A coexistência de preferências por cortes tradicionais e, em menor grau, por opções menos convencionais, reflete tanto a tradição quanto a diversidade de consumo no mercado de carnes premium. Isso sugere a presença de perfis de consumidores mais conservadores, que se apegam a cortes conhecidos e valorizados, e perfis mais exploratórios, que demonstram interesse por produtos diferenciados. Essa dinâmica reforça a importância de estratégias que conciliem a padronização e a variedade na oferta de produtos, atendendo a diferentes segmentos de consumidores. A compreensão dessas preferências por cortes específicos é fundamental para que as empresas possam otimizar seus estoques, campanhas de marketing e a apresentação dos produtos nos pontos de venda, alinhando-se às expectativas do público-alvo.

Em síntese, os resultados desta pesquisa evidenciaram que o consumo de carne bovina premium no Brasil está predominantemente associado a ocasiões especiais, com a decisão de compra fortemente influenciada por atributos sensoriais como maciez e sabor, além de experiências prévias e recomendações interpessoais. A preferência por canais físicos de compra, como açougues especializados e supermercados, reflete a busca por confiança e avaliação direta da qualidade. Embora os consumidores demonstrem disposição moderada para pagar valores adicionais, essa disposição é condicionada pelo poder aquisitivo. A qualidade superior e a consistência na entrega do produto são os principais fatores que levam à preferência e tornam as experiências marcantes, enquanto a história do produto e a comunicação indireta têm um papel secundário. Esses achados, portanto, fornecem uma base sólida para compreender as preferências dos consumidores brasileiros e orientar estratégias de posicionamento no mercado de carnes premium, confirmando que a construção de valor está intrinsecamente ligada à experiência de consumo e à percepção de qualidade.

4. Conclusão

O presente estudo buscou analisar as preferências dos consumidores brasileiros no mercado de carnes premium e as estratégias de posicionamento adotadas pelas empresas do setor. Verificou-se que o consumo de carne bovina premium está majoritariamente associado a ocasiões específicas, reforçando seu caráter não cotidiano e de maior valor simbólico. A decisão de compra foi influenciada principalmente por atributos sensoriais, como maciez e sabor, e por experiências prévias e recomendações interpessoais. Identificou-se uma preferência por canais físicos de compra, como açougues especializados e supermercados, possivelmente ligada à busca por maior confiança e avaliação direta da qualidade do produto. Embora os consumidores demonstrem disposição moderada para pagar valores adicionais, essa disposição é condicionada pelo poder aquisitivo. A qualidade superior emergiu como o principal fator que leva à preferência, e as experiências marcantes estão intrinsecamente ligadas ao preparo e sabor do produto. Esses achados fornecem uma base sólida para a compreensão das dinâmicas de consumo e para a orientação de estratégias de posicionamento no mercado de carnes premium, evidenciando que a construção de valor depende da entrega consistente de qualidade e do alinhamento entre as expectativas e a experiência de consumo.

Contudo, este estudo apresentou limitações decorrentes da amostragem não probabilística, o que restringe a generalização dos resultados para a população em geral. Adicionalmente, os dados foram obtidos por meio de respostas autorrelatadas, que podem conter vieses de percepção individual. Para pesquisas futuras, recomenda-se ampliar a amostra e incluir diferentes regiões geográficas, possibilitando análises comparativas entre contextos culturais e econômicos distintos. Sugere-se também a realização de estudos segmentados por perfil de consumidor, considerando variáveis como faixa etária, renda e gênero, a fim de aprofundar a compreensão das diferenças no processo decisório. Propõe-se, ainda, investigar de forma mais detalhada o papel de atributos como sustentabilidade, origem e certificações, especialmente no que se refere à disposição a pagar e à construção de confiança, bem como analisar a influência de estratégias de comunicação e de posicionamento de marca, e a relação entre a experiência de consumo e a fidelização, contribuindo para uma compreensão mais abrangente do comportamento do consumidor.

Referências Bibliográficas

Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne [ABIEC]. 2024. Brasil bate recorde nas exportações de carne bovina em 2024. Disponível em: https://www.abiec.com.br/brasil-bate-recorde-nas-exportacoes-de-carne-bovina-em-2024/. Acesso em: 26 mar. 2026.

Hötzel, M. J.; Vandresen, B. 2022. Brazilians’ attitudes to meat consumption and production: Present and future challenges to the sustainability of the meat industry. Meat Science, 192: 108893. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2022.108893. Acesso em: 26 mar. 20

Malafaia, G. C.; Mores, G. V.; Casagranda, Y. G.; Barcellos, J. O. J.; Costa, F. P. 2021. The Brazilian beef cattle supply chain in the next decades. Livestock Science, 253: 104704. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.livsci.2021.104704. Acesso em: 26 mar. 2026.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

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