02 de outubro de 2026
Percepção dos Produtores Rurais quanto à Efetividade da Assistência Técnica e Extensão Rural
Percepção dos Produtores Rurais Quanto à Efetividade da Assistência Técnica e Extensão Rural
Elora Rafaela Pereira de Souza Borges; Samia Mercado Alvarenga
DOI: 10.22167/2675-6528-202602863
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A percepção dos produtores rurais sobre a efetividade da assistência técnica e extensão rural (ATER) foi investigada na Região Central de Minas Gerais. O estudo foi conduzido em propriedades rurais da região, onde se selecionaram cinco produtores por conveniência, que recebiam atendimento direto de técnicos agropecuários. A coleta de dados envolveu entrevistas semiestruturadas e análise documental. Os resultados revelaram que os produtores apresentaram diferentes níveis de autonomia na tomada de decisão, buscando assistência técnica em situações de maior complexidade. A confiança nos técnicos associou-se à experiência, transparência e capacidade de comunicação, valorizando-se uma atuação educativa e próxima da realidade. Contudo, a aplicação das orientações técnicas foi limitada por restrições financeiras, estruturais e potenciais conflitos de interesse em serviços vinculados à comercialização de insumos. Observou-se também que o acesso a atividades de extensão rural era restrito para alguns produtores, e as informações nem sempre eram compatíveis com a realidade das propriedades. Concluiu-se que a efetividade da ATER depende de sua adaptação às realidades produtivas, sociais e econômicas locais. Destacaram-se desafios estruturais do setor, como a resistência à adoção de novas tecnologias, a influência de práticas tradicionais e a escassez de mão de obra qualificada, ressaltando a necessidade de uma assistência técnica adaptada às condições locais para promover o desenvolvimento.
Palavras-chave: Confiança; Mão de obra rural; Produção agropecuária; Tomada de decisão.
1. Introdução
O setor agropecuário brasileiro possui relevância estratégica na economia nacional, contribuindo significativamente para o Produto Interno Bruto (PIB). Em 2025, o agronegócio representou 29,4% do PIB e exportou US$82 bilhões no primeiro semestre, sendo responsável por 49,5% das exportações totais do país (CNA, 2025; Ministério da Agricultura e Pecuária, 2025). Nesse cenário, a busca por maior produtividade e eficiência é constante, aliada à necessidade de sustentabilidade e adaptação às mudanças climáticas e à crescente demanda por alimentos.
A assistência técnica agropecuária pode ser definida como o conjunto de ações que visam orientar, capacitar e acompanhar os agricultores, promovendo melhorias produtivas, econômicas e socioambientais. A efetividade desses serviços está diretamente relacionada à eficiência técnica das propriedades rurais (Liu et al., 2023). A atuação dos técnicos agropecuários abrange funções técnicas, relacionadas ao manejo direto da produção; funções gerenciais, que envolvem o planejamento e a administração da propriedade; e funções de mediação, que traduzem o conhecimento científico em soluções aplicáveis ao cotidiano do campo.
A assistência técnica e extensão rural (ATER) demonstra impacto positivo na redução da pobreza e desigualdade, além de promover o aumento da produção agrícola e da renda dos beneficiários, como observado em projetos no semiárido brasileiro (Delgrossi et al., 2024). Eventos como os dias de campo são alternativas eficazes de comunicação, facilitando a demonstração prática de diversas experiências e contribuindo para a adoção de novas variedades de culturas pelos agricultores (Yitayew et al., 2021).
Contudo, a qualidade dos serviços de extensão agrícola enfrenta desafios, como infraestrutura inadequada, baixa capacidade de resposta, altos custos e problemas de sustentabilidade, o que pode resultar em uma fraca relação entre a adoção de tecnologias e os resultados esperados (Ogundari, 2022). Além disso, a compreensão dos extensionistas rurais sobre tecnologias sociais, que combinam conhecimento técnico-científico e saber popular, é um ponto crucial para a efetividade da assistência (Marques et al., 2024).
A relevância da atuação dos técnicos agropecuários é reforçada por abordagens teóricas como a de Frank Ellis (2000), que destaca o papel desses profissionais na tradução do conhecimento científico em práticas economicamente viáveis e sustentáveis para o desenvolvimento rural. Complementarmente, o modelo de Difusão de Inovações de Rogers (2003) permite compreender como novas ideias e tecnologias se disseminam em um sistema social, enfatizando que a adoção dessas inovações depende não apenas das características da tecnologia, mas também das interações sociais e da mediação dos extensionistas.
Estudar a percepção dos produtores sobre a atuação dos técnicos agropecuários é, portanto, crucial para ir além dos indicadores de produtividade ou eficiência econômica, permitindo compreender como as práticas de assistência técnica são de fato recebidas e aplicadas no campo. Esse conhecimento pode orientar estratégias de gestão das fazendas, tornando a assistência mais assertiva e adaptada às necessidades locais. Do ponto de vista das políticas públicas, este estudo contribui para desenvolver programas de extensão rural mais eficazes e inclusivos. Desse modo, objetiva-se com esse estudo analisar a percepção dos produtores rurais sobre a relevância da atuação dos técnicos agropecuários.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, com abordagem descritiva, buscando analisar a percepção dos produtores rurais sobre a relevância da atuação dos técnicos agropecuários. A investigação foi conduzida em propriedades rurais situadas na Região Central de Minas Gerais, localidade selecionada devido à sua significativa representatividade no setor agropecuário regional e à presença de diversos programas de assistência técnica em operação.
A população-alvo do estudo compreendeu produtores rurais que recebiam atendimento direto de técnicos agropecuários na região delimitada. A amostra foi composta por cinco produtores, os quais foram selecionados por amostragem por conveniência. Os critérios de seleção incluíram a disponibilidade dos participantes, a acessibilidade às propriedades e a participação prévia em projetos de extensão rural.
Essa abordagem de seleção permitiu a inclusão de produtores com perfis produtivos e portes de propriedade variados, visando capturar uma gama ampla de experiências e percepções sobre a assistência técnica recebida. A diversidade da amostra possibilitou explorar diferentes realidades produtivas e as respectivas visões quanto à atuação dos profissionais envolvidos.
A coleta de dados foi realizada em duas etapas principais: (i) aplicação de entrevistas semiestruturadas e (ii) análise documental. As entrevistas foram conduzidas com base em um roteiro previamente elaborado, que abordou tópicos como o tempo de experiência dos produtores com a assistência técnica, a percepção sobre sua relevância e efetividade, os desafios enfrentados na adoção das recomendações e as sugestões de aprimoramento dos serviços prestados.
Para garantir a clareza, a consistência e a pertinência das questões, os instrumentos de coleta foram submetidos a um pré-teste. Este pré-teste foi aplicado a um número reduzido de produtores que não foram incluídos na amostra final, assegurando a adequação do roteiro antes da coleta de dados principal.
A análise documental complementou as entrevistas, contemplando a revisão de relatórios técnicos, registros de visitas e outros registros institucionais. Esses documentos foram utilizados para contextualizar e documentar a atuação dos técnicos agropecuários na região, fornecendo informações adicionais sobre as práticas de assistência técnica.
Os dados qualitativos coletados foram analisados por meio de análise temática, com o objetivo de identificar padrões e categorias recorrentes nas percepções dos produtores. As etapas da análise incluíram a transcrição integral das entrevistas, a codificação inicial dos dados, a busca por padrões emergentes e a revisão e definição final das categorias temáticas.
Em relação aos cuidados éticos, a pesquisa não envolveu a coleta de dados clínicos ou sensíveis, sendo restrita à análise documental e a entrevistas focadas na percepção profissional dos participantes. Dessa forma, não foi necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/CONEP), conforme as diretrizes da Resolução CNS n° 466/2012.
3. Resultados e Discussão
A Região Central de Minas Gerais apresenta um cenário agropecuário diversificado, caracterizado por um mosaico de atividades que incluem lavouras de milho, feijão e hortaliças, bem como a pecuária, com destaque para a produção leiteira. Essa heterogeneidade produtiva impõe a necessidade de um manejo técnico constante e de decisões que se adaptem às condições específicas de solo, clima e disponibilidade de recursos locais. Nesse contexto, a assistência técnica e extensão rural (ATER) assume um papel estratégico, não apenas na orientação dos sistemas produtivos, mas também no planejamento e organização das atividades, além de atuar na articulação entre políticas públicas, inovações tecnológicas e a realidade socioeconômica dos produtores.
A efetividade da ATER na região é crucial, pois influencia diretamente a capacidade dos produtores de adotar práticas inovadoras, aumentar a eficiência e promover a sustentabilidade econômica e ambiental de suas propriedades. Culturas como milho e tomate, juntamente com a pecuária, são pilares da economia rural local, beneficiando-se de solos férteis e topografia favorável. A adoção de sistemas integrados de produção, que combinam árvores, culturas e animais, é uma estratégia comum e eficaz para intensificar a produção e promover a sustentabilidade, conforme observado por Gomes et al. (2019).
Contudo, as propriedades rurais da região enfrentam desafios significativos, especialmente relacionados à disponibilidade de mão de obra. A migração de jovens para áreas urbanas é um fenômeno recorrente que tem reduzido a oferta de trabalhadores no campo, o que pode comprometer a continuidade e a expansão dos sistemas de produção, como apontado por Malafaia et al. (2024). Essa carência de pessoal qualificado impacta diretamente a capacidade de implementação de novas técnicas e a gestão diária das atividades, tornando a assistência técnica ainda mais vital para a resiliência do setor.
Os produtores rurais da Região Central de Minas Gerais, que foram objeto deste estudo, exibem perfis heterogêneos em termos de idade, experiência e tipo de produção. A maioria deles está diretamente envolvida tanto na gestão quanto na execução das atividades produtivas, desempenhando um papel central na tomada de decisões relacionadas ao manejo técnico, econômico e organizacional de suas propriedades. Essa participação ativa reflete um profundo conhecimento prático, acumulado ao longo de muitos anos de trabalho no meio rural, o que lhes confere uma base sólida de saberes tradicionais.
Apesar de sua vasta experiência, muitos produtores demonstram receio em adotar tecnologias mais complexas ou inovadoras, bem como em incorporar recomendações técnicas que demandam maior capacitação ou investimento. Essa hesitação ressalta a importância fundamental do papel dos técnicos agropecuários como mediadores, capazes de traduzir o conhecimento científico em práticas produtivas viáveis e adaptadas à realidade do campo. Eles atuam como elos entre a teoria e a prática, facilitando a superação de barreiras à inovação e promovendo o desenvolvimento sustentável das propriedades.
Além disso, os produtores mantêm vínculos estreitos com a economia local e com a comunidade rural, participando ativamente de associações, cooperativas e programas institucionais. No entanto, persistem desafios estruturais que afetam o desempenho das atividades rurais, como a infraestrutura inadequada das estradas, o acesso limitado a tecnologias, as restrições ao crédito e a necessidade de assistência técnica contínua. Esses fatores evidenciam a importância de fortalecer as políticas públicas e as ações de apoio institucional para garantir um ambiente mais propício ao desenvolvimento rural.
A análise das entrevistas realizadas com os produtores rurais permitiu compreender a percepção da assistência técnica e extensão rural (ATER) no contexto produtivo contemporâneo, revelando tanto aspectos positivos quanto limitações em sua atuação. Verificou-se que todos os entrevistados mantinham contato frequente com técnicos em seu cotidiano produtivo e reconheciam a ATER como um elemento fundamental para a produção agropecuária. Após a inserção desses profissionais nas propriedades, foram percebidos ganhos significativos em produtividade e renda, o que sublinha a importância atribuída a esses serviços.
Os produtores entrevistados apresentaram perfis variados, com idades que oscilaram entre 25 e 47 anos, e tempo de atuação na atividade rural que ia de seis anos até a experiência de quem trabalhava desde a infância. A escolaridade também se mostrou diversa, abrangendo desde o ensino fundamental incompleto até a pós-graduação incompleta, e a amostra incluiu tanto homens quanto uma mulher, refletindo a heterogeneidade do campo. As propriedades desenvolviam atividades como produção de banana, pecuária de leite e corte, suinocultura, e produção agrícola para subsistência, sendo atendidas por um número de técnicos que variava de dois a cinco profissionais, ou de forma variável, e todos os produtores relataram uma percepção positiva do impacto da assistência técnica.
No que se refere à tomada de decisão diante de problemas técnicos, observou-se que os produtores apresentam diferentes níveis de autonomia. Em alguns casos, há uma relutância inicial em buscar assistência, levando à comunicação com o técnico somente quando a situação se torna mais complexa ou de maior risco. Contudo, o acesso à informação e a experiência prévia do produtor influenciam diretamente essa resposta. Um entrevistado com formação sólida na área agrícola e experiência profissional como técnico, por exemplo, relatou que, em problemas fora de sua alçada, como os relacionados ao gado, ele busca diretamente veterinários especializados.
A importância da assistência técnica contínua foi também destacada por uma entrevistada, que relatou uma mudança significativa na condução da atividade após assumir maior protagonismo na gestão da propriedade. Ela passou a adotar um acompanhamento mais sistemático do rebanho, evidenciando que a presença constante do técnico, mesmo na ausência de problemas evidentes, contribui para uma gestão mais eficiente e proativa. Essa percepção reforça a ideia de que a ATER não se limita à resolução de crises, mas também à promoção de uma cultura de prevenção e melhoria contínua.
As atividades desenvolvidas na propriedade também influenciam a percepção sobre a necessidade de assistência. No caso da suinocultura, que é uma atividade sensível devido ao elevado risco de infecções e à possibilidade de perdas expressivas em curto período, um entrevistado enfatizou a necessidade de agir rapidamente em situações críticas. Ele afirmou que, ao perceber um problema sério na granja, entrava imediatamente em contato com o veterinário responsável, muitas vezes por telefone, para proteger os animais, demonstrando a agilidade e a dependência da assistência técnica em contextos de alta vulnerabilidade.
Em relação aos fatores que influenciam a confiança nos técnicos, destacam-se a experiência, a transparência e a forma de comunicação. Essa percepção está em consonância com os pressupostos da extensão rural defendidos por Caporal e Dambrós (2017), que compreendem a ATER como um processo essencialmente educativo, fundamentado no diálogo e na construção conjunta do conhecimento. Nesse sentido, a confiança estabelecida entre produtor e técnico transcende a dimensão estritamente técnica, englobando aspectos relacionais e pedagógicos que fortalecem o vínculo e a efetividade da orientação.
Um dos entrevistados evidenciou a relevância da transparência e da postura didática do profissional, afirmando que os técnicos são “muito transparentes” e que, ao serem procurados, são “muito atenciosos” e “procuram sempre estar explicando e querendo que a gente aprenda mesmo”. Tal relato reforça a importância de uma assistência técnica que não apenas prescreve soluções, mas que também promove o aprendizado e a autonomia do produtor. Essa abordagem educativa é fundamental para capacitar os agricultores a tomar decisões mais informadas e a gerenciar suas propriedades de forma mais independente.
No entanto, o processo de assistência técnica pode apresentar fragilidades, especialmente quando associado a estabelecimentos comerciais, como lojas agropecuárias. Um entrevistado apontou que a parceria se torna “um pouco complicada”, pois, às vezes, o técnico responsável pela empresa tem “medo de perder o cliente” e “deixa de me falar alguma coisa”, o que pode levar à estagnação do produtor. Esse relato evidencia possíveis conflitos de interesse na prestação de assistência técnica vinculada à comercialização de insumos, onde a qualidade da orientação pode ser comprometida pela prioridade mercadológica.
Técnicos vinculados a empresas podem, por vezes, omitir informações ou deixar de recomendar determinadas tecnologias por receio de perder clientes, comprometendo a qualidade e a imparcialidade da orientação oferecida. Petarly, Coelho e Souza (2017) destacam que a sobrecarga de funções dos agentes de ATER em empresas privadas e a predominância de atendimentos pontuais dificultam um acompanhamento sistêmico e preventivo das propriedades. Essa situação reforça a ideia de que a assistência técnica, quando orientada prioritariamente por interesses mercadológicos, pode perder seu caráter educativo e seu compromisso com o desenvolvimento produtivo, desviando-se de seu propósito original.
Além da transparência e da postura didática, a clareza e a segurança na transmissão das informações também são aspectos altamente valorizados pelos produtores. Uma entrevistada enfatizou a importância da “segurança na hora de passar informação pra gente”, indicando que a confiança é construída não apenas pela competência técnica, mas também pela forma como o conhecimento é comunicado. A prontidão no atendimento, a atenção às demandas e a adaptação às necessidades dos produtores são fatores centrais para a construção da confiança, conforme observado em estudos comparativos sobre a qualidade dos serviços de extensão (Tham-Agyekum et al., 2024).
A aplicação das orientações técnicas, entretanto, enfrenta diversas limitações práticas. A restrição financeira é um dos principais entraves, especialmente para pequenos produtores, como expressou uma entrevistada: “Eu acho que a dificuldade de todo pequeno produtor hoje é dinheiro”. Embora existam instituições públicas que ofereçam suporte, a contratação de técnicos particulares tende a proporcionar respostas mais rápidas e eficazes, o que, por sua vez, exige investimento. Essa barreira econômica impede que muitos produtores implementem as recomendações, mesmo quando reconhecem seu valor.
Ademais, as restrições estruturais das propriedades nem sempre permitem a implementação das recomendações conforme o planejado. Um entrevistado relatou que, embora os técnicos “programam pra você fazer de um jeito”, a estrutura da propriedade “às vezes não dá pra ser feito da forma ideal que é para fazer”. Essa realidade sublinha a necessidade de que os técnicos agropecuários compreendam profundamente o contexto local e adaptem suas orientações às condições específicas de cada propriedade, evitando abordagens padronizadas que desconsideram as particularidades do ambiente produtivo.
A percepção dos produtores rurais sobre a atuação dos técnicos agropecuários é fortemente influenciada pela capacidade desses profissionais em compreender a realidade local, adaptar as orientações técnicas às necessidades específicas de cada propriedade e estabelecer relações de confiança. Uma entrevistada expressou essa visão de forma clara, destacando que é “muito fácil uma pessoa do comercial abrir o computador e falar o que a gente precisa fazer”, mas que, na prática, é difícil “subir o morro” para plantar e colher. Ela argumentou que a pessoa que se dispõe a ajudar o produtor rural precisa ir “pessoalmente na fazenda para ela entender o que é a vida, o que é aquela rotina”, pois “cada propriedade tem o seu manejo específico” e “o seu desafio”.
Essa perspectiva é compartilhada pelos demais entrevistados e dialoga com os temas abordados por Freire (1983), que criticava as práticas tecnicistas da extensão rural que desconsideravam os agricultores como sujeitos históricos e culturais, bem como seus conhecimentos, crenças e experiências. A efetividade da assistência técnica, portanto, não reside apenas na transmissão de informações científicas, mas na construção de um diálogo horizontal que valorize o saber popular e se adapte às complexidades do cotidiano rural, promovendo uma verdadeira troca de conhecimentos.
Em relação ao acesso a cursos, eventos e atividades de extensão rural, observou-se que a participação ainda é limitada para parte dos entrevistados, principalmente devido à dificuldade de acesso e à escassez de oportunidades. Mendes et al. (2023) analisaram os desafios enfrentados pela educação no campo, destacando o acesso limitado à infraestrutura e transporte como barreiras. A escassez de recursos tecnológicos, como computadores e acesso à internet, também restringe o alcance a métodos de aprendizagem mais diversificados, o que dificulta a busca por informações e capacitações no campo.
Um entrevistado ressaltou que “se tivesse mais cursos pra gente estar aprendendo cada vez mais seria bem melhor”, pois “tem muita gente com boa vontade de aprender e tem hora que não tem onde aprender”. Ele mencionou que, embora existam faculdades, para quem está na roça, é “bem difícil” o acesso, e que cursos de curta duração teriam grande interesse. Marques et al. (2024) afirmam que a aprendizagem no contexto da extensão rural ocorre majoritariamente por meio de processos educativos não formais, como treinamentos, oficinas e capacitações práticas, e a ausência dessas oportunidades cria um vazio formativo que afeta a qualidade da assistência técnica.
Por outro lado, há produtores que participam com maior frequência de eventos de extensão por terem condições de se deslocar ou por estarem trabalhando em parceria com empresas que os ofertam. Um entrevistado reconheceu a importância desses espaços para a troca de experiências, afirmando que sempre busca estar presente, pois é onde “realmente a gente encontra informação porque outros produtores vão e a gente consegue ter essa troca de conhecimento”. Outra entrevistada também relatou participação ativa em eventos promovidos por diferentes instituições e em diversas cidades, evidenciando que a proatividade e as condições favoráveis facilitam o engajamento.
Ao serem questionados sobre a aplicabilidade das informações aprendidas nos eventos de extensão, todos os entrevistados responderam de forma positiva. No entanto, um entrevistado trouxe uma visão adicional sobre sua propriedade na Região Norte de Minas Gerais, em comparação com a Região Central, onde vive e trabalha atualmente. Ele descreveu sua propriedade anterior como tendo um “nível de tecnologia muito baixo”, com um “jeito de cultivo mais tradicional” e menos problemas com doenças e pragas, enquanto os eventos na Região Central focavam em tecnologias como adubos para fertirrigação e sistemas de irrigação mais complexos, que não eram adequados para seu manejo anterior.
Por fim, destacam-se aspectos estruturais e desafios gerais do setor, como a dificuldade de adoção de novas tecnologias, a influência de práticas tradicionais e a escassez de mão de obra. A resistência à mudança aparece, muitas vezes, associada à sucessão familiar. Um entrevistado exemplificou essa situação ao afirmar que sua fazenda segue um manejo “muito tradicional” e que implementar novas técnicas é difícil porque a família está “muito apegado”, pois a propriedade foi herdada de seu pai, que a herdou do avô, sendo “coisas consolidadas”.
Nesse contexto, a sucessão rural pode assumir um papel determinante na dinâmica de inovação das propriedades. Conforme apontam Santos et al. (2023), esse processo se qualifica como construtivo quando há compartilhamento na tomada de decisão e no gerenciamento da propriedade, com a efetiva participação das novas gerações. A dificuldade em encontrar trabalhadores qualificados também foi mencionada por um entrevistado, que afirmou: “Hoje, em geral, está complicado achar mão de obra”. Esse relato encontra respaldo em dados recentes que evidenciam a continuidade do processo de redução da população rural no Brasil, passando de 15% para 12% entre 2012 e 2022, o que demonstra a persistência da urbanização (Cunha, 2025).
A crescente urbanização, aliada às condições frequentemente desfavoráveis de trabalho no campo, contribui para a baixa atratividade do setor rural entre as novas gerações (Malafaia et al., 2024). A limitação de pessoal e de habilidades específicas pode comprometer diretamente o manejo adequado dos rebanhos, resultando em perdas produtivas e sanitárias. Diante desse desafio, a adoção de tecnologias surge como uma alternativa promissora. Malafaia et al. (2024) destacam que a introdução bem-sucedida de sistemas automatizados e robóticos no setor pecuário pode mitigar os efeitos da escassez de mão de obra, promovendo maior eficiência e sustentabilidade nos sistemas produtivos.
Um entrevistado reforçou a ligação da assistência técnica com a automatização das propriedades, afirmando que “a tecnologia hoje cada dia está mais avançada, pra você ter uma produtividade boa você tem que contar com esses técnicos”. Dessa forma, a presença de profissionais bem treinados é essencial para manter o setor funcionando e para auxiliar os produtores na transição para sistemas mais modernos e eficientes. Os resultados obtidos neste estudo indicam que a efetividade da assistência técnica no meio rural está diretamente relacionada à sua capacidade de adaptação às realidades produtivas, sociais e econômicas dos produtores, exigindo uma atuação baseada no diálogo, na construção conjunta do conhecimento e na presença ativa no campo, indo além da mera transferência de tecnologias.
4. Conclusão
O presente estudo analisou a percepção dos produtores rurais da Região Central de Minas Gerais sobre a relevância da atuação dos técnicos agropecuários. Verificou-se que os produtores reconhecem a assistência técnica e extensão rural (ATER) como fundamental para a produção agropecuária, percebendo ganhos significativos em produtividade e renda após a inserção desses profissionais. A confiança nos técnicos associou-se à experiência, transparência e capacidade de comunicação, valorizando-se uma atuação educativa e próxima da realidade do campo. Contudo, observou-se que a autonomia dos produtores na tomada de decisão variava, buscando assistência em situações de maior complexidade. A aplicação das orientações técnicas foi limitada por restrições financeiras e estruturais das propriedades, que nem sempre permitiam a implementação ideal das recomendações. Identificaram-se também potenciais conflitos de interesse em serviços de ATER vinculados à comercialização de insumos, o que pode comprometer a imparcialidade da orientação. Além disso, o acesso a atividades de extensão rural mostrou-se restrito para alguns produtores, e as informações nem sempre eram compatíveis com a realidade específica de suas propriedades.
A efetividade da ATER, portanto, demonstrou depender intrinsecamente de sua capacidade de adaptação às realidades produtivas, sociais e econômicas locais, exigindo uma atuação baseada no diálogo e na construção conjunta do conhecimento, indo além da mera transferência de tecnologias. Destacaram-se desafios estruturais do setor, como a resistência à adoção de novas tecnologias, frequentemente associada à influência de práticas tradicionais e à sucessão familiar, e a persistente escassez de mão de obra qualificada no campo. Para estudos futuros, sugere-se a investigação de modelos de ATER que integrem soluções para a escassez de mão de obra, como a automação, e o desenvolvimento de políticas públicas e iniciativas privadas que promovam uma assistência técnica mais acessível, contínua e adaptada às condições específicas de cada propriedade, fortalecendo o desenvolvimento rural sustentável.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq
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