Neurociência E Aprendizagem Na Educação
15 de setembro de 2026
Neurociência e Formação Docente: um Retrato dos Cursos de Licenciatura no Nordeste Brasileiro Pós Bnc-formação
Jaqueline do Nascimento Lopes; Carolina Matteussi Lino
DOI: 10.22167/2675-6528-202602231
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A compreensão dos processos de aprendizagem, influenciada por fatores biológicos e neurobiológicos, é fundamental para a formação docente. Investigou-se a presença ou ausência de tópicos ligados à Neurociência em cursos de Pedagogia no nordeste brasileiro. A pesquisa, de natureza qualitativa e descritivo-exploratória, foi realizada em 2026, com base em análise documental. Analisaram-se os Projetos Pedagógicos de Curso (PPC), as matrizes curriculares e os ementários de vinte e cinco Instituições de Ensino Superior da região, além da Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação). Os resultados indicaram uma pouca presença de conteúdos de neurociências na formação inicial docente, mesmo após a promulgação da BNC-Formação em 2019. Observou-se que apenas 36% dos cursos analisados apresentaram conteúdos relacionados à Neurociência em seus PPC, enquanto a maioria não fez menção ao tema. As conclusões apontaram a necessidade imperante de atualização das matrizes curriculares dos cursos de Pedagogia, com a inserção de disciplinas e programas que abordem a neurociência. Isso visa capacitar os futuros professores a compreenderem o funcionamento do cérebro e a aplicarem descobertas científicas em suas práticas pedagógicas, otimizando o processo de ensino-aprendizagem e o desenvolvimento dos estudantes.
Palavras-chave: BNC-Formação; Currículo; Neurociências; Pedagogia.
1. Introdução
A aprendizagem é um fenômeno complexo e multifacetado, influenciado por um conjunto de fatores biológicos, culturais, sociais e afetivos. No contexto escolar, o professor desempenha um papel central na mediação entre os estudantes e o conhecimento, tornando a formação docente um elemento crucial para o sucesso do processo educativo. A docência é compreendida como um trabalho sobre o humano, o que ressalta as profundas implicações da prática educativa e da formação de professores nas experiências de aprendizagem (Tardif e Lessard, 2014).
Para que a prática docente seja eficaz e alinhada às necessidades dos aprendizes, é fundamental que o educador compreenda os fatores que afetam os processos de aprendizagem, incluindo aspectos cognitivos, emocionais, sociais e neurobiológicos (Costa et al., 2023). A Neurociência, enquanto ciência natural que estuda a estrutura e o funcionamento neural, tem oferecido contribuições significativas para entender como a atenção, as funções executivas, a memória, a neuroplasticidade e as emoções influenciam a aquisição e consolidação de conhecimentos (Cosenza e Guerra, 2014; Costa et al., 2023).
É importante ressaltar que a Neurociência não substitui a Pedagogia, mas a complementa. Enquanto a Pedagogia abrange uma gama mais ampla de fatores, a Neurociência fornece bases empíricas que podem subsidiar a melhoria da qualidade do ensino. A integração desses campos permite que os docentes desenvolvam estratégias que favoreçam a atenção, a consolidação de memórias e o engajamento afetivo dos estudantes (Cosenza e Guerra, 2014).
A compreensão dos processos de aprendizagem começa na formação inicial do professor, que constitui o alicerce para a construção de saberes e competências que guiarão a prática pedagógica ao longo da trajetória profissional (Tardif, 2014). Nesse contexto, os currículos dos cursos de licenciatura são fontes essenciais para investigar como essa formação está estruturada. Em 2019, a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação) foi promulgada para aperfeiçoar as diretrizes curriculares, buscando alinhamento às demandas educacionais contemporâneas (Brasil, 2019). Embora a BNC-Formação não mencione diretamente “Neurociência” ou “Neuroeducação”, ela estabelece a necessidade de que os professores compreendam como as pessoas aprendem, valendo-se de evidências científicas (Brasil, 2019).
Apesar desse avanço normativo, estudos têm indicado que a presença de conteúdos neurocientíficos na formação inicial de professores ainda é incipiente, fragmentada ou inexistente (Grossi et al., 2014; Grossi et al., 2019; Amaral et al., 2022; Grossi et al., 2024). Essa lacuna levanta a questão de em que medida os Projetos Pedagógicos dos cursos de Pedagogia, especialmente os localizados no Nordeste brasileiro, contemplam princípios, estudos e/ou descobertas neurocientíficas como parte da formação inicial docente.
A ausência de conhecimentos neurocientíficos na formação docente pode limitar a capacidade dos futuros pedagogos de compreender as bases da aprendizagem, como sono, emoções, memória e atenção, e de desenvolver estratégias que estimulem a plasticidade cerebral e as funções executivas (Sousa e Alves, 2017; Cosenza e Guerra, 2014; Grossi et al., 2024). Isso também pode dificultar a escolha de estratégias pedagógicas eficazes e o reconhecimento dos padrões individuais de aprendizagem dos alunos (Dehaene, 2022; Markova, 2000). A desatualização das matrizes curriculares, mesmo após a BNC-Formação, e a desarticulação dos conteúdos neurocientíficos com a prática pedagógica, evidenciam uma fragilidade estrutural na formação inicial docente brasileira.
Diante da relevância de uma formação docente que integre as descobertas da Neurociência para a construção de práticas pedagógicas mais fundamentadas e eficazes, este estudo tem como objetivo investigar a presença ou ausência de tópicos relacionados à Neurociência na BNC-Formação e nos Projetos Pedagógicos dos cursos de Pedagogia de Instituições de Ensino Superior localizadas no Nordeste brasileiro.
2. Material e Métodos
A pesquisa, realizada em 2026, é descritivo-exploratória, de natureza qualitativa e baseada em análise documental. Este tipo de pesquisa foi escolhido para verificar como os conhecimentos da Neurociência são contemplados na Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação) e nos Projetos Pedagógicos de Cursos (PPC) de Pedagogia.
O estudo foi realizado em quatro etapas. Primeiramente, foi feito um levantamento dos cursos de Pedagogia de instituições públicas e privadas na região Nordeste. Em seguida, os cursos cujos PPCs seriam analisados foram selecionados com base em dois critérios: I) credenciamento junto ao Ministério da Educação (MEC); e II) disponibilização do PPC em ambiente digital institucional.
Posteriormente, nos documentos selecionados, verificou-se a existência de disciplinas ou eventos que abordassem tópicos da Neurociência, utilizando os descritores: “Neurociência”, “Neuroeducação”, “Neurocientífico”, “Neurodesenvolvimento”, “Neuroaprendizagem”, “Neurolinguística”, “Neurológicos”, “Neurocognição”, “Neurodiversidade”, “Mente”, “Cérebro”, “Biologia e educação”, “Memória”, “Atenção” e “Funções Executivas”. Os resultados foram então analisados para propor contribuições.
O recorte da pesquisa contemplou 25 Instituições de Ensino Superior (IES) públicas e privadas do Nordeste brasileiro, selecionadas por amostragem não probabilística do tipo intencional, garantindo a inclusão de, no mínimo, uma instituição por unidade federativa. A BNC-Formação foi consultada e baixada do site do Ministério da Educação.
Durante a coleta de dados, foram analisados nos PPCs os seguintes aspectos: a) presença ou ausência de conteúdos e/ou disciplinas relacionados à Neurociência; b) tipo de abordagem (disciplina obrigatória, optativa, evento); c) carga horária destinada; e d) relação com a BNC-Formação, especialmente quanto às habilidades previstas.
Para a análise dos dados, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo de Bardin (2011), em três etapas: pré-análise (organização dos dados, refinamento do conteúdo por leitura flutuante, confirmação do corpus, formulação dos objetivos e preparação do material); codificação (identificação de unidades de registro para criação de categorias com base em critérios semânticos e expressivos); e inferência e interpretação dos dados a partir das categorias. As unidades de análise corresponderam às ementas, matrizes curriculares e perfis do egresso presentes nos PPCs, buscando identificar a inserção dos conteúdos de Neurociência na proposta curricular.
Os dados coletados foram organizados e apresentados por meio de quadros analíticos, sistematizando informações como nome da instituição, unidade federativa, ano do PPC, presença ou ausência de tópicos neurocientíficos, tipo de abordagem, carga horária, relação com a BNC-Formação, termos encontrados e observações. A interpretação dos dados foi realizada por meio de discussão com a literatura científica da área, articulando os dados empíricos com as contribuições teóricas, incluindo a BNC-Formação.
O estudo não necessitou de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), pois não houve interação direta ou indireta com seres humanos e os dados coletados são de domínio e acesso público.
3. Resultados e Discussão
A análise dos Projetos Pedagógicos de Curso (PPC) de 25 cursos de Pedagogia do Nordeste brasileiro revelou que apenas nove Instituições de Ensino Superior (IES), correspondendo a 36% das pesquisadas, atualizaram seus projetos após a publicação da BNC-Formação. O prazo-limite para essa implantação, conforme a Resolução CNE/CP n° 1/2024, era 20 de março de 2024.
Verificou-se que 36% dos cursos analisados incluem conteúdos relacionados à Neurociência em seus PPC. Em contraste, 60% não fazem qualquer menção ao tema, e 4% das instituições, embora não insiram o conteúdo em disciplinas, citam a neuroaprendizagem como fundamento do curso de Pedagogia. Esses dados são detalhados na Tabela 1.Tabela 1. Presença ou ausência da Neurociência nos PPC.
| Instituição | Ano PPC | Presença da Neurociência | Tipo de Abordagem | Carga Horária | Disciplina |
|---|---|---|---|---|---|
| Universidade do Estado da Bahia [UNEB] | 2020 | Sim | Optativa | 60h | Debates contemporâneos sobre alfabetização em países de língua portuguesa: contribuições da psicologia cognitiva e das neurociências |
| Universidade Federal do Recôncavo da Bahia [UFRB] | 2019 | Sim | Optativa | 68h | Aspectos Biológicos da Educação |
| Universidade Federal do Ceará [UFCE] | 2013 | Sim | Optativa | 64h | Aprendizagem: processos e problemas |
| Universidade Federal da Paraíba [UFPB] | 2006 | Sim | Optativa | 60h | Fundamentos Biológicos da Educação |
| Centro Universitário Frassinetti do Recife [UniFAFIRE] | 2024 | Sim | Obrigatória | 40h | Neurociência e Educação |
| Universidade de Pernambuco [UPE] | 2025 | Sim | Optativa | 60h | Neuroeducação |
| Universidade Católica de Pernambuco [UNICAP] | 2019 | Sim | Obrigatória | 60h | Neurociências e os Processos de Aprendizagem |
| Universidade Estadual do Piauí [UESPI] | 2023 | Sim | Obrigatória | 60h | Neurodiversidade* (abrange tópicos da Neurociência) |
| Universidade Federal Rural do Semiárido [UFERSA] | 2016 | Sim | Obrigatória | 30h | Desenvolvimento Cognitivo e Aquisição da Leitura e da Escrita em EJA* (a ementa é muito direcionada à Neurociência, inclusive utilizando o termo diretamente). |
| Universidade Federal de Alagoas [UFAL] | 2019 | Não | |||
| Instituto Federal de Alagoas [IFAL] | 2023 | Não | |||
| Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia [UESB] | 2011 | Não | |||
| Universidade Federal da Bahia [UFBA] | 2012 | Não | |||
| Universidade Federal do Cariri [UFCA] | 2023 | Não | |||
| Universidade Estadual do Ceará [UECE] | 2018 | Não | |||
| Universidade Estadual do Maranhão [EUMA] | 2020 | Não | |||
| Universidade Federal do Maranhão [UFMA] | 2007 | Não | |||
| Universidade Federal de Campina Grande [UFCG] | 2009 | Não | |||
| Universidade Estadual da Paraíba [UFPB] | 2016 | Não | |||
| Universidade Federal de Pernambuco [UFPE] | 2024 | Não | |||
| Universidade Federal do Piauí [UFPI] | 2009 | Não | |||
| Universidade Federal do Rio Grande do Norte [UFRN] | 2017 | Não | |||
| Universidade Potiguar [UNP] | 2024 | Depende | |||
| UNIFACEX | 2019 | Não | |||
| Universidade Federal de Sergipe [UFS] | 2008 | Não |
Fonte: Resultados originais da pesquisa.
A análise da Tabela 1 indicou que a presença de conteúdos neurocientíficos nos cursos de Pedagogia é limitada e, frequentemente, de caráter optativo, o que permite que o egresso conclua o Ensino Superior sem contato com o tema. Observou-se que, nos PPCs que abordam a Neurociência, os termos aparecem de forma pontual e desarticulada, sem integração explícita com as práticas pedagógicas ou a formação docente. A abordagem tende a estar vinculada a disciplinas da área biológica, sem uma articulação interdisciplinar com os processos de ensino e aprendizagem.
É possível que temáticas neurocientíficas sejam abordadas em disciplinas de denominação mais ampla, como “Tópicos Especiais em Educação” ou “Tópicos Emergentes em Pedagogia”, embora não haja evidências que comprovem essa suposição. A Universidade Potiguar (UNP), por exemplo, estabelece a Neurociência como base metodológica do curso, sem a contemplar diretamente na matriz curricular. Disciplinas de Psicologia da Aprendizagem, Desenvolvimento e Aprendizagem, ou Educação Especial não foram consideradas ligadas à Neurociência, pois seu foco não é neurobiológico ou neurocientífico.
Os descritores mais recorrentes nos PPCs foram “Neurociência”, “Neurociências”, “cérebro” e termos relacionados à biologia. Termos mais específicos como “Neurocientífico”, “Neurolinguística”, “Neurocognição”, “Neuroaprendizagem” e “Funções Executivas” foram identificados com baixa frequência ou ausência. Em suma, 64% das IES pesquisadas não contemplam conteúdos neurocientíficos em seus currículos, o que pode limitar a formação dos futuros pedagogos na compreensão do funcionamento cerebral dos alunos.
Essa lacuna na formação docente pode limitar a atuação em diversos aspectos, como a dificuldade em compreender as bases da aprendizagem (sono, emoções, memória, atenção, plasticidade cerebral) e, consequentemente, em planejar experiências que explorem o potencial dos estudantes (Sousa e Alves, 2017). Isso também pode comprometer o desenvolvimento das funções executivas, essenciais para a autonomia e flexibilidade cognitiva (Cosenza e Guerra, 2014).
Adicionalmente, a ausência de conhecimentos neurocientíficos restringe a escolha de estratégias pedagógicas eficazes que estimulem a curiosidade e o engajamento (Dehaene, 2022), dificultando o reconhecimento dos padrões individuais de aprendizagem dos alunos (Markova, 2000) e a compreensão da relevância de metodologias ativas para a consolidação do aprendizado (Dehaene, 2022).
A Neurociência, embora não proponha uma nova pedagogia, oferece subsídios para fundamentar práticas pedagógicas que respeitem o funcionamento cerebral, tornando o processo de ensino-aprendizagem mais científico e eficiente (Cosenza e Guerra, 2014). O conhecimento sobre o cérebro, por si só, não transforma o aprendizado, mas capacita o professor a desenvolver estratégias que promovam a plasticidade neuronal e as funções executivas, impactando positivamente o desenvolvimento dos estudantes (Grossi et al., 2024). Assim, a formação docente deve priorizar a apropriação dessas descobertas.
A BNC-Formação, promulgada em 2019, e a Resolução CNE/CP n° 4 de 2024, que reforça a obrigatoriedade de integração da Base Comum Nacional nos PPCs, são marcos normativos importantes para a formação inicial de professores. A análise desses documentos revelou que, embora a BNC-Formação não mencione diretamente “Neurociência” ou “Neuroeducação”, ela estabelece como competência fundamental a compreensão de como as pessoas aprendem, com base em evidências científicas (Brasil, 2019).
Essa diretriz implica que os futuros profissionais devem entender o desenvolvimento e a aprendizagem em diferentes etapas, e que a inclusão de conhecimentos científicos na Educação é crucial para a adoção de estratégias pedagógicas eficazes. Assim, a BNC-Formação, mesmo sem termos explícitos, indiretamente aponta para a relevância da Neurociência na compreensão das bases neurobiológicas da aprendizagem e na otimização das práticas pedagógicas.
A desatualização dos PPCs é notável, com apenas 36% das IES tendo atualizado seus projetos após a BNC-Formação, e, destas, 55,55% ainda não incluem disciplinas de Neurociência. Essa situação reflete uma fragilidade estrutural na formação inicial docente brasileira, caracterizada pela fragmentação curricular e pela deficiência de saberes diretamente aplicáveis ao cotidiano escolar, conforme apontado por Gatti (2010).
A principal lacuna identificada é a ausência expressiva de conteúdos de Neurociência nas matrizes curriculares, com 64% das IES pesquisadas não os contemplando. Nas instituições onde o tema está presente, ele geralmente aparece como componente optativo, o que não garante que todos os futuros pedagogos desenvolvam uma compreensão das bases neurobiológicas da aprendizagem.
Uma segunda lacuna é a desarticulação entre os conteúdos neurocientíficos e a prática pedagógica. Mesmo quando presentes, os descritores de Neurociência são pontuais e sem integração com o processo de ensino-aprendizagem, frequentemente vinculados a disciplinas de Biologia, sem uma relação interdisciplinar explícita. Isso impede que o professor aplique esses conhecimentos no planejamento de aulas.
A terceira lacuna é a persistente desatualização curricular e o descumprimento do prazo da Resolução CNE/CP n° 4/2024. Uma hipótese para essa lacuna é a ausência de menção direta à Neurociência ou Neuroeducação na BNC-Formação, o que pode levar as IES a não se sentirem obrigadas a integrar tais conteúdos. A construção de documentos normativos mais específicos poderia mitigar esse obstáculo.
Embora existam caminhos para uma abordagem mais científica do ensino-aprendizagem, sua efetivação depende de uma formação inicial que capacite os docentes a aplicar esses conhecimentos no planejamento e na prática pedagógica.
Este estudo apresenta limitações, como a baixa representatividade de instituições privadas no corpus analisado, devido à indisponibilidade pública de seus PPCs completos. Em alguns casos, apenas a matriz curricular foi acessível, o que restringiu a identificação de descritores neurocientíficos e a abrangência dos resultados.
Contudo, a pesquisa contribui para o debate sobre a formação inicial de professores, evidenciando a necessidade de maior articulação entre documentos normativos, currículos de Pedagogia e conhecimentos neurocientíficos. Os resultados podem subsidiar futuras investigações e reflexões sobre a qualificação da formação docente, especialmente na compreensão dos processos de aprendizagem.
4. Conclusão
O presente estudo investigou a presença de tópicos relacionados à Neurociência na Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação) e nos Projetos Pedagógicos de Curso (PPC) de Instituições de Ensino Superior localizadas no Nordeste brasileiro. Verificou-se que apenas 36% dos cursos de Pedagogia analisados incluíam conteúdos de Neurociência em seus PPCs, e, mesmo nestes, a abordagem era frequentemente optativa, pontual e desarticulada da prática pedagógica, com uma tendência a vincular-se a disciplinas da área biológica. Observou-se que a BNC-Formação, embora não mencione explicitamente a Neurociência, estabelece a necessidade de que os professores compreendam como as pessoas aprendem com base em evidências científicas, o que indiretamente aponta para a relevância dos conhecimentos neurocientíficos. Contudo, a desatualização dos PPCs, com apenas 36% das instituições tendo atualizado seus projetos após a BNC-Formação, e a ausência expressiva de conteúdos neurocientíficos em 64% das IES pesquisadas, revelaram uma fragilidade estrutural na formação inicial docente. A principal contribuição do estudo reside em evidenciar a necessidade imperativa de atualização curricular para integrar as descobertas da Neurociência de forma obrigatória e interdisciplinar, capacitando os futuros pedagogos a desenvolverem práticas pedagógicas mais fundamentadas e eficazes.
A pesquisa apresentou limitações decorrentes da baixa representatividade de instituições privadas no corpus analisado, devido à indisponibilidade pública de seus PPCs completos, e do acesso restrito a apenas matrizes curriculares em alguns casos, o que limitou a identificação de descritores neurocientíficos e a abrangência dos resultados. Sugere-se que estudos futuros explorem a efetividade de documentos normativos mais específicos que citem diretamente a Neurociência ou Neuroeducação, a fim de mitigar a lacuna curricular identificada. Recomenda-se que as Instituições de Ensino Superior revisitem suas matrizes curriculares, inserindo disciplinas obrigatórias que discutam as contribuições da Neurociência para a Educação, de forma integrada ao planejamento de aula, didática e avaliação. Isso visa aprimorar a qualificação da formação docente e a compreensão dos processos de aprendizagem, promovendo um ensino mais científico e alinhado ao funcionamento cerebral dos estudantes.
Referências Bibliográficas
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Markova, D. 2000. O natural é ser inteligente: padrões básicos de aprendizagem a serviço da criatividade e educação. Summus, São Paulo, SP, Brasil.
Sousa, Anne Madeliny Oliveira Pereira de; Alves, Ricardo Rilton Nogueira. 2017. Neurociência na formação dos educadores e sua contribuição no processo de aprendizagem. Revista de Psicopedagogia 34(105): 320-331.
Tardif, M. 2014; Saberes docentes e formação profissional. 17ed. Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil.
Tardif, M.; Lessard, C. 2005. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. 9ed. Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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