Neurociência E Aprendizagem Na Educação
15 de setembro de 2026
Contribuições do Desenho Universal da Aprendizagem no Processo de Alfabetização
Juliana Falsetti Schiavão; Marilda Aparecida Soares
DOI: 10.22167/2675-6528-202602245
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A pesquisa investigou os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) no processo de ensino e a percepção de professores da etapa de alfabetização sobre a eficácia de práticas pedagógicas que consideram a diversidade de ritmos de aprendizagem. O estudo também abordou o processo de alfabetização, as dificuldades de alunos com necessidades educacionais diversas e as contribuições da Neurociência para a compreensão da aprendizagem. Para tanto, realizou-se uma pesquisa exploratória e descritiva, fundamentada em estudos bibliográficos e teóricos. Coletaram-se dados por meio de entrevistas estruturadas, aplicadas via formulário eletrônico a 30 professores de alfabetização do município de Bauru, São Paulo, e analisaram-se de forma quali-quantitativa. Os resultados indicaram que o uso de múltiplos meios de apresentação, participação e expressão dos conteúdos, alinhado ao engajamento, aumentou a motivação, o interesse e o desempenho dos alunos, especialmente aqueles com dificuldades de aprendizagem. Constatou-se que a maioria dos educadores considerou o DUA muito importante para a prática pedagógica, reconhecendo sua capacidade de ampliar o acesso ao currículo e favorecer a aprendizagem de todos. Concluiu-se que o DUA é uma abordagem pedagógica essencial para que a escola se adapte às necessidades dos estudantes, promovendo um ambiente educacional mais inclusivo, equitativo e propício à aprendizagem significativa, com o suporte dos avanços da Neurociência.
Palavras-chave: Alfabetização; Desenho Universal da Aprendizagem; Educação inclusiva; Neurociência; Percepção docente.
1. Introdução
O cenário educacional contemporâneo é caracterizado por uma crescente diversidade entre os estudantes, que apresentam ritmos, estilos e necessidades de aprendizagem variados. Modelos pedagógicos tradicionais frequentemente demonstram limitações para abordar essa heterogeneidade de forma eficaz, resultando em desafios para garantir acesso equitativo e uma aprendizagem significativa para todos. Esta realidade ressalta a urgência de adotar abordagens educacionais inclusivas que reconheçam e valorizem as singularidades de cada indivíduo.
Nesse contexto, o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) surge como uma proposta pedagógica que visa atender a essa diversidade. O DUA busca remover barreiras de aprendizagem desde a concepção do planejamento educacional, em vez de exigir que os alunos se adaptem a um modelo preestabelecido. Sua fundamentação teórica, que se inspira no conceito de Desenho Universal da arquitetura, propõe a criação de ambientes e práticas que possam ser utilizados pelo maior número possível de pessoas, sem a necessidade de adaptações posteriores (Alves; Ribeiro; Simões, 2013).
A proposta do DUA organiza-se em três princípios fundamentais: múltiplos meios de representação, múltiplos meios de ação e expressão, e múltiplos meios de engajamento. Esses princípios orientam a oferta de diferentes formas de acesso ao conteúdo, de participação nas atividades e de motivação, promovendo uma aprendizagem mais inclusiva e significativa. Bettio, Miranda e Schmidt (2021) descrevem o DUA como um conjunto de princípios e diretrizes pedagógicas flexíveis, centrado no ensino inclusivo e na consideração da diversidade dos alunos, com aplicação específica na educação infantil (Santos, 2025).
A relevância do DUA é particularmente acentuada no processo de alfabetização, uma fase crucial para o desenvolvimento cognitivo e social. A alfabetização envolve a integração de processos visuais, auditivos e linguísticos, que demandam a reorganização de circuitos neurais específicos para a leitura e escrita (Dehaene, 2012). Nesse sentido, o DUA, proposto por Rose e Meyer (2002), contribui ao estruturar práticas pedagógicas que consideram as diferentes formas de aprendizagem, organizadas em três redes cerebrais: reconhecimento, estratégica e afetiva.
Ao oferecer múltiplos meios de representação, ação/expressão e engajamento, o DUA favorece a aprendizagem significativa e inclusiva no processo de alfabetização. A articulação entre o DUA, os conhecimentos da Neurociência e as diretrizes de inclusão e aprendizagem ativa é fundamental para a construção de práticas pedagógicas mais equitativas, eficazes e centradas no estudante. A teoria das inteligências múltiplas de Gardner (1995) também reforça a ideia de que os indivíduos aprendem de maneiras distintas, o que se alinha aos pressupostos do DUA.
Apesar do potencial do DUA, os currículos convencionais, muitas vezes estruturados para um modelo homogêneo de estudante, ainda geram barreiras que dificultam o acesso e a participação de uma parcela expressiva de alunos, especialmente aqueles com diferentes necessidades educacionais na alfabetização. Além disso, Gonçalves e Tonin (2025) apontam para a escassez de estudos que articulam diretamente o DUA e a alfabetização, evidenciando uma lacuna na literatura que reforça a necessidade de aprofundamento teórico e prático nessa área didático-pedagógica.
Diante desse cenário, torna-se essencial investigar como o DUA pode transformar o processo de ensino e aprendizagem, tornando-o mais inclusivo, flexível e eficaz para todas as crianças, ao invés de uma abordagem única. A compreensão das percepções dos professores sobre a eficácia do planejamento e uso de práticas pedagógicas que contemplem a diversidade dos ritmos de aprendizagem em sala de aula é crucial para promover um ambiente educacional mais equitativo e favorável à aprendizagem significativa. Esta pesquisa teve como objetivo de compreender os princípios do Desenho Universal de Aprendizagem [DUA], enquanto uma abordagem pedagógica que impacta positivamente o processo de alfabetização, sobretudo considerando as especificidades apresentadas por alunos com diferentes necessidades.
2. Material e Métodos
Esta pesquisa possui caráter exploratório e descritivo, fundamentada em estudos bibliográficos e teóricos para analisar os princípios do Desenho Universal de Aprendizagem (DUA) e a percepção de educadores sobre seu uso no processo de alfabetização, incluindo as contribuições da Neurociência na aprendizagem dos estudantes.
Os dados foram coletados por meio de entrevistas estruturadas, realizadas a partir de formulário eletrônico Google Forms, divulgado por e-mail ou redes sociais aos possíveis respondentes, que eram professores do município de Bauru, estado de São Paulo. A coleta de dados foi por conveniência e não-probabilística, e a análise dos resultados foi quali-quantitativa.
Para garantir o sigilo das identidades individuais dos educadores e atender aos critérios éticos da pesquisa acadêmica, a abordagem foi indireta. Os participantes foram informados sobre a pesquisa por meio de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que permitiu esclarecer dúvidas e assegurou a participação voluntária, com a possibilidade de declinar a qualquer momento, sem prejuízo ou risco. As informações fornecidas foram utilizadas exclusivamente para fins científicos, sendo tratadas de forma confidencial. As entrevistas foram gravadas apenas com autorização e para análise da pesquisa. Os temas abordados no questionário incluíram a relevância do DUA na prática pedagógica da alfabetização, as estratégias e meios de representação do conteúdo, e a percepção de melhorias na participação e desempenho de alunos com dificuldades de aprendizagem.
3. Resultados e Discussão
O Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) propõe atender à diversidade dos estudantes por meio da utilização de múltiplos recursos pedagógicos e tecnológicos, materiais, técnicas e estratégias, favorecendo a aprendizagem e ampliando o acesso ao currículo. Fundamenta-se na oferta de múltiplas formas de apresentação dos conteúdos, possibilidades para a realização das atividades e estratégias para estimular o engajamento, a motivação e o interesse dos alunos.
Esta pesquisa analisou a contribuição da Neurociência para a aprendizagem, à luz dos princípios do DUA, buscando identificar procedimentos que favoreceram melhorias no processo de alfabetização.
O DUA consolidou-se no final da década de 1990, em resposta à constatação de que currículos convencionais geravam barreiras de acesso e participação. Sua fundamentação teórica dialoga com o conceito de Desenho Universal na arquitetura, visando a concepção de ambientes utilizáveis pelo maior número de pessoas sem adaptações posteriores. Assim, o DUA defende práticas pedagógicas orientadas à diversidade em sala de aula.
O DUA é um referencial teórico-metodológico flexível, que orienta o planejamento educacional a partir de três eixos centrais: a definição dos objetivos de aprendizagem, as formas de apresentação dos conteúdos e as possibilidades de expressão do conhecimento pelos estudantes (Heredero e Moreira, 2022). A ênfase se desloca do aluno para o currículo, concentrando as adaptações na organização das práticas pedagógicas (Barcelos, Machado e Martins, 2021).
O princípio de acessibilidade universal do DUA reconhece que existem barreiras que impedem o acesso ao currículo para todos os estudantes. Ao planejar a alfabetização com base no DUA, o professor contribui para remover essas barreiras desde o início, criando um ambiente de aprendizagem onde todos têm acesso ao conhecimento, respeitando suas capacidades e especificidades.
A flexibilização curricular é central, significando que o currículo deve ser ajustável às necessidades individuais. Na alfabetização, isso implica usar diferentes estratégias para apresentar o mesmo conteúdo, como o som das letras ou a formação de sílabas, e utilizar materiais concretos, atividades lúdicas, recursos visuais e auditivos. Essa capacidade de adaptação é um elemento central do planejamento didático do DUA.
Modelos de ensino baseados em uma única forma de instrução e avaliação são insuficientes para as necessidades dos estudantes. É fundamental adotar abordagens flexíveis, nas quais o conteúdo pode ser apresentado e avaliado por estratégias diversificadas, favorecendo o engajamento e a aprendizagem.
A implementação do DUA baseia-se em três princípios fundamentais: engajamento, representação e ação e expressão, que orientam a organização de práticas pedagógicas inclusivas. O princípio do engajamento refere-se ao “porquê” da aprendizagem, utilizando estratégias para motivar os estudantes e despertar seu interesse, como a contextualização do tema, uso de vídeos, músicas ou rodas de conversa.
O princípio da representação está relacionado ao “quê” da aprendizagem, ou seja, à forma como os conteúdos são apresentados. O docente pode oferecer múltiplas formas de acesso à informação, utilizando diferentes linguagens e recursos, como explicações orais, imagens, vídeos e objetos concretos.
Por fim, o princípio da ação e expressão diz respeito a “como” o aluno demonstra o que aprendeu. Propõe a diversificação das formas de avaliação, permitindo que os estudantes expressem seus conhecimentos por meio de diferentes linguagens, como a oralidade, a produção gráfica ou gestual.
Figura 1. Infográfico. Princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem [DUA]

Fonte: Resultados da pesquisa
O DUA promove uma reorganização das práticas pedagógicas, orientando o planejamento para a diversidade. Ao incorporar múltiplas estratégias de ensino, aprendizagem e avaliação, essa abordagem contribui para um ambiente educacional mais inclusivo, equitativo e responsivo às necessidades dos estudantes.
Em relação aos múltiplos meios de representação, o DUA propõe apresentar as informações de diversas formas, como imagens, vídeos, músicas e jogos, para que as crianças construam o conhecimento de acordo com sua percepção e compreensão, diferentemente da alfabetização tradicional que muitas vezes se baseia apenas no texto escrito.
Os avanços nos estudos da Neurociência aplicada à educação contribuem significativamente para a compreensão dos processos de aprendizagem. Dehaene (2012) destaca que a aprendizagem da leitura e da escrita envolve a reorganização de circuitos neurais específicos, e práticas diversificadas, como o uso de estímulos visuais, auditivos e cinestésicos, favorecem a consolidação do aprendizado. Howard Gardner (1995) reforça essa ideia com a teoria das inteligências múltiplas, que dialoga diretamente com os pressupostos do DUA.
A articulação entre os princípios do DUA e os estudos da Neurociência aponta para a existência de três grandes redes neurais envolvidas na aprendizagem: a rede de reconhecimento (o quê), a rede estratégica (o como) e a rede afetiva (o porquê), as quais são mobilizadas de forma integrada pelas práticas pedagógicas alinhadas ao DUA (Hall, Meyer e Rose, 2012).
No campo das diretrizes educacionais, o DUA alinha-se à valorização de práticas inclusivas e metodologias ativas, que colocam o estudante como protagonista. No contexto brasileiro, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2017) e o Referencial Curricular da rede SESI-SP (SESI, 2023) respaldam a adoção de práticas alinhadas ao DUA, enfatizando a necessidade de uma educação inclusiva, equitativa e centrada no estudante.
A inclusão escolar, fundamentada nos princípios dos Direitos Humanos (1948) e na Declaração de Salamanca (1994), assegura a igualdade de oportunidades. Atualmente, a discussão sobre educação inclusiva foca na garantia da permanência com qualidade, com práticas pedagógicas que respondam à diversidade presente nas salas de aula (Gonçalves e Gomes, 2025).
A BNCC favorece a inclusão ao definir competências e habilidades que orientam o currículo, promovendo uma formação integral do estudante. O processo de alfabetização requer o desenvolvimento da consciência fonológica e fonêmica, conhecimento alfabético, vocabulário, compreensão oral e domínio do conceito de impressão (Brasil, 2017; Brasil, 2019). A convergência entre os pressupostos do DUA e as diretrizes da BNCC é evidente na valorização das múltiplas linguagens, flexibilização das práticas pedagógicas e promoção da autonomia dos estudantes.
Coleta e análise dos dados referentes à percepção docente
As entrevistas com educadores permitiram identificar a percepção sobre o uso de estratégias do DUA no processo de alfabetização. Participaram 30 professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental de escolas privadas, com conhecimento sobre o DUA.
Os dados confirmaram a importância do DUA e sua articulação com conhecimentos neurocientíficos. Em relação à percepção sobre o DUA, 24 dos 30 respondentes (80%) o consideraram “muito importante” para a prática pedagógica, e os 20% restantes o classificaram como “importante”, indicando uma ampla valorização dessa abordagem.
Figura 2. Importância do [DUA] para a prática pedagógica

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Quanto à oferta de múltiplos meios de representação do conteúdo, 18 dos 30 docentes (60%) utilizam jogos e brincadeiras como estratégia didática, enquanto 12 (40%) recorrem a vídeos com imagens e canções explicativas, demonstrando a diversificação de recursos para favorecer a aprendizagem.
Figura 3. Múltiplos meios de representação dos conteúdos

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Adicionalmente, 21 educadores (70%) afirmaram perceber melhorias significativas na participação e no desempenho de alunos com dificuldades de aprendizagem ao aplicarem os princípios do DUA, reforçando a eficácia da abordagem na promoção de práticas pedagógicas inclusivas e no atendimento à diversidade.
Os princípios do DUA, que enfatizam o engajamento, a representação e a ação/expressão, são cruciais para manter o interesse e a motivação dos alunos. A apresentação diversificada dos conteúdos e múltiplas opções para a expressão da aprendizagem tornam o currículo mais flexível e acessível, promovendo o ensino inclusivo (Bettio, Miranda e Schmidt, 2021).
As potencialidades do DUA na alfabetização abrangem a sistematização de práticas pedagógicas para a inclusão efetiva, garantindo condições reais de participação e aprendizagem, respeitando as singularidades dos sujeitos (Gonçalves e Tonin, 2025). Contudo, a literatura ainda aponta para a escassez de estudos que articulam diretamente DUA e alfabetização, indicando uma lacuna de aprofundamento teórico e prático.
A aquisição da leitura e da escrita, compreendida de forma ampliada, articula-se ao letramento e às práticas sociais da linguagem, demandando estratégias diversificadas e diferentes formas de acesso ao conhecimento, especialmente em turmas heterogêneas e inclusivas (Gonçalves e Tonin, 2025). A alfabetização, como sistema de representação da linguagem humana por meio da escrita alfabético-ortográfica (Soares, 2012), e o letramento, que implica a participação em práticas sociais mediadas pela linguagem escrita, são processos interdependentes.
A organização curricular orientada pelo DUA propõe um planejamento que contemple as diversidades desde o início, reduzindo a necessidade de novas adaptações e potencializando a efetividade das práticas pedagógicas. Essa abordagem, em consonância com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Brasil, 2015), assegura condições de igualdade no acesso, permanência e aprendizagem.
Ensino tradicional e proposta DUA: um olhar comparativo
A análise comparativa entre o ensino tradicional e o DUA revela que o modelo tradicional se caracteriza por práticas padronizadas e centradas no professor, enquanto o DUA propõe uma abordagem flexível e centrada no estudante, considerando suas diferentes formas de aprender.
Há um contraste significativo nas concepções pedagógicas, práticas docentes e compreensão da aprendizagem. O DUA, com seus objetivos flexíveis, amplia as possibilidades de participação, favorecendo que mais estudantes realizem as atividades propostas, o que reforça o caráter inclusivo do processo educativo.
Do ponto de vista metodológico, o DUA pressupõe planejamento curricular flexível, estruturado nos princípios de múltiplas formas de representação, ação e expressão e meios de engajamento, visando considerar a diversidade dos estudantes desde o planejamento para evitar adaptações posteriores e promover equidade. Iniciativas como o uso de tecnologias digitais, materiais acessíveis e a “caixa de aprendizagem” contribuem para redimensionar a alfabetização em contextos inclusivos (Gonçalves e Tonin, 2025).
A “caixa de aprendizagem”, conforme Araújo (2024), materializa o DUA por meio de missões colaborativas, conteúdos conectados à vida dos estudantes e atividades vinculadas ao contexto real. A representação se manifesta em materiais variados e QR Codes para transformar textos em falas, enquanto a ação e expressão se concretizam em diversas formas de expressão e autoavaliação.
A coerência entre conteúdos, objetivos, materiais, métodos e instrumentos de avaliação é fundamental para verificar se os alunos atingiram os resultados esperados (Bettio, Miranda e Schimidt, 2021). Metas e objetivos claros são cruciais para o sucesso da aprendizagem.
No modelo tradicional, o professor é o principal transmissor de conhecimento e o aluno é passivo (Rosalin, 2022). Em contrapartida, o DUA propõe um professor mediador e facilitador, promovendo a participação ativa e o protagonismo discente.
Quanto às estratégias de ensino, o modelo tradicional privilegia uma única forma de apresentação dos conteúdos, enquanto o DUA defende a utilização de múltiplas formas, incorporando recursos visuais, auditivos e práticos, adaptados às diferentes necessidades e estilos de aprendizagem.
As práticas avaliativas também diferem: o ensino tradicional baseia-se em avaliações padronizadas, enquanto o DUA propõe uma avaliação diversificada e flexível, que considera diferentes formas de expressão do conhecimento, incluindo produções orais, práticas e visuais.
A motivação e o engajamento dos alunos, pouco considerados no modelo tradicional, são elementos centrais no DUA, que valoriza a autonomia, o interesse e a participação para aprender.
No campo da inclusão, o ensino tradicional exige que o aluno se adapte ao modelo, podendo gerar exclusão. O DUA, por sua vez, planeja o ensino para se adaptar às características dos alunos, promovendo equidade e acessibilidade, inclusive por meio de materiais acessíveis (Silva, 2024).
O ensino tradicional adota uma visão homogênea da aprendizagem, tratando as dificuldades como falhas a serem corrigidas por repetição. O DUA reconhece a diversidade, compreendendo as dificuldades como oportunidades para estratégias pedagógicas mais inclusivas e eficazes. Essa transição representa uma educação centrada na diversidade, flexibilidade e inclusão, em oposição à padronização.
DUA: alguns limites e desafios no contexto brasileiro
A implementação do DUA no contexto escolar brasileiro enfrenta limites e desafios, principalmente relacionados à formação docente. A ausência de formação continuada específica dificulta a transposição dos princípios do DUA para práticas pedagógicas efetivas, resultando em aplicações superficiais.
As condições estruturais das unidades escolares também representam um desafio. A escassez de recursos didáticos diversificados, tecnologias assistivas, acesso à internet e equipamentos tecnológicos, tanto em escolas públicas quanto particulares, constituem barreiras concretas. Essa realidade aponta para a necessidade de políticas públicas mais efetivas de financiamento e infraestrutura educacional.
A cultura escolar, muitas vezes centrada em práticas pedagógicas tradicionais e modelos avaliativos homogêneos, dificulta a adoção de abordagens flexíveis como o DUA. A resistência a mudanças e a pressão por resultados em avaliações externas restringem a autonomia docente e a inovação pedagógica.
A sobrecarga de trabalho docente é outro aspecto a ser considerado, pois a implementação do DUA exige planejamento mais elaborado, diversificação de estratégias e acompanhamento contínuo dos estudantes. Sem condições adequadas, o DUA pode ser percebido como uma exigência adicional, e não como um suporte à prática.
Por fim, a efetivação de uma educação mais integrativa, conforme a BNCC e a Política Nacional de Educação Especial (Brasil, 2008), depende da articulação entre políticas públicas, gestão escolar e práticas pedagógicas. Isso envolve formação docente, investimento em infraestrutura, revisão de práticas avaliativas e fortalecimento da cultura inclusiva nas escolas.
Dessa forma, o DUA consolida-se como um referencial potente para a promoção da equidade educacional, mas sua implementação no Brasil requer o enfrentamento contínuo de desafios estruturais, culturais e formativos para sustentar uma educação verdadeiramente inclusiva.
Em síntese, os resultados desta pesquisa indicam que o Desenho Universal para a Aprendizagem é percebido como uma abordagem de grande importância para a prática pedagógica na alfabetização, promovendo a flexibilização curricular e o acesso ao conhecimento. A adoção de múltiplos meios de representação, como jogos, brincadeiras e vídeos, e a percepção de melhorias na participação e desempenho de alunos com dificuldades de aprendizagem, reforçam a eficácia do DUA. Apesar dos desafios de implementação no contexto brasileiro, a articulação do DUA com a Neurociência e as diretrizes educacionais contemporâneas fortalece a construção de práticas pedagógicas centradas no estudante, contribuindo para uma educação mais inclusiva e significativa.
4. Conclusão
Este estudo buscou compreender os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e sua influência no processo de alfabetização, considerando a diversidade de necessidades dos alunos. Verificou-se que o DUA, ao propor múltiplos meios de representação, ação e expressão, e engajamento, constitui um referencial pedagógico robusto para a educação inclusiva. Os resultados indicaram uma percepção amplamente positiva dos professores de alfabetização sobre a importância do DUA, com a maioria dos educadores classificando-o como “muito importante” para a prática pedagógica. Observou-se que a aplicação de estratégias diversificadas, como jogos, brincadeiras e vídeos, para a apresentação de conteúdos, resultou em melhorias significativas na participação e no desempenho de alunos com dificuldades de aprendizagem. A articulação dos princípios do DUA com os avanços da Neurociência, que evidenciam a reorganização de circuitos neurais específicos para a leitura e escrita, e com as diretrizes educacionais contemporâneas, como a BNCC, fortalece a construção de práticas pedagógicas mais equitativas e centradas no estudante. A principal contribuição do estudo reside em demonstrar como o DUA oferece um arcabouço prático e teórico para flexibilizar o currículo e promover um ambiente de aprendizagem acessível, adaptando a escola às necessidades dos alunos e não o contrário, o que favorece a formação integral e o sucesso educacional de todos.
Apesar das potencialidades do DUA, sua implementação no contexto brasileiro enfrenta desafios notáveis. Identificou-se a ausência de formação continuada específica para docentes, a precariedade de recursos didáticos e tecnológicos em muitas unidades escolares, e uma cultura escolar que, por vezes, resiste a abordagens flexíveis e inovadoras. A sobrecarga de trabalho docente também se apresenta como um limitador, pois o planejamento e a diversificação exigidos pelo DUA demandam tempo e suporte adequados. Diante dessas limitações, sugere-se que estudos futuros investiguem a eficácia de programas de formação docente continuada focados no DUA e na Neurociência, bem como a elaboração de políticas públicas que garantam investimento em infraestrutura e recursos pedagógicos. Adicionalmente, recomenda-se aprofundar a pesquisa sobre a articulação entre o DUA e a alfabetização em diferentes contextos socioeconômicos, a fim de consolidar evidências sobre sua aplicabilidade e impacto em larga escala, preenchendo a lacuna teórica e prática apontada na literatura.
Referências Bibliográficas
Alves, M.M.; Ribeiro, R.; Simões, F. 2013. Universal Design for Learning [UDL]: contributos para uma escola para todos. Tecnologia da Informação em Educação, Indagatio Didáctica – Universidade de Aveiro, v. 5, n. 4, p. 121-146.
Araújo, I. P. 2024. Caixa de aprendizagem: uma proposta de metodologia ativa orientada pelo Desenho Universal para a Aprendizagem para consolidação do ensino da leitura na alfabetização. Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Barcelos, R. M. F.; Machado, D. J.; Martins, G. B. 2021. Desenho Universal para Aprendizagem: levantamento das publicações científicas e análise do seu conceito. Research, Society and Development, v. 10, n. 12.
Bettio, C.D.B.; Miranda, A.C.A.; Schimidt, A. 2021. Desenho universal para a aprendizagem e ensino inclusivo na educação infantil. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/download/646/575/2169?inline=1. Acesso em: 15 out. 2025.
Brasil. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Presidência da República. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13146.htm. Acesso em: 20 abr. 2026.
Brasil. Ministério da Educação. 2017. Base Nacional Comum Curricular [BNCC]. Brasília, DF, Brasil. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em 16 out. 2025.
Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Alfabetização. 2019. PNA: Política Nacional de Alfabetização/Secretaria de Alfabetização. MEC, SEALF, Brasília, DF, Brasil. Disponível em: http://alfabetizacao.mec.gov.br. Acesso em: 20 abr.2026.
Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. 2008. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/politica.pdf. Acesso em: 20 abr. 2026.
Declaração de Salamanca, 1994 [Referência completa não encontrada no documento original]
Dehaene, S. 2012. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Penso, Porto Alegre, RS, Brasil.
Direitos Humanos, 1948 [Referência completa não encontrada no documento original]
Gardner, H. 1995.Estruturas da mente: a teoria das inteligências múltiplas. Artes Médicas, Porto Alegre, RS, Brasil.
Gonçalves, I. C.; Gomes, V. I. 2025. Desenho universal para aprendizagem e a consolidação de uma prática inclusiva no Brasil. Revista Diálogos Interdisciplinares, Aquidauana, v. 1, n. 17 (Dossiê II: Alfabetização, letramento e educação especial: perspectivas da inclusão na diversidade cultural). Disponível em: https://periodicos.ufms.br/index.php/deaint/issue/view/980. Acesso em: 15 out. 2025.
Gonçalves, K. V. T. e Tonin, L. B. 2025. Desenho Universal para Aprendizagem: possibilidades para uma alfabetização inclusiva. X Encontro Nacional das Licenciaturas – IX Seminário Nacional do PIBID, 2025. Disponível em: https://www.editorarealize.com.br/editora/anais/enalic/2025/TRABALHO_COMPLETO_EV224_ID12051_TB4082_19112025210643.pdf. Acesso em 20 abr. 2026.
Hall, T. E.; Meyer, A.; Rose, D. H. (Eds.) 2012. Universal Design for Learning in the Classroom: Practical Applications. Guilford Press, New York, USA.
Heredero e Moreira, 2022 [Referência completa não encontrada no documento original]
Rosalin, Mariliz Cristiane; Cirino, Roseneide Maria Batista. Desenho Universal para a Aprendizagem: Contribuições à prática pedagógica, 2022. E-book (Produto Educacional) associado à UNESPAR. Disponível em: http://educapes.capes.gov.br/handle/capes/740353. Acesso em: 17 out. 2025.
Rose, D. H. e Meyer, A. 2002. Teaching every student in the digital age: Universal Design for Learning. Disponível em: https://www.scirp.org/reference/referencespapers?referenceid=2035885. Acesso em: 10 out. 2025.
Santos, M. E. 2025. Fundamentos e conceitos do Desenho Universal para Aprendizagem (DUA), Plano de Ensino Individualizado (PEI) e Ensino Colaborativo (EC): possibilidades para o ensino na perspectiva inclusiva. Maringá, PR, Brasil.
Serviço Social da Indústria (SESI]. 2023. Referencial curricular da rede SESI SP. SESI-SP Editora, São Paulo, SP, Brasil.
Silva, M. C. R. F. 2024. Novas Conversas no Grupo de Pesquisa Educação, Arte e Inclusão. Editora Appris, Curitiba, PR, Brasil.
Soares, M. 2012. Alfabetização e letramento. Editora Positivo, Curitiba, PR, Brasil. Disponível em: https://orientaeducacao.wordpress.com/wpcontent/uploads/2017/02/col-alf-let-01-alfabetizacao_letramento.pdf. Acesso em: 18 nov. 2025.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

