Neurociência E Aprendizagem Na Educação
15 de setembro de 2026
Ciências Humanas no Ensino Fundamental I: Possibilidades Inclusivas de Ensino
Laura Junqueira de Mello Reis; Alaina Alves
DOI: 10.22167/2675-6528-202602252
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O estudo abordou as possibilidades inclusivas de ensino nas disciplinas de Ciências Humanas no 2º ano do Ensino Fundamental I. Objetivou-se apresentar estratégias pedagógicas e um modelo de plano de aula para assegurar uma prática inclusiva, visando ampliar o repertório docente em relação aos alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e estimular o uso de metodologias ativas. Realizou-se uma pesquisa documental, tomando como referência a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o material RioEduca de 2025, e relacionou-se essas documentações com um relato de experiência. A análise do planejamento pedagógico e das estratégias propostas demonstrou que as metodologias ativas, fundamentadas na BNCC e no Material RioEduca, oferecem um suporte robusto para a inclusão de estudantes com TEA. Observou-se que o deslocamento do foco do ensino tradicional para uma abordagem lúdica e dinâmica favoreceu o desenvolvimento das funções executivas e estimulou a neuroplasticidade, beneficiando o engajamento emocional dos alunos com TEA. Concluiu-se que a utilização de metodologias ativas constitui uma estratégia eficaz para a educação inclusiva nas Ciências Humanas, promovendo um ambiente de aprendizagem que respeita os diferentes ritmos e necessidades de todos os estudantes.
Palavras-chave: BNCC; Ciências Humanas; Educação inclusiva; Metodologias ativas; Transtorno do Espectro Autista.
1. Introdução
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento, manifestando-se no período inicial da vida e impactando aspectos sociais, acadêmicos e profissionais. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) categoriza o TEA em três níveis de gravidade, que variam conforme a necessidade de apoio para interação social e a presença de déficits na comunicação verbal e não verbal. Essas características persistem da infância à vida adulta, embora o nível de suporte possa se modificar ao longo do tempo. Frequentemente, o TEA coexiste com outras condições, como TDAH, depressão e ansiedade (Opas, 2020).
A inclusão de pessoas com TEA no sistema educacional brasileiro é amparada pela Lei nº 12.764, de 2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Essa legislação garante o direito à educação e prevê sanções para instituições que recusem a matrícula de alunos com TEA ou outras deficiências. Para efetivar essa inclusão, foram implementadas políticas como o Programa Sala de Recursos Multifuncionais (2020) e o Programa Formação de Professores em Educação Especial (2025). Além disso, o Plano Educacional Individualizado (PEI) é uma ferramenta crucial, elaborada por educadores e equipes multidisciplinares para atender às necessidades específicas de cada estudante, fundamentado em legislações como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) e o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) (Silva, 2024).
Nesse contexto de inclusão, o ensino de Ciências Humanas no Ensino Fundamental I, que abrange História e Geografia, assume um papel fundamental no desenvolvimento do pensamento crítico e no respeito às diferenças, promovendo uma formação ética voltada para a equidade e a reflexão sobre as ações dos estudantes. Contudo, a relação entre o ensino dessas disciplinas e a aprendizagem de estudantes com TEA ainda é um campo pouco explorado. Estudantes com TEA apresentam padrões de atenção e processamento de informações distintos (Vasconcelos, 2019), o que demanda abordagens pedagógicas adaptadas. Propõe-se, portanto, a utilização de estratégias mais lúdicas, com menos ênfase em atividades exclusivamente escritas e maior foco em experiências táteis e reflexivas, especialmente em disciplinas tradicionalmente teóricas como as Ciências Humanas. A plasticidade cerebral, no qual experiências moldam a arquitetura do cérebro (Grandin, 2017), reforça a importância de vivências concretas e sensoriais para uma aprendizagem significativa, destacando a necessidade de abordagens que considerem as habilidades únicas de cada estudante.
A relevância desta pesquisa reside na sua capacidade de elucidar a interação entre os componentes curriculares das Ciências Humanas e o TEA, investigando como o ensino dessas disciplinas pode engajar crianças com o transtorno e como os educadores podem ser apoiados com metodologias de ensino atrativas. Há um crescente interesse acadêmico pelo TEA e uma necessidade premente de compartilhar conhecimentos que favoreçam a utilização de novas metodologias de ensino. A inclusão de estudantes com TEA, especialmente no 2º ano do Ensino Fundamental I, não se limita apenas ao aspecto social, mas abrange também a dimensão cognitiva, ao transformar conceitos abstratos, como tempo e passado, em experiências concretas que auxiliam na organização cerebral de estudantes neurodivergentes. Assim, este trabalho busca apresentar possibilidades inclusivas de ensino nas disciplinas de Ciências Humanas no Ensino Fundamental I, mais precisamente no 2º ano.
2. Material e Métodos
O presente trabalho caracteriza-se como uma pesquisa documental, que buscou analisar documentos oficiais da educação brasileira, especificamente a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o material RioEduca de 2025. A análise documental foi articulada com um relato de experiência, de natureza descritiva e exploratória, que evidenciou as vivências da docente para aproximar referenciais teóricos e a prática pedagógica.
A partir dessa abordagem, o estudo propôs um plano de aula, estruturado de forma interdisciplinar para uma turma do 2º ano do Ensino Fundamental I. Este plano teve como objetivo demonstrar a aplicabilidade do projeto e a possibilidade de sua implementação, integrando as habilidades propostas na BNCC e no material RioEduca com os pressupostos da neurociência aplicada à educação, visando oferecer possibilidades inclusivas de ensino nas disciplinas de Ciências Humanas para estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
3. Resultados e Discussão
A análise do planejamento pedagógico e das estratégias propostas neste trabalho indicou que as metodologias ativas, quando fundamentadas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e no Material Rioeduca, oferecem um suporte significativo para a inclusão de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa abordagem transfere o estudante para o papel de protagonista, conforme defendido por Dewey (1938) e Freire (1977), transformando a dinâmica da sala de aula de um modelo meramente expositivo para um ambiente de trocas e participação.
Sob a perspectiva da neurociência, as estratégias analisadas buscaram auxiliar no desenvolvimento das funções executivas das crianças. A organização do projeto em etapas concretas contribui para o planejamento e o monitoramento cognitivo. Além disso, a substituição do formato tradicional por recursos e vivências sensoriais estimula a neuroplasticidade, favorecendo novas conexões neurais através de estímulos variados que respeitam os diferentes ritmos de aprendizagem. Ao alinhar essas ferramentas às habilidades da BNCC, o educador pode criar um ambiente previsível e acolhedor, o que reduz a ansiedade e promove a autonomia dos estudantes.
Priorizar a oralidade e os debates lúdicos em detrimento de registros escritos excessivos é uma estratégia que se alinha às propostas da neurociência e educação. Essa abordagem amplia as possibilidades de participação e fortalece habilidades socioemocionais, como a escuta ativa e a empatia, essenciais para a construção de um senso de pertencimento e cooperação na educação inclusiva. As adaptações visam destacar o que é essencial em cada habilidade, tornando-a compreensível por meio de recursos como imagens e objetos concretos, em vez de apenas reduzir o conteúdo.
Proposta de Plano de Aula
Com o objetivo de evidenciar a aplicabilidade do projeto e sua concretização pedagógica, foi desenvolvida uma proposta de plano de aula interdisciplinar, com duração estimada de duas aulas de 50 minutos. O tema central é “Brinquedos e brincadeiras de antigamente”, integrando História, Geografia e Ciências para o 2º ano do Ensino Fundamental I. Os recursos didáticos incluem brinquedos concretos como pião, bolinha de gude e peteca, além de imagens de pinturas da série “Brincadeira de criança” do artista Ivan Cruz. Materiais reutilizáveis como garrafas pet, barbante e tinta também são previstos para atividades práticas.
As habilidades da BNCC abordadas englobam a análise de mudanças e permanências em lugares e objetos (EF02GE05, EF02CI01), a seleção de situações cotidianas relacionadas à percepção de mudança, pertencimento e memória (EF02HI03), a compreensão de objetos e documentos pessoais como fontes de memória (EF02HI04), a organização temporal de fatos cotidianos (EF02HI06) e a proposição do uso de diferentes materiais para construção de objetos (EF02CI02).
O objetivo geral do plano é analisar as mudanças e permanências nas formas de brincar e nos materiais de produção dos brinquedos ao longo do tempo. Especificamente, busca-se identificar e organizar temporalmente fatos do cotidiano, comparando brinquedos do passado e presente através das memórias dos personagens Yan e Dona Jaci (História e Geografia), e identificar propriedades dos materiais, propondo o uso de reutilizáveis na construção de novos objetos (Ciências).
As estratégias pedagógicas incluem o uso de pistas visuais e antecipação, mediadas pelos personagens do Rioeduca e pelo relógio da sala, para estruturar a rotina e reduzir a ansiedade, favorecendo a flexibilidade cognitiva. A redução da carga cognitiva é alcançada pela apresentação de instruções em etapas curtas e sequenciadas, com o apoio da “Caixinha sobre texto instrucional” do Rioeduca, minimizando sobrecargas e prevenindo frustrações. O engajamento emocional é estimulado pelo emprego de objetos concretos (brinquedos reais), consolidando a aprendizagem e a memória de longo prazo, e ativando a atenção sustentada e a integração de informações sensoriais significativas, favorecendo processos associados à neuroplasticidade.
O desenvolvimento pedagógico prevê uma roda de conversa inicial para apresentar os personagens Yan e Dona Jaci, discutir brincadeiras atuais e antigas, e explorar brinquedos de diferentes épocas e materiais, permitindo que os estudantes compreendam o conceito abstrato de “passado” de forma concreta. Em uma segunda etapa, as obras de Ivan Cruz são exploradas para identificar brincadeiras existentes e mudanças nos espaços de brincar no Rio de Janeiro. Propõe-se a construção de um Bilboquê com garrafa PET, incentivando o debate sobre brincadeiras antigas, sua relação com o presente e a reciclagem de materiais. A educadora deve apresentar as etapas no quadro e marcá-las conforme são concluídas, auxiliando na rotina visual e na previsibilidade.
A avaliação será formativa e processual, baseada na observação contínua da participação, engajamento, compreensão das instruções, atenção e interação dos estudantes. Essa avaliação valoriza os avanços individuais, especialmente nas funções executivas. Ao término das atividades, a construção coletiva de um mapa mental é proposta para organizar visualmente os conteúdos, consolidando a memória de longo prazo e estimulando a recuperação ativa das informações. Os registros no Plano Educacional Individualizado (PEI) devem detalhar a resposta do estudante às pistas visuais, à estruturação temporal da aula e à manipulação de materiais concretos, permitindo ajustes pedagógicos individualizados e garantindo a efetividade da inclusão.
Em síntese, esta pesquisa indicou que a utilização de metodologias ativas, fundamentadas na BNCC e no Material Rioeduca, constitui uma estratégia eficaz para a educação inclusiva nas Ciências Humanas do Ensino Fundamental I. A abordagem lúdica e dinâmica do planejamento pedagógico beneficia todos os estudantes, incluindo aqueles com TEA, ao respeitar os ritmos de aprendizagem individuais. As estratégias que priorizam a oralidade e a exploração sensorial reduzem a carga cognitiva e estimulam a neuroplasticidade, promovendo o engajamento emocional com o conteúdo. A incorporação contínua dessas propostas, baseadas na plasticidade cerebral, é fundamental para o fortalecimento dos processos cognitivos e a organização do cérebro de estudantes neurodivergentes, tornando o conceito de tempo mais acessível através de recursos concretos e manipuláveis, conforme já apontado por Dewey (1979).
A articulação entre a teoria pedagógica, os documentos oficiais e os princípios da neuroeducação oferece um repertório prático para os docentes, contribuindo para que a inclusão, a partir das disciplinas de Ciências Humanas, seja não apenas social, mas também cognitiva, assegurando o direito de aprender a todos os estudantes.
4. Conclusão
O presente estudo buscou apresentar possibilidades inclusivas de ensino nas disciplinas de Ciências Humanas para o 2º ano do Ensino Fundamental I, com foco na ampliação do repertório docente em relação aos alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e no estímulo ao uso de metodologias ativas. Verificou-se que a aplicação de metodologias ativas, alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e ao Material RioEduca, oferece um suporte robusto para a educação inclusiva. Observou-se que o deslocamento do ensino tradicional para uma abordagem lúdica e dinâmica favoreceu o desenvolvimento das funções executivas e estimulou a neuroplasticidade, promovendo o engajamento emocional dos estudantes com TEA. A priorização da oralidade e de debates lúdicos, em detrimento de registros escritos excessivos, ampliou as possibilidades de participação e fortaleceu habilidades socioemocionais. As adaptações pedagógicas, que utilizam recursos visuais e objetos concretos, mostraram-se eficazes para tornar conceitos abstratos mais acessíveis, como evidenciado na proposta de plano de aula interdisciplinar sobre “Brinquedos e brincadeiras de antigamente”.
A principal contribuição deste trabalho reside na oferta de um repertório prático e fundamentado para docentes, articulando a teoria pedagógica, os documentos oficiais e os princípios da neuroeducação. Essa abordagem visa assegurar uma inclusão que transcende o aspecto social, alcançando a dimensão cognitiva ao transformar conceitos complexos em experiências concretas e manipuláveis, especialmente para estudantes neurodivergentes. Para o futuro, sugere-se que as propostas pedagógicas baseadas na plasticidade cerebral, como as apresentadas, sejam incorporadas de forma contínua e sistemática ao cotidiano escolar. A sistematização de estratégias diversificadas e sensorialmente significativas é fundamental para o fortalecimento dos processos cognitivos e a organização cerebral ao longo do tempo, garantindo a efetividade da inclusão para todos os estudantes.
Referências Bibliográficas
DEWEY, John. Experiência e Educação. Trad. Anísio Teixeira. 3ª ed. Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1979.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 7a ed. São Paulo: Paz e Terra; 1977.
GRANDIN. T.; PANEK, R. O cérebro autista. Tradução de Cristina Cavalcanti.7. ed. Rio de Janeiro: Record, 2017. 251 р.
OPAS, Organização Pan-Americana de Saúde. https://www.paho.org/pt/topicos/transtorno-do-espectro-autista. Acessado em 11 de out. 2025.
SILVA, Roberta Lavynia de Almeida. Percepção dos professores da Educação Infantil sobre o papel do Psicopedagogo na construção do Plano Educacional Individualizado (PEI). Curso de Psicopedagogia. Centro de Educação. Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2024.
VASCONCELLOS, Simone Pinto. Práticas educativas e escolarização de alunos com transtorno do espectro autista na educação profissional. 2019. Dissertação (Mestrado em Educação: Conhecimento e Inclusão Social) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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