Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

15 de setembro de 2026

Inclusão e Acessibilidade para Estudantes Neurodivergentes de uma Faculdade de Medicina do Estado do Rio de Janeiro

Isabel Vieira de Assis Lima; Carolina Matteussi Lino

DOI: 10.22167/2675-6528-202602229

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A neurodiversidade compreende variações no funcionamento neurológico que impactam aspectos cognitivos, comportamentais e sociais. No contexto da educação médica, caracterizada por alta demanda cognitiva e metodologias ativas, estudantes neurodivergentes frequentemente enfrentam desafios relacionados às funções executivas, interação social e sobrecarga cognitiva, além de suporte institucional limitado. O estudo objetivou analisar os desafios vivenciados por estudantes neurodivergentes em uma faculdade de medicina do estado do Rio de Janeiro, relacionando-os aos fatores associados à inclusão acadêmica. Realizou-se uma pesquisa quali-quantitativa, descritiva, por meio de questionário online semiestruturado. Os dados quantitativos foram analisados descritivamente, e os qualitativos, por análise de conteúdo-temática. Participaram 19 estudantes, com predominância do sexo feminino (68,4%) e do ciclo básico (57,9%). Identificou-se alta prevalência de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (84,2%) e Transtorno do Espectro Autista (31,6%), com 36,8% apresentando múltiplas condições. A maioria (63,2%) recebeu o diagnóstico após o ingresso na graduação, o que gerou alívio e compreensão de suas limitações. Verificou-se que 73,7% dos estudantes comunicaram sua condição à instituição, e 57,9% solicitaram adequações, principalmente tempo adicional em avaliações teóricas, mas 30,8% relataram demandas não atendidas. A dificuldade de adaptação acadêmica foi relatada por 84,2% dos participantes, envolvendo organização do tempo, concentração e avaliações. Concluiu-se que estudantes neurodivergentes enfrentaram dificuldades significativas no ensino médico, evidenciando a necessidade de estratégias institucionais voltadas à inclusão e equidade acadêmica.

Palavras-chave: Adaptação educacional; Desempenho acadêmico; Estudantes de medicina; Neurodiversidade.

1. Introdução

A neurodivergência representa a variabilidade inerente ao funcionamento neurológico humano, abrangendo condições como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e os transtornos específicos de aprendizagem, como dislexia e disgrafia (Donaghy et al., 2023). Embora o conceito tenha ganhado relevância nas últimas décadas, estudantes neurodivergentes frequentemente enfrentam desafios significativos no ambiente acadêmico. Essas dificuldades são particularmente acentuadas no ensino superior, onde as exigências cognitivas e adaptativas são notavelmente elevadas.

No Brasil, o arcabouço legal tem avançado para garantir a inclusão, com marcos como o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) e iniciativas como o Programa Incluir – Acessibilidade na Educação Superior. O reconhecimento de condições como o TEA e o TDAH como aquelas que asseguram direitos à acessibilidade acadêmica deveria, em teoria, garantir suporte institucional adequado. Contudo, a implementação dessas políticas é heterogênea entre as instituições, resultando em lacunas significativas na adaptação curricular, na formação docente e na oferta de recursos inclusivos (Andrade et al., 2024). Consequentemente, barreiras pedagógicas e institucionais persistem, comprometendo a permanência e o desempenho acadêmico desses estudantes (Aguilar e Raouli, 2020).

Nesse contexto, a acessibilidade educacional deve ser compreendida em uma perspectiva ampliada, englobando dimensões atitudinais, metodológicas, comunicacionais e tecnológicas, conforme estabelecido pelo Decreto nº 9.034/2017. A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) reforça essa visão ao considerar a deficiência como um resultado da interação entre as condições individuais e os fatores contextuais. Assim, as limitações no desempenho acadêmico não podem ser atribuídas exclusivamente ao indivíduo, mas também às barreiras presentes no ambiente educacional.

Dados recentes indicam um aumento no número de matrículas de estudantes com deficiência no ensino superior. No entanto, esses mesmos dados revelam uma insuficiência de recursos institucionais e a carência de núcleos de acessibilidade estruturados (Instituto Rodrigo Mendes, 2023). Essa disparidade contribui para a elevada taxa de evasão acadêmica entre estudantes neurodivergentes. Indivíduos com TEA, por exemplo, apresentam taxas de conclusão do ensino superior inferiores quando comparados a estudantes neurotípicos (Aguilar e Raouli, 2020; Wei et al., 2015), o que evidencia a persistência de desigualdades no acesso, permanência e sucesso acadêmico.

Além das barreiras institucionais, fatores individuais e ambientais também contribuem para a vulnerabilidade acadêmica desses estudantes. A camuflagem comportamental, ou “masking”, frequentemente empregada para adaptação a ambientes predominantemente neurotípicos, está associada a um aumento do estresse e da exaustão emocional. Adicionalmente, a sobrecarga sensorial, as dificuldades de interação social e a ausência de suporte psicopedagógico adequado são fatores que podem comprometer o desempenho acadêmico e levar ao abandono do curso (Santos et al., 2024). Embora algumas instituições tenham implementado iniciativas como núcleos de acessibilidade, ainda persistem limitações estruturais e a necessidade de capacitação contínua de docentes e equipes técnicas (Batista et al., 2022; Gatti e Barreto, 2021).

No contexto específico do curso de Medicina, essas dificuldades são frequentemente potencializadas. A elevada carga horária, o vasto volume de conteúdos e a utilização de metodologias ativas, como o Problem-Based Learning (PBL), demandam habilidades de organização, flexibilidade cognitiva, comunicação interpessoal e participação em atividades coletivas. Tais exigências representam desafios adicionais para estudantes neurodivergentes, especialmente aqueles com dificuldades em funções executivas, regulação emocional e processamento sensorial. Mesmo quando adaptações institucionais são oferecidas, evidências mostram que estas são frequentemente pontuais e insuficientes para promover uma inclusão efetiva, refletindo a ausência de abordagens sistemáticas e integradas.

Diante desse cenário, torna-se necessário investigar de forma mais aprofundada as experiências acadêmicas desses estudantes, considerando tanto os fatores individuais quanto os institucionais envolvidos. Assim, o presente estudo teve como objetivo analisar os desafios enfrentados por estudantes neurodivergentes de uma faculdade de medicina do estado do Rio de Janeiro, relacionando-os aos fatores associados à inclusão acadêmica, bem como avaliar a efetividade das estratégias institucionais adotadas e identificar possíveis adequações que favoreçam a permanência e o desempenho acadêmico.

2. Material e Métodos

O presente estudo baseou-se na análise de dados provenientes de estudo previamente conduzido, cujo projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa [CEP] da instituição de ensino superior [IES], sob parecer nº 7.697.417 (CAAE: 88799825.8.0000.0376), em conformidade com as Resoluções n° 466/2012, n° 510/2016 e n° 674/2022 do Conselho Nacional de Saúde. Foram respeitados os princípios éticos da autonomia, beneficência, não maleficência e confidencialidade.

Trata-se de um estudo observacional, descritivo, com abordagem quali-quantitativa, focado na análise das estratégias de inclusão e acessibilidade adotadas por uma IES e sua relação com as dificuldades vivenciadas por estudantes neurodivergentes no curso de Medicina.

A amostra foi composta por estudantes regularmente matriculados do 1º ao 12° período do curso de Medicina, com idade igual ou superior a 18 anos, que se autoidentificaram com alguma condição neurodivergente. Os participantes foram convidados por e-mail institucional, com um link para formulário eletrônico na plataforma Google Forms®, que incluía o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido eletrônico [TCLE-e] (Anexo 1) e o questionário (Anexo 2). Foram incluídos os estudantes neurodivergentes que leram e concordaram com o TCLE-e, e excluídos aqueles não regularmente matriculados ou que não apresentavam condição neurodivergente.

O instrumento de coleta foi um questionário semiestruturado, com questões fechadas e abertas, organizado em quatro eixos: I. Perfil do participante (condição neurodivergente, tratamento, comunicação à instituição e solicitações de adequações); II. Vivências acadêmicas (desafios e percepção sobre recursos e adequações); III. Percepção e inclusão no ambiente acadêmico (acolhimento da coordenação, Núcleo de Atendimento ao Discente e Docente [NADD], professores e colegas); e IV. Propostas de inclusão (sugestões de estratégias e interesse em grupos de apoio).

O estudo apresentou risco mínimo, com dados coletados de forma anônima, sem intervenção ou coleta de dados sensíveis. Os estudantes podiam desistir a qualquer momento sem prejuízo. Em caso de dúvidas, podiam contatar a pesquisadora e, em caso de desconforto emocional, seriam encaminhados para atendimento psicológico no NADD da IES.

Os dados foram analisados por estatística descritiva, e as respostas qualitativas foram submetidas à análise de conteúdo-temática. As informações foram armazenadas em ambiente digital seguro, com acesso restrito à equipe de pesquisa, por cinco anos após a conclusão do estudo, sendo posteriormente eliminadas.

3. Resultados e Discussão

Dos 22 estudantes que responderam ao questionário, três foram excluídos por não apresentarem condição neurodivergente, resultando em uma amostra final de 19 estudantes. A análise do perfil dos participantes por ciclo acadêmico revelou predominância de estudantes no ciclo básico (57,9%), seguido pelo ciclo clínico (26,3%) e internato (15,8%), conforme ilustrado na Figura 1.

Figura 1. Prevalência dos estudantes por ciclo acadêmico.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

Em relação ao perfil sociodemográfico, observou-se predomínio do sexo feminino em todos os ciclos acadêmicos (63,6% no ciclo básico, 80% no clínico e 66,7% no internato). A idade média global foi de 23,9 ± 3,7 anos, com 22,7 ± 3,4 anos no ciclo básico, 27,0 ± 7,5 anos no ciclo clínico e 23,0 ± 1,0 anos no internato. Adicionalmente, 47,4% dos estudantes relataram ter cursado ou concluído outra graduação, conforme detalhado na Tabela 1.

Tabela 1. Perfil dos estudantes de acordo com idade e sexo.

Ciclo acadêmicoIdade (média ± DP)Feminino (%)Masculino (%)Não se identificou (%)
Básico22,7 ± 3,463,618,218,2
Clínico27,0 ± 7,580,0020,0
Internato23,0 ± 1,066,7033,3

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

As condições neurodivergentes mais prevalentes foram o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) (84,2%), seguido pelo Transtorno do Espectro Autista (TEA) (31,6%). Destaca-se que 36,8% dos participantes apresentaram duas ou mais condições, indicando a ocorrência de comorbidades que podem potencializar as dificuldades acadêmicas devido à sobreposição de alterações em funções executivas, regulação atencional e processamento sensorial. Dois casos de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) foram identificados, um associado a TEA e outro a TEA e TDAH, evidenciando perfis heterogêneos de dupla excepcionalidade na amostra (Figura 2).

Figura 2. Prevalência das condições neurodivergentes apresentadas pelos estudantes.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

TDAH e TEA são transtornos do neurodesenvolvimento associados a prejuízos funcionais em contextos acadêmicos. O TDAH relaciona-se a alterações em redes neurais de controle cognitivo, impactando atenção sustentada, controle inibitório, memória de trabalho e planejamento (Cortese et al., 2021; Faraone et al., 2021). No TEA, padrões de conectividade cerebral atípica afetam cognição social, flexibilidade cognitiva e processamento sensorial (Lord et al., 2020; Hull et al., 2017). A coexistência de AH/SD com TDAH e/ou TEA pode gerar discrepâncias intraindividuais, onde habilidades superiores coexistem com dificuldades adaptativas e socioemocionais, demandando acompanhamento institucional diferenciado (Foley-Nicpon et al., 2013).

Foi relatado que 31,6% (n=7) dos estudantes possuíam diagnóstico de comorbidade psiquiátrica associada. O transtorno de ansiedade generalizada (TAG) foi o mais prevalente (57,1%), seguido pelo transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) (28,6%) e transtorno afetivo bipolar (TAB) (14,3%) (Figura 3). Esses achados, embora baseados em uma amostra pequena e diagnósticos autorreferidos, são consistentes com a literatura que descreve alta prevalência de comorbidades psiquiátricas em indivíduos com TDAH e TEA (Faraone et al., 2021; Hollocks et al., 2019). A predominância de TAG pode estar ligada à interação entre déficits em funções executivas e regulação emocional, comuns em transtornos do neurodesenvolvimento, e a fatores ambientais do curso de medicina, como a elevada carga acadêmica.

Figura 3. Prevalência das comorbidades psiquiátricas associadas.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

A maioria dos estudantes (63,2%) recebeu o diagnóstico de sua condição neurodivergente após ingressar na graduação em medicina. Os impactos desse diagnóstico na trajetória acadêmica incluíram alívio, maior compreensão de suas limitações e melhora clínica com tratamento (Figura 4). Esse diagnóstico tardio pode ser um marco importante, facilitando a autopercepção e o acesso a intervenções terapêuticas e educacionais mais adequadas, especialmente em cursos de alta exigência como medicina, onde déficits previamente compensados podem se tornar mais evidentes (Anastopoulos et al., 2018).

Figura 4: Impacto do diagnóstico na trajetória acadêmica dos estudantes.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

Em relação ao acompanhamento em saúde, 89,5% dos estudantes realizavam acompanhamento neurológico e/ou psiquiátrico, com predominância do acompanhamento psiquiátrico (57,9%) (Figura 5). Além disso, 73,7% estavam em acompanhamento psicoterapêutico, e 10,3% destes também realizavam outros tipos de acompanhamento, como terapia ocupacional e fonoaudiologia (Figura 6). Esses dados indicam o reconhecimento das demandas em saúde mental, mas a coexistência de múltiplas condições neurodivergentes e comorbidades psiquiátricas pode intensificar as dificuldades acadêmicas, especialmente na regulação emocional, organização do tempo e adaptação às metodologias de ensino (Faraone et al., 2021; Lord et al., 2020).

Figura 5: Prevalência do acompanhamento neurológico/psiquiátrico.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

Figura 6. Prevalência do acompanhamento psicoterapêutico.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

A comunicação da condição neurodivergente à IES foi realizada por 73,7% dos estudantes, e em todos os casos, houve relato de interesse institucional (Figura 7). Esses achados sugerem um ambiente potencialmente favorável ao acolhimento, sendo a comunicação formal fundamental para o acesso a adaptações acadêmicas. Contudo, a literatura aponta que o estigma e o desconhecimento podem influenciar a decisão de revelar a condição (Cage & Troxell-Whitman, 2019; Lindsay et al., 2019). O interesse institucional, por si só, não garante a efetividade das adaptações, exigindo políticas estruturadas e formação docente contínua (Kendall, 2016; Gurbuz et al., 2019).

Figura 7: Comunicação e interesse da IES sobre a condição neurodivergente dos estudantes.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

As adequações mais solicitadas à IES foram tempo adicional para provas teóricas (42,3% das 26 solicitações), seguidas por tempo adicional em provas práticas (11,5%). Outras demandas incluíram uso de fones com cancelamento de ruído e possibilidade de saída da sala de aula sem prejuízo de frequência (Tabela 2). Esses pedidos refletem a necessidade de flexibilização e adaptação das metodologias de ensino para atender às especificidades dos estudantes neurodivergentes.

Tabela 2: Adequações solicitadas à IES pelos estudantes neurodivergentes.

Adequaçãon%
Tempo adicional em prova teórica1142,3
Tempo adicional em prova prática311,5
Uso de fones com cancelamento de ruído27,7
Saída de aula sem prejuízo de frequência27,7
Trabalhos/portfólios por meios eletrônicos27,7
Tempo adicional em OSCE13,8
Uso de garrafa de água em laboratório13,8
Atividades em grupos reduzidos/individual13,8
Flexibilidade no uso de microscópios13,8
Vigilância docente contra bullying13,8
Adaptação de atividades competitivas13,8
TOTAL26100

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

Em relação à adaptação à rotina acadêmica, 84,2% dos estudantes relataram dificuldade, sendo que 42,1% a classificaram como “muito difícil” e 31,6% como “difícil” (Figura 8). Essas dificuldades são atribuídas à alta carga cognitiva do curso de medicina, à necessidade de organização autônoma, gestão do tempo e exposição a ambientes com intensa estimulação sensorial e social. Neurofuncionalmente, essas dificuldades podem ser explicadas por alterações em funções executivas e regulação atencional, comuns no TDAH e TEA (Faraone et al., 2021; Demetriou et al., 2018; Lord et al., 2020).

Figura 8: Dificuldade de adaptação à rotina acadêmica entre estudantes neurodivergentes.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

Os aspectos mais desafiadores da rotina acadêmica foram “organização e gestão de tempo” (94,1%), “concentração ao longo das aulas” (88,2%) e “processos avaliativos” (70,6%) (Figura 9). Essas dificuldades concentram-se em domínios relacionados às funções executivas e à regulação atencional, impactando planejamento, monitoramento de tarefas e memória de trabalho. A literatura reforça que ambientes acadêmicos pouco flexíveis podem exacerbar dificuldades, demandando estratégias pedagógicas que promovam previsibilidade e flexibilização (Anastopoulos et al., 2018).

Figura 9: Aspectos desafiadores na rotina acadêmica entres os estudantes neurodivergentes.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

Quanto ao perfil de acolhimento pela IES, a maioria dos estudantes neurodivergentes avaliou positivamente o ambiente, com predominância das percepções “acolhedor” (n = 29) e “muito acolhedor” (n = 19). Docentes e o Núcleo de Atendimento ao Discente e Docente (NADD) concentraram as avaliações mais positivas. Em contraste, colegas de turma apresentaram uma distribuição mais heterogênea, com respostas neutras e negativas relevantes (Figura 10). Esses achados sugerem que estruturas formais de apoio e a atuação docente são centrais para a percepção de acolhimento, enquanto o ambiente interpessoal entre pares pode ser uma fonte de vulnerabilidade, indicando a persistência de barreiras atitudinais e limitações na integração social (Anderson et al., 2017; Lombardi et al., 2016).

Figura 10: Perfil de acolhimento dos estudantes neurodivergentes na IES.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

Uma parcela expressiva dos estudantes neurodivergentes relatou adotar estratégias de adaptação comportamental, ou “mascaramento”, no ambiente acadêmico (Figura 11). Esse comportamento, comum no TEA, envolve a supressão de características e a imitação social para se ajustar às expectativas (Hull et al., 2017; Cage et al., 2018). Embora possa favorecer a adaptação em curto prazo, o mascaramento contínuo está associado a maior sobrecarga cognitiva, fadiga e risco de sintomas ansiosos e depressivos (Livingston et al., 2019), servindo como indicador indireto de barreiras ambientais e sociais.

Figura 11: Necessidade de mascarar comportamentos pelos estudantes neurodivergentes.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

As sugestões dos participantes para melhoria do ambiente acadêmico incluíram a ampliação do suporte institucional, maior sensibilização de docentes e discentes, e a adoção de estratégias pedagógicas mais inclusivas (Figura 12). Essas propostas alinham-se ao modelo social da deficiência, que enfatiza o papel das barreiras contextuais na produção da incapacidade (World Health Organization, 2011), e reforçam a importância de práticas pedagógicas inclusivas e do desenho universal para aprendizagem (Lombardi et al., 2016; Anderson et al., 2017).

Figura 12: Sugestões de iniciativas para fortalecer a inclusão de estudantes neurodivergentes no ensino superior.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

Observou-se elevado interesse dos estudantes em participar de rodas de conversa e/ou grupos de apoio (Figura 13), indicando uma demanda por espaços de troca e suporte entre pares. O suporte social e o senso de pertencimento acadêmico são fatores relevantes para a adaptação ao ensino superior e para a redução do sofrimento psicológico (Cage et al., 2018; Bolourian et al., 2018). Iniciativas institucionais que promovam espaços seguros de interação podem contribuir para a redução do isolamento e, potencialmente, da necessidade de mascaramento.

Figura 13: Interesse em participar de rodas de conversa e/ou grupos de apoio com outros estudantes neurodivergentes.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

Em síntese, o estudo caracterizou o perfil de estudantes neurodivergentes em uma faculdade de medicina, destacando a alta prevalência de TDAH e TEA, frequentemente associados a comorbidades psiquiátricas e diagnóstico tardio. Os achados indicam que, apesar de uma percepção globalmente positiva do acolhimento institucional e da presença de suporte em saúde, persistem desafios significativos relacionados à efetividade das adaptações acadêmicas, à integração social e às interações entre pares. Isso evidencia a necessidade de abordagens individualizadas e integradas que considerem as demandas clínicas, pedagógicas e psicossociais desses estudantes, oferecendo subsídios para a manutenção, revisão e ampliação de estratégias de inclusão e acessibilidade na IES.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou analisar os desafios vivenciados por estudantes neurodivergentes em uma faculdade de medicina do estado do Rio de Janeiro, relacionando-os aos fatores associados à inclusão acadêmica. Verificou-se uma alta prevalência de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e Transtorno do Espectro Autista entre os participantes, com muitos recebendo o diagnóstico apenas após o ingresso na graduação, o que gerou alívio e maior compreensão de suas próprias limitações. Identificou-se que a maioria dos estudantes comunicou sua condição à instituição, que demonstrou interesse, e solicitou adequações, principalmente tempo adicional em avaliações. Contudo, uma parcela significativa relatou dificuldades expressivas na adaptação à rotina acadêmica, com destaque para a organização do tempo, concentração e processos avaliativos, além da necessidade frequente de mascarar comportamentos para se ajustar ao ambiente. Esses achados evidenciam as demandas específicas de natureza clínica, pedagógica e psicossocial desses estudantes, delineando áreas críticas para a promoção de um ambiente acadêmico mais equitativo e inclusivo no ensino médico.

Apesar da percepção globalmente positiva do acolhimento institucional e da existência de suporte em saúde, o estudo revelou a persistência de desafios na efetividade das adaptações acadêmicas e na integração social entre pares. As limitações do estudo incluem o tamanho reduzido da amostra e o caráter autorreferido dos diagnósticos, além do delineamento transversal que impede o estabelecimento de relações causais. Para estudos futuros, sugere-se a ampliação do suporte institucional, a sensibilização contínua de docentes e discentes, a implementação estruturada de adequações pedagógicas e a criação de espaços de apoio psicossocial, como rodas de conversa e grupos de suporte. Tais iniciativas podem fortalecer a inclusão, favorecer a permanência e o sucesso acadêmico de estudantes neurodivergentes no ensino superior.

Referências Bibliográficas

Aguilar, C.; Raouli, L. 2020. Inclusão e permanência de estudantes neurodivergentes no ensino superior: desafios e perspectivas. Vozes, São Paulo, SP, Brasil.

Andrade, R.P.; Silva, M.A.; Costa, F.R. 2024. Políticas de acessibilidade no ensino superior brasileiro: avanços e lacunas. Revista Brasileira de Educação Inclusiva 18(2): 55–72.

Donaghy, E.; Moore, C.; Green, A. 2023. Neurodiversity and higher education: inclusive strategies for learning. Routledge, London, England.

Instituto Rodrigo Mendes. 2023. Painel de Indicadores da Educação Especial – DIVERSA. São Paulo: Instituto Rodrigo Mendes, 2023. Disponível em: . Acesso em: 28 out. 2025.

Santos, L. P.; Oliveira, V. C.; Souza, N. R. 2024. Experiências de estudantes neurodivergentes em cursos de Medicina: um estudo

Wei, X.; Wagner, M.; Hudson, L.; Yu, J. W.; Shattuck, P. 2015. Postsecondary pathways and persistence for STEM versus non-STEM majors among college students with autism spectrum disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders 45(5): 1159–1171.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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Neurociência E Aprendizagem Na Educação

15 de setembro de 2026

A Progressão das Demandas Cognitivas nas Habilidades de Leitura da Bncc nos Anos Finais do Ensino Fundamental

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabeleceu um marco para a organização curricular da Educação Básica, definindo aprendizagens essenciais a serem desenvolvidas progressivamente. Nesse contexto, a progressão das aprendizagens e o desenvolvimento cognitivo dos estudantes nas habilidades de leitura têm sido objeto de análise no campo educacional. O estudo objetivou analisar a progressão cognitiva das habilidades de leitura propostas para o 6º e o 7º anos do Ensino Fundamental, utilizando como referência a Taxonomia de Bloom revisada. Realizou-se uma pesquisa de natureza qualitativa, baseada em análise documental, com foco na identificação e classificação dos verbos que expressam as operações cognitivas mobilizadas nas habilidades. Os resultados indicaram a recorrência de habilidades de média e alta complexidade ao longo deste ciclo, sem a explicitação de uma progressão cognitiva linear. Observou-se a predominância de operações como análise, avaliação e comparação desde o início do período analisado. Esses achados revelaram desafios para a organização curricular, especialmente quanto à necessidade de mediação docente para construir a progressão das aprendizagens, prevenir a sobrecarga cognitiva e promover práticas pedagógicas que favoreçam o desenvolvimento gradual da autonomia leitora.

Palavras-chave: BNCC; Complexidade Cognitiva; Ensino de Língua Portuguesa; Habilidades de leitura; Taxonomia de Bloom.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

15 de setembro de 2026

Neurociência e Formação Docente: um Retrato dos Cursos de Licenciatura no Nordeste Brasileiro Pós Bnc-formação

A compreensão dos processos de aprendizagem, influenciada por fatores biológicos e neurobiológicos, é fundamental para a formação docente. Investigou-se a presença ou ausência de tópicos ligados à Neurociência em cursos de Pedagogia no nordeste brasileiro. A pesquisa, de natureza qualitativa e descritivo-exploratória, foi realizada em 2026, com base em análise documental. Analisaram-se os Projetos Pedagógicos de Curso (PPC), as matrizes curriculares e os ementários de vinte e cinco Instituições de Ensino Superior da região, além da Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação). Os resultados indicaram uma pouca presença de conteúdos de neurociências na formação inicial docente, mesmo após a promulgação da BNC-Formação em 2019. Observou-se que apenas 36% dos cursos analisados apresentaram conteúdos relacionados à Neurociência em seus PPC, enquanto a maioria não fez menção ao tema. As conclusões apontaram a necessidade imperante de atualização das matrizes curriculares dos cursos de Pedagogia, com a inserção de disciplinas e programas que abordem a neurociência. Isso visa capacitar os futuros professores a compreenderem o funcionamento do cérebro e a aplicarem descobertas científicas em suas práticas pedagógicas, otimizando o processo de ensino-aprendizagem e o desenvolvimento dos estudantes.

Palavras-chave: BNC-Formação; Currículo; Neurociências; Pedagogia.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

15 de setembro de 2026

Estratégias Pedagógicas para Inclusão de Crianças com Tea: Contribuições do Modelo Denver no Contexto Escolar.

O aumento expressivo no número de crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem desafiado os sistemas educacionais quanto à efetivação da inclusão escolar. Nesse contexto, a intervenção precoce baseada em evidências científicas mostrou-se fundamental para promover o desenvolvimento integral. O estudo analisou as estratégias pedagógicas para inclusão de crianças com TEA, com foco nas contribuições do Modelo Denver de Intervenção Precoce (ESDM) para o desenvolvimento da linguagem, aprendizagem e socialização no ambiente escolar. Realizou-se um estudo de caso múltiplo em três Centros de Educação Infantil Municipais de Penápolis/SP. A pesquisa baseou-se na análise documental de Planos Educacionais Individualizados (PEIs) de três estudantes com TEA e foi complementada por relatos de experiência de uma professora mediadora. Os dados foram analisados por meio da técnica de análise de conteúdo, buscando identificar padrões e relações entre as estratégias de intervenção e os avanços no desenvolvimento infantil. Os resultados evidenciaram que a intervenção precoce, fundamentada em práticas baseadas em evidências e sistematizada pelo PEI, mostrou-se viável e eficaz. Observou-se que a utilização de estratégias naturalistas, lúdicas e mediadas por interações sociais significativas, conforme preconiza o Modelo Denver, favoreceu avanços expressivos nas áreas de comunicação, interação social, cognição, autonomia funcional e comportamento adaptativo das crianças participantes. Concluiu-se que a aplicação do Modelo Denver no ambiente escolar, articulada ao PEI, constituiu uma estratégia promissora para o desenvolvimento integral de crianças com TEA na educação infantil, reafirmando o papel da escola na intervenção precoce e nas práticas inclusivas.

Palavras-chave: Educação infantil; Inclusão escolar; Intervenção precoce; Modelo Denver; Transtorno do Espectro Autista.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

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