Artigo

02 de outubro de 2026

Modelagem preditiva por séries temporais para manutenção de filtros em estações de tratamento de água

Modelagem Preditiva por Séries Temporais para Manutenção de Filtros em Estações de Tratamento de Água

Eduardo Antonio Ribeiro Heinisch; Gustavo Nazato Furlan

DOI: 10.22167/2675-6528-202602860

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A manutenção de filtros em estações de tratamento de água (ETAs) é crucial para a qualidade da água, e a antecipação de picos de turbidez é fundamental para otimizar as lavagens. A pesquisa propôs a aplicação de algoritmos preditivos para antecipar esses picos na água filtrada, fornecendo suporte à tomada de decisão para a manutenção dos filtros. Utilizou-se uma base histórica robusta (2009 a 2025) de dados operacionais do sistema corporativo de gestão industrial da ETA e dados pluviométricos do INMET. O estudo comparou modelos baseados em árvores (Random Forest e XGBoost) e redes neurais recorrentes (LSTM). Após pré-processamento e engenharia de atributos, que consistiu na criação de defasagens temporais e médias móveis, os resultados demonstraram que o modelo LSTM apresentou maior capacidade para a generalização da série temporal. Do ponto de vista prático de operação dos filtros, ao converter as predições de regressão em alertas de classificação binária, obedecendo ao limite de 0,30 NTU, o modelo demonstrou uma capacidade de antecipação preventiva de 55% dos eventos críticos. Concluiu-se que a abordagem baseada em dados se mostrou viável e atuou como uma ferramenta proativa, capaz de garantir a qualidade do tratamento da água e de auxiliar os operadores a minimizar desperdícios com lavagens desnecessárias.

Palavras-chave: Deep Learning; LSTM; Machine Learning; Tratamento de Água; Turbidez.

1. Introdução

Com o avanço da tecnologia e a crescente disponibilidade de dados, a área de Data Science teve uma evolução a passos largos, consolidando-se como uma solução promissora para organizações que buscam fazer previsões sobre o futuro com base em dados do passado (Gujarati e Porter, 2011; Montgomery e Runger, 2016). Neste cenário, a alta capacidade de armazenamento, geração e disponibilidade de dados, caracterizada pelas dimensões de volume, velocidade, variedade, variabilidade e complexidade, impulsionou o Machine Learning como uma ferramenta capaz de aprender por meio da associação de diferentes dados e do reconhecimento de padrões (Géron, 2021; Hastie et al., 2009).

A aplicação desse contexto preditivo no setor de saneamento, com foco na predição da manutenção de filtros em estações de tratamento de água (ETAs), é de suma importância. A qualidade, eficiência e frequência na lavagem dos filtros de uma ETA são fatores cruciais que impactam diretamente a qualidade da água fornecida à população e os custos operacionais (Libânio, 2010; Sarmento, 2023; Abraão, 2025). Otimizar essa etapa significa reduzir significativamente o desperdício de água tratada, garantindo a segurança e a eficiência do tratamento (Libânio, 2010; Batista, 2024; Maciel et al., 2024).

No entanto, a lavagem de filtros pode consumir um volume expressivo da produção total de uma ETA. Uma lavagem ineficiente, seja por excesso de tempo, frequência inadequada ou técnica imprópria, representa um grande desperdício de água potável e, consequentemente, um prejuízo financeiro e ambiental (Libânio, 2010; Freires, 2023; Nominato, 2024). A imprevisibilidade do momento ideal de lavagem é agravada pelas variações sazonais na qualidade da água bruta, especialmente no Brasil, onde o regime pluviométrico exerce influência direta e imediata sobre os mananciais superficiais. Durante o período de chuvas intensas, o carreamento de partículas sólidas eleva drasticamente a turbidez, enquanto nos meses de estiagem os valores tendem a se estabilizar em patamares baixos (Libânio, 2010).

Esse comportamento cíclico e de alta variância impõe desafios contínuos à operação das ETAs (Libânio, 2010; AESBE, 2023; Instituto Trata Brasil, 2024; Mesquita, 2025). Além disso, a gestão de estações de tratamento de água frequentemente esbarra em limitações de governança de dados, com o registro de medições de turbidez e o controle do tempo de carreira dos filtros ainda dependendo de anotações manuais e imputações humanas. Essa dependência operacional torna o processo vulnerável a erros de digitação, falhas de leitura e, principalmente, ao viés humano, onde a decisão de lavar um filtro pode basear-se mais na interpretação subjetiva do operador do que na real condição da água. Nesse contexto, a automação baseada em dados surge como um mecanismo fundamental para mitigar falhas humanas e padronizar a tomada de decisão.

Para mitigar a complexidade imposta por essas variações climáticas, operacionais e de governança de dados, a transição de métodos empíricos e puramente reativos para abordagens preditivas tem se consolidado como uma necessidade crítica no setor de saneamento. A literatura recente evidencia que a integração de modelos analíticos baseados em dados (data-driven) em ETAs não apenas amplia a segurança hídrica, mas também proporciona resiliência operacional contra picos súbitos de turbidez (Kamyab et al., 2023; Dalibard et al., 2024; He et al., 2024; Kwarko-Kyei et al., 2025). Diante desta dificuldade latente de prever o tempo de carreira dos filtros e a necessidade de definir o tempo ótimo de lavagem para evitar desperdícios (Libânio, 2010; BRK Ambiental, 2022), o presente trabalho justifica-se pela aplicação de conhecimentos e ferramentas adquiridas em Data Science para resolver um problema real. O objetivo principal deste estudo foi desenvolver e comparar o desempenho empírico de diferentes modelos preditivos de Machine Learning — Random Forest, XGBoost e Long Short-Term Memory (LSTM) — para prever a turbidez da água e, consequentemente, a janela ideal de manutenção dos filtros.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza quantitativa, com abordagem metodológica focada na modelagem preditiva por séries temporais. O objetivo principal foi desenvolver e comparar o desempenho de diferentes algoritmos de Machine Learning para prever a turbidez da água filtrada em estações de tratamento de água (ETAs) e, consequentemente, identificar a janela ideal para a manutenção dos filtros. A pesquisa baseou-se na proposição de que existe uma relação de dependência entre variáveis operacionais e climáticas e a necessidade de manutenção dos filtros (Fávero e Belfiore, 2017).

A unidade de análise consistiu em dados operacionais históricos de uma ETA e dados pluviométricos. A coleta de dados abrangeu o período de 2009 a 2025, totalizando aproximadamente 500.000 registros horários. As informações foram extraídas de duas fontes principais: o sistema corporativo de gestão industrial da ETA, que forneceu medições de turbidez, horários, tempo de lavagem e volume de água gasta, e estações do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET, 2026), localizadas na mesma bacia hidrográfica de captação, que disponibilizaram dados de precipitação diária.

O desenvolvimento do estudo foi implementado na linguagem Python, utilizando bibliotecas consolidadas para análise de dados e Machine Learning. Entre as ferramentas empregadas, destacam-se Pandas e NumPy para manipulação de dados, Scikit-Learn para pré-processamento e modelagem, e TensorFlow/Keras para a construção de redes neurais (Fávero e Belfiore, 2017; McKinney, 2018; Géron, 2021).

A etapa de pré-processamento dos dados pluviométricos envolveu a identificação e correção de anomalias, como falhas de registro ou valores corrompidos, por meio da técnica de interpolação linear. Posteriormente, as duas bases de dados, operacional e meteorológica, foram unificadas utilizando a data e hora como índice temporal, garantindo a sincronização das informações.

Na fase de engenharia de atributos, foram criadas variáveis temporais para capturar a inércia do sistema hidrológico. Incluíram-se variáveis de defasagem (“lag”) para a precipitação, mensurando chuvas ocorridas em intervalos de 1 hora, 2 horas e até 48 horas anteriores. Também foram geradas janelas deslizantes (“rolling windows”) para a soma de precipitação acumulada em múltiplos períodos, como 12, 24, 48 e 72 horas (Libânio, 2010; Kuhn e Johnson, 2019).

Adicionalmente, para permitir que os algoritmos identificassem padrões cíclicos, realizou-se a extração de sazonalidade. O índice temporal foi desmembrado em colunas independentes para ‘Hora’ e ‘Mês’. A variável alvo preditiva, a turbidez da água, foi deslocada temporalmente em 6 horas (“lead time”) para que o modelo pudesse realizar estimativas com antecedência suficiente para a tomada de decisão operacional.

O tratamento de outliers foi realizado para corrigir distorções nos dados, que poderiam surgir de erros de digitação ou falhas de leitura. Leituras negativas de turbidez foram ajustadas para o mínimo físico admissível. Para valores anômalos que excediam o limite superior, aplicou-se a técnica de limitação (capping/winsorizing) baseada no método do Intervalo Interquartil (IQR), preservando a continuidade da série temporal (Fávero e Belfiore, 2017; McKinney, 2018).

Para a validação dos modelos, o conjunto de dados foi dividido cronologicamente, com os primeiros 80% destinados ao treinamento e os 20% finais reservados para teste, evitando o vazamento de dados. As variáveis preditoras foram normalizadas utilizando StandardScaler para os modelos baseados em árvores e MinMaxScaler para a rede LSTM, sendo a padronização aplicada exclusivamente aos dados de treino (Baouab e Cherif, 2017).

Quatro algoritmos foram selecionados para comparação: Random Forest, XGBoost e Long Short-Term Memory (LSTM) como modelos preditivos, e SHAP (SHapley Additive exPlanations) para interpretabilidade. O Random Forest foi configurado com 100 árvores de decisão e uma semente aleatória (random_state=42). O XGBoost utilizou 100 árvores sequenciais, taxa de aprendizado de 0,1 e semente aleatória (random_state=42). A rede LSTM foi construída com uma camada de 50 neurônios, ativação ReLU, Dropout de 20%, lookback de 24 horas, otimizador Adam e Early Stopping com 5 épocas (Géron, 2021; Goodfellow et al., 2016; Chollet, 2017).

O protocolo de validação foi estruturado em duas fases. Na Fase 1, realizou-se uma avaliação preditiva contínua (regressão), onde os modelos foram comparados utilizando métricas estatísticas como Raiz do Erro Quadrático Médio (RMSE), Erro Absoluto Médio (MAE) e Coeficiente de Determinação (R²). Na Fase 2, procedeu-se à avaliação de decisão operacional (classificação binária), convertendo as predições de regressão em alertas de classificação binária, com um limite de corte de 0,30 NTU para eventos críticos. A avaliação desta fase utilizou a matriz de confusão, com foco na métrica de Recall, para minimizar falsos negativos (Libânio, 2010; Kuhn e Johnson, 2019; Géron, 2021).

3. Resultados e Discussão

A análise exploratória dos dados (EDA) revelou padrões cruciais e inter-relações entre as variáveis antes da aplicação dos algoritmos preditivos. A sazonalidade da turbidez nos mananciais brasileiros, por exemplo, demonstrou uma forte correlação com o regime pluviométrico. Observou-se que, durante os meses de chuvas intensas, tipicamente de novembro a março, a turbidez se eleva drasticamente devido ao carreamento de partículas sólidas. Em contraste, nos meses de estiagem, de maio a setembro, os valores de turbidez tendem a se estabilizar em patamares mais baixos, conforme previamente identificado por Libânio (2010).

A avaliação da correlação linear de Pearson entre as variáveis, incluindo defasagens temporais e variáveis acumuladas de precipitação, indicou que, embora a correlação linear direta com a turbidez final fosse baixa, a inércia do sistema hidrológico e a turbidez de entrada são preditores imediatos importantes. A análise de correlação cruzada foi fundamental para validar quantitativamente o tempo de resposta da bacia hidrográfica às precipitações. Identificou-se um “lag” ideal, onde a chuva acumulada atinge sua correlação máxima com a turbidez na ETA, reforçando a necessidade de incorporar janelas temporais na modelagem para capturar esse efeito retardado (Libânio, 2010; Kuhn e Johnson, 2019).

A importância das variáveis (Feature Importance) foi extraída utilizando o algoritmo Random Forest, confirmando a relevância dos dados levantados no pré-processamento. As variáveis relacionadas à duração e volume da última lavagem, a turbidez do resultado e a turbidez do filtro, juntamente com a precipitação acumulada em diferentes janelas de tempo, apresentaram os maiores índices de importância. Este achado corrobora estudos anteriores, como o de Kwarko-Kyei et al. (2025), que destacam a qualidade da água na etapa imediatamente anterior à filtragem como o atributo de maior peso na redução do erro preditivo.

A etapa de modelagem preditiva comparou o desempenho de três algoritmos: Random Forest, XGBoost e Long Short-Term Memory (LSTM). Os modelos baseados em árvores, Random Forest e XGBoost, apresentaram dificuldades em lidar com a previsibilidade da turbidez contínua, resultando em coeficientes de determinação R² negativos de -0,313333 e -0,252568, respectivamente. Esses valores indicam que esses modelos não conseguiram explicar a variabilidade da série temporal de forma satisfatória, tratando os picos de turbidez como ruídos isolados, e não como padrões contínuos (Hewamalage et al., 2021; Géron, 2021).

Em contraste, o modelo LSTM demonstrou um desempenho superior e mais estável, com um Erro Absoluto Médio (MAE) de 0,062854, uma Raiz do Erro Quadrático Médio (RMSE) de 0,080221 e um R² positivo de 0,152867. Embora o R² ainda seja modesto, refletindo a complexidade e estocasticidade da série hidrológica, o LSTM foi o único modelo capaz de capturar padrões temporais e a dinâmica direcional da turbidez, antecipando com êxito os movimentos de subida e descida. Essa capacidade de generalização é crucial para séries temporais dinâmicas, conforme apontado por He et al. (2024).

A arquitetura do modelo LSTM foi configurada com uma camada de 50 neurônios e ativação ReLU, seguida por uma camada de Dropout de 20% para prevenir o overfitting, um problema comum em modelagem de séries temporais (Goodfellow et al., 2016). O treinamento utilizou o otimizador Adam para minimizar o Erro Quadrático Médio (MSE), e o Early Stopping foi implementado para interromper o processo se a perda de validação não melhorasse por cinco épocas consecutivas, garantindo a restauração dos melhores pesos do modelo (Chollet, 2017).

A convergência do erro quadrático médio (MSE) durante o treinamento do modelo LSTM demonstrou a estabilidade da rede neural. Observou-se que tanto o erro de treinamento quanto o de validação se estabilizaram conjuntamente, o que comprova a eficácia das técnicas de Dropout e Early Stopping em evitar o overfitting. Este comportamento é um indicativo de que o modelo aprendeu os padrões dos dados de forma robusta, sem memorizar ruídos específicos do conjunto de treino.

Para fins de aplicação prática na operação da ETA, a principal contribuição do estudo se direcionou para a identificação de “eventos críticos”, em vez da predição exata da turbidez contínua. A previsão do valor exato da turbidez a cada instante mostrou-se menos relevante do que a capacidade de o sistema detectar, com antecedência, os momentos de risco. Assim, o modelo de regressão contínua foi adaptado para um problema de classificação binária, visando gerar alertas operacionais para a manutenção dos filtros.

A regra de negócio estabelecida para a classificação binária foi a seguinte: se a turbidez prevista ultrapassasse o limiar de 0,30 NTU, um alerta de intervenção (lavagem do filtro) deveria ser emitido. Previsões com probabilidade acima de 50% geraram um “Alerta” de manutenção/lavagem. Essa abordagem visa atuar preventivamente, minimizando os falsos negativos, ou seja, a falha em prever uma turbidez alta, que é mais crítica para a segurança do tratamento de água do que os falsos positivos (Libânio, 2010; Kuhn e Johnson, 2019; Géron, 2021).

A avaliação do classificador binário, utilizando a matriz de confusão, revelou uma Acurácia Global de 77%, indicando a taxa total de acertos do modelo. A métrica de Sensibilidade (Recall), que mede a capacidade de detectar os picos reais de turbidez (eventos críticos), atingiu 55%. Este valor demonstra que o modelo atua como uma barreira conservadora, capaz de antecipar o evento e alertar o operador na maioria das vezes em que o filtro apresenta risco real, priorizando a segurança da água tratada (Hastie et al., 2009; Fávero e Belfiore, 2017).

A Precisão do modelo foi de 60%, indicando que, das vezes em que o modelo emitiu um “Alerta” de lavagem, a turbidez realmente subiu em 60% dos casos. Embora a precisão não seja tão alta quanto a acurácia, a prioridade operacional na segurança do tratamento de água justifica a preferência por um Recall mais elevado, mesmo que isso implique em um número ligeiramente maior de falsos positivos, ou seja, lavagens preventivas que poderiam ser consideradas desnecessárias em um cenário de menor risco.

A Curva ROC (Receiver Operating Characteristic) do classificador LSTM apresentou uma Área Sob a Curva (AUC) de 0,797. Este valor atesta a robustez geral do modelo em discriminar corretamente entre os estados de “operação normal” e “risco de alta turbidez”, independentemente do limiar probabilístico escolhido pelo operador. A obtenção de um escore AUC distante da linha de aleatoriedade (AUC = 0,5) em um conjunto de teste com mais de 12.000 amostras independentes afasta significativamente a hipótese nula, conferindo significância estatística robusta (p-valor < 0,001) aos achados (Hastie et al., 2009; Fávero e Belfiore, 2017; Géron, 2021).

A interpretabilidade do modelo LSTM foi abordada através da análise SHAP (SHapley Additive exPlanations), uma técnica que permite quantificar a influência de cada variável na predição da turbidez futura. Diferente da importância estática do Random Forest, o SHAP forneceu um ranking global de importância para a rede LSTM, destacando `tuf_resultado`, `Hour`, `Month`, `precipitacao` e `ultima_lavagem_volume` como as variáveis mais cruciais para acertar as oscilações dinâmicas da água (Kuhn e Johnson, 2019; Maußner et al., 2025).

A análise SHAP também permitiu visualizar o impacto direcional das variáveis na previsão de turbidez. Pontos vermelhos no gráfico de enxame indicaram que valores altos de uma variável empurraram a previsão da turbidez para cima (aumentando o risco), enquanto pontos azuis indicaram que valores baixos empurraram a previsão para baixo. Essa transparência, característica da Inteligência Artificial Explicável (Explainable AI), aumenta a confiança na ferramenta, pois comprova que as previsões do algoritmo LSTM são baseadas na física real do processo de filtração, e não em “adivinhações” (Dalibard et al., 2024; Kamyab et al., 2023; Maußner et al., 2025).

Para consolidar a utilidade prática do modelo preditivo, foi desenvolvida uma função em Python que simula uma ferramenta de suporte à decisão para o operador. Esta função permite a inserção manual de uma leitura pontual de turbidez, que é então integrada ao contexto histórico recente da ETA (chuvas, lavagens anteriores e inércia do sistema) para calcular e exibir a probabilidade imediata de um evento crítico, recomendando a ação adequada. Essa ferramenta visa mitigar falhas humanas e padronizar a tomada de decisão, elevando a maturidade tecnológica da planta.

Em síntese, os resultados demonstraram que a aplicação de algoritmos preditivos, especialmente o modelo LSTM, é viável para antecipar picos de turbidez na água filtrada em estações de tratamento. Embora a regressão contínua tenha limitações para explicar a totalidade da variabilidade, a conversão para um classificador binário de alerta operacional permitiu que o modelo atuasse como uma ferramenta proativa, com capacidade de antecipação preventiva de 55% dos eventos críticos. Isso garante a qualidade do tratamento da água e auxilia os operadores a otimizar a manutenção dos filtros, minimizando desperdícios com lavagens desnecessárias, respondendo assim ao objetivo principal do estudo.

4. Conclusão

O presente estudo buscou desenvolver e comparar o desempenho de modelos preditivos de Machine Learning para antecipar a turbidez da água e otimizar a manutenção de filtros em estações de tratamento. Verificou-se que a natureza não estacionária das séries temporais hidrológicas impôs desafios significativos aos algoritmos. Os modelos baseados em árvores, como Random Forest e XGBoost, apresentaram limitações notáveis, com coeficientes de determinação R² negativos, indicando dificuldade em capturar a variabilidade e os padrões contínuos da turbidez. Em contraste, o modelo Long Short-Term Memory (LSTM) demonstrou capacidade superior de generalização, com um R² positivo e métricas de erro mais estáveis, conseguindo capturar a dinâmica direcional da turbidez. A aplicação prática do modelo foi consolidada ao converter suas predições de regressão em alertas de classificação binária, estabelecendo um limiar de 0,30 NTU para eventos críticos. Essa abordagem resultou em uma sensibilidade (Recall) de 55% na antecipação desses eventos, priorizando a segurança operacional. A análise SHAP complementou os achados, conferindo transparência ao modelo LSTM e confirmando que suas previsões se baseiam em atributos operacionais e ambientais relevantes, como a turbidez anterior, hora, mês e precipitação acumulada.

A principal contribuição do estudo reside na demonstração da viabilidade de uma abordagem preditiva baseada em dados como ferramenta proativa para a gestão de estações de tratamento de água. Ao fornecer suporte à tomada de decisão para a manutenção dos filtros, o modelo auxilia os operadores a padronizar procedimentos, mitigar o viés humano e minimizar o desperdício de água potável associado a lavagens desnecessárias, elevando a maturidade tecnológica da planta. Contudo, reconhece-se que o R² modesto na regressão contínua reflete a complexidade e estocasticidade inerentes às séries hidrológicas. Para estudos futuros, sugere-se a otimização dos hiperparâmetros da arquitetura LSTM, a inclusão de variáveis adicionais em tempo real, como pH e temperatura, e a estratificação da base de dados para o desenvolvimento de modelos específicos para diferentes categorias e tipologias de filtros, visando refinar ainda mais a precisão e reduzir as taxas de falsos alarmes.

Referências Bibliográficas

Abraão, R.P. 2025. Análise de viabilidade do uso de coagulantes naturais no tratamento de águas de abastecimento público. Dissertação de

Gujarati, D.N.; Porter, D.C. 2011. Econometria Básica. 5ed. AMGH Editora, Porto Alegre, RS, Brasil.

Géron, A. 2021. Mão à Obra: Aprendizado de Máquina com Scikit-Learn, Keras & TensorFlow. 2ed. Alta Books, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Hastie, T.; Tibshirani, R.; Friedman, J. 2009. The Elements of Statistical Learning: Data Mining, Inference, and Prediction. 2ed. Springer, New York, NY, EUA.

Libânio, M. 2010. Fundamentos de Qualidade e Tratamento de Água. 3ed. Editora Átomo, Campinas, SP, Brasil.

Montgomery, D.C.; Runger, G.C. 2016. Estatística Aplicada e Probabilidade para Engenheiros. 6ed. LTC, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Sarmento, P.V.F. 2023. Avaliação do sistema de lavagem dos filtros de uma ETA de filtração direta descendente. Trabalho de Conclusão de Curso em Engenharia Civil. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, Brasil.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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22 de outubro de 2026

Fatores de Engajamento das Partes Interessadas na Transferência Internacional de Tecnologia para um Hospital Público

Este estudo descreveu os fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia em um hospital público, com foco no planejamento. O objetivo foi descrever esses fatores condicionantes, conforme a percepção de profissionais. Realizou-se um estudo de caso único, aplicando um questionário a 25 profissionais e utilizando análise de conteúdo, complementada por tabulações descritivas. Os principais obstáculos identificados foram resistência à mudança (72%), financiamento (64%), falta de comunicação (60%) e burocracia (40%). Apenas 28% dos respondentes reconheceram a existência de ferramentas adequadas para gestão de stakeholders, enquanto 48% negaram e 24% não souberam informar. Cruzamentos exploratórios indicaram variações na avaliação de influência conforme o tempo de atuação, mas não estabeleceram relações causais. A falta de engajamento foi associada a atrasos, baixa adesão, desperdício de recursos, falhas de comunicação, comprometimento da absorção de conhecimento e riscos à segurança do paciente. As conclusões restringiram-se às percepções do grupo pesquisado e fundamentaram recomendações preliminares para comunicação e coordenação intersetorial.

Palavras-chave: Estudo de caso; Gestão de projetos; Inovação em saúde; Partes interessadas; Setor público.

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