30 de setembro de 2026
Indicadores econômico-financeiros e sazonalidade no setor sucroenergético em duas empresas de capital aberto
Indicadores Econômico-financeiros e Sazonalidade no Setor Sucroenergético em Duas Empresas de Capital Aberto
Bianca Carvalho Ranzani Lourenço; Mariana Titoto Marques
DOI: 10.22167/2675-6528-202602716
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O setor sucroenergético demonstrou forte influência da sazonalidade sobre o desempenho das empresas, tornando sua consideração essencial na análise econômico-financeira. Calculou-se os indicadores econômico-financeiros da Raízen S.A. e da São Martinho S.A., analisou-se seu comportamento ao longo dos períodos de safra e entressafra e verificaram-se os impactos da sazonalidade sobre seus resultados. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso descritivo, com abordagem quantitativa, baseado em dados extraídos das demonstrações financeiras consolidadas das companhias, referentes aos anos-safra 2023/2024 e 2024/2025. Apuraram-se indicadores de liquidez, eficiência operacional e rentabilidade, organizados em base trimestral, o que possibilitou a análise intra-anual e a identificação de padrões sazonais. Os resultados evidenciaram que ambas as empresas apresentaram variações relevantes nos indicadores ao longo do ciclo produtivo, com maior liquidez associada à realização de estoques na entressafra, pico de eficiência operacional durante a safra e impactos negativos de fatores climáticos sobre a rentabilidade. Além disso, verificaram-se diferenças significativas entre os modelos operacionais, com a São Martinho apresentando maior estabilidade financeira e a Raízen maior sensibilidade aos custos e à estrutura operacional. Concluiu-se que a sazonalidade influenciou de forma significativa a interpretação dos indicadores econômico-financeiros e representou um fator essencial para a análise adequada do desempenho das empresas do setor.
Palavras-chave: Análise trimestral; Ciclo produtivo; Eficiência operacional; Liquidez; Rentabilidade.
1. Introdução
No contexto empresarial contemporâneo, a principal meta de gestores e empreendedores é assegurar a geração de valor e a longevidade dos negócios. Para alcançar esse propósito, decisões estratégicas são rotineiras, e a base para escolhas eficazes reside na compreensão aprofundada da posição econômico-financeira da organização (Assaf, 2021a). Nesse sentido, os indicadores econômico-financeiros emergem como ferramentas indispensáveis no processo de avaliação da situação do negócio (Marion, 2023). A análise desses indicadores, extraídos de balanços patrimoniais e demonstrações de resultado, fornece índices cruciais que subsidiam a administração na identificação de tendências, monitoramento de desempenho e suporte à tomada de decisão (Assaf, 2021b; Padoveze, 2010).
Contudo, a interpretação desses indicadores pode ser comprometida por instabilidades econômicas, políticas e ambientais, que impactam diretamente os resultados e podem levar a avaliações equivocadas da real posição da empresa (Oliveira e Pinheiro, 2018). Um fator de particular relevância é a sazonalidade, cujas oscilações temporais têm o potencial de influenciar significativamente o desempenho organizacional. Diversos setores econômicos, incluindo o sucroenergético, demonstram padrões sazonais que se repetem anualmente, acompanhando seus ciclos de produção e venda (Mori, 2024). O setor sucroenergético, reconhecido como um dos pilares da economia brasileira desde o período colonial (Confederação Nacional da Indústria [CNI], 2017), é caracterizado por um amplo volume de produção durante a safra, seguido por uma retração significativa na entressafra.
Nesse contexto, a oscilação entre os períodos de safra e entressafra representa um desafio substancial para a análise de desempenho das empresas, pois pode distorcer a interpretação de sua eficiência operacional e financeira. A consideração da sazonalidade torna-se, portanto, essencial para uma avaliação mais precisa da situação econômico-financeira das companhias, permitindo identificar oportunidades, antecipar riscos e fornecer subsídios para decisões estratégicas (Oliveira e Pinheiro, 2018). Diante da relevância do setor sucroenergético para o país, este estudo concentrou-se na análise de duas empresas de capital aberto classificadas entre as maiores do segmento: Raízen S.A. e São Martinho S.A., consideradas representativas para a investigação.
A pesquisa buscou responder à questão sobre a possibilidade de identificar variações no comportamento dos indicadores econômico-financeiros dessas empresas em função da sazonalidade do setor sucroenergético, capazes de influenciar a avaliação de seus resultados. Assim, o objetivo deste estudo foi calcular os indicadores econômico-financeiros da Raízen S.A. e da São Martinho S.A., analisar o comportamento desses indicadores ao longo dos períodos de safra e entressafra e verificar possíveis impactos da sazonalidade sobre os resultados dessas empresas.
2. Material e Métodos
O presente estudo foi conduzido como um estudo de caso de natureza descritiva, empregando uma abordagem quantitativa. O objetivo metodológico foi calcular os indicadores econômico-financeiros de duas empresas do setor sucroenergético, analisar o comportamento desses indicadores ao longo dos períodos de safra e entressafra, e verificar possíveis impactos da sazonalidade sobre os resultados dessas companhias.
A unidade de análise consistiu nas empresas Raízen S.A. e São Martinho S.A., selecionadas por serem grandes referências no setor sucroenergético e por se tratarem de sociedades anônimas de capital aberto. Os dados foram obtidos por meio de pesquisa documental, extraídos das demonstrações financeiras consolidadas dessas companhias, disponíveis em seus respectivos sites de Relação com Investidores.
O período de coleta de dados abrangeu os anos-safra 2023/2024 e 2024/2025. No setor sucroenergético brasileiro, o ano-safra compreende, de forma geral, o período entre abril de um ano e março do ano seguinte, acompanhando o ciclo produtivo da cana-de-açúcar. As demonstrações financeiras utilizadas foram as mais recentes publicadas pelas empresas (Raízen S.A., 2023, 2024, 2025; São Martinho S.A., 2023, 2024, 2025).
Após a coleta, os dados foram estruturados em planilhas eletrônicas, com os períodos dispostos em trimestres. Essa organização permitiu a comparação intra-anual dos resultados e a análise das variações percentuais entre os períodos trimestrais. A análise baseou-se em valores nominais, uma vez que os indicadores foram calculados a partir da relação entre contas de um mesmo período, dispensando a necessidade de deflacionamento.
Para a avaliação econômico-financeira, calcularam-se indicadores fundamentados nos conceitos de Assaf (2023) e Marion (2023). No cenário financeiro, apurou-se a liquidez corrente (LC), que mensura a capacidade da empresa de cumprir obrigações de curto prazo, sendo a razão entre o ativo circulante e o passivo circulante. Adicionalmente, calculou-se a liquidez seca (LS), que oferece uma visão mais conservadora ao deduzir os estoques do ativo circulante antes de dividi-lo pelo passivo circulante, considerando o menor grau de realização imediata dos estoques.
A eficiência operacional foi avaliada pelo giro do ativo (GA), que indica a receita líquida gerada para cada real investido em ativos, calculada pela divisão da receita líquida pelo ativo total médio. Para a rentabilidade, apurou-se a margem líquida (ML), que representa o lucro líquido em relação às vendas, obtida pela divisão do lucro líquido pela receita líquida, multiplicada por cem. Por fim, o retorno sobre ativos (ROA) foi calculado para verificar o percentual dos ativos que retornou em lucratividade operacional, sendo a razão entre o lucro operacional e o ativo total médio, multiplicado por cem.
A técnica de análise dos dados envolveu a comparação das variações percentuais dos indicadores entre os períodos trimestrais. Buscou-se identificar padrões recorrentes ao longo dos anos-safra, considerando a existência de sazonalidade quando as variações entre os trimestres apresentaram comportamento semelhante em períodos equivalentes de diferentes anos-safra. Essa abordagem permitiu verificar os impactos dos ciclos de safra e entressafra, característicos do setor sucroenergético, sobre o desempenho das empresas.
3. Resultados e Discussão
A análise dos indicadores econômico-financeiros das empresas Raízen S.A. e São Martinho S.A. revelou a influência marcante da sazonalidade do setor sucroenergético sobre seus desempenhos, conforme o objetivo deste estudo. Os resultados foram apurados para os anos-safra 2023/2024 e 2024/2025, períodos que apresentaram condições macroeconômicas e climáticas distintas, impactando diretamente a produtividade e os volumes de cana processada. A compreensão dessas variações trimestrais foi crucial para uma avaliação precisa da liquidez, eficiência operacional e rentabilidade das companhias, destacando a necessidade de considerar o ciclo produtivo na interpretação dos dados financeiros.
O contexto macroeconômico e setorial dos anos-safra analisados foi fundamental para a interpretação dos resultados. A safra 2023/2024, por exemplo, caracterizou-se pela recuperação da produtividade agrícola na região Centro-Sul, com níveis recordes de moagem de cana-de-açúcar, impulsionados por condições climáticas favoráveis. Em contraste, a safra 2024/2025 foi severamente afetada por uma seca prolongada e incêndios em regiões produtoras, resultando em comprometimento do desenvolvimento dos canaviais, redução da produtividade e menor volume de cana processada (UNICA, 2025). Essas condições ambientais e de mercado moldaram significativamente o cenário operacional e financeiro das empresas.
Caracterização das empresas analisadas
As empresas Raízen S.A. e São Martinho S.A., embora atuantes no mesmo setor, apresentaram modelos de negócio distintos que influenciaram seus resultados. A Raízen S.A. opera com um modelo diversificado, abrangendo a produção de cana-de-açúcar, açúcar, etanol, bioenergia e combustíveis renováveis, além de manter operações nos segmentos de logística e distribuição. Essa estrutura de maior escala e complexidade a expôs a uma maior sensibilidade aos custos operacionais e às oscilações de mercado, o que se refletiu nos indicadores analisados.
Por outro lado, a São Martinho S.A. concentrou suas operações na produção de açúcar, etanol e energia elétrica, com a comercialização de DDGS e óleo de milho. Sua estrutura permaneceu mais direcionada às atividades agroindustriais do setor sucroenergético. A estratégia da São Martinho priorizou a eficiência operacional e buscou diversificar o portfólio com o etanol de milho, o que contribuiu para reduzir parcialmente sua dependência do ciclo produtivo da cana-de-açúcar. Essas particularidades operacionais e estratégicas foram determinantes para as diferenças observadas nos indicadores econômico-financeiros.
Indicadores de Liquidez
A análise dos indicadores de liquidez corrente revelou que ambas as empresas conseguiram honrar suas obrigações de curto prazo, embora com margens de segurança distintas. A São Martinho S.A. consistentemente manteve índices mais elevados, apresentando valores aproximadamente 70% a 140% superiores aos da Raízen S.A. Essa diferença, em parte, foi influenciada pelo reconhecimento de créditos tributários na São Martinho, mas também refletiu modelos operacionais distintos na gestão do capital de giro.
A Raízen S.A. demonstrou uma estrutura financeira de curto prazo mais ajustada às necessidades de fluxo contínuo de sua operação de distribuição, o que resultou em uma folga de liquidez mais limitada. Em contrapartida, a São Martinho S.A. apresentou maior imobilização em ativos biológicos e produtos acabados, justificando a manutenção de patamares de liquidez corrente superiores. Essa disparidade evidencia como a natureza do negócio e as estratégias de gestão de ativos impactam diretamente a capacidade de pagamento de curto prazo das companhias.
Os resultados indicaram que a maior concentração de liquidez corrente para ambas as companhias ocorreu no quarto trimestre (4T), que corresponde ao período de entressafra do setor sucroenergético. No ano-safra 2024/25, por exemplo, observou-se uma elevação dos índices de liquidez corrente em relação ao primeiro trimestre (1T) de cerca de 23% na Raízen e de 35% na São Martinho. Esse comportamento é consistente com a abordagem de Assaf (2020), que destaca a variação dos elementos do ativo circulante em função da dinâmica operacional.
A elevação da liquidez no 4T esteve associada ao estágio final do ciclo produtivo, caracterizado pela conversão dos estoques em disponibilidades e pela redução das obrigações de curto prazo, fatores que fortaleceram o indicador. No entanto, a São Martinho S.A. apresentou uma exceção no ano-safra 2023/24, com o pico de liquidez corrente registrado no terceiro trimestre (3T). Essa inversão foi atribuída ao aumento do passivo circulante no 4T, impulsionado por maiores obrigações financeiras e operacionais, o que, sob a ótica de Assaf (2020), representou um fator de pressão sobre a liquidez.
Complementarmente, os índices de liquidez seca ofereceram uma visão mais conservadora, isolando o efeito da retenção de estoques e demonstrando a capacidade das companhias de cumprir compromissos de curto prazo apenas com recursos imediatamente disponíveis. Esta análise revelou uma estratégia comercial comum entre Raízen e São Martinho: a retenção de produtos em estoque para maximizar o retorno, aguardando os melhores preços ao longo do ano-safra. Os índices apontaram maior liquidez seca no 4T, confirmando que ambas as empresas priorizaram a venda dos estoques durante a entressafra, período de menor oferta no mercado.
Essa estratégia possibilitou a valorização dos preços e o fortalecimento dos saldos de disponibilidades, conforme demonstrado no ano-safra 2024/25, em que a liquidez seca evoluiu do 1T ao 4T em cerca de 42% para ambas as empresas. Contudo, a liquidez seca também destacou diferenças marcantes. A Raízen S.A. apresentou índices, na maior parte dos períodos, abaixo de 1,0, o que revelou sua dependência da conversão dos estoques em caixa para o pagamento das obrigações de curto prazo. Esse resultado, coerente com Assaf (2020), indicou uma exposição mais acentuada da companhia ao ciclo de realização de seus produtos para a liquidação de seus compromissos.
Por sua vez, a São Martinho S.A. exibiu indicadores de liquidez seca consistentemente superiores, entre 70% e 160% acima dos registrados pela Raízen, o que demonstrou maior resiliência financeira frente às oscilações na velocidade de escoamento da produção. Em síntese, a análise comparativa dos índices de liquidez evidenciou que a São Martinho obteve o melhor desempenho, sustentando patamares superiores ao longo dos dois anos-safra, enquanto a Raízen operou com uma estrutura financeira mais ajustada e menor folga de liquidez. Em ambas as companhias, os resultados indicaram níveis mais elevados na entressafra, associados à estratégia de retenção e realização de estoques, revelando a influência da sazonalidade na liquidez de curto prazo.
Indicadores de Eficiência Operacional
Os indicadores de giro do ativo demonstraram que, no primeiro e segundo trimestres (1T e 2T) do ano-safra 2023/24, o ativo da Raízen S.A. girou cerca de seis vezes mais que o registrado pela São Martinho S.A. Essa disparidade relacionou-se aos modelos operacionais distintos das companhias, corroborando a perspectiva de Assaf (2020) sobre a celeridade na conversão do ativo em receita. A ampla operação de distribuição da Raízen impulsionou a rotatividade do faturamento, enquanto a São Martinho, com seu modelo intensivo em capital e focado na produção agrícola, apresentou um giro mais baixo.
O baixo giro do ativo na São Martinho evidenciou o prolongado ciclo de maturação exigido pelos ativos biológicos até a efetiva geração de caixa, associado à menor diversificação comercial em relação à Raízen. O pico de eficiência operacional para ambas as companhias ocorreu predominantemente no 2T, período em que a moagem atingiu seu auge. Nesse trimestre, a operação apresentou elevada capacidade e alto volume produzido, resultando em maior fluxo de vendas e otimização na utilização dos ativos, mesmo diante da estratégia de retenção parcial de estoques.
No ano-safra 2024/25, por exemplo, o giro no 2T foi cerca de 20% superior ao 1T na Raízen e 17% superior na São Martinho, confirmando o padrão de pico de eficiência durante a safra. A única exceção a essa tendência ocorreu no quarto trimestre (4T) do ano-safra 2023/24 da São Martinho, quando o giro atingiu seu valor de 0,1215. Esse resultado associou-se à fase de realização da companhia, na qual foram escoados os volumes de estoque acumulados nos trimestres anteriores com o objetivo de capturar preços mais elevados na entressafra.
A sazonalidade também desempenhou papel determinante na eficiência operacional em 2024/25. Na Raízen, os efeitos das queimadas e da seca, ocorridas ainda durante a safra, refletiram-se na entressafra e contribuíram para o menor giro registrado. Esses eventos climáticos estiveram associados à redução da disponibilidade de produto próprio e restringiram o faturamento, que se mostrou insuficiente para suportar o peso da elevada estrutura logística e industrial da companhia. Isso demonstra a vulnerabilidade da Raízen a fatores externos que afetam a produção e a cadeia de suprimentos.
Para a São Martinho, os menores giros ocorreram no 1T de ambos os anos-safra analisados, demonstrando um padrão recorrente no início da safra. Esse comportamento esteve associado à forte aplicação de capital nas atividades agrícolas enquanto a colheita ainda se encontrava em estágio inicial, o que resultou em um nível elevado de ativos frente a uma geração de receita ainda limitada. Em suma, a análise das diferenças no giro do ativo demonstrou que a Raízen apresentou maior estabilidade e o melhor desempenho, enquanto a São Martinho exibiu maior sensibilidade aos ciclos produtivos e o pior desempenho no indicador.
Os resultados evidenciaram a sazonalidade das operações, com elevação da eficiência no 2T e redução nos períodos subsequentes. As variações identificadas estiveram vinculadas à dinâmica de formação e realização de estoques e refletiram as estratégias de retenção de produtos para a entressafra. Além disso, a redução na produtividade por fatores climáticos e a ocorrência de queimadas impactaram o volume disponível para comercialização, o que comprometeu a conversão dos ativos em receita líquida nos trimestres analisados, especialmente na Raízen.
Indicadores de Rentabilidade
A avaliação da rentabilidade, por meio da margem líquida, evidenciou diferenças significativas entre as duas companhias, reforçando a existência de modelos operacionais distintos e diferentes níveis de sensibilidade à sazonalidade. A Raízen S.A. registrou margens líquidas notavelmente mais estreitas, características de sua forte atuação no segmento de distribuição, onde o faturamento se manteve elevado, mas a rentabilidade por unidade comercializada demonstrou redução. A companhia exibiu maior vulnerabilidade aos ciclos de entressafra, atingindo margens negativas em períodos críticos, como o índice de -1,6366% no quarto trimestre (4T) do ano-safra 2023/24.
Esse desempenho negativo na Raízen relacionou-se à colheita estendida, que resultou em maior número de dias de operação industrial e, consequentemente, em elevação dos custos. Também houve o aumento de preços divulgados pelo Consecana para a tonelada de cana. Em consonância com Assaf (2020), que enfatiza o controle de despesas operacionais, os resultados indicaram que, no setor sucroenergético, a rigidez dos custos fixos e a ociosidade industrial durante a entressafra estiveram associadas à redução da rentabilidade, limitando a capacidade de absorção dos custos de produção.
Por sua vez, a São Martinho S.A. alcançou margens líquidas superiores, atingindo seu ápice de 27,2376% no segundo trimestre (2T) do ano-safra 2023/24, o que representou uma diferença de 27,19 pontos percentuais acima da Raízen no mesmo período. Contudo, esse resultado não decorreu estritamente da eficiência operacional, mas foi impulsionado por um ganho judicial (precatório) que impactou positivamente o resultado líquido, situação que também ocorreu no 4T do mesmo ano-safra, quando a companhia apresentou margem de 25,9019%. A análise, seguindo Assaf (2020), diferenciou a rentabilidade operacional dos eventos não recorrentes, evidenciando que, ao desconsiderar esse efeito, a margem líquida situou-se em patamar inferior.
A sazonalidade e os fatores climáticos também exerceram influência sobre os indicadores de rentabilidade das companhias no ciclo 2024/25. No 4T, a combinação da entressafra e os efeitos residuais das queimadas e da seca severa ocorridas ao longo da safra se refletiram nos menores níveis de rentabilidade do ano para ambas as empresas. Na Raízen, o impacto foi mais acentuado, resultando em uma margem negativa de -4,3549%, o que representou uma redução de aproximadamente 6,20 pontos percentuais em relação ao primeiro trimestre (1T), em decorrência dos incêndios que comprometeram a disponibilidade de matéria-prima própria e agravaram a estrutura de custos.
Já a São Martinho, que também registrou sua menor margem do ciclo, de 6,0453%, com redução de aproximadamente 0,42 ponto percentual em relação ao 1T, demonstrou maior resiliência. Apesar de ter enfrentado custos logísticos elevados e uma queda expressiva no volume de açúcar comercializado, a companhia conseguiu sustentar o resultado positivo. Essa estabilidade esteve associada ao ajuste estratégico no mix de produção e ao desempenho da planta de etanol de milho, que contribuíram para compensar a retração da receita no período.
Por fim, a análise do retorno sobre os ativos (ROA) permitiu verificar a influência da sazonalidade sobre a capacidade das empresas de gerar resultado operacional a partir de sua base de ativos. Os dados revelaram que, apesar de seu caráter estrutural, a interação com decisões estratégicas contribuiu para as variações do indicador ao longo do ciclo. Na Raízen, o indicador de retorno sobre os ativos demonstrou elevada sensibilidade à dinâmica operacional. O resultado, que iniciou o ciclo 2024/25 em 2,0934%, apresentou declínio progressivo até alcançar -0,3010% no 4T, o que representou uma redução de aproximadamente 2,3944 pontos percentuais ao longo do período.
Esse comportamento da Raízen revelou que a expansão da base de ativos totais, associada a investimentos estruturais, ocorreu em um cenário de quebra de produtividade e piora na qualidade da cana devido à seca e incêndios. Consequentemente, a subutilização da capacidade instalada e a menor diluição de custos fixos comprometeram a geração de resultado operacional, resultando em uma rentabilidade negativa sobre a base total de ativos ao final do ciclo. Isso sublinha a importância da utilização eficiente dos ativos para a rentabilidade, especialmente em setores com alta sazonalidade.
Por sua vez, a São Martinho manteve uma trajetória do retorno sobre ativos que, mesmo com oscilações ao longo do ciclo, permaneceu positiva em todos os trimestres analisados e revelou maior eficiência na utilização de seus ativos. No 4T do ano-safra 2023/24, o ROA atingiu seu nível mais elevado, de 5,3155%, o que representou uma diferença de aproximadamente 4,4052 pontos percentuais em relação à Raízen no mesmo período (0,9103%). Esse desempenho esteve associado à elevada utilização da capacidade industrial e à forte performance agrícola registrada, fatores que favoreceram a diluição eficiente dos custos fixos.
Embora o indicador de ROA na São Martinho tenha recuado para 1,1758% no 4T do ciclo 2024/25, devido aos impactos climáticos na oferta de cana, a operação de etanol de milho contribuiu de forma relevante. Ao sustentar a atividade produtiva durante a entressafra, essa diversificação permitiu a continuidade da geração de resultado e reduziu a ociosidade dos ativos, mesmo em cenários de baixa disponibilidade de matéria-prima. A utilização do lucro operacional para o cálculo do retorno sobre os ativos, conforme preconizado por Assaf (2014), permitiu avaliar o desempenho operacional das companhias, minimizando os efeitos decorrentes de suas estruturas de capital e de eventos não recorrentes, como as receitas provenientes de precatórios.
No setor sucroenergético, o indicador de ROA foi condicionado pela capacidade de absorção dos custos fixos em cenários de sazonalidade e eventos climáticos adversos. Nesse contexto, o contraste entre as companhias indicou que o comportamento do ROA esteve associado ao nível de utilização dos ativos, de modo que a combinação entre menor geração de resultado operacional e a estrutura de ativos pressionou negativamente o indicador. Em síntese, a análise dos indicadores de rentabilidade evidenciou que a Raízen apresentou o pior desempenho relativo, com margens reduzidas e, em determinados períodos, negativas, além de queda no retorno sobre os ativos.
Os resultados da Raízen foram consequência da pressão dos custos operacionais, da ociosidade industrial na entressafra e da realização de investimentos ainda não maturados em um cenário de quebra de produtividade. Em contrapartida, a São Martinho apresentou o melhor desempenho, ao registrar margens líquidas superiores (ainda que parcialmente influenciadas por eventos não recorrentes) e ao sustentar níveis positivos de retorno sobre os ativos. Isso refletiu a maior eficiência operacional, a elevada utilização da capacidade industrial e a diversificação da matéria-prima, que contribuíram para a preservação da rentabilidade ao longo dos períodos analisados.
Análise integrada dos indicadores econômico-financeiros
A análise conjunta dos indicadores econômico-financeiros revelou que liquidez, eficiência operacional e rentabilidade se inter-relacionaram, evidenciando que as variações observadas não ocorreram de forma isolada, mas refletiram padrões estruturais da gestão financeira e operacional das companhias. Diante desse contexto, a análise da liquidez corrente em conjunto com a liquidez seca indicou que, em ambos os anos-safra (2023/24 e 2024/25), a folga financeira nas companhias não decorreu, necessariamente, de elevada disponibilidade imediata, mas se explicou pela estratégia de retenção de estoques ao longo do ciclo operacional.
No caso da Raízen, a relação entre liquidez corrente e liquidez seca sinalizou um cenário mais restritivo. Seus índices de liquidez seca permaneceram, na maior parte do período, abaixo de 1,0, com diferença média aproximada de 25% em comparação à liquidez corrente. Isso demonstrou que os recursos imediatamente disponíveis não foram suficientes para cobrir as obrigações de curto prazo sem a conversão dos estoques em caixa. Tal cenário evidenciou maior dependência da continuidade do fluxo operacional e da velocidade de escoamento da produção, o que elevou a exposição ao risco de liquidez, sobretudo em cenários adversos, como os eventos climáticos que ocorreram no ciclo 2024/25.
Por sua vez, a São Martinho apresentou índices de liquidez corrente em patamares elevados, frequentemente superiores a 2,0. Ainda assim, a diferença recorrente em relação à liquidez seca demonstrou que parcela relevante desses ativos circulantes permaneceu concentrada em estoques, o que indicou a adoção de uma estratégia de postergação da comercialização da produção, com o objetivo de capturar melhores preços na entressafra. Dessa forma, a elevada liquidez corrente exigiu interpretação cautelosa, pois refletiu mais uma posição de ativos estocados do que uma efetiva capacidade de pagamento imediato, conforme a literatura de finanças.
A integração do indicador de eficiência operacional à análise de liquidez revelou que a estratégia de retenção de estoques impactou diretamente o giro do ativo. Na Raízen, o índice apresentou níveis superiores, contudo, a liquidez seca permaneceu baixa, o que evidenciou que a maior rotatividade operacional não elevou a capacidade imediata de liquidação das obrigações de curto prazo. Esse cenário refletiu um modelo de negócios com margens estreitas e maior necessidade de capital de giro, no qual a liquidez dependeu mais da continuidade das operações do que da acumulação estratégica de ativos.
Já na São Martinho, os menores níveis de giro nos períodos iniciais da safra decorreram da acumulação de estoques, enquanto o pico que foi observado na entressafra, principalmente no quarto trimestre (4T) de 2023/24, refletiu a realização desses ativos. A análise conjunta do giro do ativo e da margem líquida evidenciou distintos padrões de geração de resultado entre as companhias. No caso da Raízen, a maior capacidade de formação de receita em relação à base de ativos, com pico de 0,5195 no segundo trimestre (2T) do ano-safra 2024/25, mostrou-se associada à sua atuação nos segmentos de logística e distribuição, caracterizados por elevada escala operacional.
No entanto, esse desempenho da Raízen não se converteu em rentabilidade, uma vez que a companhia operou com margens líquidas reduzidas e, em determinados períodos, negativas, como no 4T de 2024/25 (-4,3549%), o que sugeriu menor rentabilidade por unidade comercializada e evidenciou maior dependência do volume de operações para a obtenção de resultados. Em contrapartida, a São Martinho apresentou menor intensidade na geração de receita em relação aos ativos, mantendo o indicador abaixo de 0,10 na maior parte do período. Apesar disso, registrou margens significativamente superiores, que alcançaram 27,2376% no 2T de 2023/24, mesmo com a influência de um evento não recorrente, pois permaneceram elevadas nos demais trimestres.
Esse comportamento da São Martinho refletiu a predominância da rentabilidade operacional e revelou um trade-off entre volume e margem, no qual a empresa priorizou margens elevadas em detrimento da expansão do volume de vendas. A interação entre o retorno sobre os ativos e o giro do ativo evidenciou que a eficiência na geração de vendas não foi suficiente para garantir a rentabilidade das companhias no período de estresse climático. Na Raízen, embora o giro do ativo tenha se mantido em patamares superiores devido à sua escala e modelo de distribuição, o declínio do ROA até o campo negativo (-0,3010%) no 4T do ciclo 2024/25 revelou que a alta rotatividade não compensou os custos fixos de uma estrutura industrial subutilizada.
Em contrapartida, a São Martinho demonstrou que a manutenção de um giro de ativos estável, impulsionada pela planta de etanol de milho, esteve associada à manutenção do ROA em patamar positivo, mesmo diante da quebra na safra de cana. Assim, os resultados indicaram que a preservação da rentabilidade no setor dependeu da capacidade de manter a utilização econômica dos ativos ao longo de todo o ciclo, e não apenas da intensidade de sua rotatividade. Em suma, a sazonalidade influenciou de forma significativa a interpretação dos indicadores econômico-financeiros e representou um fator essencial para a análise adequada do desempenho das empresas do setor sucroenergético, revelando padrões distintos de adaptação e resiliência entre as companhias estudadas.
4. Conclusão
A presente pesquisa buscou calcular os indicadores econômico-financeiros da Raízen S.A. e da São Martinho S.A., analisar seu comportamento ao longo dos períodos de safra e entressafra e verificar os impactos da sazonalidade sobre seus resultados. Verificou-se que ambas as empresas apresentaram variações relevantes nos indicadores de liquidez, eficiência operacional e rentabilidade, as quais estiveram diretamente associadas ao ciclo produtivo do setor sucroenergético. Observou-se maior liquidez na entressafra, impulsionada pela realização de estoques, e um pico de eficiência operacional durante a safra, período de maior moagem. A Raízen demonstrou maior sensibilidade aos custos e à estrutura operacional, com margens líquidas mais estreitas e, por vezes, negativas, além de um retorno sobre os ativos declinante em cenários de quebra de produtividade e subutilização da capacidade. Em contraste, a São Martinho exibiu maior estabilidade financeira e resiliência, sustentando margens positivas e um retorno sobre os ativos mais consistente, em parte devido à diversificação com o etanol de milho. A análise integrada revelou que a sazonalidade não apenas influenciou a interpretação dos indicadores, mas também evidenciou padrões distintos de adaptação e resiliência entre os modelos de negócio das companhias, destacando a importância de uma avaliação que considere as particularidades do ciclo produtivo.
As limitações metodológicas deste estudo concentraram-se na abrangência de apenas duas empresas do setor sucroenergético, o que restringe a generalização dos achados, e na abordagem quantitativa descritiva, que limitou o aprofundamento estatístico das relações entre as variáveis. Além disso, a análise de apenas dois ciclos produtivos pode não ter sido suficiente para capturar variações mais amplas dos indicadores ao longo do tempo. Para estudos futuros, recomenda-se a ampliação do número de ciclos produtivos e a inclusão de outras empresas do setor, a fim de identificar padrões sazonais mais consistentes e expandir as possibilidades de comparação entre diferentes estruturas operacionais. Sugere-se, ainda, o aprofundamento da análise por meio da aplicação de métodos estatísticos, visando a uma exploração mais estruturada das relações entre os indicadores econômico-financeiros e o enriquecimento da interpretação dos resultados.
Referências Bibliográficas
Assaf Neto, A. 2014. Finanças Corporativas e Valor. 7ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Assaf Neto, A. 2020. Estrutura e Análise de Balanços: Um Enfoque Econômico-financeiro. 12ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Assaf Neto, A. 2021a. Finanças Corporativas e Valor. 8ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Assaf Neto, A. 2021b. Valuation – Métricas de Valor e Avaliação de Empresas. 4ed. Atlas, Barueri, SP, Brasil.
Assaf Neto, A. 2023. Estrutura e Análise de Balanços: Um Enfoque Econômico-financeiro. 13ed. Atlas, Barueri, SP, Brasil.
Confederação Nacional da Indústria [CNI]. 2017. O setor sucroenergético em 2030: dimensões, investimentos e uma agenda estratégica. Disponível em: <https://www.portaldaindustria.com.br/publicacoes/2017/8/o-setor-sucroenergetico-em-2030-dimensoes-investimentos-e-uma-agenda-estrategica/>. Acesso em: 22 setembro 2025.
Marion, J. C. 2023. Análise das Demonstrações Contábeis. 8ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Mori, R. 2024. Guia de Indicadores Econômicos Brasileiros: Desvendando a Economia. 1 ed. Alta Books, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Oliveira, V. I.; Pinheiro, J.L. 2018. Gestão de Riscos no Mercado Financeiro. 1ed. Saraiva, São Paulo, SP, Brasil.
Padoveze, C. L. 2010. Contabilidade Gerencial: Um Enfoque Em Sistema De Informação Contábil. 7ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Raízen S.A.. 2023. Demonstrações financeiras consolidadas. Disponível em: <https://ri.raizen.com.br/pt/resultados-e-documentos/central-de-resultados>. Acesso em: 16 janeiro 2026.
Raízen S.A.. 2024. Demonstrações financeiras consolidadas. Disponível em: <https://ri.raizen.com.br/pt/resultados-e-documentos/central-de-resultados>. Acesso em: 16 janeiro 2026.
Raízen S.A.. 2025. Demonstrações financeiras consolidadas. Disponível em: <https://ri.raizen.com.br/pt/resultados-e-documentos/central-de-resultados>. Acesso em: 16 janeiro 2026.
São Martinho S.A.. 2023. Demonstrações financeiras consolidadas. Disponível em: <https://ri.saomartinho.com.br/listresultados.aspx?idCanal=fS+4uUvKjHXkO8cVhhZAIQ==&linguagem=pt>. Acesso em: 16 janeiro 2026.
São Martinho S.A.. 2024. Demonstrações financeiras consolidadas. Disponível em: <https://ri.saomartinho.com.br/listresultados.aspx?idCanal=fS+4uUvKjHXkO8cVhhZAIQ==&linguagem=pt>. Acesso em: 16 janeiro 2026.
São Martinho S.A.. 2025. Demonstrações financeiras consolidadas. Disponível em: <https://ri.saomartinho.com.br/listresultados.aspx?idCanal=fS+4uUvKjHXkO8cVhhZAIQ==&linguagem=pt>. Acesso em: 16 janeiro 2026.
União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia [UNICA]. 2024. Safra 2024/2025 Acompanhamento quinzenal da safra na região Centro-Sul. Disponível em: <https://www.novacana.com/pdf/14042025110423_Unica_-_140425_NC.pdf>. Acesso em: 24 julho 2026.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

