02 de outubro de 2026
Gestão financeira e controle do fluxo de caixa em uma indústria de roupas infantis
Gestão Financeira e Controle do Fluxo de Caixa em uma Indústria de Roupas Infantis
Ewerton José Silva de Lima; Samia Mercado Alvarenga
DOI: 10.22167/2675-6528-202602876
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A pesquisa diagnosticou os fatores associados às quebras do fluxo de caixa em uma indústria de confecção infantil, visando subsidiar propostas de melhoria na gestão financeira e no controle do caixa. Realizou-se um estudo aplicado, de caráter descritivo, com análise documental de relatórios financeiros, controles internos e dados operacionais de 2025 a 2026. Os resultados indicaram que os problemas de liquidez não decorreram da apuração dos custos de produção, mas sim do alongamento do ciclo financeiro, da elevada imobilização de recursos em estoques, do comprometimento do caixa com obrigações operacionais e financeiras, e da insuficiência do markup na precificação. A combinação desses elementos gerou pressão sobre o capital de giro e a necessidade de capital de terceiros. Diante desse cenário, implementaram-se medidas para reestruturar o modelo de lançamentos, reduzir os níveis de estoque, renegociar passivos e ajustar a política de precificação. Concluiu-se que a integração entre gestão operacional, financeira e estratégica é fundamental para a sustentabilidade empresarial, sendo o alinhamento entre custos, precificação e ciclo financeiro determinante para a geração de caixa e manutenção da liquidez.
Palavras-chave: Capital de giro; Endividamento; Liquidez; Markup; Precificação.
1. Introdução
O setor têxtil infantil opera em mercados altamente competitivos e sujeitos a variações na demanda, onde a gestão estratégica do fluxo de caixa é fundamental para a sustentabilidade do negócio. O fluxo de caixa é reconhecido como o principal instrumento de controle financeiro, permitindo a avaliação da liquidez e da capacidade de geração de valor de uma empresa (Assaf Neto, 2020).
No entanto, muitas organizações, mesmo com desempenho operacional satisfatório, enfrentam quebras de caixa. Essas falhas são frequentemente atribuídas a uma gestão deficiente de estoques, a desordens entre os ciclos operacionais e financeiros e a uma estrutura de custos mal elaborada (Padoveze, 2019; Gitman e Zutter, 2018). A ausência de um planejamento financeiro estratégico adequado pode gerar desequilíbrios no capital de giro e comprometer a sustentabilidade a longo prazo (Ross et al., 2022).
A gestão de estoques, por exemplo, impacta diretamente o capital imobilizado e a liquidez imediata, tornando-se um ponto crítico para a performance financeira (Dias, 2020). Além disso, o controle rigoroso das despesas fixas, variáveis e financeiras é essencial, pois o crescimento descontrolado desses custos pode comprimir as margens e reduzir a competitividade no mercado (Leone, 2019).
A precificação dos produtos, por sua vez, deve considerar não apenas os custos diretos e indiretos, mas também o posicionamento estratégico da marca e as condições mercadológicas. A definição de preços é uma decisão complexa que influencia a percepção de valor e a lucratividade (Kotler e Keller, 2022). Uma política de preços inadequada pode, contudo, mascarar margens negativas e comprometer a viabilidade econômica do negócio (Martins, 2021). Compreender os fatores que contribuem para a quebra do fluxo de caixa é crucial para assegurar a liquidez operacional, otimizar as margens de lucro, garantir a saúde financeira e possibilitar o reinvestimento necessário à continuidade das operações (Brigham e Ehrhardt, 2021).
Diante deste cenário, a problemática central reside na recorrência de quebras no fluxo de caixa em indústrias de confecção infantil, mesmo com aparente solidez operacional, indicando a necessidade de identificar os fatores subjacentes a esses desequilíbrios. A relevância deste estudo reside na sua contribuição para o aprimoramento da gestão financeira em organizações industriais, particularmente no que concerne ao controle do fluxo de caixa, um elemento vital para a sustentabilidade e continuidade das operações. Assim, o presente trabalho tem como objetivo diagnosticar os fatores associados às quebras no fluxo de caixa em uma indústria de roupas infantis, com o propósito de subsidiar propostas de melhoria na gestão financeira e no controle do caixa.
2. Material e Métodos
A pesquisa foi de natureza aplicada e caráter descritivo, conduzida por meio de um estudo de caso em uma indústria de roupas infantis localizada em Caruaru, Pernambuco. A empresa, de médio porte, conta com 107 colaboradores e 30 anos de atuação no mercado nacional, sendo o objeto empírico a análise de um problema real de gestão financeira.
A coleta de dados realizou-se por análise documental, com acesso formal às informações internas da organização mediante a assinatura de um Termo de Anuência pelo proprietário. Foram coletados e analisados relatórios mensais de fluxo de caixa, demonstrações do resultado do exercício (DRE), balanços contábeis, extratos bancários, controles de estoques (em unidades e valores), registros de produção, relatórios de compras de matéria-prima, contas a pagar e a receber, borderôs de operações de antecipação de recebíveis e planilhas internas de formação de custos e precificação.
As análises foram estruturadas a partir de diferentes recortes temporais. A avaliação do ciclo financeiro e da relação entre desembolsos e entradas de caixa considerou um ciclo completo de aquisição, produção e comercialização, de agosto de 2025 a fevereiro de 2026. Os níveis de estoque de matéria-prima, produtos em processo e produtos acabados foram analisados com base em posições apuradas em 06 de janeiro e 06 de fevereiro de 2026, utilizando relatórios internos e registros operacionais.
A avaliação do custo financeiro associado à imobilização de recursos em matéria-prima considerou um ciclo produtivo entre maio e dezembro de 2025, abrangendo a entrada dos insumos em estoque e a finalização das vendas dos produtos. Para essa análise, utilizaram-se dados de compras, consumo de matéria-prima e informações de precificação. A verificação do comprometimento do faturamento com pagamentos a fornecedores, endividamento bancário e operações de desconto de recebíveis baseou-se em dados mensais de outubro de 2025 a janeiro de 2026.
A formação do preço de venda foi determinada pela aplicação de um índice de “markup” sobre o custo unitário dos produtos. O custo unitário do produto compreendeu matéria-prima, aviamentos, custo de mão de obra e custos de serviços de beneficiamento. O “markup” foi calculado considerando percentuais de despesas fixas, despesas variáveis e a margem de lucro líquido desejada, obtidos da análise dos demonstrativos financeiros e registros internos da empresa, referentes a janeiro a dezembro de 2025.
Para a análise da precificação praticada, consideraram-se as diferentes tabelas comerciais adotadas e sua participação no volume total de vendas. A empresa opera com duas marcas distintas, cada uma com posicionamentos estratégicos e políticas comerciais diferenciadas. Calculou-se o “markup” médio ponderado para cada marca e o consolidado da operação, considerando a participação de cada tabela no volume de vendas.
Realizaram-se simulações de precificação para avaliar o impacto da incorporação do custo financeiro de armazenagem na formação dos preços de venda. Definiram-se cenários com aplicação integral e parcial desse custo sobre a matéria-prima. A taxa de custo financeiro mensal para as simulações foi estimada a partir da média dos encargos observados nas operações de captação de recursos da empresa, incluindo empréstimos, financiamentos e antecipação de recebíveis.
Os dados coletados foram organizados e analisados de forma descritiva, com o objetivo de identificar padrões e relações entre as quebras do fluxo de caixa e os processos financeiros, de compras, gestão de estoques e precificação. A abordagem utilizou a lógica da triangulação de dados para confrontar informações empíricas com a literatura especializada em gestão financeira, fluxo de caixa e controle de estoques.
O diagnóstico foi delimitado aos períodos específicos contemplados nos registros analisados. Os recortes temporais foram definidos conforme a disponibilidade dos registros e a natureza de cada análise realizada, sem a finalidade de inferir a ocorrência permanente dos fenômenos observados ou sua generalização para outros períodos e organizações.
3. Resultados e Discussão
A análise dos registros financeiros e operacionais da indústria de confecção infantil revelou que as quebras recorrentes no fluxo de caixa não estavam primariamente ligadas a uma apuração inadequada dos custos de produção. Em vez disso, os desequilíbrios financeiros foram atribuídos a um conjunto interdependente de fatores, incluindo o alongamento do ciclo financeiro, a imobilização excessiva de capital em estoques, o comprometimento significativo do caixa com obrigações operacionais e financeiras, e uma política de precificação com markup insuficiente. Esses elementos, em conjunto, exerceram pressão sobre o capital de giro da empresa e intensificaram a necessidade de recorrer a fontes de capital de terceiros para manter a liquidez operacional.
O modelo de lançamento de duas grandes coleções anuais, conforme evidenciado pela cronologia financeira, produtiva e comercial, exigiu uma elevada antecipação na aquisição de matéria-prima. Este processo resultou em desembolsos financeiros concentrados em períodos anteriores às entradas de caixa, gerando uma imobilização prolongada de recursos em estoques. A compra da matéria-prima, realizada em 15 de agosto de 2025, e o início das vendas, em 06 de fevereiro de 2026, demonstram um intervalo de aproximadamente seis meses. Adicionalmente, os prazos médios de faturamento e recebimento das vendas, que somaram cerca de 90 dias após o início das vendas, estenderam ainda mais o período de exposição financeira da operação.
Esse descompasso temporal entre os desembolsos e as entradas de caixa esteve diretamente associado à ocorrência de saldos negativos de caixa em diversos meses do ciclo analisado. Tal cenário corrobora o conceito de ciclo financeiro de Assaf Neto (2020), que enfatiza como a ampliação desse intervalo compromete a liquidez operacional das empresas. A necessidade de capital de giro para sustentar as operações durante esse período estendido tornou-se um desafio constante, impactando a capacidade da empresa de honrar seus compromissos financeiros sem recorrer a financiamentos externos.
A análise dos níveis de estoque, apurados em 06 de janeiro de 2026 e 06 de fevereiro de 2026, revelou a manutenção de volumes elevados de matéria-prima e produtos acabados. Em janeiro de 2026, a empresa possuía 20.396 unidades de produtos em produção e 42.185 unidades de produtos acabados em estoque, além de um estoque de matéria-prima avaliado em R$ 2.263.978,43. Em fevereiro de 2026, o volume de produtos acabados aumentou para 28.887 unidades em produção e 51.418 unidades em estoque, enquanto o valor da matéria-prima reduziu marginalmente para R$ 2.193.944,26.
Esses resultados indicaram que, no período imediatamente anterior ao início da comercialização, a empresa mantinha volumes expressivos de estoques sem a correspondente geração de entradas de caixa. A ampliação dos estoques de produtos acabados, somada à manutenção de altos níveis de matéria-prima, contribuiu significativamente para a imobilização de recursos financeiros. Essa situação gerou uma pressão considerável sobre o fluxo de caixa, alinhando-se à perspectiva de Dias (2020), que ressalta como estoques elevados imobilizam capital e reduzem a liquidez imediata das organizações, dificultando a gestão do capital de giro.
A estimativa do custo financeiro da matéria-prima em estoque demonstrou o impacto da imobilização de recursos ao longo do ciclo produtivo. A matéria-prima permaneceu em estoque por um período total de sete meses, desde sua chegada em maio de 2025 até o fim das vendas em dezembro de 2025. Para fins de cálculo do impacto financeiro, adotou-se um tempo médio de permanência relevante de 4,5 meses, considerando que o custo financeiro incide enquanto o insumo não é convertido em produto vendido. Com uma taxa mensal de custo financeiro de 1,8%, o custo financeiro estimado para a imobilização foi de 8,1%.
Esses achados sublinham o efeito direto do custo de capital na formação de preços e na rentabilidade da empresa, conforme destacado por Gitman e Zutter (2018), que enfatizam a influência dos custos financeiros nas decisões operacionais e de investimento. A não incorporação desse custo na precificação ou a subestimação de seu impacto pode levar a margens de lucro ilusórias e a uma subvalorização do capital de giro necessário para sustentar o ciclo produtivo. A correta consideração do custo financeiro associado aos ativos operacionais é, portanto, crucial para a preservação da liquidez e da sustentabilidade financeira, como aponta Assaf Neto (2020).
Para avaliar o impacto do custo financeiro da matéria-prima na formação dos preços de venda, foram realizadas simulações comparativas. No cenário atual, onde não há incorporação desse custo, o preço de venda foi de R$ 49,32. Ao incorporar integralmente o custo financeiro (8,1%) sobre o valor da matéria-prima, o preço de venda aumentaria para R$ 51,58, representando uma elevação de 4,58%. Em um cenário de incorporação parcial (5,5%), o preço de venda seria de R$ 50,85, com um aumento de 3,11% em relação ao cenário atual.
A incorporação integral do custo financeiro, embora promovendo uma recomposição mais completa das margens, implica um aumento de preço mais significativo, o que poderia comprometer a competitividade da empresa no mercado. A incorporação parcial, por sua vez, oferece um impacto mais moderado, sugerindo uma alternativa que equilibra a absorção dos custos financeiros com a manutenção dos níveis de preço. É importante notar que o custo financeiro foi aplicado exclusivamente sobre o valor da matéria-prima, não incidindo sobre outros componentes do custo do produto, como mão de obra, reforçando a importância da gestão eficiente dos estoques de insumos para o equilíbrio entre custos, preços e geração de caixa (Gitman e Zutter, 2018).
A análise do comprometimento do faturamento mensal com pagamentos a fornecedores de matéria-prima revelou um impacto crescente sobre o fluxo de caixa. Em outubro de 2025, os desembolsos com fornecedores representaram 14,43% do faturamento mensal. Esse percentual elevou-se para 25,33% em novembro de 2025 e atingiu 57,66% em dezembro de 2025. Em janeiro de 2026, a situação tornou-se crítica, com os pagamentos a fornecedores superando o faturamento mensal, alcançando 127,57% da receita auferida no período.
Esse descompasso acentuado entre os desembolsos para aquisição de insumos e as entradas de caixa provenientes das vendas contribuiu diretamente para déficits de caixa e a necessidade de recorrer a capital de terceiros. Tal comportamento está alinhado à discussão de Padoveze (2019), que destaca como o desalinhamento entre o ciclo operacional e o ciclo financeiro pode comprometer a sustentabilidade das empresas, especialmente em contextos onde os desembolsos são antecipados e as entradas de caixa postergadas, gerando uma pressão constante sobre a liquidez.
O endividamento financeiro também exerceu um impacto significativo sobre o fluxo de caixa. As parcelas de empréstimos e financiamentos comprometeram uma parte relevante do faturamento mensal, passando de 7,51% em outubro de 2025 para 9,53% em novembro de 2025 e 11,70% em dezembro de 2025. Em janeiro de 2026, o comprometimento atingiu 28,82% da receita mensal, evidenciando uma intensificação da pressão financeira sobre a empresa em um contexto de baixa geração de caixa.
Esses financiamentos foram frequentemente necessários para suprir insuficiências de caixa decorrentes do descompasso temporal entre desembolsos e entradas financeiras. Ross et al. (2022) apontam que o aumento do endividamento, especialmente em cenários de baixa geração de caixa, compromete a sustentabilidade financeira e eleva o risco de desequilíbrio no capital de giro. A dependência de capital de terceiros, embora possa resolver problemas de liquidez no curto prazo, acarreta custos financeiros que corroem as margens e a capacidade de geração de valor a longo prazo.
Adicionalmente, os parcelamentos tributários contribuíram para o comprometimento do faturamento mensal. Os pagamentos de débitos fiscais renegociados representaram 1,62% do faturamento em outubro de 2025, aumentando para 2,08% em novembro, 3,19% em dezembro e alcançando 7,97% em janeiro de 2026. Embora os valores absolutos dos parcelamentos tributários fossem menores que os dos empréstimos bancários, seu impacto relativo tornou-se significativo nos meses de menor receita, ampliando a pressão sobre o fluxo de caixa operacional e a necessidade de gestão rigorosa para evitar novas quebras.
A utilização recorrente do desconto de duplicatas e cheques como mecanismo de obtenção de liquidez também foi observada. Entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, a empresa antecipou um montante bruto de R$ 3.818.721,19 em recebíveis, incorrendo em um custo financeiro total de R$ 179.274,43, devido a juros, taxas e deságios cobrados pelas instituições financeiras. Os custos médios mensais dessas operações variaram entre 4,09% e 5,14% sobre os valores antecipados, elevando as despesas financeiras da empresa.
Essa dinâmica evidencia o custo da dependência de capital de terceiros, conforme apontado por Assaf Neto (2020), que destaca que a antecipação de recebíveis, embora aumente a liquidez imediata, reduz a geração de valor ao longo do tempo em função dos custos financeiros envolvidos. A empresa se viu em uma situação de dependência contínua desse instrumento, com a disponibilidade de caixa condicionada à realização de vendas e à posterior antecipação desses valores, o que limita a autonomia financeira e a capacidade de planejamento de longo prazo.
No que tange à estrutura de custos e ao modelo de precificação, os dados indicaram que, embora os custos de produção fossem adequadamente apurados, o markup praticado não assegurava a cobertura integral das despesas operacionais e financeiras. O cálculo do markup necessário para a cobertura total dos custos e despesas da operação seria de 2,94. Contudo, a empresa operava com um markup médio ponderado de 2,42, considerando a participação das diferentes tabelas comerciais no volume de vendas.
Essa defasagem de aproximadamente 0,52 no markup praticado em relação ao nível necessário para a cobertura integral das despesas indica que a política de precificação da empresa não estava plenamente alinhada à sua estrutura de custos. Consequentemente, houve uma absorção parcial das despesas e uma deterioração das margens operacionais, o que comprometeu a capacidade de geração de caixa. Leone (2019) e Martins (2021) enfatizam que a formação inadequada de preços pode comprometer a absorção de custos e despesas, reduzindo margens e afetando diretamente a sustentabilidade financeira das organizações.
Diante do diagnóstico, foram adotadas medidas gerenciais para mitigar as quebras do fluxo de caixa. O modelo de lançamento de coleções foi reformulado, passando de dois grandes lançamentos anuais para lançamentos fracionados a cada dois meses. Essa mudança visou reduzir o volume de compras antecipadas de matéria-prima, aumentar o giro de estoques e encurtar o ciclo financeiro, permitindo que os insumos fossem convertidos em produtos comercializáveis em menor tempo, além de atender à demanda do mercado por lançamentos mais frequentes.
No que se refere ao ciclo financeiro, a negociação com fornecedores foi reforçada para alongar os prazos de pagamento, minimizando o “gap” financeiro entre o pagamento a fornecedores e o recebimento das vendas. Para os estoques, adotou-se o faturamento imediato das vendas de produtos acabados para acelerar a entrada de recursos. As compras de matéria-prima foram temporariamente suspensas até abril de 2026, implementando uma política de reaproveitamento de materiais existentes para reduzir a imobilização de recursos e o volume destinado a fornecedores.
Quanto ao endividamento financeiro, iniciaram-se negociações com instituições financeiras para reduzir o custo do capital e alongar os prazos das dívidas, buscando diminuir o valor das parcelas mensais e, em alguns casos, obter carência de até 12 meses. No endividamento tributário, a empresa manteve o pagamento regular das parcelas e buscou programas para quitação antecipada com redução de encargos. Em relação ao desconto de recebíveis, intensificaram-se as negociações para obter condições mais vantajosas nas taxas aplicadas, projetando uma redução gradual da dependência dessas operações com o ajuste dos ciclos financeiros.
Na estrutura de custos e precificação, a empresa manteve a apuração rigorosa dos custos de produtos e incorporou um ajuste de 5,5% sobre o custo da matéria-prima na formação do preço de venda, de forma gradual, para não impactar abruptamente a competitividade. A defasagem do markup foi reconhecida, e foi estabelecida uma revisão progressiva para os lançamentos de 2026, com o objetivo de elevar o markup médio da operação e reequilibrar a estrutura de custos e despesas. Essas medidas estão alinhadas às boas práticas de gestão de capital de giro e precificação, que enfatizam o equilíbrio entre prazos operacionais, estrutura de custos e política de preços para a sustentabilidade financeira (Assaf Neto, 2020).
Em síntese, os resultados da pesquisa apontaram que as quebras no fluxo de caixa da indústria de confecção infantil decorreram de um ciclo financeiro alongado, elevada imobilização em estoques, comprometimento do caixa com obrigações e uma precificação inadequada, que não cobria integralmente as despesas. As medidas gerenciais implementadas visaram reestruturar o modelo de lançamentos, otimizar a gestão de estoques, renegociar passivos e ajustar a política de precificação, buscando reequilibrar o fluxo de caixa e fortalecer a liquidez da empresa.
4. Conclusão
O presente estudo buscou diagnosticar os fatores associados às quebras no fluxo de caixa em uma indústria de confecção infantil, com o propósito de subsidiar propostas de melhoria na gestão financeira e no controle do caixa. Verificou-se que os desequilíbrios de liquidez não decorreram de falhas na apuração dos custos de produção, mas sim de um conjunto interdependente de elementos. Identificou-se o alongamento do ciclo financeiro, a elevada imobilização de recursos em estoques, o comprometimento significativo do caixa com obrigações operacionais e financeiras, e a insuficiência do markup praticado na precificação. A combinação desses fatores gerou pressão sobre o capital de giro e a necessidade de capital de terceiros, evidenciando a fragilidade da gestão financeira diante da dinâmica operacional. Diante desse cenário, o estudo contribuiu com a proposição e implementação de medidas gerenciais, como a reestruturação do modelo de lançamentos, a otimização da gestão de estoques, a renegociação de passivos e o ajuste gradual da política de precificação, visando reequilibrar o fluxo de caixa e fortalecer a liquidez da empresa.
A principal contribuição prática deste trabalho reside na demonstração da aplicabilidade de ferramentas de gestão financeira para o acompanhamento sistemático do capital de giro e do fluxo de caixa, reforçando a importância da integração entre decisões operacionais, financeiras e estratégicas para a sustentabilidade empresarial. Contudo, o estudo foi delimitado a uma única organização e a dados históricos específicos, o que restringe a generalização dos resultados para outros contextos. Sugere-se que estudos futuros ampliem a amostra de empresas analisadas, explorem diferentes setores e contextos produtivos, e aprofundem as discussões sobre a gestão do fluxo de caixa. Recomenda-se, ainda, a adoção de uma rotina periódica de monitoramento do ciclo financeiro e do capital de giro, incluindo o acompanhamento dos prazos de pagamento a fornecedores, do tempo de permanência dos estoques, dos prazos de recebimento das vendas, do comprometimento do faturamento com obrigações financeiras e do markup praticado, permitindo ajustes proativos nas decisões de compras, produção, vendas, financiamento e precificação.
Referências Bibliográficas
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DIAS, Marco Aurélio P. Administração de materiais: princípios, conceitos e gestão. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2020.
GITMAN, Lawrence J.; ZUTTER, Chad J. Princípios de administração financeira. 15. ed. São Paulo: Pearson, 2018.
KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração de marketing. 16. ed. São Paulo: Pearson, 2022.
LEONE, George S. G. Custos: planejamento, implementação e controle. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2019.
MARTINS, Eliseu. Contabilidade de custos. 12. ed. São Paulo: Atlas, 2021.
PADOVEZE, Clóvis Luís. Controladoria estratégica e operacional: conceitos, estrutura e aplicação. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2019.
ROSS, Stephen A.; WESTERFIELD, Randolph W.; JORDAN, Bradford D. Administração financeira: fundamentos. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq
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