Artigo

17 de agosto de 2026

Fatores Associados aos Sintomas Depressivos em Gestantes: um Estudo Transversal com Base em Escalas Clínicas

Juliana Jonson Campos; Gabrielle Maria Romeiro Lombardi

DOI: 10.22167/2675-6528-202601578

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A gestação representa um período de maior vulnerabilidade para alterações na saúde mental, incluindo sintomas de ansiedade e depressão. O estudo teve como objetivo analisar os fatores sociodemográficos, gestacionais e psicossociais associados aos sintomas depressivos em gestantes. Realizou-se um estudo transversal, de abordagem quantitativa, com 148 gestantes recrutadas por meio de questionário online. Os sintomas depressivos foram avaliados pela Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS) e os sintomas ansiosos pela Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7). Análises descritivas, testes de associação (qui-quadrado) e regressão logística binária foram empregadas, considerando como desfecho o risco elevado de sintomas depressivos (EPDS ≥ 13). Os resultados indicaram uma proporção relevante de gestantes com sintomas depressivos, e associações entre sintomas ansiosos, fatores socioeconômicos e apoio emocional com o desfecho. Na análise multivariada, variáveis relacionadas à estrutura da renda, à presença de apoio emocional limitado e aos níveis de ansiedade mantiveram associação com o risco elevado de sintomas depressivos. Concluiu-se que a saúde mental durante a gestação é multifatorial, com destaque para fatores psicológicos e socioeconômicos, o que reforça a importância do rastreamento de sintomas emocionais no contexto do pré-natal.

Palavras-chave: ansiedade; EPDS; gestação; pré-natal; saúde mental.

1. Introdução

A gestação é um período de intensas transformações na vida de uma mulher, abrangendo aspectos hormonais, fisiológicos, emocionais e sociais. Essas mudanças podem ter um impacto significativo na saúde mental, tornando essa fase um momento de maior vulnerabilidade para o surgimento ou agravamento de sintomas psicológicos, como ansiedade e depressão (O’Hara e Wisner, 2014). Embora a maternidade seja frequentemente associada a expectativas positivas, a realidade pode incluir desafios emocionais que comprometem o bem-estar materno, a qualidade de vida da gestante e sua adaptação ao período gestacional.

A literatura acadêmica tem consistentemente demonstrado que a ocorrência de sintomas depressivos durante a gestação é um evento frequente, com implicações clínicas e de saúde pública relevantes. Além do sofrimento emocional direto da mãe, esses sintomas podem estar associados a uma série de dificuldades práticas, incluindo menor adesão ao autocuidado, redução da participação no acompanhamento pré-natal, uma percepção mais negativa do suporte social disponível e um aumento geral da vulnerabilidade psicossocial (Faisal-Cury e Menezes, 2012). A prevalência de sintomas depressivos em gestantes é notável, com estudos internacionais indicando taxas que variam entre 10% e 40% (Woody et al., 2017; Shorey et al., 2018). No presente estudo, aproximadamente 35,1% das gestantes foram classificadas com risco elevado para sintomas depressivos, o que reforça a relevância do tema.

Para a avaliação e o rastreamento desses sintomas, instrumentos padronizados e validados são amplamente empregados tanto na pesquisa quanto na prática clínica. Destacam-se a Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS), desenvolvida por Cox, Holden e Sagovsky (1987), que é uma ferramenta de triagem para sintomas depressivos no período perinatal. Complementarmente, a Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7), proposta por Spitzer et al. (2006), é utilizada para rastrear sintomas de ansiedade generalizada. Essas escalas permitem mensurar, de maneira sistematizada, as manifestações emocionais autorreferidas, constituindo recursos valiosos para investigações sobre a saúde mental materna.

A compreensão da saúde mental gestacional é complexa e exige uma abordagem multifatorial. Além dos sintomas avaliados por escalas clínicas, diversos fatores sociodemográficos, gestacionais e psicossociais desempenham um papel crucial. Aspectos como o histórico prévio de transtornos mentais, a qualidade do apoio emocional recebido, as condições financeiras, o planejamento da gestação e as características do contexto social em que a mulher está inserida podem influenciar significativamente sua experiência emocional durante a gravidez (Biaggi et al., 2016). A análise conjunta desses elementos é fundamental para uma visão abrangente da saúde mental da gestante.

No contexto brasileiro, a investigação de sintomas depressivos em gestantes é particularmente importante, dada a diversidade de realidades regionais e socioeconômicas que podem influenciar a prevalência e a manifestação desses sintomas (Faisal-Cury e Menezes, 2012). Pesquisas focadas nesse cenário contribuem para aprofundar o conhecimento sobre as vulnerabilidades emocionais específicas do período gestacional e para fortalecer a discussão sobre a necessidade e a importância da triagem em saúde mental no pré-natal.

A identificação precoce e a compreensão dos fatores associados aos sintomas depressivos e ansiosos em gestantes são, portanto, essenciais para o desenvolvimento de intervenções eficazes e para a promoção de um pré-natal mais integral. Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo analisar os fatores sociodemográficos, gestacionais e psicossociais associados à presença de sintomas ansiosos e depressivos em gestantes, com base em instrumentos clínicos validados, buscando contribuir para a compreensão dos fatores relacionados à saúde mental durante a gestação, com ênfase em uma abordagem analítica e transversal.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza quantitativa, com delineamento transversal. Essa abordagem permitiu a análise de dados coletados em um único momento, proporcionando uma visão instantânea das associações entre as variáveis investigadas, sem estabelecer relações de causalidade. A metodologia quantitativa foi empregada para mensurar e analisar numericamente os fatores sociodemográficos, gestacionais e psicossociais, bem como os sintomas ansiosos e depressivos em gestantes, conforme o objetivo proposto.

A unidade de análise do estudo foi composta por gestantes, recrutadas em municípios do estado de Goiás, Brasil. A coleta de dados ocorreu por meio de um questionário online, que foi divulgado em grupos de redes sociais como WhatsApp e Facebook. Este método de recrutamento visou alcançar um público amplo de gestantes, independentemente da idade gestacional, facilitando a participação voluntária e a abrangência geográfica dentro da região definida para o estudo.

A amostra do estudo foi constituída por 148 gestantes, selecionadas por meio de amostragem não probabilística por conveniência. Os critérios de inclusão abrangeram gestantes de todas as idades gestacionais, residentes em qualquer município de Goiás, que tivessem acesso à internet e concordassem em participar voluntariamente da pesquisa. Não foram aplicados critérios de exclusão específicos além da condição de gestante e residência na área geográfica definida, visando a maximização da participação.

Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário online estruturado, desenvolvido na plataforma Google Forms. Este questionário integrou seções para a coleta de variáveis sociodemográficas, gestacionais e psicossociais, além de dois instrumentos validados para a avaliação da saúde mental. A Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS), de Cox, Holden e Sagovsky (1987), com dez itens pontuados de zero a três, foi empregada para rastrear sintomas depressivos, adotando-se o ponto de corte de 13 ou mais para risco elevado. A Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7), de Spitzer et al. (2006), com sete itens pontuados de zero a três, foi utilizada para rastrear sintomas de ansiedade generalizada.

O processo de coleta de dados foi realizado de forma remota, utilizando o questionário online hospedado no Google Forms. O link para acesso ao formulário foi amplamente divulgado em grupos de comunicação digital, especificamente no WhatsApp e no Facebook, com o intuito de alcançar gestantes que atendessem aos critérios de inclusão. A participação foi voluntária, e as respondentes preencheram o questionário de forma autoaplicável, garantindo a autonomia e a conveniência no processo de submissão das informações.

Após a coleta, os dados foram submetidos a um rigoroso processo de tratamento. Inicialmente, realizou-se a limpeza e padronização das variáveis categóricas, corrigindo-se inconsistências de escrita e unificando-se categorias semanticamente equivalentes. Em seguida, aplicou-se a técnica de feature engineering para criar novas variáveis a partir das respostas originais, visando otimizar a análise estatística. Uma variável de desfecho categórica foi construída com base no ponto de corte da EPDS (escore igual ou superior a 13), indicando risco elevado de sintomas depressivos.

A análise dos dados iniciou-se com estatísticas descritivas, calculando-se frequências absolutas e relativas para variáveis categóricas e medidas de tendência central para variáveis numéricas. Para investigar a associação entre as variáveis explicativas e o desfecho de risco elevado de sintomas depressivos, empregou-se o teste do qui-quadrado de Pearson, com nível de significância de 5% (p < 0,05). Posteriormente, ajustou-se um modelo de regressão logística binária para avaliar o efeito independente das variáveis explicativas sobre o desfecho, transformando-se variáveis categóricas em variáveis dummy. As análises foram realizadas em ambiente Python, utilizando as bibliotecas pandas, numpy e scipy.

Os procedimentos éticos foram rigorosamente observados, garantindo o anonimato e a confidencialidade de todas as participantes. A coleta de dados ocorreu somente após o aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), apresentado em formato eletrônico, assegurando a participação voluntária e informada. Os dados coletados foram utilizados exclusivamente para fins científicos, em conformidade com as diretrizes éticas para pesquisas envolvendo seres humanos.

O delineamento transversal do estudo, embora adequado para identificar associações, não permite inferir relações de causalidade entre as variáveis. A amostragem por conveniência, realizada por meio de questionário online, pode ter introduzido um viés de seleção, limitando a generalização dos resultados para outras populações de gestantes. Adicionalmente, o uso de dados autorreferidos pode estar sujeito a vieses de memória ou desejabilidade social. A avaliação estrutural de algumas variáveis, como apoio emocional, não contemplou aspectos qualitativos do vínculo, o que pode influenciar a profundidade da análise.

3. Resultados e Discussão

A análise inicial das pontuações obtidas na Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS) revelou uma amplitude de valores que variou aproximadamente entre 2 e 24 pontos, com uma média próxima de 11 pontos. Essa distribuição indicou uma concentração na faixa intermediária da escala, especificamente entre 8 e 15 pontos, sugerindo a presença de sintomas emocionais relevantes na amostra estudada, embora com menor incidência de casos extremos. Este padrão é crucial para compreender a prevalência geral de desconforto psicológico entre as gestantes participantes.

Figura 1. Distribuição da pontuação da escala EPDS

Fonte: Dados originais da pesquisa

A classificação das participantes, baseada nos pontos de corte da EPDS, demonstrou que 37,8% das gestantes foram categorizadas em baixo risco, 27,0% em risco leve e 35,1% em risco elevado para sintomas depressivos. Essa proporção de risco elevado está em consonância com a literatura internacional, que aponta taxas variando entre 10% e 40% (Woody et al., 2017; Shorey et al., 2018), reforçando a necessidade e a importância do rastreamento da saúde mental durante o período gestacional. Os achados sublinham a vulnerabilidade emocional significativa neste grupo.

No que concerne à ideação autolesiva, um item específico da EPDS, a maioria das participantes (87%) relatou nunca ter experimentado esse tipo de pensamento. Contudo, 17 gestantes (11,5%) indicaram ocorrência ocasional e 2 participantes (1,3%) reportaram maior frequência. Embora o número absoluto de casos seja reduzido, a presença dessas respostas demanda atenção clínica, visto que a ideação autolesiva é um indicador importante de sofrimento psicológico. A baixa frequência de ocorrências impediu a realização de uma análise estatística específica para essa variável, mas a identificação desses casos reforça a importância do rastreamento precoce para encaminhamento profissional.

A investigação dos determinantes históricos e temporais revelou que o histórico prévio de transtornos de ansiedade ou depressão constitui um fator relevante para escores mais elevados na EPDS. Gestantes com diagnóstico pregresso apresentaram maior variabilidade e elevação nas pontuações, um achado que se alinha à literatura que identifica a recorrência psiquiátrica como um dos principais fatores de vulnerabilidade no período gravídico-puerperal (O’Hara & McCabe, 2013). Este resultado sublinha a importância de considerar o histórico de saúde mental da mulher no acompanhamento pré-natal.

Figura 2. Boxplot de diagnóstico prévio em relação à pontuação EPDS

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Figura 2 ilustra claramente a diferença nas pontuações da EPDS entre os grupos, evidenciando que gestantes com histórico de ansiedade ou depressão prévia tendem a apresentar escores mais altos e com maior dispersão. Essa visualização reforça a interpretação de que a vulnerabilidade preexistente a transtornos mentais pode ser um preditor significativo de sintomas depressivos durante a gestação, exigindo uma abordagem preventiva e de monitoramento mais intensiva para essas mulheres.

Foi observada uma associação estatisticamente significativa entre a classificação da ansiedade, avaliada pela Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7), e o risco elevado de sintomas depressivos (χ² = 12,86; p = 0,005). A análise das proporções demonstrou um padrão progressivo, onde níveis mais elevados de ansiedade estavam associados a uma maior frequência de classificação elevada na escala EPDS. Notavelmente, no grupo com ansiedade grave, aproximadamente 69% das gestantes foram classificadas com maior intensidade de sintomas depressivos, enquanto entre aquelas com ansiedade mínima, essa proporção foi de cerca de 12%.

Figura 3. Heatmap da relação entre sintomas ansiosos e risco de sintomas depressivos

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Figura 3, um heatmap, visualiza de forma contundente o aumento progressivo da proporção de sintomas depressivos elevados conforme a intensidade da ansiedade, confirmando a relação dose-resposta identificada. Este achado está em consonância com a literatura, que reconhece a ansiedade como um dos principais fatores associados à depressão perinatal, atuando tanto como fator de risco quanto como manifestação concomitante (Heron et al., 2004; Dennis et al., 2017). Tais resultados reforçam a necessidade de considerar a ansiedade como um componente central na avaliação da saúde mental materna, indicando maior vulnerabilidade ao desenvolvimento ou agravamento de sintomas depressivos.

A análise da relação entre a principal fonte de renda familiar e os sintomas depressivos durante a gestação revelou uma associação estatisticamente significativa (χ² = 20,31; p < 0,001). As proporções indicaram que gestantes cuja renda era exclusivamente própria (63%) ou dependente do parceiro (54%) apresentaram maiores frequências de classificação elevada na EPDS. Em contraste, aquelas com renda compartilhada demonstraram uma proporção menor de sintomas mais intensos, com apenas 21% classificadas em risco elevado.

Figura 4. Distribuição da classificação EPDS segundo fonte de renda

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Figura 4 ilustra a distribuição dos níveis de sintomas depressivos em função da principal fonte de renda familiar, corroborando a interpretação de que a estrutura da renda pode influenciar a experiência emocional durante a gestação. A dependência econômica, seja da própria gestante ou do parceiro, pode estar associada a maior insegurança financeira e instabilidade, contribuindo para o aumento do estresse psicológico. Em contrapartida, a renda compartilhada pode refletir maior estabilidade econômica e divisão de responsabilidades, atuando como um fator protetor para a saúde mental materna, alinhando-se à literatura que destaca a importância dos determinantes socioeconômicos (Biaggi et al., 2016).

É importante notar que a percepção subjetiva da situação financeira, diferentemente da estrutura objetiva da renda, não apresentou associação estatisticamente significativa com os sintomas depressivos na amostra analisada (χ² = 1,15; p = 0,5618). Embora pequenas variações tenham sido observadas entre as categorias, não se identificou um padrão consistente que indicasse uma diferença relevante na distribuição dos sintomas. Este contraste sugere que, nesta amostra, a estrutura formal da renda pode ter exercido uma influência mais direta sobre a saúde mental gestacional do que a percepção individual da condição financeira.

A análise da relação entre o vínculo com o pai do bebê e os sintomas depressivos durante a gestação revelou uma associação estatisticamente significativa (χ² = 6,00; p = 0,0499). Padrões distintos foram observados entre os grupos: gestantes casadas ou em união estável apresentaram uma proporção maior de classificação elevada na EPDS (41,4%), além de uma menor proporção de baixo risco. Já entre as gestantes em relacionamento de namoro, a distribuição entre as categorias de sintomas depressivos foi mais equilibrada, sugerindo heterogeneidade na vulnerabilidade emocional.

Figura 5. Distribuição da classificação EPDS segundo relação com o pai do bebê

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Figura 5 visualiza a distribuição da classificação EPDS conforme o tipo de relação com o pai do bebê, destacando que a ausência de vínculo conjugal, mas com participação do pai, foi associada a uma menor intensidade de sintomas. Esses resultados diferem parcialmente da literatura, que frequentemente aponta o relacionamento estável e o suporte do parceiro como fatores protetores (Stapleton et al., 2012; Pilkington, Milne & Whelan, 2015). A variável analisada neste estudo descreve apenas o tipo de relação, sem contemplar aspectos qualitativos do vínculo, como suporte emocional percebido ou qualidade da comunicação.

Estudos sugerem que mulheres em relações conjugais estáveis podem experimentar maior sobrecarga de papéis sociais, acumulando responsabilidades domésticas e expectativas da maternidade, o que pode elevar os níveis de estresse e vulnerabilidade emocional (Milgrom et al., 2008; Biaggi et al., 2016). A combinação de mudanças fisiológicas, preocupações com o bebê e demandas familiares pode intensificar a carga emocional. Assim, o status formal da relação conjugal não necessariamente reflete o nível de suporte emocional efetivamente disponível, reforçando a importância de considerar dimensões qualitativas do suporte social ao investigar os determinantes dos sintomas depressivos durante a gestação.

A análise da relação entre o apoio emocional durante a gestação e os sintomas depressivos, na análise bivariada, não indicou associação estatisticamente significativa (χ² = 1,89; p = 0,1689). No entanto, a análise das proporções revelou um padrão relevante: gestantes com rede de apoio limitada apresentaram maior proporção de classificação elevada na EPDS (40,2%) em comparação àquelas com boa rede de apoio emocional (27,9%). Embora essa diferença não tenha atingido significância estatística, o padrão observado sugere uma possível influência do suporte social na saúde mental gestacional, alinhando-se à literatura que reconhece o apoio emocional como um fator protetor para o bem-estar psicológico materno (Leahy-Warren, McCarthy & Corcoran, 2012; Biaggi et al., 2016).

A ausência de significância estatística para o apoio emocional pode estar relacionada a limitações metodológicas, como o tamanho da amostra, a distribuição desigual das categorias ou a baixa variabilidade das respostas, fatores que podem reduzir o poder estatístico do teste. Adicionalmente, a medida de apoio emocional utilizada não contemplou aspectos qualitativos, como intensidade, frequência e efetividade do suporte percebido, que podem exercer influência mais direta sobre a saúde mental da gestante. Dessa forma, os resultados sugerem que o apoio emocional pode desempenhar um papel relevante, mesmo que a associação estatística não tenha sido demonstrada nesta amostra.

Outras variáveis analisadas, como o trimestre gestacional (χ² = 1,26; p = 0,5328), o nível de escolaridade (χ² = 2,08; p = 0,7212) e o diagnóstico prévio de transtornos mentais (χ² = 0,95; p = 0,8121) não apresentaram associações estatisticamente significativas com os sintomas depressivos nas análises bivariadas. A ausência de significância estatística pode ser atribuída ao tamanho da amostra e à distribuição das categorias, não necessariamente indicando uma ausência de relação entre essas variáveis e a saúde mental durante a gestação. Tais achados reforçam a complexidade da interação entre múltiplos fatores na saúde mental materna.

Na análise multivariada por regressão logística, observou-se que variáveis relacionadas à estrutura da renda apresentaram as maiores magnitudes de efeito sobre o risco elevado de sintomas depressivos. Gestantes cuja renda dependia do parceiro demonstraram uma chance 7,35 vezes maior de risco elevado de sintomas depressivos (IC 95%: 2,47–21,90), e aquelas com renda própria apresentaram uma chance 15,63 vezes maior (IC 95%: 3,72–65,76; p< 0,001), em comparação ao grupo de referência. Apesar da significância estatística elevada, os intervalos de confiança amplos sugerem cautela na interpretação da magnitude exata do efeito.

A presença de rede de apoio emocional limitada também se associou a uma maior probabilidade do desfecho, com um Odds Ratio (OR) de 2,81 (IC 95%: 1,09–7,26), indicando a relevância do suporte social na saúde mental durante a gestação. Em relação aos sintomas ansiosos, níveis mais baixos de ansiedade mostraram-se associados à redução da chance de sintomas depressivos elevados. A ansiedade mínima apresentou um OR de 0,08 (IC 95%: 0,01–0,60), a ansiedade leve um OR de 0,25 (IC 95%: 0,07–0,93) e a ansiedade moderada um OR de 0,24 (IC 95%: 0,07–0,92), quando comparadas à categoria de referência, sugerindo um efeito protetor consistente.

Adicionalmente, gestantes sem vínculo conjugal, mas com participação do pai, apresentaram uma menor chance de sintomas depressivos elevados (OR = 0,14; IC 95%: 0,03–0,84). As demais variáveis analisadas não apresentaram associação estatisticamente significativa com o desfecho após ajuste no modelo. É fundamental interpretar esses resultados como associações, e não como relações de causalidade, devido ao delineamento transversal do estudo. A análise multivariada permitiu identificar os fatores que mantiveram sua relevância mesmo após o controle de outras variáveis.

O presente estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. Primeiramente, o delineamento transversal impede o estabelecimento de relações de causalidade entre as variáveis, limitando a análise à identificação de associações. Além disso, a amostra foi recrutada por conveniência por meio de formulário online, o que pode introduzir viés de seleção e limitar a representatividade dos resultados para outras populações. O tamanho da amostra também deve ser considerado, especialmente no contexto de variáveis categóricas com múltiplas categorias, o que pode reduzir o poder estatístico das análises e dificultar a identificação de associações significativas.

Outro aspecto relevante refere-se ao uso de dados autorreferidos, que podem estar sujeitos a vieses de memória, percepção ou desejabilidade social, influenciando as respostas das participantes. Adicionalmente, algumas variáveis analisadas, como a relação com o pai do bebê e o apoio emocional, foram avaliadas de forma estrutural, sem contemplar aspectos qualitativos, como a qualidade do vínculo, a intensidade do suporte ou a presença de conflitos, que poderiam exercer influência mais direta sobre a saúde mental durante a gestação. Por fim, a presença de categorias com baixa frequência em algumas variáveis limita a robustez das análises comparativas, exigindo que os resultados sejam interpretados com cautela.

Em síntese, os achados deste estudo transversal evidenciaram uma proporção relevante de gestantes com sintomas depressivos, destacando a natureza multifatorial da saúde mental durante a gestação. Fatores como a estrutura da renda familiar, a qualidade do apoio emocional e, principalmente, a presença de sintomas ansiosos, mostraram-se consistentemente associados ao risco elevado de sintomas depressivos. Esses resultados reforçam a importância do rastreamento de sintomas emocionais no contexto do pré-natal, permitindo a identificação precoce de vulnerabilidades e a implementação de intervenções adequadas para promover o bem-estar materno.

4. Conclusão

O presente estudo buscou analisar os fatores sociodemográficos, gestacionais e psicossociais associados aos sintomas depressivos em gestantes, utilizando instrumentos clínicos validados. Verificou-se uma proporção relevante de gestantes com risco elevado para sintomas depressivos, o que sublinha a vulnerabilidade emocional neste período. Identificou-se uma associação estatisticamente significativa entre a intensidade dos sintomas ansiosos e o risco de depressão, com níveis mais elevados de ansiedade consistentemente associados a uma maior frequência de sintomas depressivos. A estrutura da renda familiar também se mostrou um fator determinante, onde a dependência econômica, seja da própria gestante ou do parceiro, esteve associada a uma maior probabilidade de sintomas depressivos, em contraste com a renda compartilhada. Adicionalmente, observou-se que a presença de apoio emocional limitado aumentou a chance de sintomas depressivos elevados, e gestantes sem vínculo conjugal formal, mas com participação do pai, apresentaram menor chance do desfecho. Esses achados reforçam o caráter multifatorial da saúde mental durante a gestação, destacando a interconexão de fatores psicológicos e socioeconômicos na experiência emocional materna. A principal contribuição do estudo reside no reforço da importância do rastreamento de sintomas emocionais no contexto do pré-natal, visando à identificação precoce de vulnerabilidades e à promoção do bem-estar.

Contudo, o delineamento transversal do estudo impede o estabelecimento de relações de causalidade entre as variáveis, permitindo apenas a identificação de associações. A amostra, recrutada por conveniência via questionário online, pode limitar a representatividade dos resultados para outras populações, e o uso de dados autorreferidos introduz possíveis vieses. Variáveis como a relação com o pai do bebê e o apoio emocional foram avaliadas de forma estrutural, sem aprofundar em aspectos qualitativos do vínculo ou da efetividade do suporte, o que pode ter influenciado a detecção de associações. A presença de categorias com baixa frequência em algumas variáveis também limitou a robustez de certas análises. Apesar dessas limitações metodológicas, os resultados oferecem uma compreensão valiosa dos fatores associados à saúde mental gestacional, sugerindo a necessidade de abordagens longitudinais e avaliações qualitativas mais aprofundadas em futuras investigações para uma visão mais completa e para o desenvolvimento de intervenções mais direcionadas.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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