Engenharia De Software
17 de agosto de 2026
Implementação de Práticas Devops em PME: Impactos da Centralização do Conhecimento e Automação na Eficiência Organizacional
Ellen Samanta Nunes da Silva; Renato Godoi da Cruz
DOI: 10.22167/2675-6528-202601591
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A gestão do conhecimento e a comunicação eficiente em pequenas e médias empresas impactam diretamente a produtividade e a qualidade dos processos. Investigou-se os gargalos da centralização do conhecimento e falhas de comunicação que geravam retrabalho, além dos fatores que dificultavam a adoção de testes automatizados e práticas de integração e entrega contínuas (CI/CD) em pequenas e médias empresas (PMEs). A pesquisa, de natureza exploratória e descritiva quantitativa, foi conduzida remotamente em uma PME, utilizando questionários aplicados a 11 colaboradores, observação participante e análise documental. Elaborou-se e validou-se uma prova de conceito (PoC) de pipeline de CI/CD na plataforma Azure DevOps. Os resultados revelaram que a ausência de documentação e a comunicação informal causavam perda de conhecimento e retrabalho, e que barreiras culturais, técnicas e organizacionais dificultavam a adoção de práticas modernas de desenvolvimento, impactando a maturidade dos processos. A PoC de CI/CD alcançou 100% de sucesso, e as melhorias implementadas em wiki e boards obtiveram 74,6% de respostas positivas. Concluiu-se que a gestão estruturada do conhecimento, por meio de documentação e automação de processos, contribuiu significativamente para a melhoria da comunicação, eficiência operacional e redução de retrabalho em PMEs.
Palavras-chave: Automação; DevOps; Gestão do conhecimento; Integração contínua; Processos organizacionais.
1. Introdução
A demanda crescente por entregas rápidas, contínuas e confiáveis no desenvolvimento de software tem impulsionado a busca por abordagens que promovam maior integração entre processos, pessoas e tecnologia. Nesse cenário, a utilização isolada de metodologias ágeis frequentemente se mostra insuficiente para atender às complexidades e à velocidade exigidas pelo mercado. Torna-se imperativa a adoção de práticas que englobem automação, entregas contínuas, monitoramento e uma colaboração aprimorada entre as equipes de desenvolvimento e operações.
Neste contexto, o conceito de Development and Operations, amplamente conhecido como DevOps, emerge como um conjunto de princípios organizacionais que visa otimizar a entrega de valor e assegurar a continuidade dos serviços. O DevOps transcende a mera aplicação de ferramentas técnicas, representando uma transformação cultural e estrutural na forma como as organizações planejam e executam o ciclo de vida do software. Sua implementação envolve desafios que vão além do âmbito tecnológico, abrangendo aspectos culturais, organizacionais e, fundamentalmente, questões de comunicação e colaboração entre equipes, conforme destacado por Offerman et al. (2022).
Em pequenas e médias empresas (PMEs), esses desafios tendem a ser ainda mais acentuados devido a características como estruturas organizacionais enxutas, acúmulo de funções e menor formalização de processos. Contudo, mesmo diante dessas particularidades, a adoção de práticas DevOps tem demonstrado benefícios significativos. Offerman et al. (2022) relatam melhorias como maior automação de processos, redução do tempo de ciclo, aumento na frequência de releases, aprimoramento contínuo, maior estabilidade e qualidade dos sistemas, além do fortalecimento da colaboração e da satisfação dos colaboradores.
Apesar dos reconhecidos benefícios, a ausência de práticas sistemáticas de documentação e compartilhamento de informações pode resultar na formação de silos de conhecimento. Esse fenômeno é caracterizado pela concentração de informações em indivíduos ou áreas específicas, o que compromete a aprendizagem organizacional e aumenta a dependência de pessoas-chave. Consequentemente, os projetos tornam-se mais vulneráveis a falhas e descontinuidades, elevando o risco de retrabalho e impactando negativamente a produtividade.
No ambiente das PMEs, a comunicação informal e a sobrecarga de tarefas intensificam essa limitação, dificultando ainda mais a descentralização do conhecimento. Levita e Mattar Neto (2018) ressaltam a importância da integração e do compartilhamento de ferramentas entre equipes como elementos cruciais para reduzir a fragmentação dos processos organizacionais. A autonomia das equipes na organização do trabalho e na resolução de problemas, juntamente com práticas colaborativas, é um fator relevante para a descentralização do conhecimento e o fortalecimento da capacidade das equipes, conforme indicado por Simonetti e Marx (2010).
Outro ponto crítico reside na validação consistente das regras de negócio, que depende intrinsecamente da utilização de testes de software. No entanto, a adoção de testes automatizados exige investimentos consideráveis em infraestrutura, ferramentas e conhecimento especializado. Essa exigência representa um obstáculo significativo, especialmente para organizações de pequeno porte, que muitas vezes carecem dos recursos necessários para tal investimento, como discutido por Murazvu et al. (2024).
Murazvu et al. (2024) apontam que, embora os benefícios da automação sejam amplamente reconhecidos, sua implementação ainda enfrenta barreiras substanciais. Essas barreiras incluem a necessidade de expertise técnica, dificuldades relacionadas a sistemas legados, custos de adoção e a resistência à mudança organizacional. Nesse contexto, práticas como Integração e Entrega Contínua (CI/CD) dependem diretamente da existência de testes confiáveis, requisitos bem definidos e processos organizacionais estruturados, uma vez que a automação da validação é um elemento central para a execução consistente dessas práticas.
Observa-se, portanto, uma lacuna na compreensão dos fatores organizacionais que dificultam a adoção de testes automatizados e práticas de CI/CD em PMEs. Essa lacuna é particularmente evidente no que se refere à descentralização do conhecimento, à autonomia das equipes e à gestão de requisitos. A abordagem desses desafios é fundamental para mitigar o retrabalho, melhorar a comunicação e aumentar a eficiência operacional, contribuindo para a maturidade dos processos de desenvolvimento de software.
Diante desse cenário, a presente pesquisa justifica-se pela necessidade de compreender e propor soluções para os gargalos de comunicação e centralização do conhecimento, bem como para as barreiras na adoção de testes automatizados e CI/CD em PMEs, visando aprimorar a eficiência organizacional e a qualidade dos processos. Assim, este trabalho tem como objetivo investigar os fatores que dificultam a adoção de testes automatizados e práticas de CI/CD em PMEs, com foco em aspectos organizacionais relacionados à descentralização do conhecimento, à autonomia das equipes e à gestão de requisitos.
2. Material e Métodos
A pesquisa caracterizou-se como exploratória e descritiva quantitativa, buscando investigar os fatores que dificultam a adoção de testes automatizados e práticas de Integração Contínua e Entrega Contínua (CI/CD) em pequenas e médias empresas (PMEs). A abordagem metodológica combinou a coleta de dados quantitativos, por meio de questionários, com a interpretação qualitativa do contexto organizacional. Essa perspectiva permitiu uma análise abrangente dos desafios relacionados à descentralização do conhecimento, autonomia das equipes e gestão de requisitos.
O estudo foi conduzido de forma remota em uma PME localizada em São Paulo, Brasil, que atua no desenvolvimento de software. A unidade de análise correspondeu a essa empresa, que serviu como objeto empírico para a investigação dos processos organizacionais. A coleta de dados ocorreu em duas fases distintas: a primeira iniciou-se a partir de 22 de dezembro de 2025, e a segunda fase, com a aplicação de um formulário complementar, foi realizada em 04 de março de 2026, abrangendo um período de dois meses.
A amostra da pesquisa foi composta por 11 colaboradores da PME, selecionados por sua atuação estratégica nos projetos. Dentre os participantes, seis eram desenvolvedores com foco em sustentação, três da área de gestão/comercial e dois da equipe de arquitetura de software. Os critérios de seleção visaram garantir uma representatividade mínima dos grupos, estabelecendo a obtenção de, pelo menos, cinco respostas de desenvolvedores e a participação de aproximadamente dois terços dos membros das equipes de arquitetura e gestão.
Os instrumentos de coleta de dados consistiram em dois formulários distintos, elaborados e aplicados por meio da plataforma Google Forms. Esses questionários foram compostos por afirmações avaliadas em escala do tipo Likert, projetadas para captar a percepção dos colaboradores sobre a descentralização do conhecimento, o nível de autonomia das equipes, os gargalos na validação de regras de negócio e os obstáculos à adoção de testes automatizados e CI/CD. A plataforma Azure DevOps também foi utilizada como ferramenta de apoio metodológico.
Os procedimentos de coleta de dados iniciaram-se com a aplicação remota do primeiro formulário, divulgado por meio dos canais internos de comunicação da empresa, utilizando um link de acesso. Este formulário foi estruturado para captar a percepção dos participantes sobre a descentralização do conhecimento, a autonomia das equipes e a identificação de gargalos na validação de regras de negócio. Após um intervalo de dois meses, um segundo formulário foi aplicado aos mesmos participantes para coletar feedback sobre a satisfação com as melhorias implementadas na wiki e a organização dos requisitos no Azure DevOps.
De forma complementar à aplicação dos questionários, adotou-se a observação participante e a análise documental informal pela pesquisadora. A plataforma Azure DevOps, já em uso pela empresa, foi empregada como ambiente para a observação e anotações dos fluxos de trabalho. A wiki corporativa, um recurso da plataforma, foi utilizada como objeto de observação para identificar como as informações eram registradas, compartilhadas e atualizadas pelas equipes, mapeando lacunas na documentação.
Os boards disponíveis na plataforma Azure DevOps foram utilizados como fonte de observação dos fluxos de trabalho e da organização das demandas técnicas e de negócio. Essa análise permitiu verificar a existência ou ausência de rastreabilidade dos requisitos e o alinhamento entre as áreas envolvidas nos projetos. Adicionalmente, a partir das informações coletadas, conduziu-se o processo metodológico de concepção de um protótipo conceitual de pipeline automatizada, desenvolvido em conjunto com a equipe de operações.
Para validar a viabilidade técnica da proposta, realizou-se uma Prova de Conceito (PoC) de pipeline de CI/CD na plataforma Azure DevOps. Durante essa etapa, foram registradas execuções reais para avaliar a estabilidade e o tempo de resposta do fluxo de integração e entrega. A pipeline foi elaborada com base nas necessidades organizacionais identificadas e nas boas práticas descritas na literatura, contemplando etapas de instalação de dependências, build do projeto, execução de testes automatizados, publicação de artefatos e invalidação de cache.
Os dados quantitativos obtidos dos questionários foram organizados por meio de frequências e percentuais, sem a aplicação de testes estatísticos inferenciais. Essa organização descritiva serviu como apoio à interpretação qualitativa do contexto organizacional analisado. As informações da observação participante e da análise documental foram utilizadas para identificar lacunas na formalização do conhecimento, dependência de comunicação verbal e ausência de rastreabilidade sistemática dos requisitos, complementando a análise quantitativa.
Os cuidados éticos foram observados mediante a aplicação de Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) aos participantes, conforme detalhado nos apêndices do trabalho original. Garantiu-se o anonimato das respostas e a confidencialidade das informações coletadas, que foram utilizadas exclusivamente para fins acadêmicos. Os participantes foram informados sobre a natureza da pesquisa e seus direitos, incluindo a liberdade de interromper a participação a qualquer momento, sem qualquer prejuízo ou implicação negativa.
3. Resultados e Discussão
A análise dos resultados da pesquisa foi estruturada para abordar os principais gargalos relacionados à centralização do conhecimento, às falhas de comunicação e aos obstáculos na adoção de testes automatizados e práticas de Integração e Entrega Contínuas (CI/CD) em uma pequena e média empresa (PME). A investigação inicial, realizada por meio de um questionário aplicado a onze colaboradores, revelou percepções cruciais sobre o ambiente organizacional e as práticas de desenvolvimento de software. A amostra, embora reduzida, foi composta por seis desenvolvedores (54,5%), três colaboradores da área de gestão/comercial (27,3%) e dois integrantes da equipe de arquitetura de software (18,2%), garantindo uma visão multifacetada das operações.
Os dados coletados no primeiro formulário, que utilizou uma escala Likert de cinco pontos, permitiram uma análise descritiva quantitativa, servindo de base para a interpretação qualitativa do contexto organizacional. As percepções dos participantes sobre a descentralização do conhecimento e a autonomia técnica da equipe foram um ponto central. Verificou-se que 63,6% dos respondentes tinham uma percepção positiva sobre a capacidade de localizar informações sem depender exclusivamente de indivíduos específicos, com duas concordâncias totais e cinco parciais. Contudo, a predominância da concordância parcial sugere que, embora existam mecanismos informais de acesso à informação, estes não são totalmente satisfatórios, indicando a persistência de lacunas na formalização do conhecimento.
A ausência de um repositório centralizado de documentação foi percebida como um fator negativo para a produtividade por 45,5% dos participantes, sendo três com concordância total e dois com parcial. Os demais respondentes apresentaram discordância ou neutralidade, o que pode estar associado a diferentes níveis de dependência de práticas informais de acesso à informação. Em contraste, a autonomia técnica foi amplamente reconhecida, com 81,8% dos participantes concordando que possuem autonomia para tomada de decisões técnicas, sendo quatro concordâncias totais e cinco parciais. Esse achado sugere que a autonomia é sustentada por um conhecimento tácito acumulado, que nem sempre é formalizado ou documentado.
A Figura 1 ilustra a distribuição das respostas dos participantes sobre a descentralização do conhecimento e a autonomia da equipe, evidenciando as nuances nas percepções. A análise revela que, apesar de uma percepção geral de autonomia, a falta de documentação formal e a dependência de canais informais ainda representam desafios significativos para a gestão eficaz do conhecimento na organização. Essa heterogeneidade nas respostas sublinha a complexidade de implementar mudanças culturais e processuais em PMEs, onde o conhecimento tácito muitas vezes prevalece sobre a documentação estruturada.
Figura 1. Percepção dos participantes sobre descentralização do conhecimento e autonomia da equipe

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 1 demonstra que, embora a autonomia técnica seja amplamente percebida, a questão da ausência de documentação ainda gera um impacto negativo considerável. A maioria das respostas positivas para autonomia técnica contrasta com a distribuição mais dispersa para a capacidade de localizar informações e o impacto da falta de documentação, reforçando a ideia de que o conhecimento, embora presente, não está devidamente formalizado ou acessível de maneira eficiente para todos os colaboradores, o que pode levar a gargalos e dependência de pessoas-chave.
No que tange à gestão de requisitos e à validação das regras de negócio, os resultados indicaram fragilidades significativas. A clareza e a adequada definição das regras de negócio antes do desenvolvimento foram majoritariamente avaliadas de forma negativa, com nenhum participante expressando concordância total e quatro discordando totalmente ou parcialmente. Esse cenário aponta para deficiências nas fases de elicitação e formalização de requisitos, um problema crítico que pode levar a retrabalho e inconsistências no produto final. A Figura 2 detalha essas percepções, mostrando a distribuição das respostas.
A percepção de que requisitos não documentados ou alterações surgem após a entrega inicial foi corroborada por 72,7% dos participantes, sendo três com concordância total e cinco com parcial. Apenas três respondentes não concordaram com essa percepção, indicando neutralidade ou discordância. Esse achado reforça a necessidade de processos mais robustos para a gestão de requisitos, conforme discutido por Besrour et al. (2016), que destacam a importância de requisitos bem definidos para o sucesso de projetos de software. A instabilidade dos requisitos é um fator que diretamente impacta a eficiência e a qualidade das entregas.
A aderência da documentação existente às regras de negócio e ao comportamento esperado do sistema recebeu uma avaliação moderadamente positiva, com seis participantes expressando concordância (duas totais e quatro parciais). No entanto, quatro mantiveram-se neutros e um discordou parcialmente. A predominância de concordâncias parciais sugere que, embora a documentação exista, ela pode ser incompleta ou desatualizada, limitando sua eficácia como fonte confiável de informação. Essa lacuna na completude e atualização da documentação contribui para a dependência de comunicação informal e conhecimento tácito, aumentando o risco de erros e retrabalho.
Figura 2. Percepção dos participantes sobre a Gestão de Requisitos e Validação das Regras de Negócio

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 2 evidencia as dificuldades enfrentadas pela equipe na gestão de requisitos e validação das regras de negócio. A baixa percepção de clareza nas regras de negócio e a alta incidência de requisitos não documentados ou alterados após a entrega inicial são indicativos de processos imaturos. Embora a documentação consistente tenha uma avaliação um pouco melhor, a predominância de concordâncias parciais sugia que ainda há espaço para melhorias significativas na sua completude e atualização, o que é fundamental para a redução de retrabalho e a melhoria da comunicação entre as equipes.
As percepções sobre a adoção de testes automatizados, sua relação com a documentação e as barreiras à implementação de práticas de CI/CD também foram investigadas. Cinco participantes indicaram que a falta de documentação clara dificulta a implementação de testes automatizados, com duas concordâncias totais e três parciais. Três participantes mantiveram-se neutros, e três discordaram, revelando diferentes perspectivas sobre a interconexão entre documentação e testes. Esse resultado sublinha que a documentação não é apenas um registro, mas um facilitador essencial para a automação de processos de validação.
Houve um elevado consenso de que a ausência de testes automatizados contribui para o aumento do retrabalho e do esforço na validação das entregas, com 81,8% dos participantes concordando com essa afirmação (cinco parciais e quatro totais). Apenas dois participantes discordaram parcialmente. Esse achado reforça a importância crítica dos testes automatizados para a eficiência operacional e a qualidade do software, conforme apontado por Murazvu et al. (2024), que destacam os benefícios da automação, mas também as barreiras à sua implementação. A falta de testes automatizados gera um ciclo vicioso de retrabalho e validação manual, consumindo tempo e recursos valiosos.
Em relação às barreiras para a adoção de testes automatizados e práticas de CI/CD, oito participantes atribuíram as dificuldades a fatores organizacionais, como limitação de tempo, priorização e processos internos, com seis concordâncias totais e duas parciais. Dois mantiveram-se neutros e um discordou totalmente. Este resultado sugere que os obstáculos não são primariamente técnicos, mas sim culturais e de gestão, o que exige uma abordagem que vá além da simples implementação de ferramentas, focando na transformação dos processos e da cultura organizacional. A Figura 3 sintetiza essas percepções sobre a automação e o pipeline.
Figura 3. Percepção dos participantes sobre testes Automatizados, CI/CD e Automação de Pipeline

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 3 reforça que a ausência de testes automatizados é um grande contribuinte para o retrabalho, e que a adoção de testes e CI/CD enfrenta barreiras predominantemente organizacionais. A percepção de que a documentação falha dificulta os testes também é notável, conectando a gestão do conhecimento com a capacidade de automação. Esses achados em conjunto com as Figuras 1 e 2, evidenciam a necessidade de métodos sistemáticos para mapear, formalizar e rastrear informações sobre regras de negócio, requisitos e processos de desenvolvimento, motivando a busca por soluções que centralizem o conhecimento e melhorem a comunicação.
Como resposta aos gargalos informacionais identificados, a organização implementou uma wiki corporativa na plataforma Azure DevOps, que se tornou um repositório centralizado para o registro e compartilhamento de informações dos projetos. Essa wiki foi construída de forma colaborativa, documentando regras de negócio, escopo dos projetos, diretrizes técnicas e decisões arquiteturais. O objetivo principal foi reduzir a dependência do conhecimento tácito e facilitar o acesso à informação, especialmente para colaboradores que não participaram das etapas iniciais dos projetos ou que não possuíam conhecimento prévio sobre determinada demanda. A Figura 4 apresenta um exemplo ilustrativo e simulado da estrutura da wiki.
Figura 4. Representação da Wiki com dados simulados

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 4 demonstra a estrutura da wiki corporativa, que serve como um repositório compartilhado de informações essenciais para os projetos. A documentação de regras de negócio, como a validação de estoque e atualização de preço, é um exemplo de como a wiki contribui para a formalização do conhecimento. Essa iniciativa é crucial para a descentralização do conhecimento, permitindo que todos os membros da equipe tenham acesso consistente e atualizado às informações, o que é fundamental para a redução de erros e retrabalho, conforme os princípios de gestão do conhecimento.
Complementarmente à wiki, os boards do Azure DevOps foram adotados para organizar e acompanhar os requisitos dos projetos. Essa ferramenta aumentou a visibilidade das demandas e a rastreabilidade entre as solicitações de negócio, as atividades técnicas e as entregas realizadas. Essa prática contribuiu para o alinhamento entre as áreas técnica e de gestão, mitigando as dificuldades na validação de regras de negócio e a ocorrência de mudanças não documentadas após a entrega inicial. A Figura 5 apresenta um exemplo ilustrativo de um board de acompanhamento de requisitos, com dados simulados para preservar a confidencialidade das informações reais da organização.
Figura 5. Representação ilustrativa de um board de acompanhamento de requisitos com dados simulados

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 5 ilustra a organização dos requisitos em um board, com colunas que representam os diferentes estágios de execução do projeto, desde os requisitos não iniciados até os concluídos. Essa visualização clara e estruturada dos requisitos é essencial para a gestão eficaz do fluxo de trabalho, permitindo que a equipe acompanhe o progresso e identifique possíveis gargalos. A rastreabilidade proporcionada pelos boards, em conjunto com a documentação da wiki, fortalece a comunicação e a colaboração entre as equipes, reduzindo a probabilidade de desentendimentos e retrabalho.
A Figura 6 detalha um requisito específico registrado no board, incluindo informações como a descrição da demanda, critérios de aceite, responsável, nível de prioridade e status de acompanhamento. Essa granularidade na documentação dos requisitos é fundamental para garantir que as equipes compreendam plenamente o que precisa ser desenvolvido e validado. A capacidade de detalhar e acompanhar cada item de trabalho de forma transparente contribui para a qualidade das entregas e para a redução de falhas decorrentes de requisitos mal compreendidos ou incompletos. A clareza nos requisitos é um pilar para a eficiência do desenvolvimento de software.
Figura 6. Representação ilustrativa das descrições um requisito listado no board

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 6 demonstra a riqueza de detalhes que um requisito pode conter no board, desde a descrição da funcionalidade até o status de desenvolvimento. Essa abordagem detalhada é vital para a gestão de projetos, pois permite que a equipe tenha uma compreensão completa de cada tarefa, minimizando ambiguidades e a necessidade de comunicação informal excessiva. A capacidade de vincular essas informações a documentos na wiki, como ilustrado na Figura 9, cria um ecossistema de conhecimento integrado que suporta o ciclo de vida do software de forma mais eficiente e rastreável.
A wiki vai além do registro de regras de negócio, permitindo a adição de qualquer informação que contribua para o conhecimento da equipe. A Figura 7, por exemplo, mostra como um colaborador adicionou esclarecimentos sobre o uso de uma biblioteca de dados, auxiliando na implementação de métodos mais simples na codificação de novas funcionalidades. Essa prática colaborativa transforma a wiki em uma base de conhecimento viva, que evolui com as contribuições da equipe, promovendo a aprendizagem organizacional e a descentralização do conhecimento. A capacidade de registrar e compartilhar conhecimentos tácitos de forma estruturada é um diferencial para PMEs.
Figura 7. Repositório Wiki trabalhando com datas

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 7 exemplifica como a wiki se torna um repositório dinâmico de conhecimento, onde informações técnicas sobre o uso de bibliotecas de data são compartilhadas. Isso não apenas padroniza o uso de ferramentas, mas também acelera o processo de desenvolvimento, pois os colaboradores podem consultar a wiki para obter orientações e exemplos, reduzindo a necessidade de buscar informações com colegas. Essa prática colaborativa e de documentação contínua é um pilar para a construção de uma cultura de conhecimento compartilhado e para a autonomia das equipes, conforme os achados da pesquisa.
A Figura 8 apresenta um exemplo de card classificado como sustentação no board, com vínculos a outros cards do mesmo projeto, categorizados como melhorias/correções. Isso demonstra como a empresa gerencia demandas pós-entrega inicial, tratando-as como melhorias e não como novos requisitos que poderiam gerar retrabalho. Essa abordagem é crucial para manter a integridade do escopo original e evitar a fragmentação dos processos de desenvolvimento. A capacidade de classificar e acompanhar essas solicitações dentro dos fluxos de desenvolvimento, melhorias e sustentação é um avanço significativo na gestão de projetos.
Figura 8. Representação sobre Card de Sustentação e Melhorias/correções

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 8 ilustra a gestão de demandas de sustentação e melhorias, mostrando como um card é categorizado e vinculado a outras tarefas. Essa prática é fundamental para evitar que novas solicitações sejam tratadas como requisitos originais, o que poderia levar a retrabalho e desorganização. A rastreabilidade entre os cards e a documentação na wiki, como mostrado na Figura 9, garante que as equipes tenham acesso a todas as informações relevantes para a execução das tarefas, promovendo a clareza e a eficiência na resolução de problemas e na implementação de melhorias contínuas.
A Figura 9 ilustra a complementação entre a wiki e os cards, mostrando um link no card de sustentação que direciona para a documentação relevante na wiki. Essa integração entre as ferramentas de gestão do conhecimento e de tarefas é fundamental para garantir que as informações estejam sempre acessíveis e atualizadas. A capacidade de vincular diretamente a documentação aos itens de trabalho reduz a dependência de comunicação verbal e minimiza o risco de perda de informações, contribuindo para a rastreabilidade e a clareza dos requisitos, o que é um dos objetivos centrais da pesquisa.
Figura 9. Ilustração da complementação da Wiki e Cards

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 9 demonstra a sinergia entre a wiki e os boards, onde a documentação de um card de sustentação é diretamente ligada a um manual na wiki. Essa interconexão é vital para a gestão do conhecimento, pois assegura que as informações contextuais e técnicas estejam prontamente disponíveis para a equipe. A capacidade de navegar entre as ferramentas de forma fluida otimiza o processo de trabalho, reduzindo o tempo gasto na busca por informações e garantindo que as decisões sejam baseadas em dados consistentes e atualizados, o que contribui para a eficiência operacional e a qualidade das entregas.
Adicionalmente, considerando as dificuldades na adoção de testes automatizados e práticas de CI/CD, um protótipo conceitual de pipeline automatizada foi elaborado em conjunto com a equipe de operações. Esse protótipo, ilustrado na Figura 10, contempla etapas de integração, execução de testes e padronização dos processos de validação, servindo como referência técnica alinhada às boas práticas da literatura (Offerman et al., 2022; Murazvu et al., 2024) e às necessidades organizacionais identificadas. A validação da viabilidade técnica foi realizada por meio de uma Prova de Conceito (PoC) na plataforma Azure DevOps, com execuções reais para avaliar a estabilidade e o tempo de resposta do fluxo.
Figura 10. PoC contendo o código da pipeline CI/CD, elaborada com base nas referência metodológica

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 10 apresenta o código YAML da pipeline de CI/CD, detalhando as etapas de automação e integração, incluindo instalação de dependências, build do projeto, execução de testes automatizados, publicação de artefatos e invalidação de cache. Essa estrutura demonstra a aplicação prática dos princípios DevOps, visando otimizar o ciclo de vida do software. A elaboração dessa pipeline, baseada nas necessidades organizacionais e nas boas práticas, representa um passo fundamental para a automação dos processos de desenvolvimento e entrega, contribuindo para a redução de erros e o aumento da eficiência.
A PoC da pipeline, representada pela Figura 11, registrou múltiplas execuções na plataforma Azure DevOps, todas concluídas com 100% de sucesso. O tempo médio de execução foi de aproximadamente 1 minuto e 50 segundos, abrangendo a instalação de dependências, build, execução de testes automatizados e publicação de artefatos. A taxa de sucesso e o tempo reduzido de execução evidenciam a estabilidade operacional da configuração e a viabilidade técnica do fluxo automatizado para o projeto selecionado. A associação automática das execuções a Pull Requests também ampliou a rastreabilidade entre alterações no código e os processos de build e deploy, melhorando o controle sobre as entregas.
Figura 11. PoC da Pipeline

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 11 mostra o histórico de execuções da pipeline, todas com status de sucesso e tempos de conclusão registrados. Isso valida a eficácia da PoC e a capacidade da pipeline de automatizar o processo de integração e entrega de forma confiável. A consistência nos resultados das execuções é um indicador chave da robustez da solução proposta, desmistificando a percepção de que a implementação de CI/CD implicaria um aumento significativo no tempo de entrega. Pelo contrário, a automação demonstrou ser um facilitador para entregas mais rápidas e seguras.
Uma análise detalhada da execução da pipeline, conforme a Figura 12, demonstrou que a etapa de instalação de dependências foi a que consumiu mais tempo, totalizando 58 segundos de um tempo total de execução de 1 minuto e 28 segundos. As etapas de build e publicação foram significativamente mais rápidas, com menos de 10 e 2 segundos, respectivamente. Esse resultado indica que o principal fator de latência está na resolução e instalação de pacotes externos, sugerindo uma oportunidade de otimização futura. No entanto, o tempo total de execução, inferior a dois minutos, reforça a viabilidade técnica da automação e contraria a percepção de que CI/CD aumentaria o tempo de entrega.
Figura 12. PoC da Pipeline mostrando o tempo dos jobs

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 12 detalha o tempo gasto em cada job da pipeline, destacando a etapa de instalação de dependências como o principal gargalo. Apesar disso, o tempo total de execução é bastante baixo, o que é um forte indicativo da eficiência da pipeline automatizada. A otimização dessa etapa pode reduzir ainda mais o tempo de ciclo, tornando o processo ainda mais ágil. A análise desses tempos é crucial para identificar pontos de melhoria contínua, um dos pilares do DevOps, e para garantir que a automação traga o máximo benefício em termos de velocidade e confiabilidade das entregas de software.
Para avaliar a eficácia da organização dos boards e da wiki após a implementação, um segundo formulário foi aplicado aos mesmos onze participantes. Os resultados, apresentados na Figura 13, indicaram um alto nível de satisfação da equipe. Aproximadamente 74,6% das respostas foram positivas, demonstrando uma percepção favorável quanto à rastreabilidade das atividades, redução de retrabalho e apoio à autonomia da equipe. Apenas 9,1% das respostas indicaram discordância, enquanto 16,4% permaneceram neutras. Esses dados sugerem que, embora as ferramentas sejam bem avaliadas, ainda existem oportunidades de melhoria na padronização das informações e na atualização da documentação, o que é um processo contínuo em qualquer organização.
Figura 13. Perspectiva da equipe quanto a organização do board, descentralização do conhecimento e autonomia da Equipe

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 13 demonstra a percepção positiva da equipe em relação à organização do board e à wiki, com a maioria dos respondentes indicando melhorias na rastreabilidade, redução de retrabalho e autonomia. Essa validação empírica das ferramentas implementadas reforça a contribuição da gestão estruturada do conhecimento para a eficiência organizacional. As respostas neutras e negativas, embora minoritárias, indicam que a implementação de práticas DevOps é um processo contínuo de adaptação e melhoria, exigindo atenção constante à padronização e à atualização da documentação para maximizar os benefícios e garantir a adesão de todos os colaboradores.
A análise dos dados também revelou diferenças na percepção de autonomia entre os perfis organizacionais, sendo mais elevada entre a equipe técnica (54,5%) em comparação à equipe de gestão (27,3%). Esse resultado sugere a existência de assimetrias na forma como as práticas adotadas são compreendidas e internalizadas, evidenciando a necessidade de maior alinhamento cultural e comunicacional entre os níveis organizacionais. A autonomia, embora percebida como positiva, precisa ser acompanhada de uma cultura de documentação e compartilhamento de conhecimento para que os benefícios sejam estendidos a toda a organização, mitigando a centralização do conhecimento em indivíduos específicos.
Em síntese, a pesquisa identificou que a centralização do conhecimento e a comunicação informal eram os principais obstáculos à adoção de práticas DevOps na PME estudada, resultando em retrabalho e inconsistências. A implementação da wiki corporativa e dos boards no Azure DevOps promoveu a descentralização do conhecimento e a rastreabilidade, com 74,6% de respostas positivas, melhorando a comunicação e a eficiência. A Prova de Conceito da pipeline de CI/CD, com 100% de sucesso e tempo de execução reduzido, demonstrou a viabilidade técnica da automação, contribuindo para a melhoria da comunicação, eficiência operacional e redução de retrabalho em PMEs.
4. Conclusão
O estudo buscou investigar os fatores que dificultavam a adoção de testes automatizados e práticas de Integração e Entrega Contínuas (CI/CD) em Pequenas e Médias Empresas (PMEs), com foco em aspectos organizacionais como a descentralização do conhecimento, a autonomia das equipes e a gestão de requisitos. Verificou-se que a centralização do conhecimento e a comunicação informal, evidenciadas pela ausência de documentação estruturada e pela dependência de indivíduos-chave, resultavam em retrabalho e inconsistências na interpretação de requisitos. Identificou-se que barreiras organizacionais, como limitações de tempo, priorização e processos internos, constituíam os principais entraves à implementação de testes automatizados e práticas de CI/CD. Em resposta a esses desafios, implementou-se uma wiki corporativa e boards de gestão de tarefas na plataforma Azure DevOps, o que promoveu a descentralização do conhecimento e a rastreabilidade das atividades. Adicionalmente, elaborou-se e validou-se uma prova de conceito de pipeline de CI/CD, demonstrando a viabilidade técnica da automação.
A principal contribuição do estudo reside na demonstração de que a gestão estruturada do conhecimento, aliada à automação de processos, impacta positivamente a eficiência operacional e a redução de retrabalho em PMEs. Observou-se que as melhorias implementadas na wiki e nos boards obtiveram uma percepção favorável da equipe, com 74,6% de respostas positivas, indicando maior clareza e rastreabilidade. A prova de conceito da pipeline de CI/CD alcançou 100% de sucesso em suas execuções, com tempo médio reduzido, validando a eficácia da automação para entregas mais rápidas e seguras. Contudo, o estudo reconhece limitações, como as assimetrias na percepção de autonomia entre equipes técnicas e de gestão, e a necessidade contínua de padronização e atualização da documentação. Sugere-se, para estudos futuros, a otimização da etapa de instalação de dependências na pipeline de CI/CD e a investigação de estratégias para alinhar culturalmente as percepções de autonomia em diferentes perfis organizacionais.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq
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