09 de outubro de 2026
Fatores associados ao sucesso na adoção de Business Intelligence em organizações: uma abordagem exploratória baseada em análise multivariada.
Fatores Associados ao Sucesso na Adoção de Business Intelligence em Organizações: uma Abordagem Exploratória Baseada em Análise Multivariada.
Lucas Brandão Garcia; Miguel Ângelo Lellis Moreira
DOI: 10.22167/2675-6528-202603176
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A adoção de soluções de Business Intelligence (BI) em organizações corporativas ampliou-se nos últimos anos, contudo, muitos projetos não alcançaram os resultados esperados. Nesse contexto, investigaram-se os fatores associados ao sucesso na adoção de BI, considerando que o processo envolve aspectos tecnológicos, organizacionais e comportamentais. A pesquisa adotou caráter aplicado, abordagem quantitativa e natureza exploratória, utilizando uma base de dados simulada com variáveis técnicas e organizacionais relacionadas ao uso de soluções de BI. Para a análise, empregaram-se a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) e técnicas de agrupamento, visando identificar perfis distintos de adoção. Os resultados indicaram que organizações com estruturas técnicas semelhantes podem apresentar níveis de sucesso distintos, associados a fatores como engajamento dos usuários, maturidade da cultura de dados e intensidade de utilização da solução. Observou-se que maior escala operacional e intensidade de uso não garantiram, por si só, maior sucesso na adoção. Os achados reforçaram a natureza multidimensional do sucesso na adoção de BI e a contribuição de abordagens multivariadas exploratórias para diagnósticos organizacionais e o aprimoramento da gestão dessas iniciativas.
Palavras-chave: Adoção organizacional; Análise multivariada; Business Intelligence; Cultura de dados; Maturidade analítica.
1. Introdução
O uso de dados como apoio à tomada de decisão tem se tornado cada vez mais comum no ambiente corporativo. Nesse contexto, soluções de Business Intelligence desempenham um papel central ao permitir a integração, o tratamento e a visualização de informações estratégicas provenientes de diferentes fontes de dados (Wixom; Watson, 2010; Mikalef et al., 2021; Grover et al., 2022). Apesar dos avanços tecnológicos e da ampla oferta de ferramentas analíticas, muitas organizações ainda enfrentam dificuldades para extrair valor efetivo dessas soluções.
A literatura sobre Business Intelligence aponta que o sucesso dessas iniciativas não depende exclusivamente da infraestrutura tecnológica implementada. Fatores organizacionais, como cultura orientada a dados, governança da informação e engajamento dos usuários, também são cruciais (Yeoh; Koronios, 2010; Ransbotham et al., 2021; Olszak, 2022). A vantagem competitiva associada ao uso de dados reside menos na tecnologia em si e mais na capacidade das organizações de incorporar análises e evidências quantitativas aos processos decisórios (Davenport; Harris, 2007; Davenport, 2023).
Estudos recentes, tanto no contexto brasileiro quanto internacional, reforçam que o sucesso de iniciativas analíticas e de Business Intelligence resulta da articulação entre fatores técnicos, organizacionais e de gestão. A maturidade analítica e a cultura orientada a dados são importantes para a geração de valor a partir das soluções de BI (Mikalef et al., 2021; Wamba et al., 2021; Olszak, 2022). Observa-se que organizações com estruturas tecnológicas e recursos semelhantes podem apresentar níveis bastante distintos de uso, engajamento e retorno percebido a partir das ferramentas analíticas.
A experiência profissional no acompanhamento técnico de organizações corporativas durante processos de adoção e sustentação de soluções de Business Intelligence evidencia que o sucesso dessas iniciativas resulta da interação entre fatores técnicos e humanos. Essa complexidade sugere que a adoção bem-sucedida é um fenômeno multidimensional, que não pode ser compreendido por meio de análises isoladas de variáveis.
Diante desse cenário, torna-se relevante empregar abordagens analíticas capazes de examinar simultaneamente múltiplos fatores associados à adoção do Business Intelligence. Métodos estatísticos multivariados permitem identificar padrões, associações e perfis de comportamento entre variáveis, possibilitando a análise de fenômenos organizacionais complexos que dificilmente seriam capturados por análises univariadas ou descritivas isoladas (Hair et al., 2019; Shmueli et al., 2020). Assim, este trabalho tem como objetivo identificar fatores associados ao sucesso na adoção de soluções de Business Intelligence em organizações corporativas por meio da aplicação de técnicas de análise estatística multivariada em uma base de dados simulada.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa possui caráter aplicado, com abordagem quantitativa e natureza exploratória. Estudos dessa natureza são apropriados para compreender relações entre variáveis e identificar padrões em contextos organizacionais complexos, especialmente quando o objetivo envolve a exploração de fenômenos ainda pouco estruturados na literatura (HAIR et al., 2019).
O estudo foi conduzido a partir da construção de uma base de dados simulada, elaborada para representar unidades organizacionais usuárias de soluções corporativas de Business Intelligence. A adoção de dados simulados decorreu da restrição de acesso a bases organizacionais reais, mesmo após tentativas de anonimização. O uso de dados sintéticos é reconhecido como alternativa metodológica pertinente em contextos de confidencialidade e proteção à privacidade (PATEL, 2024; BEDUSCHI, 2024; MENDES et al., 2025).
A base de dados foi gerada em ambiente Python, utilizando as bibliotecas NumPy para geração de distribuições estatísticas e Pandas para estruturação. Variáveis contínuas de comportamento de uso foram simuladas a partir de distribuições plausíveis, e variáveis categóricas, como maturidade organizacional e engajamento, foram geradas para representar diferentes níveis. Criaram-se registros fictícios com atributos técnicos e organizacionais observados em projetos de BI. Para garantir a reprodutibilidade, definiu-se uma semente aleatória fixa nos procedimentos de geração. O script completo encontra-se documentado no Apêndice A do trabalho original.
A base de dados continha registros de 500 unidades organizacionais fictícias, representando diferentes perfis de adoção de soluções de Business Intelligence. As variáveis foram divididas em dois grupos: técnicas e organizacionais. As técnicas incluíram custo da solução, número de usuários, volume de utilização da plataforma, quantidade de chamados de suporte, tempo de implantação e idade da conta. As organizacionais contemplaram nível de engajamento dos usuários, maturidade da cultura de dados, risco de descontinuidade da solução e modelo de suporte adotado.
Para complementar a análise, construiu-se um indicador sintético de sucesso na adoção do Business Intelligence, combinando taxa de adoção da solução entre usuários potenciais, tempo de utilização da plataforma analítica e risco de descontinuidade (churn risk). Os indicadores contínuos foram normalizados por meio da transformação Min-Max, conforme a equação (1), para que os valores variassem entre zero e um (SHMUELI et al., 2020). Após a normalização, as três dimensões foram combinadas por média aritmética simples, conforme a equação (2).
Antes da aplicação das técnicas de análise estatística multivariada, realizou-se a preparação e categorização das variáveis. As variáveis quantitativas simuladas foram transformadas em categorias ordinais, como níveis baixos, médios e altos, para representar diferentes níveis observados no contexto organizacional. Variáveis como número de usuários, volume de utilização e custo da solução foram categorizadas com base em intervalos definidos a partir da distribuição dos dados simulados. Indicadores de engajamento, maturidade da cultura de dados e risco de descontinuidade foram representados por níveis categóricos.
Após a preparação e categorização, aplicou-se a Análise de Correspondência Múltipla (ACM), técnica estatística multivariada para examinar associações entre múltiplas variáveis categóricas e representá-las em um espaço dimensional reduzido (GREENACRE, 2017). A ACM parte da construção de uma matriz indicadora completa ou matriz de Burt, que sintetiza as frequências cruzadas entre categorias, conforme a equação (3). A técnica realiza uma decomposição em valores singulares (SVD), conforme a equação (4), para identificar dimensões latentes que sintetizam os principais padrões de associação (GREENACRE, 2017; HAIR et al., 2019).
Com base nas coordenadas fatoriais obtidas pela ACM, aplicou-se uma análise de agrupamento com o algoritmo K-means, para identificar perfis homogêneos de adoção do Business Intelligence. O K-means busca minimizar a variabilidade interna dos grupos e maximizar a separação entre agrupamentos distintos (HAIR et al., 2019; KAUFMAN; ROUSSEEUW, 2005). O critério de otimização consiste na minimização da soma dos quadrados das distâncias entre cada observação e o centroide de seu respectivo grupo, conforme a equação (5).
A definição do número adequado de agrupamentos foi apoiada pela análise do coeficiente médio de silhueta e pelo método do cotovelo (elbow method). O coeficiente de silhueta avalia a coesão interna dos grupos e a separação entre clusters distintos, conforme a equação (6). A análise conjunta dessas métricas evidenciou um trade-off entre qualidade estatística e detalhamento analítico, levando à escolha de oito clusters (k = 8) para a segmentação, visando maior granularidade e interpretação gerencial.
3. Resultados e Discussão
A análise exploratória dos dados simulados revelou padrões consistentes relacionados à adoção e ao uso de soluções de Business Intelligence em unidades organizacionais corporativas. A aplicação da Análise de Correspondência Múltipla (ACM) mostrou-se uma técnica adequada para examinar associações entre variáveis categóricas, permitindo reduzir a complexidade do conjunto de dados e preservar as relações mais relevantes entre os atributos analisados. Essa abordagem multivariada foi fundamental para compreender a natureza complexa do fenômeno, conforme destacado na metodologia, alinhando-se com a necessidade de explorar fenômenos organizacionais multifacetados.
A interpretação das dimensões geradas pela ACM indicou a existência de dois eixos principais de diferenciação entre as unidades organizacionais estudadas. A primeira dimensão apresentou uma associação predominante com variáveis relacionadas à escala e à complexidade operacional. Unidades caracterizadas por categorias de custo elevado, maior volume de uso da solução, maior número de usuários ativos e maior quantidade de chamados de suporte concentraram-se em um extremo desse eixo, refletindo o porte e a intensidade de utilização do Business Intelligence. No polo oposto, agruparam-se unidades com menor intensidade de uso, menor base de usuários e menor complexidade operacional, sugerindo diferenças estruturais claras entre os ambientes analisados.
A segunda dimensão evidenciou um padrão distinto, associado principalmente a fatores organizacionais e comportamentais. Observou-se que categorias relacionadas a baixo nível de engajamento dos usuários, maturidade analítica inicial e maior risco de descontinuidade da solução apresentaram maior contribuição em um dos polos da dimensão. Em contrapartida, unidades com níveis mais elevados de engajamento, maturidade analítica mais consolidada e menor risco percebido de descontinuidade da solução concentraram-se no polo oposto. Esses resultados indicam que, independentemente da escala operacional, fatores ligados à cultura analítica e ao relacionamento organizacional com a solução exercem um papel relevante na diferenciação dos perfis observados, corroborando a literatura que aponta a importância de aspectos não tecnológicos para o sucesso do BI (Yeoh; Koronios, 2010; Ransbotham et al., 2021).
Em conjunto, as duas dimensões obtidas pela ACM evidenciam que a adoção do Business Intelligence não pode ser compreendida a partir de um único fator isolado. Enquanto a primeira dimensão reflete diferenças estruturais e operacionais entre as unidades organizacionais, a segunda dimensão indica a relevância de fatores organizacionais associados à cultura de dados e ao engajamento dos usuários. A projeção das unidades organizacionais no espaço bidimensional da ACM mostrou uma separação visual consistente entre diferentes grupos, indicando que as associações entre as variáveis categóricas são eficazes para distinguir padrões distintos de adoção do Business Intelligence, o que foi um passo crucial para a etapa de segmentação.
Para identificar perfis organizacionais com características semelhantes de adoção da solução analítica, foram aplicados métodos de agrupamento sobre as dimensões obtidas pela Análise de Correspondência Múltipla. A definição do número adequado de clusters foi apoiada por duas abordagens complementares: o coeficiente médio de silhueta e o método do cotovelo. O coeficiente de silhueta, que avalia a coesão interna e a separação entre clusters, indicou que valores menores de k, especialmente k igual a dois e k igual a três, apresentaram maiores índices de silhueta, sugerindo melhor separação estatística entre os agrupamentos. No entanto, o coeficiente de silhueta apresentou redução gradual à medida que o número de clusters aumentava, refletindo maior complexidade e sobreposição entre os grupos formados.
O método do cotovelo, por sua vez, permitiu analisar a redução da variabilidade interna dos agrupamentos à medida que o número de clusters aumentava. Observou-se uma redução acentuada da variabilidade interna dos clusters até aproximadamente k igual a quatro ou k igual a cinco, a partir dos quais a curva passou a apresentar comportamento mais estável. Esse padrão indicou um ponto de inflexão que sugere ganhos marginais decrescentes na qualidade da segmentação para valores mais elevados de k. A análise conjunta dessas duas métricas evidenciou um trade-off entre qualidade estatística da segmentação e nível de detalhamento analítico.
Diante desse cenário, a escolha final por k igual a oito foi baseada na combinação de critérios estatísticos e analíticos. Embora os gráficos indicassem melhor desempenho estatístico para valores menores de k, a configuração com oito clusters possibilitou maior granularidade na identificação dos perfis organizacionais, favorecendo a interpretação gerencial dos resultados. Configurações com menor número de clusters tenderiam a agrupar unidades organizacionais com características heterogêneas em categorias amplas, reduzindo a capacidade de diferenciação entre padrões de adoção. Por outro lado, valores muito elevados de k poderiam comprometer a estabilidade dos agrupamentos e dificultar sua interpretação prática, o que justificou a escolha por um número intermediário de clusters para otimizar a relevância prática dos achados.
Após a definição do número de agrupamentos, procedeu-se à análise da distribuição das unidades organizacionais entre os clusters identificados. Essa distribuição permitiu observar a quantidade de organizações alocadas em cada grupo e avaliar o equilíbrio entre os agrupamentos obtidos pelo modelo. A análise dos agrupamentos revelou a existência de perfis heterogêneos de adoção do Business Intelligence, indicando que as organizações não seguem um caminho uniforme na implementação e uso dessas soluções.
Foram identificados grupos caracterizados por alta escala e elevada complexidade operacional, bem como grupos de médio porte com uso mais estável da solução. Também foram observados agrupamentos associados a ambientes organizacionais com adoção limitada, nos quais baixos níveis de engajamento e maturidade analítica estiveram associados a maior instabilidade no uso do BI. Esses resultados indicam que a adoção do Business Intelligence não pode ser explicada exclusivamente por fatores técnicos ou estruturais, sendo fortemente influenciada pela interação entre características organizacionais e comportamentais, uma perspectiva alinhada com a visão de DeLone e McLean (2003) sobre o sucesso de sistemas de informação.
A análise dos clusters também permitiu interpretar os agrupamentos como diferentes perfis organizacionais de adoção do Business Intelligence, representando distintos estágios de maturidade e intensidade de uso da solução analítica. Para examinar as diferenças de escala operacional entre os agrupamentos, analisou-se o custo médio mensal da solução em cada cluster. A distribuição dos custos médios entre os clusters reforça a interpretação de que os diferentes perfis de adoção também se distinguem em termos de escala operacional e intensidade de utilização da solução analítica, com o Cluster 2 apresentando o maior custo médio mensal, indicando maior investimento e, presumivelmente, maior escala.
O score médio de sucesso para cada cluster identificado revelou que determinados agrupamentos concentram unidades organizacionais com níveis mais elevados do indicador, sugerindo ambientes com maior maturidade analítica e maior consolidação do uso das ferramentas de Business Intelligence nos processos decisórios. Por outro lado, alguns clusters apresentaram valores significativamente menores do indicador, refletindo contextos organizacionais em que a adoção da solução ocorre de forma mais limitada ou ainda em estágio inicial. Por exemplo, o Cluster 7 apresentou o maior score médio de sucesso, enquanto o Cluster 5 apresentou o menor.
Para compreender de forma mais detalhada as características de cada cluster, foi realizada uma análise do perfil médio das principais variáveis consideradas no estudo, incluindo número de usuários, volume de uso da solução, frequência de suporte e indicadores de desempenho. O Cluster 2, por exemplo, concentrou o maior número de organizações (122 unidades) e apresentou os maiores valores médios de usuários (260,02), volume de uso (1470,78 horas mensais) e tickets de suporte (9,96 por mês), indicando ambientes de maior complexidade operacional. No entanto, seu score médio de sucesso foi de 0,45, permanecendo relativamente inferior ao observado em clusters com menor escala operacional.
Em contraste, o Cluster 7, com 38 organizações, apresentou o maior score médio de sucesso (0,72), aliado a uma alta taxa média de adoção (0,74) e baixo volume de tickets de suporte (0,24 por mês), sugerindo ambientes organizacionais mais estáveis e com maior maturidade no uso da solução analítica. Já o Cluster 5, com 49 organizações, apresentou o menor score médio de sucesso (0,27) e menor idade média da conta (21,00 meses), indicando um perfil organizacional mais recente e ainda pouco consolidado em termos de adoção analítica. Essas comparações diretas entre os clusters revelam a diversidade de cenários de adoção.
Um resultado particularmente relevante emerge da análise do Cluster 2. Embora esse agrupamento apresente os maiores valores médios de número de usuários, volume de uso da plataforma e frequência de chamados de suporte, seu score médio de sucesso permanece inferior ao observado em clusters menores. Esse resultado sugere que maior escala operacional e maior intensidade de uso da solução não garantem, por si só, maior sucesso na adoção do Business Intelligence. Em ambientes organizacionais mais complexos, a ampliação da escala de uso pode ocorrer sem a correspondente consolidação da maturidade analítica, do engajamento dos usuários e da estabilidade da adoção da solução, o que ressalta a importância de fatores qualitativos.
Outro aspecto analisado neste estudo foi a relação entre a taxa de adoção da solução analítica e o risco de churn, entendido como a probabilidade de descontinuidade do uso da ferramenta. Observou-se que níveis mais elevados de adoção tendem a estar associados a menor probabilidade de descontinuidade do uso da plataforma. Entretanto, a dispersão observada indica que essa relação não ocorre de forma perfeitamente linear, sugerindo que outros fatores organizacionais, como maturidade da cultura analítica, qualidade do suporte técnico e integração das ferramentas analíticas aos processos de decisão, também exercem influência relevante sobre a continuidade do uso da solução, conforme apontado por Ransbotham et al. (2021) e Olszak (2022).
De forma geral, os clusters identificados podem ser interpretados como representando três padrões principais de comportamento organizacional em relação ao uso do Business Intelligence. O primeiro corresponde a ambientes organizacionais de adoção avançada, caracterizados por maior estabilidade no uso da solução e maior maturidade analítica. O segundo padrão corresponde a ambientes com adoção intermediária, nos quais o Business Intelligence apresenta uso relativamente estável, porém com níveis moderados de engajamento e maturidade ainda em desenvolvimento. Por fim, identificaram-se agrupamentos associados a contextos organizacionais de adoção inicial ou limitada, caracterizados por menor intensidade de uso e maior risco de descontinuidade da solução, evidenciando a natureza multidimensional do sucesso na adoção.
Esses resultados indicam que o sucesso na adoção do Business Intelligence não depende exclusivamente da escala operacional ou da intensidade de utilização da solução, mas também da presença de fatores organizacionais relacionados à cultura de dados e ao engajamento dos usuários. A combinação entre Análise de Correspondência Múltipla e métodos de agrupamento permitiu reduzir a complexidade do conjunto de dados, identificar dimensões relevantes de diferenciação e segmentar as unidades organizacionais em perfis distintos de adoção. A análise evidenciou que fatores técnicos, como escala de uso e complexidade operacional, coexistem com fatores organizacionais, como engajamento dos usuários e maturidade da cultura de dados, na configuração dos diferentes níveis de sucesso observados, confirmando o objetivo do estudo.
4. Conclusão
Este estudo teve como objetivo identificar fatores associados ao sucesso na adoção de soluções de Business Intelligence em organizações corporativas, empregando uma abordagem exploratória baseada em análise multivariada em uma base de dados simulada. Verificou-se que o sucesso na adoção do Business Intelligence é um fenômeno multidimensional, influenciado por uma interação complexa de fatores. A aplicação da Análise de Correspondência Múltipla revelou dois eixos principais de diferenciação entre as unidades organizacionais: um relacionado à escala e complexidade operacional, e outro associado a fatores organizacionais e comportamentais, como engajamento dos usuários e maturidade da cultura de dados. Observou-se que organizações com estruturas técnicas semelhantes podem apresentar níveis de sucesso distintos, e que maior escala operacional ou intensidade de uso da solução não garantem, por si só, maior sucesso na adoção. A segmentação em clusters permitiu identificar perfis organizacionais heterogêneos, desde ambientes de adoção avançada e estável até contextos de adoção inicial ou limitada, com maior risco de descontinuidade.
A principal contribuição deste trabalho reside na demonstração de que abordagens analíticas multivariadas, como a combinação de Análise de Correspondência Múltipla e métodos de agrupamento, são eficazes para produzir diagnósticos relevantes sobre os padrões de adoção de Business Intelligence. Essa capacidade de identificar perfis e associações complexas oferece suporte à tomada de decisão gerencial e à formulação de estratégias para consolidar a cultura analítica nas organizações. Contudo, o estudo apresenta limitações importantes, como o uso de uma base de dados simulada, o que implica que os padrões identificados devem ser interpretados como associações plausíveis e não como evidências empíricas definitivas para contextos reais. Além disso, o caráter exploratório da metodologia não permite estabelecer relações causais diretas entre as variáveis analisadas, e dimensões subjetivas, como a percepção de valor pelos usuários, não foram incorporadas. Sugere-se para estudos futuros a aplicação da metodologia em bases de dados reais, a inclusão de novas variáveis organizacionais e o desenvolvimento de modelos explicativos que aprofundem a análise dos fatores associados ao sucesso na adoção de Business Intelligence.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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