Artigo

30 de setembro de 2026

Diagnóstico de descompassos em vendas técnicas B2B: análise das lacunas entre percepção e prática comercial

Diagnóstico de Descompassos em Vendas Técnicas B2b: Análise das Lacunas entre Percepção e Prática Comercial

Cleberson Alves dos Santos; Bruno Lopes Silva

DOI: 10.22167/2675-6528-202602786

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

O ambiente de vendas técnicas B2B tornou-se complexo, exigindo de profissionais não apenas domínio técnico, mas também competências comerciais avançadas. Investigou-se as principais lacunas de competência em vendedores técnicos, buscando identificar fatores que impactam o desempenho em negociações complexas. A pesquisa foi conduzida por meio de questionário estruturado, aplicado a 34 profissionais, que utilizou escalas Likert e questões abertas. A amostra incluiu predominantemente profissionais da indústria. Os resultados indicaram desafios na condução de negociações, na demonstração de valor financeiro e na sustentação de margem. Observaram-se possíveis inconsistências entre a percepção de postura consultiva e o comportamento comercial em negociação. Os achados sugeriram que o principal descompasso não residiu na ausência de conhecimento técnico, mas na capacidade de transformar esse conhecimento em valor comercial e financeiro. Concluiu-se que programas de capacitação para vendedores técnicos devem integrar o conhecimento técnico existente com competências de investigação, comunicação de valor, negociação e demonstração de retorno financeiro, visando um maior equilíbrio entre capacitação técnica e desenvolvimento de competências comerciais.

Palavras-chave: Capacitação comercial; Negociação; ROI; Vendas B2B; Vendas técnicas.

1. Introdução

O ambiente de vendas business-to-business (B2B), especialmente nos setores industrial e tecnológico, tem experimentado transformações significativas nas últimas décadas. A crescente complexidade das soluções oferecidas, a presença de múltiplos tomadores de decisão e o elevado impacto financeiro das decisões de compra exigem dos profissionais de vendas uma atuação mais estratégica, consultiva e orientada à geração de valor (Kotler; Pfoertsch, 2008).

Nesse cenário, o papel do vendedor técnico ganha relevância, pois espera-se que esse profissional seja capaz não apenas de apresentar características e especificações de produtos, mas também de compreender profundamente as necessidades do cliente, contribuindo para a melhoria de processos, otimização de projetos e geração de resultados financeiros (Weitz; Bradford, 1999). O conhecimento técnico torna-se um elemento importante na construção de credibilidade e confiança na relação comercial. A literatura sobre vendas baseadas em valor destaca a importância de conectar as necessidades do cliente aos benefícios e resultados econômicos proporcionados pela solução (Haas; Sjödin; Parida, 2012; Terho et al., 2012; Keränen et al., 2023; Liu; Zhao; Wang, 2023).

Contudo, a literatura aponta que o domínio técnico, isoladamente, não é suficiente para garantir desempenho superior em vendas complexas. Habilidades comerciais, como a capacidade de investigar necessidades, conduzir negociações e comunicar valor de forma eficaz, são igualmente determinantes para o sucesso (Rackham, 2001; Dixon; Adamson, 2013). A ausência dessas competências pode resultar em dificuldades na conversão de oportunidades e na sustentação de margens, especialmente em cenários de alta pressão por preço. Estudos recentes no contexto de vendas técnicas B2B reforçam a necessidade de integrar conhecimento técnico e competências comerciais (Funada; Barbosa, 2026; Paschen et al., 2023).

Na prática do mercado, observa-se que muitos profissionais enfrentam dificuldades em equilibrar os pilares técnico e comercial. Em alguns casos, o conhecimento técnico não é plenamente convertido em argumentos de valor, enquanto em outros, limitações na condução da negociação levam à concessão de descontos e à redução da rentabilidade das operações (Cespedes, 2014). Esse cenário evidencia a existência de possíveis descompassos entre a percepção dos profissionais e sua atuação prática no processo de venda. Adicionalmente, solicitações de desconto podem estar associadas a comportamentos habituais de negociação ou à ausência de percepção clara de valor, e não necessariamente a uma limitação orçamentária (Rackham, 2001).

Diante desse contexto, torna-se relevante investigar quais são as principais lacunas de competência presentes em profissionais de vendas técnicas B2B. A compreensão dessas lacunas pode contribuir para o direcionamento mais eficaz de programas de capacitação e desenvolvimento, além de apoiar organizações na melhoria de seus resultados comerciais. Este estudo contribui para a literatura de vendas B2B ao oferecer evidências sobre a natureza das lacunas de competências em vendas técnicas, com implicações para treinamento comercial e gestão da força de vendas. Assim, o objetivo deste estudo é investigar e mapear as principais dificuldades enfrentadas por profissionais de vendas técnicas, buscando identificar se essas dificuldades estão mais associadas ao conhecimento técnico, às habilidades comerciais ou à forma como esses elementos são aplicados na prática.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se como de natureza aplicada, com abordagem predominantemente quantitativa, complementada por análise qualitativa. O estudo possuiu caráter descritivo-exploratório, conforme a classificação proposta por Gil (2008). Teve como objetivo identificar possíveis descompassos entre a percepção dos profissionais e sua prática comercial no contexto das vendas técnicas business-to-business (B2B).

A unidade de análise consistiu em profissionais atuantes em vendas técnicas B2B. A amostra foi composta por 34 participantes, selecionados por conveniência, considerando a acessibilidade do pesquisador por meio de sua rede de contatos profissionais. Os participantes pertenciam a diferentes organizações e segmentos econômicos, com predominância de profissionais inseridos no contexto industrial. Por tratar-se de uma amostra não probabilística, os resultados foram interpretados considerando o contexto específico da amostra pesquisada, sem o objetivo de realizar generalizações para toda a população de vendedores técnicos.

A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado, elaborado com base em construtos consolidados na literatura sobre vendas consultivas. Foram utilizados como referência os modelos SPIN Selling (Rackham, 2001) e Challenger Sale (Dixon; Adamson, 2013). O instrumento foi desenvolvido para avaliar competências relacionadas à investigação das necessidades do cliente, postura consultiva, negociação, comunicação de valor, confiança técnica e necessidades de desenvolvimento profissional.

O questionário foi composto por questões fechadas em escala Likert de cinco pontos, variando de um (Discordo totalmente) a cinco (Concordo totalmente). Adicionalmente, incluiu-se uma questão aberta destinada à identificação das principais dificuldades e necessidades de desenvolvimento percebidas pelos participantes. As perguntas foram organizadas em blocos temáticos que abordavam o perfil dos respondentes, competências de SPIN Selling, competências de Challenger Sale, confiança técnica versus comercial, e necessidades de treinamento, além da análise qualitativa das respostas abertas.

Os dados quantitativos coletados foram organizados e analisados com o auxílio de planilhas eletrônicas. Utilizaram-se técnicas de estatística descritiva para o tratamento desses dados. Para cada questão da escala Likert, calcularam-se as frequências absolutas, frequências relativas (percentuais), médias aritméticas e desvios-padrão. Esses cálculos permitiram identificar a tendência central e a dispersão das respostas dos participantes.

A média aritmética foi calculada pela soma das pontuações atribuídas pelos respondentes, dividida pelo número de respostas válidas para cada questão. O desvio-padrão foi determinado para cada variável analisada, com o intuito de avaliar o grau de dispersão das respostas em relação à média. Valores reduzidos de desvio-padrão indicaram maior homogeneidade entre as respostas, enquanto valores mais elevados sugeriram maior variabilidade de opiniões.

As respostas obtidas na questão aberta foram submetidas à técnica de Análise de Conteúdo, conforme proposta por Bardin (2011). Inicialmente, realizou-se a leitura integral das respostas, seguida pela identificação de temas recorrentes. Posteriormente, as informações foram organizadas em categorias temáticas. Como recurso complementar de visualização, elaborou-se uma nuvem de palavras para representar os termos mais frequentemente mencionados pelos participantes.

A participação dos respondentes ocorreu de forma voluntária, e foram garantidos o anonimato e a confidencialidade das informações coletadas. Não foram solicitados dados que permitissem a identificação individual dos participantes, assegurando o sigilo das respostas e sua utilização exclusiva para fins acadêmicos.

3. Resultados e Discussão

A pesquisa buscou compreender as lacunas de competência em profissionais de vendas técnicas B2B, revelando padrões e descompassos entre o conhecimento técnico e as habilidades comerciais. Os resultados indicaram que, embora os participantes demonstrem elevada autopercepção de segurança no domínio técnico, existem desafios significativos na aplicação desse conhecimento para gerar valor comercial e financeiro, especialmente em negociações complexas. A análise dos dados quantitativos, coletados por meio de um questionário estruturado, foi complementada por uma abordagem qualitativa, permitindo uma compreensão aprofundada das percepções dos profissionais sobre suas dificuldades e necessidades de desenvolvimento.

A amostra do estudo foi composta por 34 profissionais atuantes em vendas técnicas B2B, predominantemente do setor industrial. Observou-se que 61,8% dos participantes possuíam mais de seis anos de experiência na área, indicando um grupo com vivência considerável no mercado. Contudo, apesar da experiência, uma parcela expressiva, também de 61,8%, realizou no máximo dois treinamentos no último ano, sugerindo uma possível lacuna no desenvolvimento contínuo de competências. Essa característica da amostra é relevante para a interpretação dos resultados, pois permite analisar as percepções de profissionais com diferentes níveis de maturidade e exposição a capacitações.

A distribuição dos participantes por faixa etária mostrou que 58,8% estavam entre 26 e 45 anos, enquanto a divisão por gênero foi relativamente equilibrada, com 55,9% homens e 44,1% mulheres. Em relação ao porte das empresas, 47,1% atuavam em micro ou pequenas empresas e 35,3% em grandes organizações, demonstrando a diversidade do contexto de atuação dos respondentes. A Indústria Metalúrgica representou o maior segmento, com 38,2% dos participantes, o que reforça a relevância do estudo para esse setor específico, embora os achados possam ter implicações mais amplas para vendas técnicas B2B.

Os cruzamentos entre o tempo de atuação e as médias dos blocos de competências não revelaram uma relação linear consistente, indicando que a experiência profissional, isoladamente, não garante um desempenho superior em todas as dimensões avaliadas. Por outro lado, a frequência de treinamentos no último ano mostrou diferenças mais evidentes. Profissionais com mais de cinco treinamentos apresentaram médias mais altas em investigação e diagnóstico (4,00), postura desafiadora (4,71) e confiança técnica e comercial (3,38), sugerindo uma associação descritiva entre a exposição a treinamentos e melhores percepções de competência, embora sem estabelecer causalidade.

Investigação e Diagnóstico – SPIN Selling

Na dimensão de investigação e diagnóstico, que se baseia nos princípios do SPIN Selling (Rackham, 2001), a pesquisa avaliou a capacidade dos profissionais de compreender as necessidades do cliente. A afirmação “Antes de apresentar as especificações do meu produto, dedico a maior parte do tempo a fazer perguntas sobre os problemas do processo do cliente” obteve uma média de 3,68, com 64,7% dos participantes concordando total ou parcialmente. Esse resultado indica uma tendência favorável à investigação inicial dos problemas, alinhada à etapa de perguntas de problema do modelo SPIN.

Contudo, a capacidade de auxiliar o cliente a calcular o custo financeiro das falhas ou problemas existentes apresentou uma média ligeiramente inferior, de 3,50, com 58,8% de respostas positivas. Essa diferença é significativa, pois, no modelo SPIN, a investigação vai além da identificação do problema, explorando suas consequências financeiras e o impacto de sua permanência (Rackham, 2001). A menor pontuação nessa questão sugere que, embora os profissionais iniciem a abordagem investigativa, o aprofundamento econômico do diagnóstico pode representar uma oportunidade de desenvolvimento.

A terceira questão desse bloco, “Sinto dificuldade em retardar a apresentação do produto; prefiro mostrar a solução técnica logo no início da reunião”, obteve uma média de 3,15, com 41,2% dos participantes concordando e 41,2% discordando. Esse resultado, com alta dispersão, indica que uma parcela considerável dos profissionais ainda enfrenta desafios em adiar a apresentação da solução técnica, o que pode limitar a profundidade da investigação das necessidades e a construção de valor antes da discussão do produto em si. A literatura sobre vendas baseadas em valor enfatiza a importância de conectar as necessidades do cliente aos benefícios e resultados econômicos da solução (Haas; Sjödin; Parida, 2012).

Os resultados, portanto, não apontam para uma ausência completa da aplicação dos princípios de investigação, mas sim para um ponto de atenção no aprofundamento do diagnóstico. A transformação do problema técnico em uma consequência econômica claramente percebida pelo cliente é um desafio, o que reforça a necessidade de desenvolver o vendedor técnico não apenas como especialista no produto, mas como um profissional capaz de investigar, aprofundar e traduzir problemas técnicos em consequências relevantes para o negócio do cliente, aproximando o conhecimento técnico da criação e comunicação de valor (Haas; Sjödin; Parida, 2012).

Postura Comercial – Challenger Sale

A dimensão da postura comercial, inspirada no modelo Challenger Sale (Dixon; Adamson, 2013), avaliou como os profissionais utilizam o conhecimento técnico para influenciar o cliente e conduzir a conversa de vendas. A afirmação “Utilizo meu conhecimento técnico para ensinar ao cliente uma nova perspectiva sobre o negócio dele que ele não tinha considerado” obteve a maior média nesse bloco, de 4,35, com 88,2% de respostas positivas. Isso demonstra uma elevada autopercepção da capacidade de usar o conhecimento técnico como ferramenta de orientação e influência, alinhada ao princípio de “ensinar” do Challenger Sale.

Similarmente, a afirmação “Sinto-me confortável em discordar educadamente do cliente quando percebo que a solicitação técnica dele não é a melhor solução” alcançou uma média de 4,26, com 82,4% de respostas positivas. Esse resultado sugere uma alta segurança dos profissionais para questionar decisões do cliente, um comportamento compatível com a postura assertiva proposta pelo Challenger Sale (Dixon; Adamson, 2013). A capacidade de desafiar o cliente, quando necessário, é crucial para conduzir a conversa comercial e apresentar soluções mais eficazes.

No entanto, a afirmação “Durante a venda, foco mais em manter um relacionamento amigável do que em pressionar o cliente a mudar seu ponto de vista” obteve uma média de 4,06, com 79,4% de respostas positivas. Embora seja um resultado elevado, a priorização do relacionamento amigável merece atenção. A manutenção de um relacionamento positivo é importante em vendas B2B, mas pode entrar em conflito com a necessidade de defender o valor da solução ou manter a assertividade durante uma negociação, especialmente quando o vendedor precisa conduzir o cliente a uma nova perspectiva (Dixon; Adamson, 2013).

Em conjunto, esses resultados indicam uma forte autopercepção de postura consultiva e desafiadora, com os profissionais se vendo como ativos na discussão técnica e na construção da solução. Eles demonstram características compatíveis com a abordagem Challenger Sale, como ensinar e questionar. Contudo, essa percepção precisa ser analisada em conjunto com os resultados sobre negociação, pois a valorização excessiva do relacionamento pode, em certas situações, comprometer a assertividade na defesa do valor da solução, um aspecto fundamental em vendas B2B complexas (Halinen; Haas, 2023).

Confiança Técnica versus Comercial

A terceira dimensão investigou a percepção dos profissionais sobre sua segurança no domínio técnico em comparação com aspectos comerciais, como negociação de valores e comunicação de benefícios financeiros. A afirmação “Sinto-me muito mais seguro discutindo especificações técnicas e datasheets do que negociando valores e fechamento” obteve uma média de 3,56, com 61,8% dos participantes concordando. Esse dado revela que uma parcela significativa dos profissionais se sente mais à vontade em discussões técnicas do que em situações de negociação de valores, indicando um descompasso entre a segurança técnica e a comercial.

Em relação à dificuldade de traduzir características técnicas em benefícios financeiros claros para o negócio do cliente, a afirmação “Tenho dificuldade em traduzir as características técnicas do meu produto em benefícios financeiros claros para o negócio do cliente” apresentou uma média de 2,82. Embora essa média esteja abaixo do ponto neutro, indicando que a maioria não percebe essa dificuldade como predominante, 29,4% dos participantes concordaram em algum grau. A existência dessa parcela sugere que a capacidade de conectar características da solução a resultados econômicos específicos para o cliente ainda é um ponto de desenvolvimento relevante (Haas; Sjödin; Parida, 2012).

A reação diante de pedidos de desconto foi avaliada pela afirmação “Quando o cliente pede desconto, minha primeira reação é tentar defender tecnicamente o produto, mas acabo cedendo no preço para não perder a venda”, que obteve uma média de 3,06. Com 47,1% dos participantes concordando em algum grau, e 38,2% discordando, o resultado mostra uma alta dispersão de opiniões. Isso sugere que os profissionais não possuem uma percepção homogênea sobre sua capacidade de sustentar o preço, e que a concessão de descontos pode ser uma prática comum para parte da amostra, mesmo após a defesa técnica do produto.

Esses achados evidenciam um descompasso entre a segurança no conhecimento técnico e a variabilidade no comportamento comercial, especialmente na sustentação do valor durante a negociação. Os profissionais demonstram maior confiança em sua expertise técnica, mas enfrentam desafios na conversão desse conhecimento em argumentos comerciais que defendam o preço e o retorno sobre o investimento (ROI) para o cliente. A literatura de vendas baseadas em valor ressalta que o vendedor B2B deve ser capaz de conectar as características da solução aos resultados e benefícios específicos para o cliente (Haas; Sjödin; Parida, 2012; Halinen; Haas, 2023).

Necessidades de Treinamento

A análise das necessidades de treinamento revelou as competências que os profissionais consideram prioritárias para seu desenvolvimento. Entre os quatro temas avaliados, a “Transformação do conhecimento técnico em valor financeiro (ROI)” apresentou a maior média de necessidade percebida, com 3,41, e 52,9% dos participantes indicaram alta ou urgente necessidade. Esse resultado é crucial, pois reforça a interpretação de que o principal desafio não é a ausência de conhecimento técnico, mas a capacidade de traduzi-lo em benefícios econômicos tangíveis para o cliente (Liu; Zhao; Wang, 2023).

Em segundo lugar, as “Técnicas de Negociação e Fechamento” obtiveram uma média de 3,32, com 50,0% dos participantes indicando alta ou urgente necessidade de desenvolvimento. Esse dado é consistente com o descompasso observado na dimensão de confiança técnica versus comercial, onde muitos profissionais se sentem menos seguros ao negociar valores. A negociação é uma etapa crítica em vendas B2B, e a falta de competência nessa área pode levar à redução de margens e à perda de oportunidades.

O “Conhecimento técnico do produto” apresentou uma média de necessidade de treinamento de 3,00, com as respostas mais divididas (44,1% alta/urgente necessidade e 44,1% nenhuma/baixa necessidade). Embora ainda seja relevante, essa competência não aparece como a principal demanda, especialmente quando comparada à elevada confiança técnica observada anteriormente. Isso sugere que os profissionais já possuem uma base técnica sólida, e as maiores oportunidades de desenvolvimento estão na aplicação comercial desse conhecimento.

Por fim, as “Técnicas de levantamento de necessidades e perguntas (SPIN)” apresentaram a menor média de necessidade de treinamento, com 2,91, e 32,4% dos participantes indicaram alta ou urgente necessidade. Esse resultado, em conjunto com a maior pontuação na investigação inicial dos problemas, sugere que a lacuna não está na identificação básica dos problemas, mas na capacidade de aprofundar a investigação para construir e comunicar o valor econômico da solução. A convergência desses resultados indica que as principais necessidades de desenvolvimento percebidas pelos próprios profissionais estão relacionadas às competências comerciais que conectam o conhecimento técnico ao processo de vendas.

Análise Qualitativa da Questão Aberta

A questão aberta, que convidou os participantes a indicar um tema para seu próximo treinamento de vendas, corroborou e aprofundou os achados quantitativos. As 33 respostas válidas revelaram temas recorrentes como “ROI”, “Negociação”, “Vendas Consultivas”, “Objeções”, “Argumentação” e “Compreensão das necessidades do cliente”. Esses termos reforçam a percepção de que as maiores demandas de desenvolvimento estão nas competências comerciais e na capacidade de transformar o conhecimento técnico em valor financeiro.

Além dos temas diretamente comerciais, foram mencionadas necessidades mais específicas, como “compreender como o cliente industrial toma suas decisões de compra”, “relacionar a parte técnica às necessidades reais do cliente” e “gerar valor antes de discutir preço”. Essas manifestações espontâneas dos participantes reforçam o diagnóstico de que o principal desafio não reside na ausência de conhecimento técnico do produto, mas na integração desse conhecimento com as competências de investigação, comunicação de valor e negociação, para uma atuação comercial mais estratégica e eficaz.

A análise qualitativa, portanto, fortalece a interpretação de que o desenvolvimento profissional desejado pelos participantes não deve ser compreendido como uma escolha entre conhecimento técnico e comercial, mas sim como uma integração entre essas duas dimensões. O conteúdo das respostas indica uma demanda por programas de capacitação que permitam aos vendedores técnicos utilizar sua expertise para compreender problemas, construir argumentos de valor e demonstrar o impacto econômico das soluções, alinhando-se à literatura sobre vendas baseadas em valor (Liu; Zhao; Wang, 2023).

Em síntese, os resultados obtidos nas diferentes dimensões da pesquisa permitem identificar um padrão comum entre os profissionais de vendas técnicas B2B. Observou-se uma elevada segurança relacionada ao conhecimento técnico e à sua utilização durante a interação com o cliente, ao mesmo tempo em que surgem oportunidades de desenvolvimento nas competências que conectam esse conhecimento ao processo comercial. O principal descompasso identificado não está na ausência de conhecimento técnico, mas na capacidade de converter esse conhecimento em valor percebido e sustentado durante todo o processo comercial, especialmente em negociações e na demonstração de retorno financeiro.

4. Conclusão

A presente pesquisa buscou investigar as principais dificuldades enfrentadas por profissionais de vendas técnicas B2B, com o intuito de identificar se essas lacunas estavam mais associadas ao conhecimento técnico, às habilidades comerciais ou à aplicação prática desses elementos. Verificou-se que os profissionais demonstraram elevada segurança em seu domínio técnico e na capacidade de utilizá-lo para ensinar novas perspectivas aos clientes e questionar soluções inadequadas. Contudo, observou-se um descompasso significativo na conversão desse conhecimento técnico em valor comercial e financeiro, especialmente em contextos de negociação e sustentação de margem. Identificou-se que a principal lacuna não residiu na ausência de conhecimento técnico, mas na capacidade de traduzir características técnicas em benefícios econômicos claros para o cliente e de conduzir negociações de forma assertiva, conforme evidenciado pela maior segurança em discussões técnicas do que em negociações de valores. A contribuição deste estudo reside em oferecer um diagnóstico detalhado dessas lacunas, sugerindo que a excelência comercial em vendas técnicas B2B depende de uma integração mais profunda entre a expertise técnica e as competências comerciais.

As limitações do estudo incluem a natureza descritiva da pesquisa e a seleção da amostra por conveniência, o que impede a generalização dos resultados para a totalidade dos vendedores técnicos e a inferência de relações causais entre treinamento e desempenho. Apesar disso, os achados possuem implicações gerenciais relevantes, indicando que programas de capacitação para vendedores técnicos devem focar na integração do conhecimento técnico existente com habilidades de investigação aprofundada, comunicação de valor, negociação e demonstração de retorno sobre o investimento (ROI). Essa abordagem visa equipar os profissionais com as ferramentas necessárias para transformar sua expertise em argumentos comerciais persuasivos, fortalecendo a capacidade de sustentar o valor da solução e otimizar os resultados em vendas B2B complexas.

Referências Bibliográficas

BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.

CESPEDES, F. V. Aligning strategy and sales: the choices, systems, and behaviors that drive effective selling. Boston: Harvard Business Review Press, 2014.

DIXON, M.; ADAMSON, B. A venda desafiadora: assumindo o controle da conversa com o cliente. Rio de Janeiro: Alta Books, 2013.

FUNADA, V. H. M.; BARBOSA, L. M. Sales Enablement e Performance em Vendas Técnicas de Software Industrial. Revista E&S, 18 maio 2026. Disponível em: https://revistaes.com.br/resumo-executivo/sales-enablement-e-performance-em-vendas-tecnicas-de-software-industrial. Acesso em: 23 ago. 2026.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

HAAS, A.; SJÖDIN, D.; PARIDA, V. Value-based selling: an organizational capability perspective. Industrial Marketing Management, v. 41, n. 2, p. 288–302, 2012.

Halinen; Haas, 2023 [Referência completa não encontrada no documento original]

KERÄNEN, J.; TOTZEK, D.; SALONEN, A.; KIENZLER, M. Advancing value-based selling research in B2B markets: a theoretical toolbox and research agenda. Industrial Marketing Management, v. 111, p. 55–68, 2023. DOI: 10.1016/j.indmarman.2023.02.014.

KOTLER, P.; PFOERTSCH, W. Gestão de marcas B2B. Porto Alegre: Bookman, 2008.

LIU, Y.; ZHAO, X.; WANG, T. Value-based selling capability: antecedents and implications for B2B sales performance. Journal of Business-to-Business Marketing, v. 30, n. 4, p. 395–418, 2023. DOI: 10.1080/1051712X.2023.2272985.

PASCHEN, J.; KESSELMANN, D.; KROSS, J. Artificial intelligence (AI) and sales: a systematic literature review and future directions. Journal of Personal Selling & Sales Management, 2023.

RACKHAM, N. Alcançando excelência em vendas: SPIN selling. São Paulo: M. Books, 2001.

TERHO, H.; HAAS, A.; EGGERT, A.; ULAGA, W. ‘It’s almost like taking the sales out of selling’-Towards a conceptualization of value-based selling in business markets. Industrial Marketing Management, v. 41, n. 1, p. 174–185, 2012. DOI: 10.1016/j.indmarman.2011.11.011.

WEITZ, B. A.; BRADFORD, K. D. Personal selling and sales management: a relationship marketing perspective. Journal of the Academy of Marketing Science, v. 27, n. 2, p. 241–254, 1999.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Você também pode gostar

22 de outubro de 2026

Jornada do Consumidor na Decisão de Compra de Infoprodutos no Ambiente Digital

A expansão do comércio eletrônico e a transformação tecnológica impulsionaram a necessidade de compreender o comportamento do consumidor de infoprodutos, cuja experiência percebida tornou-se crucial para o desenvolvimento profissional. O estudo objetivou analisar os fatores que influenciaram a decisão de compra de infoprodutos no ambiente digital, considerando as etapas da jornada do consumidor. Realizou-se uma pesquisa aplicada, quantitativa e descritiva, por meio de um levantamento de campo com 100 consumidores da Serra Gaúcha. A coleta de dados ocorreu via questionário estruturado, utilizando amostragem não probabilística. Os resultados revelaram um público qualificado e com forte comportamento “mobile-first”. Constatou-se que a disponibilidade de informações detalhadas e a aprovação social foram os principais gatilhos de atração na fase de pré-compra. Nas etapas transacionais e posteriores, a minimização de atritos operacionais, a agilidade do acesso imediato e a segurança sistêmica mostraram-se cruciais para a conversão e satisfação, embora lacunas na eficiência do suporte humano tenham sido identificadas. A retenção fundamentou-se na confiança gerada por experiências anteriores positivas, superando o fator preço. Concluiu-se que a jornada do consumidor de infoprodutos opera como um sistema integrado, exigindo alinhamento entre infraestrutura tecnológica, curadoria de conteúdo e humanização do suporte para assegurar o engajamento.

Palavras-chave: Comércio eletrônico; Comportamento do consumidor; Experiência do consumidor; Fidelização; Negócios virtuais.

22 de outubro de 2026

Observatório Digital da Amazônia: Ciência de Dados Aplicada à Análise de Indicadores Sociais, Econômicos, Ambientais e de Saúde

O estado do Amazonas enfrentou desafios históricos na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), decorrentes de barreiras geográficas, desigualdades socioeconômicas e limitações estruturais. Descreveu-se, neste estudo, o desenvolvimento e a implementação de um geoportal de informações em saúde, concebido para apoiar o monitoramento, a avaliação e o planejamento no contexto amazônico. Adotou-se uma abordagem de estudo de caso descritivo, baseada em análise documental e dados secundários, abrangendo o mapeamento de funcionalidades, a infraestrutura técnica e as etapas de validação da ferramenta. O Portal foi desenvolvido com tecnologias abertas e integrou múltiplas bases de dados nacionais, oferecendo dashboards interativos, mapas temáticos e repositório digital de documentos. Entre os resultados, destacaram-se a visualização georreferenciada de indicadores-chave, a possibilidade de análises comparativas temporais e a utilização da plataforma na revisão de planos de saúde e no redirecionamento de ações estratégicas. O portal pode representar um avanço na governança digital e na gestão baseada em evidências, com potencial de replicabilidade para outros territórios de alta complexidade, desde que acompanhada de investimentos em infraestrutura tecnológica, capacitação profissional e articulação interinstitucional.

Palavras-chave: Amazônia; Avaliação em Saúde; Saúde Digital; Sistemas de Informação em Saúde.

22 de outubro de 2026

Aprendizado Contínuo como Fator de Crescimento Organizacional na Percepção dos Colaboradores

O impacto do aprendizado contínuo e da gestão do conhecimento no crescimento das organizações foi estudado em um cenário de globalização e constantes mudanças. O objetivo do estudo foi analisar a percepção dos colaboradores sobre a cultura de aprendizagem e sua importância para o desenvolvimento pessoal e profissional. Os dados foram obtidos por meio de uma pesquisa anônima, de abordagem quantitativa, utilizando um formulário com questões do tipo “survey” aplicado a 87 profissionais dos setores de tecnologia, saúde, educação, comércio e serviços. Os resultados indicaram que os colaboradores possuíam uma percepção positiva sobre a contribuição do aprendizado contínuo para o crescimento pessoal e organizacional, reconhecendo seus benefícios para o desenvolvimento de novas habilidades, inovação e competitividade. Contudo, observou-se que o incentivo à troca de conhecimento interno e a oferta de treinamentos práticos ainda apresentavam médias moderadas de concordância. Concluiu-se que o aprendizado contínuo contribui significativamente para o desenvolvimento individual e organizacional, sugerindo que as empresas devem desenvolver políticas estratégicas de aprendizado direcionado para novas habilidades, visando maior vantagem competitiva e inovação.

Palavras-chave: Aprendizagem contínua; Autodesenvolvimento; Crescimento organizacional; Gestão do conhecimento; Inovação.

22 de outubro de 2026

Previsão da Inadimplência Agregada no Sistema Financeiro Brasileiro por Modelo Sarimax com Variáveis Macroeconômicas

A inadimplência agregada no sistema financeiro brasileiro é um indicador crucial de risco de crédito, cuja previsão é regulamentada pelas Resoluções CMN n.° 4.557/2017 e 4.966/2021 para a mensuração prospectiva de perdas esperadas. Modelou-se e previu-se a inadimplência agregada por meio do modelo SARIMAX, projetando sua trajetória até dezembro de 2026 sob cenários otimista, base e pessimista. Utilizaram-se 164 observações mensais (julho/2012 a fevereiro/2026) e variáveis macroeconômicas como desemprego, Selic, IPCA, IBC-Br e endividamento das famílias. A especificação com variáveis contemporâneas foi selecionada com base em critérios de informação e estabilidade dos coeficientes, e o diagnóstico dos resíduos confirmou adequação estatística, com MAPE de 3,12%. A inadimplência histórica variou entre 4,33% e 7,64%. A estimação identificou o desemprego (β = 0,2534; p < 0,001) e a Selic (β = 0,2128; p < 0,001) como principais determinantes positivos, com forte persistência temporal (AR(1) = 0,8965). A Selic exibiu correlação crescente com a inadimplência (r = 0,62 no lag 12), enquanto o desemprego demonstrou efeito contemporâneo (r = 0,33). As projeções indicaram inadimplência entre 6,30% e 7,98% em dezembro de 2026, com uma amplitude de 1,68 ponto percentual, evidenciando implicações diretas para o dimensionamento de provisões nas instituições financeiras. Palavras-chave: Desemprego; Modelagem preditiva; Política monetária; Provisão de perdas; Séries temporais.

22 de outubro de 2026

Fatores de Engajamento das Partes Interessadas na Transferência Internacional de Tecnologia para um Hospital Público

Este estudo descreveu os fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia em um hospital público, com foco no planejamento. O objetivo foi descrever esses fatores condicionantes, conforme a percepção de profissionais. Realizou-se um estudo de caso único, aplicando um questionário a 25 profissionais e utilizando análise de conteúdo, complementada por tabulações descritivas. Os principais obstáculos identificados foram resistência à mudança (72%), financiamento (64%), falta de comunicação (60%) e burocracia (40%). Apenas 28% dos respondentes reconheceram a existência de ferramentas adequadas para gestão de stakeholders, enquanto 48% negaram e 24% não souberam informar. Cruzamentos exploratórios indicaram variações na avaliação de influência conforme o tempo de atuação, mas não estabeleceram relações causais. A falta de engajamento foi associada a atrasos, baixa adesão, desperdício de recursos, falhas de comunicação, comprometimento da absorção de conhecimento e riscos à segurança do paciente. As conclusões restringiram-se às percepções do grupo pesquisado e fundamentaram recomendações preliminares para comunicação e coordenação intersetorial.

Palavras-chave: Estudo de caso; Gestão de projetos; Inovação em saúde; Partes interessadas; Setor público.

22 de outubro de 2026

Combate às Perdas Comerciais de Energia Elétrica Utilizando Modelo de Séries Temporais

As perdas comerciais de energia elétrica representaram um dos principais desafios para as distribuidoras, impactando diretamente a sustentabilidade econômica e a qualidade do fornecimento. Avaliou-se a eficiência de modelos de séries temporais, com foco em técnicas de suavização exponencial, na previsão do consumo faturado de unidades consumidoras, para apoiar a identificação de desvios associados a perdas não técnicas. Utilizaram-se dados históricos de consumo mensal de uma distribuidora de energia elétrica no Brasil, segmentados por perfis de comportamento (estacionariedade, tendência e sazonalidade). Aplicaram-se modelos de suavização exponencial simples, Holt e Holt-Winters (aditivo e multiplicativo), comparados a uma média móvel tradicional. O erro percentual absoluto médio (MAPE) foi o critério de avaliação. Adicionalmente, empregou-se a abordagem ETS para seleção automática do modelo e testes de diagnóstico dos resíduos, como Ljung-Box e análise da função de autocorrelação. Os resultados demonstraram que modelos mais robustos apresentaram maior capacidade de adaptação às características das séries e menor erro, com destaque para o desempenho superior em cenários com tendência. Para séries sazonais, o modelo ETS mostrou maior capacidade de adaptação a transições. Concluiu-se que a utilização de modelos de séries temporais mais estruturados contribuiu significativamente para a melhoria da acurácia das previsões e ofereceu suporte analítico relevante para a identificação de perdas comerciais e otimização de processos operacionais e comerciais no setor elétrico.

Palavras-chave: Distribuição de energia; MAPE; Otimização; Previsão de consumo; Suavização exponencial.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade