Artigo

30 de setembro de 2026

Diagnóstico de descompassos em vendas técnicas B2B: análise das lacunas entre percepção e prática comercial

Diagnóstico de Descompassos em Vendas Técnicas B2b: Análise das Lacunas entre Percepção e Prática Comercial

Cleberson Alves dos Santos; Bruno Lopes Silva

DOI: 10.22167/2675-6528-202602786

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

O ambiente de vendas técnicas B2B tornou-se complexo, exigindo de profissionais não apenas domínio técnico, mas também competências comerciais avançadas. Investigou-se as principais lacunas de competência em vendedores técnicos, buscando identificar fatores que impactam o desempenho em negociações complexas. A pesquisa foi conduzida por meio de questionário estruturado, aplicado a 34 profissionais, que utilizou escalas Likert e questões abertas. A amostra incluiu predominantemente profissionais da indústria. Os resultados indicaram desafios na condução de negociações, na demonstração de valor financeiro e na sustentação de margem. Observaram-se possíveis inconsistências entre a percepção de postura consultiva e o comportamento comercial em negociação. Os achados sugeriram que o principal descompasso não residiu na ausência de conhecimento técnico, mas na capacidade de transformar esse conhecimento em valor comercial e financeiro. Concluiu-se que programas de capacitação para vendedores técnicos devem integrar o conhecimento técnico existente com competências de investigação, comunicação de valor, negociação e demonstração de retorno financeiro, visando um maior equilíbrio entre capacitação técnica e desenvolvimento de competências comerciais.

Palavras-chave: Capacitação comercial; Negociação; ROI; Vendas B2B; Vendas técnicas.

1. Introdução

O ambiente de vendas business-to-business (B2B), especialmente nos setores industrial e tecnológico, tem experimentado transformações significativas nas últimas décadas. A crescente complexidade das soluções oferecidas, a presença de múltiplos tomadores de decisão e o elevado impacto financeiro das decisões de compra exigem dos profissionais de vendas uma atuação mais estratégica, consultiva e orientada à geração de valor (Kotler; Pfoertsch, 2008).

Nesse cenário, o papel do vendedor técnico ganha relevância, pois espera-se que esse profissional seja capaz não apenas de apresentar características e especificações de produtos, mas também de compreender profundamente as necessidades do cliente, contribuindo para a melhoria de processos, otimização de projetos e geração de resultados financeiros (Weitz; Bradford, 1999). O conhecimento técnico torna-se um elemento importante na construção de credibilidade e confiança na relação comercial. A literatura sobre vendas baseadas em valor destaca a importância de conectar as necessidades do cliente aos benefícios e resultados econômicos proporcionados pela solução (Haas; Sjödin; Parida, 2012; Terho et al., 2012; Keränen et al., 2023; Liu; Zhao; Wang, 2023).

Contudo, a literatura aponta que o domínio técnico, isoladamente, não é suficiente para garantir desempenho superior em vendas complexas. Habilidades comerciais, como a capacidade de investigar necessidades, conduzir negociações e comunicar valor de forma eficaz, são igualmente determinantes para o sucesso (Rackham, 2001; Dixon; Adamson, 2013). A ausência dessas competências pode resultar em dificuldades na conversão de oportunidades e na sustentação de margens, especialmente em cenários de alta pressão por preço. Estudos recentes no contexto de vendas técnicas B2B reforçam a necessidade de integrar conhecimento técnico e competências comerciais (Funada; Barbosa, 2026; Paschen et al., 2023).

Na prática do mercado, observa-se que muitos profissionais enfrentam dificuldades em equilibrar os pilares técnico e comercial. Em alguns casos, o conhecimento técnico não é plenamente convertido em argumentos de valor, enquanto em outros, limitações na condução da negociação levam à concessão de descontos e à redução da rentabilidade das operações (Cespedes, 2014). Esse cenário evidencia a existência de possíveis descompassos entre a percepção dos profissionais e sua atuação prática no processo de venda. Adicionalmente, solicitações de desconto podem estar associadas a comportamentos habituais de negociação ou à ausência de percepção clara de valor, e não necessariamente a uma limitação orçamentária (Rackham, 2001).

Diante desse contexto, torna-se relevante investigar quais são as principais lacunas de competência presentes em profissionais de vendas técnicas B2B. A compreensão dessas lacunas pode contribuir para o direcionamento mais eficaz de programas de capacitação e desenvolvimento, além de apoiar organizações na melhoria de seus resultados comerciais. Este estudo contribui para a literatura de vendas B2B ao oferecer evidências sobre a natureza das lacunas de competências em vendas técnicas, com implicações para treinamento comercial e gestão da força de vendas. Assim, o objetivo deste estudo é investigar e mapear as principais dificuldades enfrentadas por profissionais de vendas técnicas, buscando identificar se essas dificuldades estão mais associadas ao conhecimento técnico, às habilidades comerciais ou à forma como esses elementos são aplicados na prática.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se como de natureza aplicada, com abordagem predominantemente quantitativa, complementada por análise qualitativa. O estudo possuiu caráter descritivo-exploratório, conforme a classificação proposta por Gil (2008). Teve como objetivo identificar possíveis descompassos entre a percepção dos profissionais e sua prática comercial no contexto das vendas técnicas business-to-business (B2B).

A unidade de análise consistiu em profissionais atuantes em vendas técnicas B2B. A amostra foi composta por 34 participantes, selecionados por conveniência, considerando a acessibilidade do pesquisador por meio de sua rede de contatos profissionais. Os participantes pertenciam a diferentes organizações e segmentos econômicos, com predominância de profissionais inseridos no contexto industrial. Por tratar-se de uma amostra não probabilística, os resultados foram interpretados considerando o contexto específico da amostra pesquisada, sem o objetivo de realizar generalizações para toda a população de vendedores técnicos.

A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado, elaborado com base em construtos consolidados na literatura sobre vendas consultivas. Foram utilizados como referência os modelos SPIN Selling (Rackham, 2001) e Challenger Sale (Dixon; Adamson, 2013). O instrumento foi desenvolvido para avaliar competências relacionadas à investigação das necessidades do cliente, postura consultiva, negociação, comunicação de valor, confiança técnica e necessidades de desenvolvimento profissional.

O questionário foi composto por questões fechadas em escala Likert de cinco pontos, variando de um (Discordo totalmente) a cinco (Concordo totalmente). Adicionalmente, incluiu-se uma questão aberta destinada à identificação das principais dificuldades e necessidades de desenvolvimento percebidas pelos participantes. As perguntas foram organizadas em blocos temáticos que abordavam o perfil dos respondentes, competências de SPIN Selling, competências de Challenger Sale, confiança técnica versus comercial, e necessidades de treinamento, além da análise qualitativa das respostas abertas.

Os dados quantitativos coletados foram organizados e analisados com o auxílio de planilhas eletrônicas. Utilizaram-se técnicas de estatística descritiva para o tratamento desses dados. Para cada questão da escala Likert, calcularam-se as frequências absolutas, frequências relativas (percentuais), médias aritméticas e desvios-padrão. Esses cálculos permitiram identificar a tendência central e a dispersão das respostas dos participantes.

A média aritmética foi calculada pela soma das pontuações atribuídas pelos respondentes, dividida pelo número de respostas válidas para cada questão. O desvio-padrão foi determinado para cada variável analisada, com o intuito de avaliar o grau de dispersão das respostas em relação à média. Valores reduzidos de desvio-padrão indicaram maior homogeneidade entre as respostas, enquanto valores mais elevados sugeriram maior variabilidade de opiniões.

As respostas obtidas na questão aberta foram submetidas à técnica de Análise de Conteúdo, conforme proposta por Bardin (2011). Inicialmente, realizou-se a leitura integral das respostas, seguida pela identificação de temas recorrentes. Posteriormente, as informações foram organizadas em categorias temáticas. Como recurso complementar de visualização, elaborou-se uma nuvem de palavras para representar os termos mais frequentemente mencionados pelos participantes.

A participação dos respondentes ocorreu de forma voluntária, e foram garantidos o anonimato e a confidencialidade das informações coletadas. Não foram solicitados dados que permitissem a identificação individual dos participantes, assegurando o sigilo das respostas e sua utilização exclusiva para fins acadêmicos.

3. Resultados e Discussão

A pesquisa buscou compreender as lacunas de competência em profissionais de vendas técnicas B2B, revelando padrões e descompassos entre o conhecimento técnico e as habilidades comerciais. Os resultados indicaram que, embora os participantes demonstrem elevada autopercepção de segurança no domínio técnico, existem desafios significativos na aplicação desse conhecimento para gerar valor comercial e financeiro, especialmente em negociações complexas. A análise dos dados quantitativos, coletados por meio de um questionário estruturado, foi complementada por uma abordagem qualitativa, permitindo uma compreensão aprofundada das percepções dos profissionais sobre suas dificuldades e necessidades de desenvolvimento.

A amostra do estudo foi composta por 34 profissionais atuantes em vendas técnicas B2B, predominantemente do setor industrial. Observou-se que 61,8% dos participantes possuíam mais de seis anos de experiência na área, indicando um grupo com vivência considerável no mercado. Contudo, apesar da experiência, uma parcela expressiva, também de 61,8%, realizou no máximo dois treinamentos no último ano, sugerindo uma possível lacuna no desenvolvimento contínuo de competências. Essa característica da amostra é relevante para a interpretação dos resultados, pois permite analisar as percepções de profissionais com diferentes níveis de maturidade e exposição a capacitações.

A distribuição dos participantes por faixa etária mostrou que 58,8% estavam entre 26 e 45 anos, enquanto a divisão por gênero foi relativamente equilibrada, com 55,9% homens e 44,1% mulheres. Em relação ao porte das empresas, 47,1% atuavam em micro ou pequenas empresas e 35,3% em grandes organizações, demonstrando a diversidade do contexto de atuação dos respondentes. A Indústria Metalúrgica representou o maior segmento, com 38,2% dos participantes, o que reforça a relevância do estudo para esse setor específico, embora os achados possam ter implicações mais amplas para vendas técnicas B2B.

Os cruzamentos entre o tempo de atuação e as médias dos blocos de competências não revelaram uma relação linear consistente, indicando que a experiência profissional, isoladamente, não garante um desempenho superior em todas as dimensões avaliadas. Por outro lado, a frequência de treinamentos no último ano mostrou diferenças mais evidentes. Profissionais com mais de cinco treinamentos apresentaram médias mais altas em investigação e diagnóstico (4,00), postura desafiadora (4,71) e confiança técnica e comercial (3,38), sugerindo uma associação descritiva entre a exposição a treinamentos e melhores percepções de competência, embora sem estabelecer causalidade.

Investigação e Diagnóstico – SPIN Selling

Na dimensão de investigação e diagnóstico, que se baseia nos princípios do SPIN Selling (Rackham, 2001), a pesquisa avaliou a capacidade dos profissionais de compreender as necessidades do cliente. A afirmação “Antes de apresentar as especificações do meu produto, dedico a maior parte do tempo a fazer perguntas sobre os problemas do processo do cliente” obteve uma média de 3,68, com 64,7% dos participantes concordando total ou parcialmente. Esse resultado indica uma tendência favorável à investigação inicial dos problemas, alinhada à etapa de perguntas de problema do modelo SPIN.

Contudo, a capacidade de auxiliar o cliente a calcular o custo financeiro das falhas ou problemas existentes apresentou uma média ligeiramente inferior, de 3,50, com 58,8% de respostas positivas. Essa diferença é significativa, pois, no modelo SPIN, a investigação vai além da identificação do problema, explorando suas consequências financeiras e o impacto de sua permanência (Rackham, 2001). A menor pontuação nessa questão sugere que, embora os profissionais iniciem a abordagem investigativa, o aprofundamento econômico do diagnóstico pode representar uma oportunidade de desenvolvimento.

A terceira questão desse bloco, “Sinto dificuldade em retardar a apresentação do produto; prefiro mostrar a solução técnica logo no início da reunião”, obteve uma média de 3,15, com 41,2% dos participantes concordando e 41,2% discordando. Esse resultado, com alta dispersão, indica que uma parcela considerável dos profissionais ainda enfrenta desafios em adiar a apresentação da solução técnica, o que pode limitar a profundidade da investigação das necessidades e a construção de valor antes da discussão do produto em si. A literatura sobre vendas baseadas em valor enfatiza a importância de conectar as necessidades do cliente aos benefícios e resultados econômicos da solução (Haas; Sjödin; Parida, 2012).

Os resultados, portanto, não apontam para uma ausência completa da aplicação dos princípios de investigação, mas sim para um ponto de atenção no aprofundamento do diagnóstico. A transformação do problema técnico em uma consequência econômica claramente percebida pelo cliente é um desafio, o que reforça a necessidade de desenvolver o vendedor técnico não apenas como especialista no produto, mas como um profissional capaz de investigar, aprofundar e traduzir problemas técnicos em consequências relevantes para o negócio do cliente, aproximando o conhecimento técnico da criação e comunicação de valor (Haas; Sjödin; Parida, 2012).

Postura Comercial – Challenger Sale

A dimensão da postura comercial, inspirada no modelo Challenger Sale (Dixon; Adamson, 2013), avaliou como os profissionais utilizam o conhecimento técnico para influenciar o cliente e conduzir a conversa de vendas. A afirmação “Utilizo meu conhecimento técnico para ensinar ao cliente uma nova perspectiva sobre o negócio dele que ele não tinha considerado” obteve a maior média nesse bloco, de 4,35, com 88,2% de respostas positivas. Isso demonstra uma elevada autopercepção da capacidade de usar o conhecimento técnico como ferramenta de orientação e influência, alinhada ao princípio de “ensinar” do Challenger Sale.

Similarmente, a afirmação “Sinto-me confortável em discordar educadamente do cliente quando percebo que a solicitação técnica dele não é a melhor solução” alcançou uma média de 4,26, com 82,4% de respostas positivas. Esse resultado sugere uma alta segurança dos profissionais para questionar decisões do cliente, um comportamento compatível com a postura assertiva proposta pelo Challenger Sale (Dixon; Adamson, 2013). A capacidade de desafiar o cliente, quando necessário, é crucial para conduzir a conversa comercial e apresentar soluções mais eficazes.

No entanto, a afirmação “Durante a venda, foco mais em manter um relacionamento amigável do que em pressionar o cliente a mudar seu ponto de vista” obteve uma média de 4,06, com 79,4% de respostas positivas. Embora seja um resultado elevado, a priorização do relacionamento amigável merece atenção. A manutenção de um relacionamento positivo é importante em vendas B2B, mas pode entrar em conflito com a necessidade de defender o valor da solução ou manter a assertividade durante uma negociação, especialmente quando o vendedor precisa conduzir o cliente a uma nova perspectiva (Dixon; Adamson, 2013).

Em conjunto, esses resultados indicam uma forte autopercepção de postura consultiva e desafiadora, com os profissionais se vendo como ativos na discussão técnica e na construção da solução. Eles demonstram características compatíveis com a abordagem Challenger Sale, como ensinar e questionar. Contudo, essa percepção precisa ser analisada em conjunto com os resultados sobre negociação, pois a valorização excessiva do relacionamento pode, em certas situações, comprometer a assertividade na defesa do valor da solução, um aspecto fundamental em vendas B2B complexas (Halinen; Haas, 2023).

Confiança Técnica versus Comercial

A terceira dimensão investigou a percepção dos profissionais sobre sua segurança no domínio técnico em comparação com aspectos comerciais, como negociação de valores e comunicação de benefícios financeiros. A afirmação “Sinto-me muito mais seguro discutindo especificações técnicas e datasheets do que negociando valores e fechamento” obteve uma média de 3,56, com 61,8% dos participantes concordando. Esse dado revela que uma parcela significativa dos profissionais se sente mais à vontade em discussões técnicas do que em situações de negociação de valores, indicando um descompasso entre a segurança técnica e a comercial.

Em relação à dificuldade de traduzir características técnicas em benefícios financeiros claros para o negócio do cliente, a afirmação “Tenho dificuldade em traduzir as características técnicas do meu produto em benefícios financeiros claros para o negócio do cliente” apresentou uma média de 2,82. Embora essa média esteja abaixo do ponto neutro, indicando que a maioria não percebe essa dificuldade como predominante, 29,4% dos participantes concordaram em algum grau. A existência dessa parcela sugere que a capacidade de conectar características da solução a resultados econômicos específicos para o cliente ainda é um ponto de desenvolvimento relevante (Haas; Sjödin; Parida, 2012).

A reação diante de pedidos de desconto foi avaliada pela afirmação “Quando o cliente pede desconto, minha primeira reação é tentar defender tecnicamente o produto, mas acabo cedendo no preço para não perder a venda”, que obteve uma média de 3,06. Com 47,1% dos participantes concordando em algum grau, e 38,2% discordando, o resultado mostra uma alta dispersão de opiniões. Isso sugere que os profissionais não possuem uma percepção homogênea sobre sua capacidade de sustentar o preço, e que a concessão de descontos pode ser uma prática comum para parte da amostra, mesmo após a defesa técnica do produto.

Esses achados evidenciam um descompasso entre a segurança no conhecimento técnico e a variabilidade no comportamento comercial, especialmente na sustentação do valor durante a negociação. Os profissionais demonstram maior confiança em sua expertise técnica, mas enfrentam desafios na conversão desse conhecimento em argumentos comerciais que defendam o preço e o retorno sobre o investimento (ROI) para o cliente. A literatura de vendas baseadas em valor ressalta que o vendedor B2B deve ser capaz de conectar as características da solução aos resultados e benefícios específicos para o cliente (Haas; Sjödin; Parida, 2012; Halinen; Haas, 2023).

Necessidades de Treinamento

A análise das necessidades de treinamento revelou as competências que os profissionais consideram prioritárias para seu desenvolvimento. Entre os quatro temas avaliados, a “Transformação do conhecimento técnico em valor financeiro (ROI)” apresentou a maior média de necessidade percebida, com 3,41, e 52,9% dos participantes indicaram alta ou urgente necessidade. Esse resultado é crucial, pois reforça a interpretação de que o principal desafio não é a ausência de conhecimento técnico, mas a capacidade de traduzi-lo em benefícios econômicos tangíveis para o cliente (Liu; Zhao; Wang, 2023).

Em segundo lugar, as “Técnicas de Negociação e Fechamento” obtiveram uma média de 3,32, com 50,0% dos participantes indicando alta ou urgente necessidade de desenvolvimento. Esse dado é consistente com o descompasso observado na dimensão de confiança técnica versus comercial, onde muitos profissionais se sentem menos seguros ao negociar valores. A negociação é uma etapa crítica em vendas B2B, e a falta de competência nessa área pode levar à redução de margens e à perda de oportunidades.

O “Conhecimento técnico do produto” apresentou uma média de necessidade de treinamento de 3,00, com as respostas mais divididas (44,1% alta/urgente necessidade e 44,1% nenhuma/baixa necessidade). Embora ainda seja relevante, essa competência não aparece como a principal demanda, especialmente quando comparada à elevada confiança técnica observada anteriormente. Isso sugere que os profissionais já possuem uma base técnica sólida, e as maiores oportunidades de desenvolvimento estão na aplicação comercial desse conhecimento.

Por fim, as “Técnicas de levantamento de necessidades e perguntas (SPIN)” apresentaram a menor média de necessidade de treinamento, com 2,91, e 32,4% dos participantes indicaram alta ou urgente necessidade. Esse resultado, em conjunto com a maior pontuação na investigação inicial dos problemas, sugere que a lacuna não está na identificação básica dos problemas, mas na capacidade de aprofundar a investigação para construir e comunicar o valor econômico da solução. A convergência desses resultados indica que as principais necessidades de desenvolvimento percebidas pelos próprios profissionais estão relacionadas às competências comerciais que conectam o conhecimento técnico ao processo de vendas.

Análise Qualitativa da Questão Aberta

A questão aberta, que convidou os participantes a indicar um tema para seu próximo treinamento de vendas, corroborou e aprofundou os achados quantitativos. As 33 respostas válidas revelaram temas recorrentes como “ROI”, “Negociação”, “Vendas Consultivas”, “Objeções”, “Argumentação” e “Compreensão das necessidades do cliente”. Esses termos reforçam a percepção de que as maiores demandas de desenvolvimento estão nas competências comerciais e na capacidade de transformar o conhecimento técnico em valor financeiro.

Além dos temas diretamente comerciais, foram mencionadas necessidades mais específicas, como “compreender como o cliente industrial toma suas decisões de compra”, “relacionar a parte técnica às necessidades reais do cliente” e “gerar valor antes de discutir preço”. Essas manifestações espontâneas dos participantes reforçam o diagnóstico de que o principal desafio não reside na ausência de conhecimento técnico do produto, mas na integração desse conhecimento com as competências de investigação, comunicação de valor e negociação, para uma atuação comercial mais estratégica e eficaz.

A análise qualitativa, portanto, fortalece a interpretação de que o desenvolvimento profissional desejado pelos participantes não deve ser compreendido como uma escolha entre conhecimento técnico e comercial, mas sim como uma integração entre essas duas dimensões. O conteúdo das respostas indica uma demanda por programas de capacitação que permitam aos vendedores técnicos utilizar sua expertise para compreender problemas, construir argumentos de valor e demonstrar o impacto econômico das soluções, alinhando-se à literatura sobre vendas baseadas em valor (Liu; Zhao; Wang, 2023).

Em síntese, os resultados obtidos nas diferentes dimensões da pesquisa permitem identificar um padrão comum entre os profissionais de vendas técnicas B2B. Observou-se uma elevada segurança relacionada ao conhecimento técnico e à sua utilização durante a interação com o cliente, ao mesmo tempo em que surgem oportunidades de desenvolvimento nas competências que conectam esse conhecimento ao processo comercial. O principal descompasso identificado não está na ausência de conhecimento técnico, mas na capacidade de converter esse conhecimento em valor percebido e sustentado durante todo o processo comercial, especialmente em negociações e na demonstração de retorno financeiro.

4. Conclusão

A presente pesquisa buscou investigar as principais dificuldades enfrentadas por profissionais de vendas técnicas B2B, com o intuito de identificar se essas lacunas estavam mais associadas ao conhecimento técnico, às habilidades comerciais ou à aplicação prática desses elementos. Verificou-se que os profissionais demonstraram elevada segurança em seu domínio técnico e na capacidade de utilizá-lo para ensinar novas perspectivas aos clientes e questionar soluções inadequadas. Contudo, observou-se um descompasso significativo na conversão desse conhecimento técnico em valor comercial e financeiro, especialmente em contextos de negociação e sustentação de margem. Identificou-se que a principal lacuna não residiu na ausência de conhecimento técnico, mas na capacidade de traduzir características técnicas em benefícios econômicos claros para o cliente e de conduzir negociações de forma assertiva, conforme evidenciado pela maior segurança em discussões técnicas do que em negociações de valores. A contribuição deste estudo reside em oferecer um diagnóstico detalhado dessas lacunas, sugerindo que a excelência comercial em vendas técnicas B2B depende de uma integração mais profunda entre a expertise técnica e as competências comerciais.

As limitações do estudo incluem a natureza descritiva da pesquisa e a seleção da amostra por conveniência, o que impede a generalização dos resultados para a totalidade dos vendedores técnicos e a inferência de relações causais entre treinamento e desempenho. Apesar disso, os achados possuem implicações gerenciais relevantes, indicando que programas de capacitação para vendedores técnicos devem focar na integração do conhecimento técnico existente com habilidades de investigação aprofundada, comunicação de valor, negociação e demonstração de retorno sobre o investimento (ROI). Essa abordagem visa equipar os profissionais com as ferramentas necessárias para transformar sua expertise em argumentos comerciais persuasivos, fortalecendo a capacidade de sustentar o valor da solução e otimizar os resultados em vendas B2B complexas.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

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09 de outubro de 2026

Fundamentos para estruturação de currículos baseados em habilidades de raciocínio

Nas últimas décadas, observou-se uma transição educacional de modelos focados em conteúdo para o desenvolvimento de competências, impulsionada pela ubiquidade da informação. Nesse contexto, as habilidades de raciocínio tornaram-se pedagogicamente cruciais por embasarem a compreensão, relação e adaptação de conteúdos em cenários complexos. Com base nessa perspectiva, buscou-se consolidar um modelo detalhado das habilidades que compõem o raciocínio cognitivo, visando servir de base para a elaboração de currículos e programas pedagógicos. Para tanto, realizou-se uma pesquisa qualitativa e exploratória, que envolveu uma síntese multidisciplinar de conhecimentos da filosofia da mente, epistemologia, semiótica, psicologia cognitiva e neurociência. Essa abordagem proporcionou uma visão abrangente da natureza e das funções do raciocínio humano. O modelo resultante classificou as habilidades em quatro funções cognitivas principais, subdivididas em níveis crescentes de complexidade, que acompanharam o desenvolvimento cognitivo humano. A estrutura final mostrou-se bem fundamentada e aplicável à elaboração de currículos e programas pedagógicos, oferecendo uma taxonomia de habilidades do raciocínio diretamente utilizável no sequenciamento instrucional e na avaliação de competências cognitivas.

Palavras-chave: Currículo baseado em competências; Desenvolvimento cognitivo; Habilidades cognitivas; Pensamento crítico; Raciocínio cognitivo.

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