30 de setembro de 2026
Comparação entre regressão logística e boosting na predição de inadimplência
Comparação entre Regressão Logística e Boosting na Predição de Inadimplência
Bruno Nogueira Pereira; Alexandre Mendes da Silva
DOI: 10.22167/2675-6528-202602747
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Uma análise comparativa entre a regressão logística, método tradicional na avaliação de risco de crédito, e técnicas de “ensemble” como LightGBM e XGBoost foi apresentada. O objetivo principal foi verificar a eficácia desses modelos na previsão de inadimplência, utilizando o “dataset” “Home Credit Default Risk”. Adotou-se uma metodologia quantitativa e aplicada, de caráter experimental, com pré-processamento de dados e engenharia de atributos. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio de métricas como AUC-ROC, índice de Gini e matriz de confusão. A técnica SHAP foi aplicada para interpretar a influência das variáveis nos modelos de “ensemble”. Os resultados obtidos indicaram que os métodos de “ensemble” demonstraram leve superioridade em termos de capacidade preditiva em relação à regressão logística, capturando melhor as complexidades do “dataset”. A análise SHAP destacou a importância de variáveis como fontes externas de “score” e características financeiras do cliente. Concluiu-se que os modelos de “ensemble” ofereceram um desempenho ligeiramente superior, reforçando a necessidade de considerar a interpretabilidade e o desbalanceamento da variável alvo na avaliação de modelos preditivos de inadimplência.
Palavras-chave: Inadimplência; LightGBM; Regressão Logística; Risco de Crédito; XGBoost.
1. Introdução
O crédito ao consumidor desempenha um papel fundamental na economia, pois facilita a aquisição de bens e serviços, impulsionando o consumo. Contudo, a expansão do crédito traz consigo o desafio da gestão do risco, que exige metodologias eficazes para sua mensuração e controle.
O risco de crédito é compreendido como a mensuração da incerteza quanto ao recebimento futuro de um valor acordado, a ser quitado pelo tomador de empréstimo (Gonçalves et al., 2013). Dentro desse contexto, o risco de inadimplência, que se refere ao descumprimento da obrigação de pagamento de uma operação de crédito, representa uma das principais preocupações para as instituições financeiras (Çallı e Coşkun, 2021; Duffie e Singleton, 2003).
A gestão eficaz do risco de crédito é essencial para a saúde financeira das instituições, permitindo a alocação criteriosa de recursos e a prevenção de prejuízos. A inadimplência é influenciada por uma variedade de fatores, incluindo características do tomador, condições do empréstimo e variáveis macroeconômicas (Camargos et al., 2010). A compreensão desses elementos é crucial para o desenvolvimento de modelos preditivos precisos.
Nesse cenário, modelos de classificação binária são amplamente empregados para prever a probabilidade de um cliente se tornar inadimplente. A regressão logística, por exemplo, é uma técnica estatística tradicional e popular na modelagem de eventos binários, valorizada por sua interpretabilidade e capacidade de identificar a contribuição de cada fator para o risco (Hosmer et al., 2013; Araújo e Carmona, 2009; Gonçalves et al., 2013).
No entanto, a regressão logística pode apresentar limitações ao lidar com relações não lineares complexas e interações significativas entre variáveis (Coelho et al., 2021). Em contrapartida, os métodos de “ensemble”, como o “boosting” (Friedman, 2001; Zhou, 2012), que incluem algoritmos como LightGBM e XGBoost (Chen e Guestrin, 2016; Ponsam et al., 2021), têm demonstrado alta performance preditiva ao capturar padrões complexos nos dados. A literatura aponta, contudo, uma lacuna na conexão entre modelos de alta performance e aqueles que oferecem boa interpretabilidade (Baesens et al., 2016; Lessmann et al., 2015).
Diante dessa problemática, surge a demanda por modelos que aliem bom desempenho preditivo à capacidade de explicar os fatores que influenciam a inadimplência. A interpretabilidade é crucial para justificar decisões de crédito a reguladores, gestores e clientes. Para mitigar o caráter de “caixa preta” dos modelos de “ensemble”, a técnica SHAP (SHapley Additive exPlanations) oferece uma abordagem unificada para interpretar as previsões, atribuindo a cada característica um valor que representa sua contribuição (Lundberg e Lee, 2017).
Assim, a presente pesquisa é justificada pela necessidade de aprofundar a compreensão sobre o equilíbrio entre a capacidade preditiva e a interpretabilidade dos modelos no contexto de risco de crédito, utilizando uma base de dados real de inadimplência. Desta forma, o objetivo principal deste trabalho é investigar e comparar a eficácia da regressão logística e de técnicas de “ensemble”, especificamente os modelos de “boosting” como LightGBM e XGBoost, na previsão de inadimplência, e analisar a interpretabilidade de suas previsões por meio da técnica SHAP.
2. Material e Métodos
Neste estudo, adotou-se uma metodologia quantitativa e aplicada, com foco na análise comparativa do desempenho preditivo entre diferentes modelos estatísticos e de aprendizado de máquina. A pesquisa possui caráter experimental, pois foram realizados testes práticos com um conjunto de dados real, avaliando o comportamento dos modelos em diversas métricas de desempenho.
A abordagem metodológica empregada foi comparativa, confrontando a regressão logística, um método tradicional na modelagem de risco de crédito, com os modelos de
ensemble
LightGBM e XGBoost. Esses modelos foram selecionados por sua capacidade de capturar relações não lineares e interações complexas entre variáveis, permitindo avaliar se o desempenho preditivo superior dos modelos de
boosting
justifica sua maior complexidade em relação à regressão logística.
O objeto empírico da pesquisa foi o conjunto de dados “Home Credit Default Risk”, disponibilizado publicamente pela empresa “Home Credit Group”. Este
dataset
contém informações detalhadas sobre empréstimos e o histórico de pagamento de clientes, abrangendo variáveis socioeconômicas, dados de
bureau
de crédito e histórico de pagamentos anteriores.
A variável dependente, que representa a inadimplência, é do tipo binário, indicando se o cliente apresentou inadimplência (valor 1) ou se realizou o pagamento normalmente (valor 0). Observou-se que o
dataset
é desbalanceado, com aproximadamente 8% de clientes inadimplentes, o que foi considerado um desafio adicional para a modelagem preditiva.
O pré-processamento dos dados foi uma etapa crucial para garantir a qualidade e a consistência dos modelos. Inicialmente, os nomes das colunas originais foram traduzidos para português e convertidos para minúsculo, visando facilitar a interpretação e a padronização no trabalho.
Em seguida, realizou-se a engenharia de atributos, criando novas variáveis para aprimorar a capacidade preditiva e a interpretabilidade dos modelos. Foram geradas variáveis como idade_anos, calculada a partir de dias_nascimento, e diversos índices financeiros, incluindo credito_por_renda, anuidade_por_renda, credito_por_anuidade e credito_por_valor_bens. Valores anômalos na variável dias_empregado foram tratados como ausentes.
Para o tratamento de valores ausentes, adotou-se uma estratégia de remoção de variáveis que apresentavam uma proporção de dados faltantes superior a 20%. Essa abordagem buscou evitar a inclusão de atributos com baixa disponibilidade de informação, que poderiam comprometer a qualidade das análises subsequentes.
As variáveis categóricas remanescentes foram transformadas em variáveis numéricas por meio da técnica de
one-hot encoding
. Posteriormente, as variáveis numéricas foram padronizadas utilizando
StandardScaler
, garantindo que todas estivessem na mesma escala e contribuindo para a estabilidade dos modelos.
Foram implementados e comparados três modelos preditivos: Regressão Logística, LightGBM e XGBoost. A Regressão Logística foi implementada com parâmetros padrão e balanceamento de classes (
class_weight = “balanced”
), sem otimização de hiperparâmetros, para servir como base de comparação.
O LightGBM foi implementado utilizando a biblioteca LightGBM, com balanceamento de classes e otimização dos hiperparâmetros
n_estimators
(100 e 200) e
num_leaves
(31 e 50) por meio do
GridSearchCV
. O XGBoost foi implementado com a biblioteca XGBoost, utilizando balanceamento de classes via
scale_pos_weight
e otimização dos hiperparâmetros
n_estimators
(100 e 200) e
max_depth
(3 e 5) também por meio do
GridSearchCV
.
Para a otimização dos modelos LightGBM e XGBoost, utilizou-se validação cruzada estratificada com 3
folds
, mantendo a proporção entre as classes em cada divisão. A seleção da melhor combinação de hiperparâmetros foi baseada na métrica AUC-ROC. Os dados foram divididos em conjuntos de treino (80%) e teste (20%) de forma estratificada, preservando a proporção da variável alvo.
A Regressão Logística é uma técnica estatística amplamente utilizada para modelagem de
credit scoring
, adequada para problemas de classificação binária, como a previsão de inadimplência (Araújo e Carmona, 2009). O modelo estima a probabilidade de um evento ocorrer, sendo valorizado por sua interpretabilidade (Gonçalves et al., 2013; Hosmer et al., 2013).
Os métodos de
ensemble
, como LightGBM e XGBoost, combinam múltiplos modelos, geralmente árvores de regressão ou classificação, para obter um desempenho preditivo superior (Zhou, 2012). O
boosting
, em particular, constrói modelos sequencialmente, onde cada novo modelo é treinado para corrigir os erros dos modelos anteriores (Friedman, 2001; Chen e Guestrin, 2016; Ponsam et al., 2021).
Para avaliar o desempenho dos modelos no conjunto de teste, foram utilizadas as seguintes métricas: AUC-ROC (
Area Under the Receiver Operating Characteristic Curve
), que mede a capacidade de distinção entre as classes; o Índice de Gini, derivado da curva ROC; a Matriz de Confusão, que apresenta os verdadeiros positivos, falsos positivos, verdadeiros negativos e falsos negativos; e o Relatório de Classificação, que inclui precisão,
recall
e F1-score para cada classe.
Considerando o desbalanceamento da variável alvo, com predominância da classe de não inadimplentes, avaliou-se o desempenho dos modelos não apenas por métricas globais, como AUC-ROC, mas também por métricas sensíveis à classe minoritária, como
recall
, precisão e F1-score, que são cruciais para a identificação de inadimplentes.
Para interpretar as previsões dos modelos de
ensemble
(LightGBM e XGBoost), aplicou-se a técnica SHAP (
SHapley Additive exPlanations
). Esta abordagem unificada explica a saída de qualquer modelo de
machine learning
, atribuindo a cada característica um valor que representa sua contribuição para a previsão final (Lundberg e Lee, 2017).
A aplicação da técnica SHAP permitiu a geração de gráficos como o SHAP Summary Plot e o SHAP Feature Importance Plot (Bar), que ilustram a importância e o impacto de cada característica no modelo. Esses gráficos são fundamentais para entender como as variáveis influenciam as decisões de crédito, mitigando o caráter de “caixa preta” dos modelos de
ensemble
.
3. Resultados e Discussão
A presente seção detalha os achados da pesquisa, comparando o desempenho da regressão logística com os modelos de “ensemble” LightGBM e XGBoost na previsão de inadimplência, e explorando a interpretabilidade dos modelos de “boosting” por meio da técnica SHAP. Os resultados obtidos confirmam a capacidade preditiva superior dos métodos de “ensemble” em relação à regressão logística, embora com diferenças marginais, e destacam a importância de variáveis específicas na determinação do risco de crédito, conforme a análise SHAP. A discussão aborda o equilíbrio entre o desempenho preditivo e a interpretabilidade, um desafio central na modelagem de risco de crédito.
Desempenho Comparativo dos Modelos
A avaliação do desempenho dos modelos no conjunto de teste revelou que os modelos de “ensemble” LightGBM e XGBoost apresentaram uma capacidade discriminatória ligeiramente superior em comparação à regressão logística. O modelo de regressão logística obteve um valor de AUC-ROC de 0,746 e um Índice de Gini de 0,491. Em contraste, o LightGBM alcançou um AUC-ROC de 0,762 e um Índice de Gini de 0,524, enquanto o XGBoost demonstrou um desempenho marginalmente melhor, com um AUC-ROC de 0,764 e um Índice de Gini de 0,528. Esses valores indicam que ambos os modelos de “boosting” são mais eficazes na distinção entre clientes adimplentes e inadimplentes.
Essa vantagem, ainda que modesta, dos modelos de “ensemble” pode ser atribuída à sua capacidade de identificar padrões mais complexos e relações não lineares presentes nos dados, característica que a regressão logística, por sua natureza linear, não consegue capturar com a mesma eficácia. Contudo, é importante notar que o ganho prático observado foi limitado, uma vez que as métricas de desempenho dos três modelos permaneceram relativamente próximas. Além disso, a avaliação foi baseada em uma única divisão dos dados para teste, o que impede a afirmação de significância estatística das diferenças observadas entre os modelos.
Análise das Matrizes de Confusão
A análise das matrizes de confusão forneceu uma visão detalhada dos erros de classificação de cada modelo. A regressão logística identificou corretamente 38.940 clientes não inadimplentes (verdadeiros negativos) e 3.324 clientes inadimplentes (verdadeiros positivos). No entanto, classificou erroneamente 1.641 clientes inadimplentes como não inadimplentes (falsos negativos) e 17.598 clientes não inadimplentes como inadimplentes (falsos positivos).
Os modelos de “ensemble” demonstraram um desempenho superior na identificação de clientes inadimplentes. O LightGBM apresentou 40.094 verdadeiros negativos e 3.364 verdadeiros positivos, com 1.601 falsos negativos e 16.444 falsos positivos. O XGBoost obteve o maior número de verdadeiros negativos (40.358) e verdadeiros positivos (3.371), e o menor número de falsos negativos (1.594) e falsos positivos (16.180) entre os três modelos. Embora todos os modelos tenham classificado um número considerável de clientes adimplentes como inadimplentes (falsos positivos), esse comportamento é esperado em cenários com desbalanceamento da variável alvo e uso de limiar de decisão padrão de 0,5.
Relatórios de Classificação
Ao examinar as métricas de classificação, como precisão, recall e F1-score, observou-se um comportamento semelhante entre os modelos, especialmente para a classe predominante de não inadimplentes (classe 0). Para esta classe, todos os modelos apresentaram precisão muito alta, em torno de 0,96, indicando que as previsões de não ocorrência do evento são frequentemente corretas. O recall para a classe 0 variou entre 0,69 e 0,71, e o F1-score manteve-se elevado, aproximadamente entre 0,80 e 0,82.
Para a classe minoritária de inadimplentes (classe 1), a precisão foi consideravelmente baixa, variando entre 0,16 e 0,17, o que aponta para um número significativo de falsos positivos. Contudo, o recall para a classe 1 atingiu níveis mais razoáveis, entre 0,67 e 0,68, indicando que os algoritmos conseguiram identificar uma boa parte dos verdadeiros positivos, mesmo que à custa de um aumento nos falsos positivos, um comportamento comum em bases de dados desbalanceadas. O F1-score resultante para a classe 1, entre 0,26 e 0,28, reflete diretamente esse desbalanceamento entre precisão e recall.
O modelo XGBoost apresentou o melhor F1-score na classe 0 (0,82) e um recall ligeiramente maior na classe 1 (0,68) em comparação aos demais. O LightGBM ficou muito próximo, com F1-score de 0,81 para a classe 0 e 0,27 para a classe 1, e recall de 0,68 para a classe 1. A acurácia de ambos os modelos ficou em 71%. A regressão logística, por sua vez, ficou um pouco atrás, com F1-score de 0,80 para a classe 0 e 0,26 para a classe 1, e recall de 0,67 para a classe 1, resultando em uma acurácia de 69%.
As diferenças entre os modelos são pequenas, mas a regressão logística demonstrou um desempenho mais contido, associado à sua menor capacidade de capturar relações não lineares presentes nos dados. É crucial notar que, em aplicações de crédito, a escolha da métrica deve considerar as consequências dos erros. Um falso negativo, que classifica um inadimplente como adimplente, pode resultar em perdas financeiras. Assim, o recall da classe 1 é vital para identificar potenciais inadimplentes, enquanto a precisão avalia a correção das classificações de inadimplência.
Interpretabilidade com SHAP
A análise SHAP foi aplicada aos modelos LightGBM e XGBoost para compreender a contribuição das variáveis nas previsões. Ambos os modelos identificaram as variáveis `fonte_ext_3` e `fonte_ext_2` como as de maior impacto, indicando que essas fontes externas de “score” possuem uma forte capacidade preditiva no contexto analisado. Essa consistência na importância das variáveis entre os modelos de “ensemble” reforça a robustez dos achados.
Outras variáveis importantes incluíram as características de engenharia de atributos, como `credito_por_anuidade` e `credito_por_valor_bens`, além de `dias_empregado`, `dias_nascimento` (idade), gênero, escolaridade e posse de carro. A direção do impacto, conforme os gráficos SHAP, revelou que valores mais baixos de `fonte_ext_3` e `fonte_ext_2` tendem a aumentar a previsão de inadimplência. Por outro lado, valores mais altos de `dias_empregado` (indicando maior tempo de emprego) tendem a diminuir a previsão de inadimplência, enquanto valores mais altos de `dias_nascimento` (menor idade) tendem a aumentá-la.
A análise SHAP oferece transparência aos modelos de “ensemble”, que são frequentemente vistos como “caixas pretas”. Ao atribuir um valor a cada característica que representa sua contribuição para a previsão final (Lundberg e Lee, 2017), a técnica permite entender quais fatores mais contribuem para a classificação de risco de um cliente. Essa interpretabilidade é essencial para a validação do modelo e para a tomada de decisões de crédito, justificando as escolhas a reguladores, gestores e clientes.
Equilíbrio entre Interpretabilidade e Desempenho Preditivo
Os resultados deste estudo evidenciam um equilíbrio importante entre a interpretabilidade e o desempenho preditivo dos modelos. A regressão logística se destaca por sua capacidade de permitir uma leitura direta dos coeficientes estimados, o que facilita a compreensão do sentido e da intensidade da relação entre as variáveis explicativas e a probabilidade de inadimplência. Essa característica torna a regressão logística particularmente útil em contextos onde a explicação das decisões é tão relevante quanto a capacidade preditiva, conforme apontado por Hosmer et al. (2013).
Por outro lado, os modelos de “ensemble”, como LightGBM e XGBoost, apresentaram um desempenho ligeiramente superior nas métricas discriminatórias, sugerindo uma maior capacidade de capturar relações não lineares e interações mais complexas entre as variáveis. Esse comportamento é consistente com a literatura de “credit scoring”, que indica que técnicas mais flexíveis tendem a obter ganhos marginais de desempenho em bases de dados complexas, embora geralmente à custa de menor transparência interpretativa (Coelho et al., 2021).
Nesse contexto, a utilização da técnica SHAP representa um recurso importante para reduzir a opacidade desses modelos, permitindo estimar a contribuição individual de cada variável para as previsões. Além de fornecer explicações globais sobre a importância das variáveis, a técnica também contribui para a interpretação local das decisões, o que é especialmente relevante em aplicações de risco de crédito, nas quais a justificativa do resultado é parte essencial do processo analítico. A literatura já destacava a relevância dessa tensão entre desempenho e interpretabilidade (Baesens et al., 2016; Lessmann et al., 2015), e este estudo reforça a necessidade de métodos explicativos para modelos mais complexos.
Limitações do Estudo
A avaliação dos modelos neste estudo foi realizada a partir de uma única divisão entre os conjuntos de treino e teste, o que pode limitar a robustez da comparação, embora a otimização dos modelos de “ensemble” tenha sido conduzida com validação cruzada estratificada de três folds. Adicionalmente, a regressão logística não passou por um processo de otimização de hiperparâmetros, e o limiar de decisão padrão de 0,5 foi utilizado para todos os modelos, o que pode ter influenciado as métricas de classificação, especialmente em um contexto de desbalanceamento de classes. Por fim, a análise foi baseada em uma única base de dados, o que restringe a generalização dos resultados para outros contextos de crédito ou diferentes perfis de clientes.
Em síntese, os resultados confirmam que os modelos de “ensemble” LightGBM e XGBoost oferecem um desempenho preditivo ligeiramente superior à regressão logística na previsão de inadimplência, capturando melhor as complexidades do conjunto de dados “Home Credit Default Risk”. A análise SHAP foi fundamental para interpretar a contribuição das variáveis, destacando a relevância de fontes externas de “score” e características financeiras. Este estudo reforça a importância de considerar tanto a capacidade preditiva quanto a interpretabilidade e o tratamento do desbalanceamento da variável alvo na avaliação de modelos de risco de crédito, buscando o melhor compromisso para o contexto de decisão.
4. Conclusão
O presente estudo investigou a eficácia da regressão logística e de técnicas de “ensemble”, como LightGBM e XGBoost, na previsão de inadimplência, e analisou a interpretabilidade de suas previsões. Verificou-se que os modelos de “ensemble” demonstraram uma capacidade preditiva ligeiramente superior em comparação à regressão logística, conforme indicado por métricas como AUC-ROC e Índice de Gini. O XGBoost, em particular, obteve um desempenho marginalmente melhor, com um AUC-ROC de 0,764. Embora as diferenças nas métricas discriminatórias fossem modestas, os métodos de “boosting” revelaram maior aptidão para capturar padrões complexos nos dados. A análise SHAP foi fundamental para desvendar a contribuição das variáveis nos modelos de “ensemble”, destacando a importância de `fonte_ext_3`, `fonte_ext_2`, `credito_por_anuidade` e `dias_empregado` como fatores preditivos cruciais. Essa interpretabilidade é essencial para a validação do modelo e para a tomada de decisões de crédito, oferecendo transparência a modelos frequentemente considerados “caixas pretas”.
A principal contribuição deste trabalho reside na demonstração do equilíbrio entre o desempenho preditivo e a interpretabilidade no contexto de risco de crédito, reforçando a necessidade de métodos explicativos para modelos mais complexos. Contudo, o estudo apresentou limitações, como a avaliação dos modelos a partir de uma única divisão entre os conjuntos de treino e teste, a ausência de otimização de hiperparâmetros para a regressão logística e o uso de um limiar de decisão padrão de 0,5 para todos os modelos, o que pode ter influenciado as métricas de classificação em um cenário de desbalanceamento de classes. Além disso, a análise foi baseada em uma única base de dados, restringindo a generalização dos resultados. Sugere-se, para estudos futuros, a avaliação dos modelos com diferentes estratégias de tratamento do desbalanceamento, incluindo técnicas de “oversampling” e ajuste do limiar de decisão, bem como a aplicação de procedimentos estatísticos para avaliar a significância das diferenças de desempenho em diversas bases de crédito.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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