Artigo

17 de setembro de 2026

Comparação de Práticas Comerciais de Importações Chinesas e Produtores Locais da Indústria Química

César Lepri Valério; José Manuel Baptista Meireles De Sousa

DOI: 10.22167/2675-6528-202602489

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A indústria química global enfrenta a crescente dominância da China, maior produtora mundial, cujas exportações geram ambiguidade nos mercados locais, como o Brasil, onde a indústria nacional se defende da concorrência. O estudo comparou a competitividade de produtos químicos importados da China com os produzidos localmente no Brasil, buscando entender as práticas competitivas da indústria nacional e a eficácia de suas defesas. Realizou-se um levantamento de campo com 72 membros da indústria química brasileira entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026. Adicionalmente, analisaram-se dados de importação via Trademap.org até 2025 para códigos HS específicos e grupos químicos, utilizando as ferramentas Diamante de Porter e Cinco Forças de Porter. Os resultados indicaram que a concorrência chinesa se caracterizou por baixos preços e crescente participação de mercado. A redução de preços pela indústria local mostrou-se menos eficaz como defesa do que a mudança de foco para produtos com diferencial tecnológico, comercial ou logístico. As importações chinesas, em geral, apresentaram preços mais baixos e maior participação, embora com variações por produto e impacto de medidas antidumping ou alíquotas. Concluiu-se que a China possui vantagens em escala produtiva e custos, enquanto a indústria brasileira deve priorizar produtos com diferenciação para manter sua competitividade.

Palavras-chave: Brasil; China; Competitividade; Mercado; Preço.

1. Introdução

Nas últimas décadas, a economia chinesa experimentou um crescimento notável, impulsionando o desenvolvimento interno, a qualidade de vida, a renda per capita e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Essa evolução singular transformou a China no segundo maior Produto Interno Bruto (PIB) mundial, superada apenas pelos Estados Unidos da América. O ritmo de crescimento, embora contínuo, demonstrou uma desaceleração, passando de 152% entre 2001 e 2010 para 73% na década seguinte e 24% entre 2020 e 2024.

Apesar de manter taxas de crescimento elevadas em comparação com a maioria dos países, o ritmo atual está abaixo das expectativas do governo chinês. Para sustentar o crescimento contínuo e a estrutura produtiva já estabelecida, as exportações de bens manufaturados ganharam maior relevância, uma vez que o consumo interno não é mais suficiente para absorver toda a capacidade produtiva instalada. Nesse contexto, em 2013, foi lançada a iniciativa “Belt and Road”, visando expandir a participação chinesa em diversos mercados globais, incluindo Europa, África e Sudeste Asiático. Contudo, a entrada de produtos chineses com custos de manufatura reduzidos levou à criação de restrições e regulamentações por parte de alguns países, especialmente na Europa, para proteger suas indústrias locais da deflação de preços (Qiu e Zhan, 2016).

A indústria química chinesa, em particular, cresceu significativamente, impulsionada pela estratégia governamental. Sua participação no mercado global aumentou de 13,2% em 2006 para 39,6% em 2016, e em 2020, seu crescimento anual equivalia à totalidade da indústria química brasileira (Grimes, 2023). Grande parte dessa produção é destinada à exportação, e o Brasil se destaca como um dos principais mercados receptores, devido às baixas barreiras tarifárias, regulatórias e tecnológicas.

Para o Brasil, a importação de produtos químicos externos é essencial, dada a limitada capacidade tecnológica e o reduzido parque fabril nacional, que não consegue suprir a totalidade da demanda interna. No entanto, a chegada de produtos químicos chineses, que muitas vezes possuem similares nacionais, impacta de forma agressiva o desempenho da indústria local. A ausência de restrições significativas permite que os produtos chineses, com custos mais baixos, pressionem os preços da indústria nacional, levando à deflação e à redução das margens de lucro, o que pode comprometer a viabilidade das operações locais.

Diante desse cenário, torna-se crucial compreender as práticas competitivas empregadas pela indústria química chinesa em suas exportações para o Brasil, bem como as estratégias de defesa adotadas pela indústria local. A análise dessas dinâmicas é fundamental para identificar as ferramentas mais eficazes na proteção do mercado nacional. Desta forma o objetivo deste estudo será a comparação das práticas concorrenciais da indústria química chinesa em suas exportações para o Brasil contra a indústria local e verificar a eficácias das ferramentas de defesa competitiva que esta utiliza.

2. Material e Métodos

O presente estudo adotou uma abordagem metodológica mista, combinando a coleta de dados primários por meio de um levantamento de campo com a análise de dados secundários. O objetivo foi comparar as práticas concorrenciais da indústria química chinesa em suas exportações para o Brasil com as estratégias de defesa da indústria local, avaliando a eficácia dessas ferramentas competitivas. A pesquisa caracterizou-se como exploratória e descritiva, empregando uma abordagem qualitativa para o levantamento de campo e quantitativa para a análise de dados de comércio exterior.

Para a coleta de dados primários, realizou-se um levantamento de campo com membros da indústria química brasileira. O instrumento de coleta foi um questionário online, desenvolvido na plataforma Google Forms, composto por 15 perguntas. Este questionário foi estruturado com lógica de ramificação, direcionando os respondentes a perguntas específicas com base em suas respostas anteriores, visando verificar a ligação dos participantes com a indústria e seu nível de experiência no mercado.

O levantamento de campo foi conduzido integralmente online, entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, e contou com a participação de 72 respondentes. Para assegurar a integridade e a segurança dos participantes, a coleta foi realizada de forma anônima, sem a obtenção de dados pessoais, garantindo que as respostas sobre práticas comerciais sensíveis não pudessem causar prejuízo. Os dados coletados foram extraídos para o software MS Excel, onde foram organizados e preparados para tratamento.

Complementarmente, para a coleta de dados secundários, utilizou-se a ferramenta online Trademap.org. Esta etapa teve como objetivo obter informações objetivas sobre o fluxo de importações da China para o Brasil, incluindo volume e valor, e comparar esses dados com importações de outras origens. Os dados de importação do Trademap.org foram considerados até o ano de 2025.

A seleção dos produtos químicos para análise via Trademap.org baseou-se em critérios como sua importância para a economia local, a participação da indústria nacional em sua produção e a relevância da China como produtor ou exportador. Foram selecionados códigos de classificação fiscal (HS codes) específicos, como Sulfato de Amônio (3102.21), Polipropileno (3902.10), Poliéteres (3907.29) e Heterocíclicos (2933.39).

Adicionalmente, foram considerados os grupos de Químicos Orgânicos (HS 29), Químicos Inorgânicos (HS 28), Fertilizantes (HS 31) e Químicos Diversos (HS 38). Além das informações de importação, dados complementares foram obtidos de fontes públicas, como balanços financeiros, portais governamentais, portais corporativos e literatura especializada, para subsidiar as análises competitivas.

Para a análise dos dados, empregaram-se duas ferramentas estratégicas de Michael Porter. O Diamante de Porter (Porter, 1989) foi utilizado para mapear os quatro fatores que diferenciam a indústria química chinesa da indústria química local, permitindo uma compreensão das vantagens competitivas de cada lado.

Adicionalmente, as Cinco Forças de Porter (Porter, 1979) foram aplicadas para comparar a concorrência entre a indústria química instalada no Brasil e a indústria química exportadora chinesa. Esta ferramenta auxiliou na avaliação da ameaça de novos entrantes, ameaça de produtos substitutos, poder de barganha dos compradores, poder de barganha dos fornecedores e rivalidade entre os concorrentes (Johnson et al., 1998; Hitt et al., 2007).

A aplicação combinada dessas ferramentas permitiu uma análise abrangente das práticas comerciais e das estratégias de defesa. Os procedimentos metodológicos foram desenhados para fornecer uma base sólida para a comparação das dinâmicas competitivas e a avaliação da eficácia das respostas da indústria brasileira.

3. Resultados e Discussão

A análise dos resultados revelou um cenário complexo e dinâmico na competitividade da indústria química brasileira frente às importações chinesas, com achados que corroboram e aprofundam a compreensão das práticas concorrenciais e das estratégias de defesa. O levantamento de campo, realizado com 72 membros da indústria química nacional, forneceu percepções valiosas sobre a atuação dos produtores locais e a intensidade da concorrência, enquanto a análise de dados de comércio exterior, utilizando o Trademap.org, quantificou a participação e o comportamento de preços de produtos químicos específicos. A aplicação das ferramentas Diamante de Porter e Cinco Forças de Porter permitiu uma avaliação estruturada das vantagens competitivas da China e das vulnerabilidades e oportunidades da indústria brasileira, conforme o objetivo do estudo de comparar as práticas concorrenciais e verificar a eficácia das ferramentas de defesa competitiva.

Levantamento de Campo

O levantamento de campo, composto por 15 perguntas, demonstrou que a maioria dos respondentes possui experiência significativa no mercado, com 87,5% atuando há mais de cinco anos. A distribuição das áreas de atuação, com aproximadamente 35% na área comercial e 42% na técnica, indica que os participantes possuem contato direto com o mercado, clientes, concorrentes e fornecedores, o que confere credibilidade às suas percepções sobre as dinâmicas competitivas. A pesquisa confirmou uma participação relevante tanto de representantes da indústria local quanto de importadores, permitindo uma visão abrangente do mercado.

A concorrência chinesa é uma realidade inegável para a indústria nacional. Mais de 90% dos fabricantes nacionais entrevistados afirmaram enfrentar competição direta de produtos químicos importados da China. Entre os importadores, embora a Europa tenha sido a origem principal para 70% das escolhas, a China foi indicada por 63% deles, evidenciando sua forte presença no mercado brasileiro. Essa percepção dos produtores nacionais, que veem a concorrência chinesa em mais de 90% dos casos, contrasta com a visão dos importadores, que importam pouco mais de 60% da China, sugerindo que a compra direta da China pelo cliente final, sem intermediário local, pode justificar parte dessa divergência.

Em relação à competitividade, os produtos produzidos localmente foram caracterizados como “Muito menos competitivos” ou “Menos competitivos” por uma parcela significativa dos respondentes quando comparados aos produtos chineses. Similarmente, os produtos importados de outras regiões também foram percebidos como menos competitivos em relação aos chineses. Os resultados indicaram que a participação chinesa no mercado tem aumentado de forma substancial nos últimos cinco anos, o que reforça a percepção de uma defasagem competitiva dos produtos de outras origens em comparação com os chineses.

O preço foi apontado por 68 respondentes como o principal diferencial competitivo dos produtos importados da China, destacando a agressividade comercial do exportador asiático. Em contrapartida, o diferencial tecnológico e o suporte técnico comercial foram fatores menos selecionados como relevantes. Quando questionados sobre as estratégias de defesa de mercado, a flexibilização de condições comerciais e a redução de preços foram as práticas mais utilizadas pela indústria local, ambas citadas por 41 respondentes. No entanto, a estratégia considerada mais eficaz, com 33 respostas, foi a mudança de foco para linhas de produtos que apresentassem diferencial tecnológico, logístico ou comercial.

Essa divergência entre as práticas mais utilizadas e a mais eficaz sugere uma cronologia de defesa. A redução de preços e a flexibilização de condições comerciais são medidas de reação rápida, implementadas sem grandes mudanças de infraestrutura. Contudo, para manter margens de contribuição saudáveis, a mudança de foco para produtos diferenciados emerge como a alternativa estratégica mais sustentável. A menor utilização da estratégia mais eficaz pode ser um indicativo de que a sua implementação demanda mais tempo e recursos, sendo adotada após a exaustão das medidas de curto prazo, ou quando as margens de lucro já estão comprometidas.

Quanto às medidas governamentais, como aumento de tarifas e ações antidumping, mais de um terço dos respondentes (25) as consideraram insuficientes para a estabilidade da indústria local no longo prazo, enquanto 26 as viram como suficientes apenas no curto prazo. Quase 80% dos participantes (56) citaram que as importações chinesas ameaçam a indústria local devido a práticas comerciais inatingíveis pela produção doméstica. No entanto, mais da metade dos respondentes concordou que a disponibilidade de novas tecnologias aumenta com essa concorrência. A expectativa para os próximos 10 anos é de um aumento da participação de mercado dos produtos chineses, seja significativamente ou moderadamente, conforme a percepção de quase 90% dos respondentes.

Dados de Comércio Exterior de Produtos Químicos Envolvendo a Relação Brasil e China

A análise dos dados de comércio exterior confirmou a dominância da China na produção química global, respondendo por 44% da produção mundial em 2022 e sendo o maior mercado consumidor (Atkins, 2024). A China enfrenta uma capacidade produtiva que excede a demanda global, com um excedente de aproximadamente 222 milhões de toneladas em 2024 para seis blocos de químicos derivados do petróleo (Berry, 2024). Para escoar essa produção, a China tem intensificado suas exportações por meio de programas como o “Belt and Road”.

O Brasil emergiu como o quarto maior destino das exportações chinesas em 2025, totalizando aproximadamente 12 bilhões de dólares, e foi o mercado de maior crescimento para a China, com um aumento de 2,14 bilhões de dólares entre 2024 e 2025. Essa expansão se deu em diversas categorias de produtos químicos, incluindo orgânicos, inorgânicos e fertilizantes, conforme a versão de 2017 do sistema harmonizado de designação e codificação de mercadorias (HS). A relevância do Brasil como mercado para a China é estratégica, dada a necessidade de escoamento da produção chinesa e a demanda interna brasileira.

A análise de códigos HS específicos revelou comportamentos variados. O sulfato de amônio (código HS 3102.21), um fertilizante crucial para a agricultura brasileira, teve 99,9% de suas importações originadas da China em 2025, com um crescimento de 18,8% desde 2021. Curiosamente, os preços chineses nem sempre apresentaram vantagem em relação a outras origens entre 2021 e 2022, apesar do aumento da participação de mercado. Esse fenômeno pode ser explicado pelo fato de o Brasil ser o maior importador de sulfato de amônio (24% das importações em 2024) e a China o maior produtor e exportador (69% das exportações em 2024).

A produção de sulfato de amônio como subproduto da caprolactama na China, aliada à sua posição como principal destino das exportações agrícolas brasileiras (73% da soja, 49% da celulose e 33% do algodão em 2024, segundo Colussi et al., 2025), cria uma relação de interdependência. Enquanto a produção nacional de fertilizantes diminuiu de 9,81 milhões de toneladas em 2007 para 8,18 milhões em 2017 (Almeida e Volotão, 2020), o Brasil se tornou dependente das importações, principalmente da China, que possui a capacidade de suprir essa demanda. Isso demonstra que, para este item, a estratégia comercial se entrelaça com uma relação bilateral de fornecimento e demanda.

No caso do polipropileno (código HS 3902.10), os preços dos materiais importados da China mantiveram-se consistentemente abaixo dos de outros países nos últimos cinco anos. No entanto, a participação de mercado chinesa não apresentou um aumento significativo, exceto por um pico em 2024 de 19,1%, que regrediu para 13,1% em 2025. A implementação de um aumento na alíquota de importação de polipropileno de 12,6% para 20% em 2024 pode ter contribuído para essa redução, permitindo que países com preços mais altos e margens mais confortáveis aumentassem seu volume no Brasil. A indústria nacional, que supriu 76% do consumo brasileiro entre 2015 e 2021 (Silva, 2022), foi o alvo dessa medida protetiva.

Os poliéteres em formas primárias (código HS 3907.29) exibiram o perfil mais esperado, com aumento da participação chinesa acompanhado pela redução de preços. Contudo, a participação chinesa declinou em 2025 devido à aplicação de uma medida antidumping em julho de 2025 (Resolução Gecex n° 754/2025), que adicionou taxas de até US$1469,16/t. Essa medida governamental visou proteger a indústria local, que também produz poliéteres. O padrão de 2022 a 2024, com aumento da participação e redução do preço médio, exemplifica uma prática de concorrência de preço que supera vantagens competitivas nacionais, como logística e suporte.

O último item individualmente analisado, os heterocíclicos (código HS 2933.39), apresentou o maior valor unitário e a maior diferença de custo entre as importações chinesas e de outras origens. A China demonstrou clara dominância, com participação crescente e atingindo aproximadamente 64% de todas as importações em 2025. Embora não haja uma relação direta entre o ganho de mercado e a redução de preços, a diferença substancial de preço médio sugere que outros fatores, como o aumento da capacidade produtiva chinesa e a atratividade do mercado, impulsionam essa participação. Não foram identificadas medidas tarifárias ou antidumping para este item.

Em relação aos grupos de produtos químicos (HS 28, 29, 31 e 38), a participação percentual da China no volume de importações aumentou em todos os grupos entre 2021 e 2025, mesmo que de forma não contínua. Os preços médios das importações não apresentaram um comportamento uniforme entre os grupos. Notavelmente, em alguns grupos, como o 29 e o 38, a participação chinesa aumentou mesmo com o aumento do preço médio, contrariando a relação inversamente proporcional esperada. No grupo 31, o crescimento da participação não foi acompanhado por uma queda proporcional no preço médio, indicando um forte diferencial competitivo dos produtos chineses.

Comparação Competitiva

A análise do Diamante de Porter (Porter, 1989) para comparar a concorrência entre as importações chinesas e a indústria local revelou quatro pilares fundamentais. As condições de fatores na China são notavelmente robustas. O país possui reservas significativas de petróleo (26 bilhões de barris, com produção diária de 4,915 milhões de barris, similar ao Brasil), embora seja o maior importador global (553 milhões de toneladas em 2024). Além disso, a China detém enormes reservas minerais, incluindo carvão mineral abundante e eficiente, que, apesar de impactos ambientais, reduz os custos energéticos da produção química (IEA, 2025).

A China também se destaca por uma vasta força de trabalho disponível e um investimento massivo em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Em 2023, o crescimento dos gastos em P&D na China foi de 8,7%, superando significativamente o crescimento de países desenvolvidos como os Estados Unidos (1,7%) e a União Europeia (1,6%). Entre 2007 e 2023, o crescimento chinês em P&D atingiu quase 475%, enquanto os EUA cresceram 78%. Essa capacidade de inovação e a escala produtiva, que representou 45% das vendas globais de produtos químicos em 2024 (Moncef, 2025), conferem à China uma vantagem substancial em termos de fatores de produção.

As condições de demanda na China, embora ainda robustas, mostram uma desaceleração no crescimento do PIB (4,9% entre 2020 e 2024, comparado a 10,4% entre 2000 e 2010). Essa redução na aceleração pode ser um motivador para a China intensificar sua estratégia de exportação, como a “Belt and Road Initiative”, a fim de reduzir a ociosidade da capacidade produtiva instalada. A agressividade dessa estratégia é evidenciada pelo levantamento de campo, onde o preço foi o principal diferencial competitivo dos produtos chineses, impactando diretamente a demanda nos mercados de destino.

Em relação aos setores correlatos e de apoio, a China, como a segunda maior economia mundial, possui uma infraestrutura logística incomparável. Com 34 portos principais e mais de 2000 portos menores, o país é a maior potência portuária global, com seis de seus portos entre os dez mais movimentados do mundo em 2024. O porto de Xangai, por exemplo, movimentou 51,51 milhões de TEU, quase dez vezes mais que o porto de Santos. Essa infraestrutura, combinada com a verticalização da indústria química, garante uma cadeia de suprimentos eficiente e custos logísticos reduzidos, o que é crucial para o escoamento da produção global (Lloyd’s List, 2025).

A estratégia corporativa, estrutura e concorrência na China são marcadas pela forte participação governamental. Desde 2017, mais de 390 mil empresas chinesas possuem alguma participação estatal (Allen et al., 2022). As principais indústrias químicas, como Sinopec e PetroChina, têm participação significativa do governo, sendo a petroquímica classificada como indústria de “controle absoluto”. Essa intervenção governamental confere um diferencial competitivo, pois os objetivos de um governo podem ser distintos dos de uma organização privada, o que pode influenciar as práticas comerciais externas e a capacidade de suportar preços mais baixos para ganhar mercado.

As Cinco Forças de Porter

A análise das Cinco Forças de Porter, aplicada para comparar a indústria química brasileira e a chinesa, oferece uma perspectiva sobre a rivalidade competitiva. A ameaça de novos entrantes no mercado brasileiro é moderada, pois os competidores teriam que superar barreiras como os custos mais elevados de produção em outras regiões (Mercosul, Europa, América do Norte) e a menor eficiência logística em comparação com a China e a indústria local. Embora países asiáticos como Coreia do Sul e Índia possuam escala industrial e logística, apenas a Índia possui acordos comerciais ativos com o Brasil, o que representa uma barreira adicional para os demais.

A ameaça de substitutos para a indústria química como um todo é baixa, dada sua função como fornecedora de inúmeras outras indústrias. Contudo, a ameaça mais provável é a substituição da indústria química nacional pela importada, levando à dependência do Brasil de produtos externos, principalmente da China. A vasta escala produtiva chinesa, sua capacidade ociosa, logística superior e subsídios governamentais tornam o mercado de química básica no Brasil não competitivo, direcionando a indústria local para produtos que exigem maior serviço técnico, comercial ou logístico, ou que atendam a requisitos regulatórios específicos.

O poder de negociação com fornecedores para a indústria brasileira é favorável. O Brasil possuía 984 plantas produtivas de químicos industriais em 2022 (Abiquim), concentradas no Sul e Sudeste, mas com grande oferta e variedade de fornecedores, o que equilibra a relação em favor da indústria. Em contraste, a China, com mais de 23 mil companhias químicas em 2017 (Chen e Reniers, 2020), possui uma disponibilidade de fornecedores muito superior, o que contribui para seus custos mais baixos e maior escala.

O poder de negociação com clientes também é favorável à indústria química brasileira, devido à diversidade de setores atendidos (agricultura, construção civil, automotiva, farmacêutica) e à escala reduzida da produção nacional. Enquanto a China tem vantagem no preço, a indústria brasileira pode oferecer melhor qualidade de serviço e produtos customizados, beneficiando-se da proximidade com os clientes. A capacidade de atender demandas específicas, que a produção chinesa em larga escala pode ter dificuldade em suprir, representa um diferencial para os produtores locais.

A rivalidade competitiva entre as indústrias químicas chinesa e brasileira é acentuada pelas diferenças em escala, estrutura de custos e apoio governamental. A China, com quase 50% da produção mundial de químicos, possui uma cadeia de fornecedores completa e custos fixos menores, o que lhe confere uma enorme vantagem em produtos de química básica. Em contrapartida, os mercados que demandam maior nível de serviço técnico, comercial ou logístico, ou que possuem requerimentos e legislações peculiares, oferecem uma vantagem para os produtores locais, que podem se diferenciar e manter sua competitividade.

Em síntese, a pesquisa demonstrou que a concorrência chinesa no mercado químico brasileiro é impulsionada principalmente por preços baixos e uma escala produtiva massiva, resultando em um aumento significativo da participação de mercado chinês em diversos segmentos. A indústria brasileira, por sua vez, tem utilizado a redução de preços e a flexibilização comercial como principais estratégias de defesa, embora a mudança de foco para produtos com diferenciação tecnológica, comercial ou logística tenha se mostrado a mais eficaz. Os dados de comércio exterior e as análises de Porter confirmam as vantagens estruturais da China e a necessidade da indústria local em buscar nichos de mercado e diferenciação para sustentar sua competitividade e responder ao objetivo do estudo.

4. Conclusão

O presente estudo comparou as práticas concorrenciais da indústria química chinesa em suas exportações para o Brasil com as estratégias de defesa adotadas pela indústria local, avaliando a eficácia destas ferramentas. Verificou-se que a concorrência chinesa se caracterizou por preços baixos e um crescimento expressivo da participação de mercado em diversos segmentos, impulsionada por vantagens estruturais como vasta escala produtiva, custos de energia reduzidos, infraestrutura logística superior e significativo apoio governamental. Em contrapartida, a indústria brasileira utilizou a redução de preços e a flexibilização de condições comerciais como principais medidas de reação. Contudo, os achados indicaram que a estratégia mais eficaz para a indústria nacional foi a mudança de foco para linhas de produtos com diferencial tecnológico, comercial ou logístico, permitindo a manutenção de margens de lucro saudáveis frente à agressividade de preços do concorrente asiático. A análise revelou que, embora as importações chinesas apresentem preços mais competitivos na maioria dos casos, a dinâmica de mercado varia por produto, sendo influenciada por fatores como medidas antidumping e alíquotas de importação.

A principal contribuição deste trabalho reside na elucidação das vantagens competitivas da China e na identificação de estratégias defensivas mais sustentáveis para a indústria química brasileira. Observou-se que a dependência do Brasil por importações de produtos químicos básicos, especialmente da China, é crescente, o que pressiona a indústria local a buscar nichos de mercado e diferenciação. As limitações do estudo incluíram a natureza perceptiva de parte dos dados do levantamento de campo e a indisponibilidade de dados de mercado local para comparação direta em alguns casos. Para a indústria brasileira, os resultados sugerem a necessidade de priorizar o desenvolvimento e a comercialização de produtos com valor agregado, serviço técnico especializado ou que atendam a requisitos regulatórios específicos, como forma de sustentar sua competitividade a longo prazo e mitigar os impactos da concorrência de preço. Estudos futuros poderiam aprofundar a análise sobre a implementação dessas estratégias de diferenciação e seus resultados em diferentes subsegmentos da indústria química nacional.

Referências Bibliográficas

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Grimes, S.; 2023. China’s Evolving Role in the Chemical Global Value Chain. The Chinese Economy volume 56:6: 441 e 458

Hitt, M.A.; Hoskisson, R.E.; Ireland, R.D.; 2007. Strategic Management, Competitiveness and Globalization Concepts and Cases. 7ed. Thomson Southwestern, Mason, OH, USA.

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Silva, F.; 2022. Polipropileno: mercado nacional e tendências. Disponível em: . Acesso em: 14 mar. 2026.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

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22 de outubro de 2026

Observatório Digital da Amazônia: Ciência de Dados Aplicada à Análise de Indicadores Sociais, Econômicos, Ambientais e de Saúde

O estado do Amazonas enfrentou desafios históricos na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), decorrentes de barreiras geográficas, desigualdades socioeconômicas e limitações estruturais. Descreveu-se, neste estudo, o desenvolvimento e a implementação de um geoportal de informações em saúde, concebido para apoiar o monitoramento, a avaliação e o planejamento no contexto amazônico. Adotou-se uma abordagem de estudo de caso descritivo, baseada em análise documental e dados secundários, abrangendo o mapeamento de funcionalidades, a infraestrutura técnica e as etapas de validação da ferramenta. O Portal foi desenvolvido com tecnologias abertas e integrou múltiplas bases de dados nacionais, oferecendo dashboards interativos, mapas temáticos e repositório digital de documentos. Entre os resultados, destacaram-se a visualização georreferenciada de indicadores-chave, a possibilidade de análises comparativas temporais e a utilização da plataforma na revisão de planos de saúde e no redirecionamento de ações estratégicas. O portal pode representar um avanço na governança digital e na gestão baseada em evidências, com potencial de replicabilidade para outros territórios de alta complexidade, desde que acompanhada de investimentos em infraestrutura tecnológica, capacitação profissional e articulação interinstitucional.

Palavras-chave: Amazônia; Avaliação em Saúde; Saúde Digital; Sistemas de Informação em Saúde.

22 de outubro de 2026

Aprendizado Contínuo como Fator de Crescimento Organizacional na Percepção dos Colaboradores

O impacto do aprendizado contínuo e da gestão do conhecimento no crescimento das organizações foi estudado em um cenário de globalização e constantes mudanças. O objetivo do estudo foi analisar a percepção dos colaboradores sobre a cultura de aprendizagem e sua importância para o desenvolvimento pessoal e profissional. Os dados foram obtidos por meio de uma pesquisa anônima, de abordagem quantitativa, utilizando um formulário com questões do tipo “survey” aplicado a 87 profissionais dos setores de tecnologia, saúde, educação, comércio e serviços. Os resultados indicaram que os colaboradores possuíam uma percepção positiva sobre a contribuição do aprendizado contínuo para o crescimento pessoal e organizacional, reconhecendo seus benefícios para o desenvolvimento de novas habilidades, inovação e competitividade. Contudo, observou-se que o incentivo à troca de conhecimento interno e a oferta de treinamentos práticos ainda apresentavam médias moderadas de concordância. Concluiu-se que o aprendizado contínuo contribui significativamente para o desenvolvimento individual e organizacional, sugerindo que as empresas devem desenvolver políticas estratégicas de aprendizado direcionado para novas habilidades, visando maior vantagem competitiva e inovação.

Palavras-chave: Aprendizagem contínua; Autodesenvolvimento; Crescimento organizacional; Gestão do conhecimento; Inovação.

22 de outubro de 2026

Previsão da Inadimplência Agregada no Sistema Financeiro Brasileiro por Modelo Sarimax com Variáveis Macroeconômicas

A inadimplência agregada no sistema financeiro brasileiro é um indicador crucial de risco de crédito, cuja previsão é regulamentada pelas Resoluções CMN n.° 4.557/2017 e 4.966/2021 para a mensuração prospectiva de perdas esperadas. Modelou-se e previu-se a inadimplência agregada por meio do modelo SARIMAX, projetando sua trajetória até dezembro de 2026 sob cenários otimista, base e pessimista. Utilizaram-se 164 observações mensais (julho/2012 a fevereiro/2026) e variáveis macroeconômicas como desemprego, Selic, IPCA, IBC-Br e endividamento das famílias. A especificação com variáveis contemporâneas foi selecionada com base em critérios de informação e estabilidade dos coeficientes, e o diagnóstico dos resíduos confirmou adequação estatística, com MAPE de 3,12%. A inadimplência histórica variou entre 4,33% e 7,64%. A estimação identificou o desemprego (β = 0,2534; p < 0,001) e a Selic (β = 0,2128; p < 0,001) como principais determinantes positivos, com forte persistência temporal (AR(1) = 0,8965). A Selic exibiu correlação crescente com a inadimplência (r = 0,62 no lag 12), enquanto o desemprego demonstrou efeito contemporâneo (r = 0,33). As projeções indicaram inadimplência entre 6,30% e 7,98% em dezembro de 2026, com uma amplitude de 1,68 ponto percentual, evidenciando implicações diretas para o dimensionamento de provisões nas instituições financeiras. Palavras-chave: Desemprego; Modelagem preditiva; Política monetária; Provisão de perdas; Séries temporais.

22 de outubro de 2026

Fatores de Engajamento das Partes Interessadas na Transferência Internacional de Tecnologia para um Hospital Público

Este estudo descreveu os fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia em um hospital público, com foco no planejamento. O objetivo foi descrever esses fatores condicionantes, conforme a percepção de profissionais. Realizou-se um estudo de caso único, aplicando um questionário a 25 profissionais e utilizando análise de conteúdo, complementada por tabulações descritivas. Os principais obstáculos identificados foram resistência à mudança (72%), financiamento (64%), falta de comunicação (60%) e burocracia (40%). Apenas 28% dos respondentes reconheceram a existência de ferramentas adequadas para gestão de stakeholders, enquanto 48% negaram e 24% não souberam informar. Cruzamentos exploratórios indicaram variações na avaliação de influência conforme o tempo de atuação, mas não estabeleceram relações causais. A falta de engajamento foi associada a atrasos, baixa adesão, desperdício de recursos, falhas de comunicação, comprometimento da absorção de conhecimento e riscos à segurança do paciente. As conclusões restringiram-se às percepções do grupo pesquisado e fundamentaram recomendações preliminares para comunicação e coordenação intersetorial.

Palavras-chave: Estudo de caso; Gestão de projetos; Inovação em saúde; Partes interessadas; Setor público.

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