Artigo

10 de agosto de 2026

Bitcoin como instrumento de diversificação para o investidor brasileiro

Lucas Pessini Silvestre; Lucineide Bispo Dos Reis Luz

DOI: 10.22167/2675-6528-202601104

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A rápida ascensão do Bitcoin como alternativa de investimento, aliada ao crescimento do mercado financeiro no Brasil e ao elevado interesse em criptomoedas, intensificou o debate sobre a inclusão desse ativo em carteiras de investimento. O estudo objetivou mensurar o impacto da alocação de Bitcoin no desempenho de diferentes portfólios, avaliando sua eficácia como instrumento de diversificação em carteiras compostas por ativos do mercado financeiro brasileiro. Para isso, adotou-se uma abordagem quantitativa exploratória, utilizando dados históricos de mercado de 2020 a 2024. Foram estruturados cinco portfólios: um base, composto por Ibovespa e CDI, e quatro adicionais com alocações de Bitcoin em proporções de 1%, 3%, 5% e 10%, com rebalanceamento trimestral. A análise foi realizada por meio do cálculo de métricas de desempenho e risco, como retorno, volatilidade e índice de Sharpe, e por simulações de cenários utilizando regressão linear múltipla. Os resultados indicaram que a exposição ao Bitcoin promoveu uma melhora progressiva no desempenho ajustado ao risco dos portfólios analisados, aumentando os retornos e o índice de Sharpe. Alocações de até 5% de Bitcoin contribuíram para a redução da volatilidade total da carteira, enquanto uma alocação de 10% a aumentou, evidenciando a baixa correlação do Bitcoin com ativos tradicionais como fator crucial para a diversificação. Concluiu-se que o Bitcoin pode atuar como um instrumento relevante de diversificação para investidores brasileiros, desde que sua inclusão seja moderada e alinhada ao perfil de risco, com proporções entre 3% e 5% apresentando a relação risco-retorno mais eficiente.

Palavras-chave: Alocação de ativos; Criptoativos; Desempenho de portfólio; Risco-retorno; Volatilidade.

1. Introdução

O Bitcoin, introduzido por Nakamoto (2008) como um sistema de dinheiro eletrônico ponto a ponto, rapidamente transcendeu sua concepção original. Sua natureza escassa, divisível e portátil, conforme Ulrich (2014), o posicionou como um ativo com características financeiras robustas. A ascensão meteórica e aceitação global solidificaram sua interpretação como nova classe de ativo, descorrelacionada dos ativos tradicionais (Mukherji, 2022), fundamental para a diversificação. Adicionalmente, o Bitcoin compartilha semelhanças com o ouro, como governança descentralizada, independência de inflação e oferta limitada, o que o levou a ser apelidado de “ouro digital” (Shahzad et al., 2019; Dyhrberg, 2016). Estudos de Baur et al. (2018) e Corbet et al. (2018) reforçam que o Bitcoin exibe um comportamento distinto dos ativos convencionais, oferecendo benefícios de diversificação tanto em períodos de estabilidade quanto de incerteza de mercado, contribuindo para o aumento do retorno e a redução do risco das carteiras.

Paralelamente à evolução do Bitcoin, o cenário de investimentos no Brasil passou por transformações significativas. Tradicionalmente, o mercado oferecia retornos atrativos em renda fixa, impulsionados por taxas de juros elevadas, como a Selic e o CDI, referências para investimentos de baixo risco (Assaf Neto, 2018). Contudo, a partir de 2016, sucessivos cortes na taxa básica de juros diminuíram a atratividade da renda fixa, incentivando investidores a buscar alternativas com maior potencial de retorno (ANBIMA, 2022). Essa mudança resultou em um crescimento exponencial do número de investidores na bolsa de valores brasileira, saltando de 564 mil pessoas em 2016 para mais de cinco milhões em 2022 (B3, 2024). Nesse contexto, o interesse por criptomoedas no Brasil cresceu exponencialmente. Uma pesquisa de Datafolha e Paradigma Education (2025) revelou que as criptomoedas estão entre as cinco formas de investimento mais populares no país. O estudo indicou que cinquenta e quatro por cento dos brasileiros conhecem o Bitcoin e dezesseis por cento já possuíram algum criptoativo, posicionando o Brasil como o sétimo maior mercado global, com dezoito vírgula três por cento considerando-o uma boa opção para diversificação.

A Teoria Moderna do Portfólio (TMP), formulada por Markowitz (1952), constitui o pilar fundamental para a construção de carteiras de investimento eficientes, postulando que a diversificação entre ativos com baixa correlação otimiza a relação risco-retorno. No cenário brasileiro, estratégias de alocação de ativos, como o portfólio clássico sessenta/quarenta (60% em renda variável, como o Ibovespa, e 40% em renda fixa, como o CDI), ganharam proeminência. Essa estratégia é reconhecida por sua capacidade de reduzir a volatilidade e promover retornos eficientes no longo prazo, devido à baixa correlação histórica entre ações e títulos de renda fixa (Pham et al., 2025). No Brasil, a estratégia sessenta/quarenta demonstrou ser eficaz, acumulando retornos superiores ao Ibovespa e ao CDI entre 2013 e 2023 (Economatica, 2023). A inclusão de novos ativos, especialmente aqueles com características distintas e baixa correlação, como o Bitcoin, apresenta o potencial de aprimorar a eficiência dos portfólios, alinhando-se aos princípios da TMP e oferecendo novas avenidas para a otimização da relação risco-retorno.

Diante da transformação do mercado financeiro brasileiro e do crescente interesse por criptoativos, torna-se imperativo compreender o impacto da inclusão do Bitcoin na construção e desempenho de portfólios de investimento. A relevância deste estudo reside em fornecer evidências empíricas sobre a eficácia do Bitcoin como instrumento de diversificação para investidores brasileiros, um tópico ainda em desenvolvimento na literatura nacional. Assim, o presente trabalho busca responder à questão: a inclusão do Bitcoin contribui para a melhoria da eficiência de portfólios de investimento no mercado brasileiro? Para tanto, o estudo tem como objetivo mensurar o impacto da alocação de Bitcoin no desempenho de diferentes portfólios, avaliando sua eficácia como instrumento de diversificação em carteiras compostas por ativos do mercado financeiro brasileiro, por meio da análise de métricas de desempenho e risco e simulações de cenários.

2. Material e Métodos

O presente estudo adotou uma abordagem quantitativa exploratória, buscando avaliar o impacto da inclusão do Bitcoin no desempenho de carteiras de investimento. A pesquisa concentrou-se em mensurar como a alocação desse criptoativo influencia métricas de risco e retorno em portfólios compostos por ativos do mercado financeiro brasileiro. Para tanto, foram utilizados dados históricos e modelagem estatística, permitindo uma análise robusta e fundamentada na Teoria Moderna do Portfólio, conforme proposto por Markowitz (1952).

A investigação foi contextualizada no mercado financeiro brasileiro, um ambiente que passou por significativas transformações nos últimos anos, com crescente interesse em alternativas de investimento. O estudo analisou um período de cinco anos, abrangendo de 01 de janeiro de 2020 a 31 de dezembro de 2024. A unidade de análise principal consistiu em diferentes portfólios de investimento, estruturados para simular estratégias de alocação de ativos com e sem a presença do Bitcoin.

A população de ativos considerada para a composição dos portfólios incluiu o índice Ibovespa, que representa a renda variável do mercado brasileiro, o Certificado de Depósito Interbancário (CDI), como referência para a renda fixa, e o Bitcoin, como o criptoativo de interesse. A amostra de dados foi composta pelos preços de fechamento diários do Ibovespa e os retornos diários do CDI, obtidos junto à B3, e as cotações diárias do Bitcoin em reais, coletadas da plataforma CoinMarketCap.

Para garantir a consistência e a comparabilidade dos dados, foram estabelecidos critérios rigorosos de seleção. Somente foram consideradas as datas em que houve negociação simultânea de todos os três ativos analisados. As datas sem negociação do Ibovespa e do CDI, que ocorrem em finais de semana e feriados, foram excluídas da amostra, evitando assim distorções nos cálculos e assegurando que todos os ativos tivessem dados disponíveis para cada ponto temporal avaliado.

Inicialmente, foram estruturados cinco portfólios distintos para a análise. Um portfólio base, denominado PB, foi estabelecido seguindo a estratégia clássica de alocação 60/40, composta por sessenta por cento em ativos de renda variável, representados pelo Ibovespa, e quarenta por cento em ativos de renda fixa, representados pelo CDI. Este portfólio serviu como referência para as comparações subsequentes.

A partir do portfólio base, foram compostas quatro carteiras adicionais, incorporando o Bitcoin em diferentes proporções. Essas carteiras foram denominadas PBTC1, PBTC3, PBTC5 e PBTC10, com alocações de Bitcoin de um por cento, três por cento, cinco por cento e dez por cento, respectivamente. A inclusão do Bitcoin foi realizada mediante a redução proporcional da parcela de renda variável, mantendo-se constante a alocação de quarenta por cento em renda fixa, conforme detalhado na Tabela 1.

Tabela 1. Composição dos portfólios

Ativo

PB

PBTC1

PBTC3

PBTC5

PBTC10

Ibovespa

60%

59%

57%

55%

50%

CDI

40%

40%

40%

40%

40%

Bitcoin

0%

1%

3%

5%

10%

Fonte: Dados originais da pesquisa

Para preservar a alocação dos ativos e o perfil de risco originalmente definidos para cada portfólio, adotou-se a prática de rebalanceamento trimestral. Essa frequência de rebalanceamento, segundo Bessler e Wolff (2015), tende a apresentar performance superior em comparação com rebalanceamentos mensais ou anuais para a maioria das estratégias de alocação. Os retornos diários dos ativos foram calculados como retornos simples percentuais, a partir da variação relativa entre os preços de fechamento de dias consecutivos.

A avaliação e comparação dos portfólios foram realizadas por meio de diversas métricas de desempenho e risco. O retorno acumulado foi calculado para indicar a variação total do valor investido ao longo do período analisado, enquanto o retorno anualizado expressou o rendimento do investimento por ano, considerando os juros compostos. Essas métricas permitiram uma visão abrangente da performance bruta de cada carteira ao longo do tempo.

Para a mensuração do risco, utilizou-se a volatilidade, definida como o desvio padrão dos retornos do investimento, refletindo a dispersão dos retornos em relação à média e indicando a incerteza dos retornos esperados (Assaf Neto, 2018). Adicionalmente, o Índice de Sharpe foi empregado como medida de avaliação de risco-retorno, relacionando a taxa livre de risco com o retorno e a volatilidade do ativo, indicando o excesso de retorno do portfólio em relação à taxa livre de risco (Assaf Neto, 2018).

Para complementar a análise de desempenho, foi realizada uma avaliação do potencial de diversificação do Bitcoin por meio da análise de correlação entre os retornos dos ativos. Calculou-se a matriz de correlação entre os retornos diários do Ibovespa, do CDI e do Bitcoin. A correlação, uma medida estatística que indica o grau de associação linear entre duas variáveis, oscila entre -1 e 1, permitiu identificar o relacionamento entre os ativos e o benefício de diversificação.

A fim de complementar a análise histórica e projetar o desempenho em cenários hipotéticos, foram realizadas simulações utilizando o método da regressão linear múltipla. Este método matemático, conforme Fávero e Belfiore (2017) e Wooldridge (2016), permite investigar como variáveis explicativas influenciam o comportamento de uma variável dependente, sendo particularmente útil em finanças para modelar retornos de ativos e identificar fatores de risco relevantes em portfólios de investimento.

A execução das regressões foi realizada utilizando a plataforma Stats Studio, que possibilitou a modelagem de regressões lineares a partir de uma base de dados. Construiu-se uma base de dados com os retornos mensais de cada ativo e de cada portfólio, servindo como fundamento para a modelagem supervisionada. Foram simuladas cinco regressões lineares distintas, uma para cada portfólio, utilizando o retorno mensal do portfólio como variável dependente e os retornos mensais dos ativos como variáveis explicativas.

Após a modelagem, foram observados os indicadores de Coeficiente de Ajuste (R²) e P-value para verificar a capacidade explicativa do modelo e a relevância estatística de cada variável independente. Conforme Fávero e Belfiore (2017), um R² próximo de um indica maior poder preditivo, e um P-value inferior a 0,05 indica significância estatística. Foram definidos nove cenários distintos de oscilação mensal dos ativos para avaliar o comportamento dos portfólios em diferentes condições de mercado, incluindo situações de movimento conjunto e divergente entre Ibovespa e Bitcoin, com o CDI mantido constante.

Ressalta-se que o estudo apresenta algumas limitações metodológicas inerentes à sua natureza. A utilização de dados históricos não garante a repetição do desempenho em cenários futuros, especialmente considerando a volatilidade do mercado de criptoativos. Além disso, a análise não incorporou custos de transação, tributação ou outras despesas operacionais, o que pode influenciar os retornos líquidos. O período analisado foi marcado por uma valorização expressiva do Bitcoin, o que pode não se replicar em outros contextos de mercado.

3. Resultados e Discussão

Para analisar o impacto da inclusão do Bitcoin em uma carteira de investimentos, foram comparados os portfólios PB, PBTC1, PBTC3, PBTC5 e PBTC10 por meio de métricas de desempenho e risco. A partir dos retornos diários do índice Ibovespa, do CDI e do Bitcoin, foram calculados os retornos dos portfólios ao longo de um período de cinco anos, considerando apenas os dias úteis e aplicando-se o rebalanceamento trimestral. A Tabela 2 apresenta as métricas dos portfólios no período analisado. Não foram considerados custos de transação, tributação e operacionais, de modo que os retornos apresentados representam os desempenhos brutos das carteiras.

Tabela 2. Métricas de desempenho e risco dos portfólios no período de 01 jan. 2020 a 31 dez. 2024

Portfólio

Retorno acumulado

Retorno anualizado

Volatilidade

Índice de Sharpe

PB

28,20%

5,09%

14,71%

-0,15

PBTC1

34,68%

6,14%

14,57%

-0,08

PBTC3

48,39%

8,21%

14,43%

0,05

PBTC5

63,12%

10,28%

14,45%

0,18

PBTC10

104,73%

15,41%

15,20%

0,49

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Constatou-se que tanto o retorno acumulado quanto o retorno anualizado aumentaram progressivamente à medida que a participação do Bitcoin foi ampliada. O portfólio base (PB), sem exposição ao criptoativo, apresentou um retorno acumulado de 28,20% e um retorno anualizado de 5,09%. Em contraste, o portfólio PBTC10, com a maior alocação de Bitcoin (10%), alcançou um retorno acumulado de 104,73% e um retorno anualizado de 15,41% no mesmo período. Essa diferença substancial, que representa um aumento de mais de 76 pontos percentuais no retorno acumulado e de mais de 10 pontos percentuais no retorno anualizado entre o portfólio sem Bitcoin e o portfólio com 10% de Bitcoin, evidencia o elevado potencial de retorno que o Bitcoin pode agregar a um portfólio de investimentos no longo prazo. Tal comportamento está alinhado com as observações de Brière et al. (2015), que apontaram que mesmo alocações marginais de Bitcoin são capazes de deslocar substancialmente a fronteira eficiente de portfólios diversificados. A inclusão do Bitcoin, mesmo em pequenas proporções como 1% (PBTC1), já elevou o retorno acumulado para 34,68% e o anualizado para 6,14%, demonstrando que o efeito positivo não se restringe apenas a alocações mais agressivas.

Essa mesma ocorrência de valorização progressiva foi observada na Figura 1, que apresenta a evolução temporal do valor de um investimento inicial de R$ 1.000,00 aplicado em cada portfólio ao longo do período analisado.

Figura 1. Evolução do valor de um investimento inicial de R$ 1.000,00

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Figura 1 ilustra claramente a trajetória ascendente dos portfólios com maior participação de Bitcoin, com o PBTC10 destacando-se significativamente ao final do período. A curva de crescimento do PBTC10 se descola das demais, especialmente a partir de meados de 2023, refletindo a capacidade do Bitcoin de impulsionar o desempenho geral da carteira. Este fenômeno pode ser atribuído à volatilidade inerente e ao potencial de valorização explosiva do Bitcoin, que, quando inserido em um portfólio diversificado, pode atuar como um motor de crescimento. A Teoria Moderna do Portfólio, de Markowitz (1952), sugere que a combinação de ativos com diferentes perfis de risco e retorno pode otimizar o desempenho da carteira, e os resultados aqui apresentados indicam que o Bitcoin, apesar de sua natureza volátil, contribui para essa otimização ao elevar o retorno total. A implicação prática para investidores brasileiros é que a inclusão estratégica de Bitcoin, mesmo em percentuais modestos, pode ser uma ferramenta eficaz para buscar retornos superiores aos obtidos em carteiras tradicionais, especialmente em um cenário de juros mais baixos que reduz a atratividade da renda fixa.

Resultados semelhantes foram observados em diferentes horizontes temporais dentro do período analisado, reforçando a consistência dos achados. A análise de retornos em horizontes temporais mais curtos, como um, dois e três anos, revelou que os portfólios que incorporaram o Bitcoin apresentaram retornos superiores ao portfólio base. Este achado é crucial, pois sugere que os benefícios da inclusão do criptoativo a uma carteira de investimentos não se restringem apenas ao longo prazo, podendo também ser observados em períodos mais curtos. Essa observação é particularmente relevante para investidores com horizontes de investimento variados, indicando que a diversificação com Bitcoin pode ser benéfica em diferentes janelas de tempo. Evidências semelhantes são apresentadas por Sahu et al. (2024), que destacam que o rebalanceamento periódico de portfólios com criptomoedas contribui para maximizar retornos e mitigar riscos em investimento de curto prazo. A prática de rebalanceamento trimestral adotada neste estudo, conforme Bessler e Wolff (2015), provavelmente contribuiu para a manutenção da eficiência dos portfólios, ajustando a exposição ao Bitcoin e aos demais ativos para preservar o perfil de risco-retorno desejado. Isso é fundamental para gerenciar a alta volatilidade do Bitcoin e garantir que sua contribuição para o portfólio seja otimizada ao longo do tempo.

Quanto aos retornos anuais, a análise detalhada dos dados revelou nuances importantes sobre o comportamento dos portfólios em diferentes condições de mercado. No ano de 2022, por exemplo, apesar da expressiva desvalorização do Bitcoin, verificou-se que apenas o PBTC10, o portfólio com maior exposição ao ativo (10%), apresentou retorno negativo. Os demais portfólios com alocações mais moderadas de Bitcoin (PBTC1, PBTC3, PBTC5) mantiveram desempenho positivo. Este resultado é um indicativo de que alocações moderadas de Bitcoin podem oferecer um equilíbrio entre o potencial de retorno e a resiliência a choques de mercado, não comprometendo significativamente a performance das carteiras em períodos de baixa do criptoativo. Por outro lado, nos anos de 2021 e 2024, períodos em que o índice Ibovespa, que representa a renda variável tradicional brasileira, apresentou desempenho negativo, observou-se que a exposição ao Bitcoin contribuiu para mitigar as perdas dos portfólios. Este comportamento é consistente com Corbet et al. (2018), que identificaram baixas correlações dinâmicas entre o Bitcoin e ativos tradicionais, indicando que a inclusão da criptomoeda pode atuar como instrumento de diversificação e mitigação de risco em portfólios de investimento. A capacidade do Bitcoin de descorrelacionar-se de ativos tradicionais, especialmente em momentos de estresse do mercado de ações, é um benefício significativo para a construção de portfólios mais robustos. Para o investidor, isso significa que o Bitcoin não é apenas um ativo de alto retorno, mas também um potencial “porto seguro” em certas condições de mercado, oferecendo uma camada de proteção contra a volatilidade do mercado acionário brasileiro.

Em relação ao risco, uma análise cuidadosa da volatilidade dos portfólios revelou um comportamento interessante. Verificou-se que os portfólios PBTC1, PBTC3 e PBTC5, que incorporaram alocações de Bitcoin de até 5%, apresentaram uma volatilidade inferior à do portfólio base (PB), que não possuía nenhuma exposição ao criptoativo.

Figura 2. Volatilidade dos portfólios

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Conforme ilustrado na Figura 2, o portfólio PB apresentou uma volatilidade de 14,71%, enquanto o PBTC1 registrou 14,57%, o PBTC3, 14,43%, e o PBTC5, 14,45%. Esse achado é contra-intuitivo à primeira vista, dado que o Bitcoin individualmente possui uma volatilidade significativamente mais alta (65,60%, conforme Tabela 2). No entanto, sua inclusão em proporções moderadas contribuiu para a redução do risco total da carteira, o que pode ser explicado pela baixa correlação entre o Bitcoin e os ativos tradicionais. Essa evidência está alinhada com a Teoria Moderna de Portfólio, proposta por Markowitz (1952), segundo a qual a diversificação entre ativos pouco correlacionados pode reduzir a volatilidade geral do portfólio. A baixa correlação do Bitcoin com o Ibovespa e o CDI permite que, mesmo com sua alta volatilidade intrínseca, ele suavize as flutuações do portfólio como um todo, agindo como um amortecedor em momentos de queda dos ativos tradicionais e vice-versa.

Em contrapartida, o portfólio PBTC10, com uma alocação de 10% de Bitcoin, apresentou uma volatilidade de 15,20%, superior à do portfólio base e das demais carteiras com Bitcoin. Isso indica que alocações mais elevadas de Bitcoin tendem a ampliar o risco do portfólio. Esse resultado reforça a existência de um ponto ótimo de diversificação, a partir do qual o aumento da exposição ao criptoativo passa a impactar negativamente o risco da carteira. Este achado é consistente com Trimborn et al. (2019), que identificaram que alocações superiores a 5% em criptomoedas tendem a aumentar o risco de cauda dos portfólios, ou seja, o risco de perdas extremas. Para o investidor, isso implica que, embora o Bitcoin ofereça um potencial de retorno elevado, é crucial encontrar um equilíbrio na alocação para não comprometer a estabilidade do portfólio. Alocações entre 1% e 5% parecem ser o ponto de equilíbrio onde os benefícios de diversificação superam o aumento da volatilidade individual do ativo.

De forma geral, verificou-se que a inclusão do Bitcoin melhorou de maneira contínua o desempenho ajustado ao risco das carteiras analisadas, conforme ilustrado pela Figura 3, que apresenta o Índice de Sharpe dos portfólios.

Figura 3. Índice de Sharpe dos portfólios

Fonte: Resultados originais da pesquisa

O portfólio PB apresentou um Índice de Sharpe negativo (-0,15), indicando que, no período analisado, o retorno obtido não foi suficiente para compensar o risco assumido em relação à taxa livre de risco. Este resultado sublinha a ineficiência de uma carteira tradicional 60/40 no mercado brasileiro durante o período estudado, especialmente quando comparada a alternativas que incluem criptoativos. A partir da introdução do Bitcoin, verificou-se uma melhora progressiva do Índice de Sharpe: PBTC1 (-0,08), PBTC3 (0,05), PBTC5 (0,18) e PBTC10 (0,49). Essa elevação do retorno ajustado ao risco, à medida que a alocação no criptoativo foi ampliada, indica que maiores exposições ao Bitcoin contribuíram para o aprimoramento do desempenho das carteiras. Este comportamento é corroborado por Neto e Colombo (2021), que também observaram em seus estudos que diferentes modelos de portfólios que incluem o Bitcoin apresentaram Índice de Sharpe superior a portfólios compostos apenas por ativos tradicionais brasileiros. A implicação prática é que o Bitcoin não apenas aumenta o retorno, mas o faz de forma mais eficiente em termos de risco, tornando-se um componente valioso para investidores que buscam otimizar a relação risco-retorno de seus portfólios.

Adicionalmente, a análise da matriz de correlação evidenciou a baixa correlação entre os retornos do Bitcoin e os ativos tradicionais. Verificou-se uma associação levemente positiva com o Ibovespa (0,17) e próxima de zero com o CDI (-0,06), conforme apresentado na Tabela 3.

Tabela 3. Matriz de correlação dos ativos

Ativo

Ibovespa

CDI

Bitcoin

Ibovespa

1,00

-0,01

0,17

CDI

-0,01

1,00

-0,06

Bitcoin

0,17

-0,06

1,00

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Esses resultados são fundamentais para compreender o potencial de diversificação do Bitcoin. Uma correlação de 0,17 com o Ibovespa é considerada baixa, indicando que os movimentos do Bitcoin não seguem de perto os movimentos do mercado de ações brasileiro. Mais notavelmente, a correlação de -0,06 com o CDI é praticamente nula, sugerindo que o Bitcoin se move de forma independente da renda fixa. Esses resultados reforçam o potencial do Bitcoin como um instrumento de diversificação, pois seu comportamento não está fortemente associado às variações dos demais ativos dos portfólios analisados. Conforme destacado por Elton et al. (2014), ativos com baixa correlação tendem a proporcionar maiores benefícios de diversificação quando combinados em um portfólio, contribuindo para a redução da volatilidade e melhoria do desempenho ajustado ao risco. A capacidade de um ativo de se mover de forma independente de outros é a pedra angular da diversificação eficaz, e o Bitcoin demonstra essa característica. Essa baixa correlação é um dos principais motivos pelos quais o Bitcoin pode ser considerado um “ouro digital”, como sugerido por Dyhrberg (2016) e Shahzad et al. (2019), oferecendo uma alternativa para a proteção de portfólio que tradicionalmente era atribuída a commodities como o ouro. Para os gestores de portfólio, essa característica permite a construção de carteiras mais resilientes a choques setoriais ou de mercado, distribuindo o risco de forma mais eficiente e potencialmente aumentando os retornos esperados.

No que se refere às simulações de cenários, a aplicação do modelo de regressão linear múltipla aos nove cenários previamente definidos permitiu projetar o comportamento dos portfólios em diferentes condições de mercado, complementando a análise histórica. Os resultados das regressões indicaram um elevado poder explicativo dos modelos (R² superiores a 0,97) e a significância estatística das variáveis explicativas (P-value inferior a 0,05), conferindo robustez às projeções. Os cenários foram desenhados para simular tanto movimentos conjuntos quanto divergentes entre o Ibovespa e o Bitcoin, com o CDI mantido constante.

Nos cenários mais adversos, onde o Ibovespa e o Bitcoin apresentaram quedas acentuadas (Cenário 1, por exemplo, com -10% para Ibovespa e -30% para Bitcoin), observou-se que o aumento da exposição ao criptoativo intensificou as perdas dos portfólios. No Cenário 1, o retorno do PB foi de -5,63%, enquanto o portfólio PBTC10 apresentou uma perda de -7,70%. Este resultado é crucial, pois demonstra que, em condições de mercado extremamente desfavoráveis e com correlação positiva entre os ativos de risco, a alta volatilidade do Bitcoin pode amplificar as perdas, em vez de mitigá-las. Isso ressalta a importância de uma gestão de risco ativa e a necessidade de considerar a natureza dos movimentos de mercado ao alocar em criptoativos.

Por outro lado, em um contexto de mercado mais favorável, representado pelos Cenários 4 e 5, constatou-se que a presença do Bitcoin contribuiu significativamente para a elevação dos retornos. No Cenário 5, por exemplo, onde o Ibovespa e o Bitcoin tiveram valorizações expressivas, o retorno mensal do PB foi de 6,13%, ao passo que o PBTC10 atingiu 8,31%, evidenciando um ganho relevante à medida que a participação do criptoativo aumenta. Esse resultado sugere que, em períodos de valorização conjunta dos mercados, o Bitcoin atua como um ativo de alto potencial de retorno, elevando a performance das carteiras de forma substancial. Para o investidor, isso significa que o Bitcoin pode ser um excelente impulsionador de retornos em mercados de alta, capitalizando sua capacidade de valorização rápida.

Em situações em que o Ibovespa e o Bitcoin moveram-se em sentidos opostos, os resultados foram particularmente elucidativos sobre o papel de diversificação do Bitcoin. Nos Cenários 6 e 7, onde o Ibovespa subiu (10% e 5%, respectivamente), mas o Bitcoin caiu (-30% e -15%, respectivamente), observou-se que os portfólios com maior alocação do criptoativo apresentaram retornos inferiores ao portfólio base. No Cenário 6, o PB retornou 6,13%, enquanto o PBTC10 retornou apenas 2,01%. Esse achado evidencia que, ao mesmo tempo em que a diversificação com o Bitcoin pode proteger o portfólio em cenários adversos, pode também reduzir os ganhos em cenários de alta do mercado tradicional, atuando como um “freio” no desempenho quando os ativos tradicionais estão em ascensão e o Bitcoin em queda.

Já nos Cenários 8 e 9, onde foi observado um evento oposto ao anterior, com desvalorização do mercado de ações (Ibovespa caindo -5% e -10%) e valorização do Bitcoin (subindo 15% e 30%), a presença da criptomoeda reduziu gradualmente as perdas dos portfólios. No Cenário 9, a desvalorização do PB foi de -5,63%, enquanto o PBTC10 registrou uma queda de apenas -1,40%, demonstrando que o Bitcoin pode atuar como hedge eficaz em momentos de baixa do mercado acionário. Esta capacidade de mitigar perdas em cenários de estresse do mercado tradicional, quando o Bitcoin se valoriza, reforça a tese de que o criptoativo pode ser um valioso instrumento de proteção de capital. A implicação prática é que o Bitcoin oferece uma assimetria de risco-retorno em cenários de divergência, protegendo o capital em quedas do mercado tradicional, mesmo que isso possa custar parte dos ganhos em cenários de alta.

De modo geral, os resultados das simulações indicaram que alocações entre 1% e 5% de Bitcoin tendem a oferecer um perfil mais equilibrado, combinando ganhos adicionais em cenários favoráveis com proteção razoável em cenários adversos. Já alocações mais elevadas, como 10%, apresentaram maior potencial de retorno, porém acompanhadas de maior exposição ao risco, especialmente em cenários de queda conjunta. Isso sugere que a otimização da alocação de Bitcoin em um portfólio requer uma compreensão profunda dos cenários de mercado e do perfil de risco do investidor.

Os resultados evidenciaram que a exposição ao Bitcoin altera de forma significativa o desempenho dos portfólios. O criptoativo contribuiu positivamente para a eficiência das carteiras, promovendo aumento dos retornos e melhora progressiva do Índice de Sharpe, sem elevação proporcional da volatilidade para alocações moderadas. Esses achados indicam que, apesar de sua elevada volatilidade individual, o Bitcoin pode contribuir para a redução do risco total da carteira quando combinado com ativos tradicionais, em função de sua baixa correlação com o mercado de ações e com a renda fixa. As simulações de cenários indicaram que o impacto do Bitcoin sobre o desempenho dos portfólios depende da relação entre os movimentos do criptoativo e do mercado acionário. Em cenários de valorização conjunta, o Bitcoin tende a amplificar os ganhos das carteiras. Por outro lado, em cenários de divergência, o ativo pode atuar como elemento de proteção, reduzindo a magnitude das perdas. Esse comportamento evidencia que os benefícios da diversificação não são constantes, mas condicionados ao ambiente de mercado.

De forma geral, os resultados sugerem que os investidores brasileiros podem se beneficiar da inclusão do Bitcoin como complemento às estratégias tradicionais de alocação entre renda fixa e renda variável. Nesse sentido, alocações entre 3% e 5% mostraram-se capazes de proporcionar um equilíbrio mais eficiente entre retorno e risco, representando uma alternativa adequada para investidores que buscam capturar parte do desempenho do criptoativo sem aumentar excessivamente a volatilidade do portfólio. A recomendação de uma alocação moderada, entre 3% e 5%, emerge como um ponto de equilíbrio ideal, onde os investidores podem colher os benefícios de retornos elevados e diversificação de risco sem se expor excessivamente à volatilidade inerente do Bitcoin.

Ressalta-se que o estudo apresenta algumas limitações metodológicas inerentes à sua natureza. A utilização de dados históricos, embora essencial para a análise, não garante a repetição do desempenho em cenários futuros, especialmente considerando a volatilidade e a natureza ainda emergente do mercado de criptoativos. O comportamento do Bitcoin e sua correlação com outros ativos podem mudar drasticamente em diferentes ciclos de mercado ou devido a mudanças regulatórias. Além disso, a análise não incorporou custos de transação, tributação ou outras despesas operacionais, o que pode influenciar os retornos líquidos e, consequentemente, a atratividade real da inclusão do Bitcoin em portfólios. O período analisado (2020-2024) foi marcado por uma valorização expressiva do Bitcoin, o que pode introduzir um viés de otimismo nos resultados, não sendo possível assegurar a replicação desse desempenho em outros contextos de mercado, como um prolongado mercado de baixa.

Para pesquisas futuras, recomenda-se a ampliação do horizonte temporal da análise, a incorporação de diferentes frequências de rebalanceamento, a inserção de criptomoedas alternativas, como o Ethereum e a Solana, e a utilização de outros modelos de otimização de portfólio, de modo a aprofundar a compreensão sobre o papel das criptomoedas na otimização de portfólios no mercado brasileiro. A investigação de como custos de transação e tributação impactam a rentabilidade líquida dos portfólios com Bitcoin também seria uma contribuição valiosa. Por fim, conclui-se que o Bitcoin pode atuar como um instrumento relevante de diversificação na construção de portfólios mais eficientes no contexto brasileiro, desde que sua inclusão seja realizada de forma moderada e alinhada ao perfil de risco do investidor. Esse resultado decorre não apenas do elevado potencial de retorno do criptoativo, mas principalmente de sua baixa correlação com os ativos tradicionais, oferecendo uma oportunidade única para aprimorar a relação risco-retorno das carteiras de investimento.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que a inclusão do Bitcoin contribui significativamente para a melhoria da eficiência de portfólios de investimento no mercado brasileiro. O estudo mensurou o impacto da alocação de Bitcoin em diferentes proporções, avaliando sua eficácia como instrumento de diversificação em carteiras compostas por ativos tradicionais. Os resultados evidenciaram que o criptoativo promoveu aumento dos retornos e melhora progressiva do Índice de Sharpe, sem elevação proporcional da volatilidade para alocações moderadas. Isso se deve, principalmente, à sua baixa correlação com o mercado de ações e a renda fixa, o que permite a redução do risco total da carteira. Alocações entre 3% e 5% de Bitcoin mostraram-se capazes de proporcionar um equilíbrio mais eficiente entre retorno e risco, representando uma alternativa adequada para investidores brasileiros que buscam otimizar suas carteiras.

Contudo, o presente estudo possui limitações inerentes à utilização de dados históricos, que não garantem a repetição do desempenho futuro, dada a volatilidade e a natureza emergente do mercado de criptoativos. A análise também não considerou custos de transação, tributação ou outras despesas operacionais, o que pode influenciar os retornos líquidos reais. Além disso, o período analisado (2020-2024) foi marcado por uma valorização expressiva do Bitcoin, introduzindo um possível viés de otimismo. Para pesquisas futuras, sugere-se a ampliação do horizonte temporal, a incorporação de diferentes frequências de rebalanceamento e a inclusão de outras criptomoedas, como Ethereum e Solana. Recomenda-se também investigar o impacto de custos de transação e tributação na rentabilidade líquida dos portfólios com Bitcoin, aprofundando a compreensão sobre o papel das criptomoedas na otimização de portfólios no mercado brasileiro.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq

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