Artigo

10 de agosto de 2026

Adotie: Aplicativo móvel multiplataforma para facilitar a adoção de animais

Luis Fernando Peixoto Cabral; Daniele Aparecida Cicillini Pimenta

DOI: 10.22167/2675-6528-202601132

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O abandono de animais no Brasil configura um desafio social crítico, agravado pela dificuldade de divulgação eficaz em redes sociais, onde anúncios de adoção frequentemente perdem visibilidade e impacto. Desenvolveu-se o aplicativo móvel “Adotie”, uma plataforma dedicada a conectar Organizações Não Governamentais (ONGs) e protetores independentes a potenciais adotantes, otimizando o processo de encontrar lares para animais desabrigados. A metodologia empregada baseou-se em pesquisa exploratória e desenvolvimento tecnológico aplicado, estruturado em fases de engenharia de requisitos, prototipagem de interface, desenvolvimento e validação. Para a implementação, utilizaram-se as tecnologias “React Native” para a construção da interface multiplataforma e “Firebase” (Authentication e Cloud Firestore) para gerenciamento de banco de dados e autenticação. A coleta de requisitos incluiu entrevistas com uma ONG, e a validação ocorreu por meio de um questionário aplicado a 12 usuários de perfis variados. Os resultados obtidos comprovaram a viabilidade técnica e a estabilidade do sistema, registrando uma média de usabilidade de 4,75 (em escala de 1 a 5), com 91,7% dos participantes não relatando falhas técnicas. Adicionalmente, observou-se uma média de 4,42 na percepção de eficiência na busca em comparação às redes sociais, e 100% dos usuários confirmaram a agilidade no contato direto. A aplicação atendeu à demanda por um canal centralizado e especializado, oferecendo uma ferramenta tecnológica eficaz para fomentar a adoção responsável e mitigar o cenário de abandono animal.

Palavras-chave: Experiência do usuário; Plataforma digital; Sistemas distribuídos; Usabilidade.

1. Introdução

O abandono de animais de estimação no Brasil constitui um desafio social de crescente relevância, evidenciado pelo expressivo contingente de cães e gatos em situação de rua (Evangelista et al., 2019). Estimativas recentes apontam para um número superior a trinta milhões de animais desabrigados no país, dos quais 20,2 milhões são cães e dez milhões são gatos, o que significa que para cada três animais de estimação, um vive nas ruas (Mars Petcare, 2024). Essa realidade complexa não apenas acarreta sofrimento aos animais, mas também gera impactos na saúde pública e no meio ambiente, demandando soluções eficazes e abrangentes. A proliferação de doenças, acidentes de trânsito e a sobrecarga de abrigos são consequências diretas desse problema, que afeta tanto a qualidade de vida dos animais quanto a segurança e o bem-estar das comunidades. Em resposta a essa problemática, surgem diversas iniciativas que buscam fomentar a adoção responsável como principal estratégia para mitigar o abandono (Scherer et al., 2021), reconhecendo a importância da participação da sociedade civil e de organizações dedicadas à causa animal.

Nesse cenário, as Organizações Não Governamentais (ONGs) de proteção animal desempenham um papel central, responsabilizando-se pelo resgate, tratamento e disponibilização desses animais para adoção (Scherer et al., 2021). Para maximizar o alcance de suas campanhas, essas entidades recorrem frequentemente a plataformas digitais de ampla utilização, como redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas (Freitas et al., 2018). Essa estratégia se ampara na massiva digitalização da sociedade brasileira, que, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (2024), conta com 480 milhões de dispositivos móveis ativos, uma média de 2,2 por habitante. Adicionalmente, dados indicam que a população nacional dedica, em média, 56% do seu dia à interação com dispositivos móveis e computadores (Nazar, 2023), o que, em teoria, oferece um vasto público para a divulgação. Contudo, apesar do vasto alcance dessas ferramentas, a sua natureza generalista impõe limitações significativas à eficácia da divulgação de animais para adoção. Por não serem plataformas dedicadas a essa finalidade, as publicações sobre o tema competem com um volume massivo de conteúdos variados, o que resulta na diluição de sua visibilidade e impacto (Freitas et al., 2018). Estudos corroboram essa percepção, indicando que a dependência exclusiva de redes sociais para a divulgação de animais para adoção é insuficiente, pois tais plataformas não oferecem um canal comum e confiável para esse propósito (Magdum et al., 2023; Walter, 2021). A falta de filtros específicos, a desorganização das informações e a efemeridade das postagens contribuem para que muitos animais permaneçam invisíveis aos potenciais adotantes. Consequentemente, a ausência de um canal especializado representa uma lacuna que dificulta a conexão entre potenciais adotantes e os animais que necessitam de um lar (Freitas et al., 2018).

Paralelamente, o campo do desenvolvimento de aplicativos móveis passou por uma transformação substancial, impulsionada pela crescente demanda por soluções digitais acessíveis em diversos dispositivos. Historicamente, a criação de aplicativos era um processo complexo que exigia a manutenção de bases de código distintas para os principais sistemas operacionais, um desenvolvido na linguagem de programação Java ou Kotlin para o sistema operacional Android e outro em Objective-C ou Swift para o sistema iOS (Calixto et al., 2019; Bezerra, 2021). Essa abordagem nativa implicava maiores custos, prazos de desenvolvimento estendidos e a necessidade de equipes especializadas em cada plataforma, dificultando a escalabilidade e a manutenção de projetos (Bezerra, 2021). Contudo, o surgimento de tecnologias multiplataforma, como a ferramenta React Native, revolucionou este paradigma. Desenvolvido pelo Facebook, o React Native permite a criação de aplicativos para Android e iOS a partir de uma única base de código na linguagem de programação JavaScript, tornando o processo de desenvolvimento mais ágil, simples e economicamente viável (Bezerra, 2021). Essa inovação tecnológica democratiza o acesso ao desenvolvimento de aplicações móveis robustas, permitindo que soluções sejam implementadas de forma eficiente para atender a diversas necessidades sociais e de mercado. A escolha por plataformas de backend como Firebase, que oferece serviços de autenticação e banco de dados escaláveis e em tempo real (Chougale et al., 2021), complementa essa abordagem, provendo a infraestrutura necessária para aplicações dinâmicas e seguras, com gerenciamento eficiente de usuários e dados de anúncios.

Este cenário, que conecta uma premente necessidade social de mitigar o abandono animal e fomentar a adoção responsável com a disponibilidade de soluções tecnológicas viáveis e eficientes, justifica a proposta de desenvolver uma aplicação móvel dedicada. Tal ferramenta tem o potencial de não apenas centralizar e facilitar a divulgação dos animais disponíveis, mas também de servir como um catalisador para incentivar a adoção, desempenhando uma função essencial na redução do número de animais abandonados (Pereira et al., 2023), ao mesmo tempo em que oferece uma experiência de usuário otimizada e focada. Assim, este trabalho teve como objetivo desenvolver, utilizando a tecnologia React Native, uma aplicação móvel destinada a facilitar o processo de divulgação de animais para adoção, promovendo uma aproximação eficiente e direta entre Organizações Não Governamentais, abrigos e a população interessada em adotar um animal, contribuindo significativamente para a causa animal.

2. Material e Métodos

A metodologia adotada para a concepção e o desenvolvimento do aplicativo “Adotie” caracterizou-se como uma pesquisa exploratória, complementada por um desenvolvimento tecnológico aplicado. A abordagem exploratória foi empregada para investigar as necessidades e lacunas existentes nos processos de divulgação de animais para adoção por Organizações Não Governamentais. O desenvolvimento tecnológico, por sua vez, concentrou-se na criação de uma solução de software funcional e inovadora, visando suprir as demandas identificadas e otimizar a conexão entre animais e potenciais adotantes, conforme o objetivo central do estudo.

O contexto inicial da pesquisa envolveu a investigação das necessidades de uma Organização Não Governamental de proteção animal, localizada no estado do Rio de Janeiro. Esta entidade atuava ativamente no resgate e na disponibilização de animais para adoção, servindo como unidade de análise primária para a compreensão dos desafios práticos. Embora o período específico da coleta de requisitos não tenha sido detalhado, a interação com a ONG ocorreu durante a fase inicial do projeto, estabelecendo a base para o desenvolvimento da aplicação.

O processo de execução do trabalho foi estruturado em quatro fases principais, delineadas para garantir uma abordagem sistemática e abrangente. Inicialmente, realizou-se o levantamento e a análise de requisitos, fundamentais para compreender as funcionalidades desejadas. Em seguida, procedeu-se ao projeto de interface, focado na experiência do usuário. A terceira fase compreendeu o desenvolvimento e a implementação da aplicação, culminando na construção do software. Por fim, a validação e a avaliação do aplicativo foram conduzidas para verificar sua aceitação e usabilidade.

A primeira fase do projeto dedicou-se à engenharia de requisitos, um processo essencial na engenharia de software para definir as funcionalidades, restrições e objetivos de um sistema (Sommerville, 2018). Para o “Adotie”, esta etapa foi crucial para assegurar que a solução tecnológica estivesse alinhada às necessidades reais dos usuários-alvo, que incluíam tanto as ONGs quanto os potenciais adotantes. A compreensão aprofundada dessas necessidades guiou todo o desenvolvimento subsequente, garantindo a relevância e a utilidade da aplicação.

Para a coleta dos requisitos, empregou-se a técnica de entrevistas com representantes da ONG de proteção animal mencionada, atuante no Rio de Janeiro. As entrevistas, reconhecidas como uma das principais técnicas para levantamento de requisitos (Sommerville, 2018), permitiram obter uma compreensão aprofundada dos fluxos de trabalho existentes, das demandas operacionais e dos principais desafios enfrentados no processo de divulgação de animais. Essa abordagem qualitativa foi fundamental para identificar os “gargalos” e as oportunidades de melhoria que o aplicativo deveria endereçar.

As informações coletadas nas entrevistas foram analisadas e consolidadas em um documento de requisitos funcionais e não funcionais (Sommerville, 2018). Os requisitos funcionais mapeados incluíram a autenticação de usuários (ONGs e adotantes), o cadastro de anúncios de animais com campos para fotos, descrição e espécie, a listagem e filtragem dos animais disponíveis, e um mecanismo de contato direto entre adotante e ONG. A partir dessa análise, modelou-se a estrutura inicial de dados do aplicativo, ilustrando as entidades centrais do sistema, como usuário e animal, seus atributos e relacionamentos.

A segunda fase concentrou-se no projeto da interface do usuário, utilizando a ferramenta “Figma”. Esta plataforma de design colaborativa baseada em nuvem é amplamente reconhecida para a criação de protótipos (Putri et al., 2024). O objetivo principal desta etapa foi traduzir os requisitos levantados em um design visual que priorizasse a intuitividade e a usabilidade, facilitando a navegação. Foram desenvolvidas interfaces como a Tela Inicial para listagem de animais, a Tela de Detalhes para visualização completa e a Tela de Novo Anúncio para cadastro eficiente.

A terceira fase compreendeu o desenvolvimento técnico do aplicativo móvel, com a seleção de tecnologias para a interface do usuário e para os serviços de dados. Para a construção do aplicativo, optou-se pela tecnologia “React Native”, uma ferramenta de desenvolvimento multiplataforma mantida pelo Facebook (Bezerra, 2021). Esta escolha permitiu a criação de aplicações nativas para os sistemas operacionais Android e iOS a partir de uma única base de código em JavaScript, otimizando o processo de desenvolvimento e garantindo consistência visual e comportamental.

Para a infraestrutura de serviços e persistência de dados, utilizou-se a plataforma “Firebase”, um conjunto de serviços de desenvolvimento de aplicativos mantido pelo Google (Chougale et al., 2021). Dois serviços principais do “Firebase” foram empregados: o “Firebase Authentication” para gerenciar o ciclo de vida da autenticação de usuários, provendo cadastro e login seguros; e o “Cloud Firestore” para a persistência de dados. O “Cloud Firestore” é um banco de dados escalável e orientado a documentos, responsável por armazenar dados de usuários e anúncios de animais em tempo real.

A etapa final do trabalho consistiu na validação da solução proposta junto aos usuários finais. Para mensurar a aceitação, a usabilidade e a percepção de valor do aplicativo “Adotie”, elaborou-se um instrumento de pesquisa. Este instrumento, de natureza quantitativa e qualitativa, foi aplicado utilizando a plataforma “Google Forms”. O questionário foi estruturado para coletar feedbacks que pudessem fundamentar futuras melhorias no aplicativo, avaliando a experiência geral do usuário e a eficácia da aplicação em atender aos objetivos propostos.

A amostra para a validação foi composta por doze participantes, selecionados por conveniência. Os participantes representavam os dois públicos-alvo da aplicação: potenciais adotantes e representantes de ONGs ou protetores independentes. A escolha pela amostragem por conveniência justificou-se pelo caráter exploratório do estudo, cujo objetivo central foi avaliar a usabilidade e a aceitação inicial de uma prova de conceito, sem a intenção de produzir generalizações estatísticas. Testes de usabilidade com grupos reduzidos são eficazes para identificar problemas de interface (Nielsen, 2000).

O questionário aplicado aos participantes da validação foi elaborado para cobrir diversos aspectos da experiência do usuário. As perguntas incluíram identificação, perfil de usuário, comparativo de eficiência em relação a redes sociais, centralização da informação, qualidade da informação, facilidade de contato, usabilidade (UX), desempenho técnico, filtros e categorização, atratividade visual e um campo para feedback aberto. As questões foram formuladas para obter avaliações em escala Likert de um a cinco, além de respostas dicotômicas e discursivas.

Os dados coletados por meio do questionário foram tratados utilizando estatística descritiva. Para as questões que empregavam a escala Likert de um a cinco, calculou-se a média aritmética das respostas, servindo como um indicador central de tendência da percepção dos usuários. As respostas obtidas na questão discursiva, por sua vez, foram submetidas a uma análise qualitativa. Nesta análise, os comentários foram agrupados por similaridade temática, permitindo a identificação de padrões recorrentes de sugestões, percepções e pontos de melhoria para o aplicativo.

Devido ao caráter exploratório, a presente pesquisa apresentou limitações metodológicas. O tamanho reduzido da amostra na etapa de validação, composta por doze participantes selecionados por conveniência, restringiu a generalização dos dados para um universo mais amplo. A validação, portanto, atuou como uma avaliação inicial de usabilidade e aceitação de uma prova de conceito, fornecendo indicativos de tendências de uso, e não conclusões definitivas em larga escala. Não houve menção explícita a um comitê de ética, mas a participação no questionário foi voluntária, implicando consentimento.

3. Resultados e Discussão

O desenvolvimento do aplicativo “Adotie” culminou na entrega de uma solução móvel plenamente funcional, que integra a robustez do “React Native” para a interface do usuário com a escalabilidade e os serviços de dados do “Firebase”. Esta combinação tecnológica não apenas atendeu aos requisitos funcionais e não funcionais previamente levantados, mas também estabeleceu uma base sólida para a otimização do processo de adoção de animais. A aplicação foi concebida para oferecer dois fluxos de navegação distintos e integrados, um para o perfil de “Adotante” e outro para o “ONG/Protetor”, refletindo a dualidade de usuários em um ecossistema de adoção. A escolha do “React Native” foi estratégica, conforme destacado por Bezerra (2021), por permitir o desenvolvimento multiplataforma a partir de uma única base de código JavaScript, o que otimiza o tempo e os custos de desenvolvimento, garantindo, ao mesmo tempo, uma experiência nativa em dispositivos Android e iOS. Esta abordagem é crucial para maximizar o alcance do aplicativo, dada a fragmentação do mercado de sistemas operacionais móveis.

A implementação da interface do usuário seguiu rigorosamente o protótipo desenvolvido na fase de projeto, resultando em um ambiente visual que prioriza a clareza e a hierarquia da informação. A consistência visual e comportamental em diferentes plataformas, inerente ao “React Native”, é um fator determinante para a usabilidade, especialmente em aplicações móveis onde a intuitividade é fundamental para a aceitação do usuário (Nielsen, 2000). Um design limpo e organizado minimiza a carga cognitiva e facilita a navegação, permitindo que os usuários se concentrem no objetivo principal: encontrar ou anunciar animais para adoção. A atenção a esses detalhes de design é vital, pois a primeira impressão visual e a facilidade de uso são cruciais para a retenção de usuários, conforme evidenciado pela literatura sobre experiência do usuário (Putri et al., 2024).

No que tange ao gerenciamento de dados, a integração com o “Cloud Firestore” do “Firebase” revelou-se uma escolha acertada. Este banco de dados NoSQL, escalável e orientado a documentos, permitiu a persistência e a recuperação de informações dos animais e usuários em tempo real. A natureza não relacional do “Cloud Firestore” adaptou-se de forma eficiente à estrutura flexível dos dados da aplicação, que incluem atributos variados como porte, sexo, espécie e descrições detalhadas dos animais. A baixa latência na recuperação desses dados impacta diretamente a experiência do usuário, garantindo que a listagem de animais seja carregada rapidamente e de forma responsiva. A capacidade de sincronização em tempo real do “Cloud Firestore” é particularmente vantajosa para uma aplicação de adoção, onde a disponibilidade de animais pode mudar rapidamente, exigindo que as informações apresentadas aos usuários estejam sempre atualizadas (Chougale et al., 2021). Essa agilidade na atualização e recuperação de dados é um diferencial significativo em comparação com métodos mais tradicionais de divulgação, que frequentemente sofrem com informações desatualizadas ou dispersas.

A etapa de validação com usuários forneceu *insights* valiosos sobre a eficácia e a aceitação do “Adotie”. A amostra de doze participantes, embora limitada pelo caráter exploratório do estudo, foi cuidadosamente selecionada para representar os dois públicos-alvo principais: potenciais adotantes e representantes de ONGs ou protetores independentes. Conforme apresentado na Figura 1, a distribuição da amostra revelou que 66,7% dos participantes eram potenciais adotantes e 33,3% eram representantes de ONGs ou protetores.

Figura 1. Gráfico de porcentagem de perfil de usuários

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Essa composição da amostra é crucial, pois reflete a dinâmica real do ecossistema de adoção, onde o número de indivíduos buscando adotar é naturalmente maior do que o de instituições que gerenciam as adoções. A inclusão de ambos os perfis permitiu uma validação abrangente, avaliando tanto as funcionalidades de consumo de informação (busca, visualização) quanto as de produção e gerenciamento de conteúdo (cadastro de animais). Essa abordagem bifocal é essencial para garantir que a plataforma seja útil e eficiente para todas as partes envolvidas, um aspecto frequentemente negligenciado em soluções que se concentram em apenas um lado da equação. A literatura sobre plataformas de duas faces, como marketplaces, enfatiza a importância de satisfazer as necessidades de ambos os lados para garantir a viabilidade e o crescimento do ecossistema (Eisenmann et al., 2006). A validação com essa amostra diversificada, mesmo que pequena, forneceu indicativos de que o “Adotie” está no caminho certo para atender a essas demandas complexas.

Um dos achados mais significativos da validação foi o comparativo de eficiência entre o “Adotie” e as redes sociais na busca por animais. Os resultados, conforme ilustrado na Figura 2, indicaram uma média de 4,42 pontos em uma escala de 1 a 5, onde 5 representa “Muito mais fácil”. É notável que nenhum usuário classificou a experiência como inferior às redes sociais (notas 1 ou 2), com a predominância de avaliações entre 4 e 5.

Figura 2. Gráfico com a média de avaliação da facilidade de encontrar um animal

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Este resultado corrobora a premissa fundamental do projeto, que é a inadequação das redes sociais como canal principal para a divulgação de animais para adoção. Autores como Freitas et al. (2018), Pereira et al. (2023), Magdum et al. (2023) e Walter (2021) já haviam apontado que a natureza generalista e os algoritmos de “feed” das redes sociais diluem a visibilidade dos anúncios de adoção, tornando a busca ineficiente e frustrante. A estrutura de listagem dedicada do “Adotie”, livre de conteúdos diversos e algoritmos de engajamento que priorizam outras interações, demonstrou ser superior. A implicação prática é profunda: ao centralizar a informação em um ambiente focado, o aplicativo reduz o tempo e o esforço necessários para encontrar um animal, aumentando a probabilidade de sucesso na adoção. Isso não apenas beneficia os potenciais adotantes, que têm uma experiência de busca mais fluida, mas também as ONGs, que veem seus animais alcançarem um público mais qualificado e engajado, otimizando seus recursos e esforços.

A centralização da informação e o foco do usuário foram aspectos fortemente validados. Os dados revelaram que 83,3% dos respondentes (dez usuários) afirmaram que o ambiente exclusivo do “Adotie” auxilia no foco, enquanto os 16,7% restantes (dois usuários) responderam “Talvez”, sem registros de discordância (“Não”). Este achado, embora não ilustrado por uma figura específica nesta discussão para manter o limite de mídias, é crucial. A ausência de distrações, comum em plataformas de rede social, onde notícias, anúncios e interações pessoais competem pela atenção do usuário, permite que o adotante mantenha o foco no processo de busca e seleção de animais. Essa exclusividade do ambiente contribui para uma experiência mais imersiva e intencional, o que é vital para decisões importantes como a adoção de um animal de estimação. A capacidade de manter o foco é um diferencial competitivo significativo, pois, como apontado por Freitas et al. (2018), a dispersão de conteúdo nas redes sociais é um dos principais “gargalos” na divulgação de animais. A implicação prática é que o “Adotie” não é apenas uma ferramenta de busca, mas um facilitador de decisões conscientes, promovendo adoções mais responsáveis ao permitir que os usuários dediquem sua atenção total aos perfis dos animais e às informações relevantes.

A qualidade da informação e a segurança percebida também foram avaliadas positivamente, com uma média expressiva de 4,67. A grande maioria dos respondentes atribuiu a nota máxima (5) a este quesito, indicando que o layout e os campos de dados detalhados (foto, descrição, características) transmitiram segurança suficiente para iniciar um contato com a intenção de adotar. Este dado é particularmente relevante, pois a confiança é um fator determinante em qualquer transação online, e ainda mais em um processo que envolve a vida de um ser vivo. A modelagem assertiva dos dados do animal, com atributos cuidadosamente selecionados para exibição na tela de detalhes, foi fundamental para este resultado. Em contraste com a informalidade e a falta de padronização de informações em redes sociais, o “Adotie” oferece um ambiente estruturado que confere credibilidade aos anúncios. A percepção de segurança é um pilar para o engajamento do usuário e para a promoção de adoções responsáveis, pois os adotantes se sentem mais confiantes ao iniciar um contato com ONGs ou protetores cujas informações são apresentadas de forma clara e profissional. Isso pode mitigar preocupações sobre a origem dos animais ou a seriedade dos anunciantes, problemas que podem surgir em plataformas menos reguladas.

A agilidade no mecanismo de contato foi outro ponto de forte validação, com 100% dos participantes concordando que a abordagem de contato direto proposta pelo aplicativo tornou a comunicação mais ágil do que os métodos tradicionais em redes sociais. Este consenso unânime, embora não representado por uma figura específica nesta seção, sublinha o sucesso de uma funcionalidade crítica. Em redes sociais, as mensagens diretas podem ser perdidas na caixa de “spam” ou em solicitações de contato não visíveis, e os comentários públicos podem se diluir em meio a outras interações. O “Adotie”, ao estruturar um canal de comunicação direto dentro da plataforma, elimina essas barreiras, promovendo uma aproximação eficiente e direta entre adotantes e ONGs. A implicação prática é a aceleração do processo de adoção, reduzindo a burocracia e a frustração associadas à comunicação ineficaz. Essa funcionalidade não só melhora a experiência do usuário, mas também otimiza o trabalho das ONGs, que podem gerenciar as interações de forma mais organizada e responder a potenciais adotantes com maior rapidez.

A usabilidade (UX) e a curva de aprendizado do aplicativo foram avaliadas como excelentes, com uma média de 4,75. A Figura 3 demonstra que a ausência de avaliações negativas ou medianas indica que o fluxo de navegação proposto foi compreendido imediatamente pelos usuários.

Figura 3. Gráfico com a avaliação de usabilidade

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Este resultado é um testemunho do sucesso do projeto de interface, que se baseou em padrões comuns de aplicativos móveis, como listas verticais, botões de ação claros e retorno visual. A intuitividade e a facilidade de aprendizado são cruciais para a adoção de novas tecnologias, especialmente para um público diversificado que pode incluir usuários com diferentes níveis de familiaridade com aplicativos móveis. Conforme Nielsen (2000) aponta, testes de usabilidade, mesmo com grupos reduzidos, são eficazes para identificar problemas de interface e garantir que o design seja centrado no usuário. A alta pontuação em usabilidade sugere que o “Adotie” é acessível e agradável de usar, o que é fundamental para a retenção de usuários e para o incentivo à exploração de suas funcionalidades. Uma boa usabilidade não apenas facilita a tarefa de encontrar um animal, mas também torna a experiência geral mais positiva, incentivando o compartilhamento e a recomendação do aplicativo.

Em termos de desempenho técnico e estabilidade, os dados revelaram uma alta confiabilidade da versão final do aplicativo. Conforme demonstrado na Figura 4, 91,7% dos usuários (11 respondentes) relataram que o aplicativo não apresentou qualquer falha de desempenho, enquanto apenas um usuário (8,3%) relatou travamentos raros.

Figura 4. Gráfico comparando a frequência de problemas técnicos

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Estes baixos índices de instabilidade validam a eficiência do software em um ambiente de teste real. A predominância de respostas positivas demonstra que o aplicativo é capaz de suportar as funcionalidades propostas de forma fluida, atendendo aos critérios de desempenho estabelecidos para o projeto. A estabilidade é um pilar da confiança do usuário; um aplicativo que trava ou apresenta lentidão frequentemente gera frustração e abandono. A escolha de tecnologias robustas como “React Native” e “Firebase”, conhecidas por sua performance e escalabilidade, contribuiu significativamente para este resultado. A implicação prática é que o “Adotie” oferece uma experiência confiável, o que é essencial para um aplicativo que lida com informações sensíveis e um processo emocionalmente carregado como a adoção. A ausência de falhas técnicas permite que os usuários se concentrem na busca e no contato, sem interrupções indesejadas.

A categorização e filtragem de dados também obtiveram aprovação unânime, com 100% dos participantes concordando que a organização dos animais por espécie, porte e sexo facilitou a localização de um perfil compatível com seus interesses. Este consenso, embora não ilustrado por uma figura específica nesta discussão, reforça a importância da arquitetura da informação planejada na fase de requisitos. Diferentemente de um feed cronológico de rede social, que apresenta informações de forma mista e sem segmentação, a categorização estruturada do aplicativo permitiu um acesso direto e eficiente ao conteúdo de interesse. Este achado converge com os resultados de Pereira et al. (2023), que, em uma pesquisa com 120 respondentes, apontaram a filtragem como uma das funcionalidades mais demandadas em aplicativos de adoção. A capacidade de filtrar animais por características específicas não apenas otimiza a busca para o adotante, mas também aumenta a probabilidade de encontrar um “match” adequado, o que pode levar a adoções mais bem-sucedidas e duradouras. Para as ONGs, isso significa que seus anúncios são vistos por um público mais segmentado e genuinamente interessado, otimizando o processo de triagem.

A atratividade visual e o design da interface foram avaliados com uma média de 4,58, indicando uma alta percepção de qualidade e confiança. Embora a média seja alta, a Figura 5 demonstra uma ligeira variação nas respostas individuais entre as notas 4 e 5.

Figura 5. Gráfico demonstrando as avaliações de design por usuário

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Isso sugere que, embora o design seja funcional e agradável, conforme feedbacks qualitativos como “muito bonito e limpo”, existe um espaço para refinamento visual. No entanto, a aceitação geral confirma que a interface cumpriu seu papel de apresentar os animais de forma clara e atrativa. A estética da interface desempenha um papel crucial na experiência do usuário, influenciando a percepção de profissionalismo e confiabilidade do aplicativo. Um design visualmente atraente pode aumentar o engajamento, a confiança e a disposição do usuário em explorar a aplicação. A implicação prática é que, mesmo com um bom design inicial, a melhoria contínua baseada em feedback visual pode aprimorar ainda mais a experiência e a satisfação do usuário.

A análise qualitativa dos feedbacks abertos complementou os dados quantitativos, reforçando os pontos fortes e identificando áreas para melhoria. Termos como “direto”, “limpo”, “profissional” e “rápido” foram recorrentes nos comentários, validando a percepção de eficiência e usabilidade. Do ponto de vista dos adotantes, a organização visual e a objetividade da busca, sem a dispersão de plataformas de redes sociais, foram amplamente elogiadas. Para as ONGs, o fluxo de “Novo Anúncio” demonstrou ser mais ágil do que o formato de postagem padrão das redes sociais, otimizando o processo de cadastro. Essas percepções qualitativas reforçam os resultados quantitativos, mostrando que a proposta de valor do “Adotie” ressoa positivamente com seus usuários-alvo.

As sugestões de melhoria e funcionalidades ausentes apontaram para lacunas importantes na versão inicial do aplicativo. A demanda por “compartilhar o link do anúncio direto no WhatsApp” indica a necessidade de integração com plataformas de mensageria para ampliar o alcance dos anúncios, permitindo que os usuários levem o conteúdo do aplicativo para suas redes de contatos. Esta funcionalidade é crucial para a viralização e para aproveitar o poder das redes sociais de forma controlada, sem as desvantagens de dispersão de conteúdo. A solicitação por “zoom na foto” e a inclusão de “vídeos” demonstram o desejo dos usuários por uma inspeção visual mais detalhada dos animais, o que pode aumentar a conexão emocional e a confiança no processo de adoção. Em um contexto de adoção, a capacidade de visualizar o animal em diferentes ângulos e em movimento pode ser um fator decisivo. A sugestão de “filtro por bairro” evidencia a importância da localização na logística da adoção, um ponto de divergência em relação a outros trabalhos como o “AdoPET” (Freitas et al., 2018) e Dias et al. (2021), que priorizaram a geolocalização. A implementação de filtros geográficos pode otimizar a busca para adotantes que buscam animais em sua proximidade, facilitando visitas e transporte. Por fim, o desejo de “salvar animais favoritos” indica a necessidade de uma lista de interesse para a recuperação de dados em um momento futuro, uma funcionalidade comum em plataformas de e-commerce e que pode aumentar o engajamento e a taxa de conversão de adoções.

Os resultados obtidos com o “Adotie” podem ser contextualizados com trabalhos que propuseram soluções tecnológicas semelhantes para a adoção de animais, revelando convergências e divergências. Uma convergência notável é o reconhecimento da inadequação das redes sociais para a divulgação de animais para adoção. Freitas et al. (2018), Pereira et al. (2023), Magdum et al. (2023) e Walter (2021) corroboram que as redes sociais, apesar de seu vasto alcance, não são otimizadas para esse propósito, resultando em baixa visibilidade e desorganização. O “Adotie” aborda essa lacuna oferecendo um canal centralizado e focado, validando a necessidade de plataformas dedicadas. Outra convergência é a escolha por tecnologias multiplataforma e serviços de nuvem. O “Adotie” utilizou “React Native” e “Firebase”, escolhas que também foram feitas por Dias et al. (2021) e Magdum et al. (2023), respectivamente, indicando a adequação dessas tecnologias para o desenvolvimento ágil e escalável de aplicações móveis. A implementação de filtros para categorização dos animais, que recebeu aprovação unânime no “Adotie”, também é um requisito comum e altamente demandado, conforme apontado por Pereira et al. (2023). A separação de papéis entre quem cadastra e quem busca os animais, com interfaces distintas para ONGs/protetores e adotantes, é uma lógica similar à adotada por Dias et al. (2021), otimizando a experiência de cada tipo de usuário.

No entanto, algumas divergências foram observadas. O “AdoPET” (Freitas et al., 2018) e o trabalho de Dias et al. (2021) adotaram a geolocalização como um diferencial principal, permitindo a visualização de animais próximos ao usuário via “Google Maps”. O “Adotie”, em sua versão inicial, não implementou essa funcionalidade, embora os feedbacks dos usuários tenham indicado a importância de filtros geográficos. Essa ausência pode ser considerada uma limitação inicial, mas também uma oportunidade para futuras melhorias, alinhando o aplicativo com as expectativas dos usuários e as tendências de outras plataformas. Magdum et al. (2023) focaram mais em aspectos administrativos do processo de adoção, enquanto Walter (2021) e “PetFinder” priorizaram usabilidade, navegação e personalização, áreas onde o “Adotie” já demonstra forte desempenho, com uma média de 4,75 na avaliação de usabilidade. Essas diferenças destacam as diversas abordagens e prioridades que podem ser adotadas no desenvolvimento de soluções para a adoção de animais, e como o “Adotie” se posiciona em relação a elas, focando na centralização, eficiência e usabilidade.

Em suma, os resultados obtidos demonstram que o objetivo geral deste trabalho foi alcançado com sucesso, culminando no desenvolvimento e validação inicial do aplicativo móvel “Adotie”. A solução tecnológica mostrou-se funcional e promissora para promover uma aproximação direta entre ONGs e adotantes, superando as limitações de dispersão de foco comuns em redes sociais. A validação com usuários indicou que a centralização das informações em um ambiente dedicado proporciona maior agilidade na comunicação e eficiência na busca por animais, sugerindo que a tecnologia pode contribuir para reduzir barreiras no processo de adoção. A infraestrutura baseada em “React Native” e “Firebase” apresentou desempenho estável nos testes realizados, demonstrando a viabilidade técnica do projeto. Apesar das limitações metodológicas, como o tamanho reduzido da amostra, que restringe a generalização dos dados, os indicadores positivos de usabilidade, eficiência e aceitação fornecem indicativos de tendências de uso e aceitação de uma prova de conceito. As contribuições coletadas junto aos usuários oferecem um direcionamento claro para a evolução do aplicativo, com demandas por integração com plataformas de mensageria, recursos visuais mais ricos, filtros geográficos e funcionalidades de favoritos, que, se implementadas, consolidarão e ampliarão o impacto da solução proposta.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, com o desenvolvimento bem-sucedido do aplicativo móvel “Adotie” utilizando a tecnologia React Native. A aplicação foi projetada para facilitar a divulgação de animais para adoção, promovendo uma conexão eficiente e direta entre Organizações Não Governamentais, abrigos e a população interessada. Os resultados da validação inicial demonstraram que o “Adotie” oferece uma alternativa superior às redes sociais para a busca e anúncio de animais, evidenciando maior agilidade na comunicação, foco do usuário e usabilidade. A infraestrutura baseada em React Native e Firebase garantiu um desempenho estável e confiável, validando a viabilidade técnica da solução proposta para mitigar o abandono animal.

Contudo, é fundamental reconhecer as limitações deste estudo, principalmente o tamanho reduzido da amostra de validação, composta por apenas doze participantes. Essa característica exploratória restringe a generalização dos resultados, embora forneça indicativos valiosos de tendências de uso e aceitação. Para estudos futuros, sugere-se a integração com plataformas de mensageria como o WhatsApp para compartilhamento externo, aprimoramento dos recursos visuais com zoom e vídeos, e a implementação de filtros geográficos por localidade. Em uma perspectiva mais ampla, a incorporação de um sistema de notificações personalizadas, um módulo de acompanhamento pós-adoção e a publicação oficial do aplicativo em lojas como Google Play e App Store, acompanhada de validações em larga escala, consolidarão o impacto do “Adotie” na causa animal.

Referências Bibliográficas

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Fundação Getúlio Vargas [FGV]. 2024. Pesquisa revela que Brasil tem 480 milhões de dispositivos digitais em uso, sendo 2,2 por habitante. Disponível em: <https://portal.fgv.br/noticias/pesquisa-revela-brasil-tem-480-milhoes-dispositivos-digitais-uso-sendo-22-habitante>. Acesso em: 23 mar. 2025.

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Walter, L.L.A. 2021. StandForPaw: Animal rescue and pet adoption mobile application. Tecnologia da Informação / Computação. Universiti Teknologi PETRONAS, Perak, Malaysia.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq

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Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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