Artigo

30 de setembro de 2026

Aprimoramento do IPM goiano mediante classificação automática de itens em documentos fiscais

Aprimoramento do Ipm Goiano Mediante Classificação Automática de Itens em Documentos Fiscais

Allan da Costa Andrade; Abdoulaye Aboubacari Mohamed

DOI: 10.22167/2675-6528-202602655

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A automação da classificação de dados fiscais é crucial para aprimorar a gestão tributária. O estudo desenvolveu, implementou e avaliou modelos de aprendizado de máquina para automatizar o tratamento e a classificação de dados fiscais utilizados no cálculo do Índice de Participação dos Municípios (IPM) no Estado de Goiás, com foco na identificação de itens de hortifrúti comercializados no CEASA-Goiás. A pesquisa baseou-se na análise de dados secundários de notas fiscais eletrônicas de 2024, caracterizadas por grande volume e complexidade. Adotou-se uma abordagem quantitativa, descritiva e explicativa. O processo metodológico incluiu extração, tratamento, padronização e organização dos dados, além da construção de uma base supervisionada para treinamento, validação e teste. Utilizaram-se técnicas de Processamento de Linguagem Natural e algoritmos de aprendizado supervisionado para classificar descrições de itens fiscais. O desempenho foi avaliado por métricas como acurácia, precisão, revocação e consistência. Os resultados obtiveram acurácia superior a 95% na identificação de produtos de hortifrúti. Em comparação ao processo manual, observou-se redução significativa no tempo de processamento, diminuição de inconsistências e melhoria na integridade dos dados utilizados no cálculo do IPM. A solução automatizada contribuiu para maior transparência, confiabilidade e precisão das informações fiscais, otimizando o uso de recursos humanos. Concluiu-se que a aplicação de técnicas de ciência de dados e inteligência artificial é uma alternativa eficaz para aprimorar a gestão tributária estadual.

Palavras-chave: Active Learning; Ciência de Dados; Gestão Tributária; Índice de Participação dos Municípios; NF-e.

1. Introdução

A aplicação de técnicas de ciência de dados tem sido amplamente expandida no contexto da gestão pública. A adoção de métodos de ciência de dados e aprendizado de máquina é fundamental para extrair valor e conhecimento de grandes volumes de dados, um imperativo que se estende à otimização de políticas públicas e processos fiscais (Fávero e Belfiore, 2021).

O Índice de Participação dos Municípios (IPM) é um instrumento que distribui de maneira proporcional os recursos arrecadados pelo estado entre os municípios, considerando fatores econômicos e fiscais. No Estado de Goiás, a metodologia adota a transparência total, utilizando dados granulares de todos os documentos fiscais eletrônicos. Essa abordagem gera um volume de aproximadamente seis bilhões de itens de notas fiscais, o que, embora garanta a transparência, impõe barreiras de processamento técnico.

A tarefa de classificação automática de descrições de itens fiscais pode ser compreendida como um problema clássico de classificação de textos em Processamento de Linguagem Natural. Nesses casos, dados não estruturados, frequentemente curtos e ruidosos, devem ser categorizados de forma automática. Esse tipo de problema apresenta desafios específicos relacionados à alta variabilidade linguística, ambiguidade semântica e baixa padronização textual (Manning et al., 2008).

Adicionalmente, bases fiscais reais, como as utilizadas neste estudo, tendem a apresentar desbalanceamento de classes, no qual determinadas categorias possuem muito mais exemplos do que outras. Esse fenômeno é amplamente discutido na literatura de aprendizado de máquina, pois pode levar os modelos a apresentarem viés em favor das classes majoritárias, reduzindo a capacidade de generalização (Fávero e Belfiore, 2021).

Em contextos fiscais, o processamento e a correta categorização de documentos eletrônicos constituem desafios relevantes, especialmente diante da variabilidade textual e da complexidade das regras tributárias. Laruccia (2022) demonstrou a viabilidade do uso de modelos de Processamento de Linguagem Natural e aprendizado de máquina para a classificação automática de notas fiscais eletrônicas. Interian et al. (2024), ao analisarem dados fiscais brasileiros para detecção de anomalias, destacam a importância de técnicas robustas de mineração de dados para garantir a integridade e a conformidade das informações.

Apesar dos avanços apresentados na literatura, observa-se uma lacuna na aplicação integrada dessas abordagens em contextos fiscais reais brasileiros, especialmente em cenários que envolvem dados massivos, descrições curtas e ruidosas, além de significativo desbalanceamento de classes. Há escassez de estudos que exploram simultaneamente esses desafios no contexto da classificação de itens fiscais, considerando ainda particularidades setoriais, como o segmento de hortifrúti e sua influência na apuração do IPM. Assim, o presente trabalho se insere nesse contexto, com foco na classificação de itens de hortifrúti do CEASA Goiás, visando evitar a duplicidade na base de cálculo do IPM e contribuir para maior precisão e justiça na distribuição dos recursos. O objetivo deste trabalho é desenvolver, implementar e avaliar modelos de machine learning aplicados à automação do tratamento e da classificação de dados fiscais utilizados no cálculo do Índice de Participação dos Municípios (IPM) no Estado de Goiás, com foco na identificação de itens de hortifrúti comercializados no CEASA-Goiás.

2. Material e Métodos

A abordagem metodológica adotada neste estudo fundamentou-se em técnicas consolidadas de ciência de dados e aprendizado de máquina. A pesquisa caracterizou-se como descritiva e explicativa, buscando determinar o impacto da classificação automatizada na precisão do Índice de Participação dos Municípios (IPM). O delineamento principal consistiu na implementação e avaliação de algoritmos de

machine learning

, alinhando-se às linhas de pesquisa de automação e

strategic analytics

(Fávero e Belfiore, 2021; Manning et al., 2008).

A pesquisa utilizou dados secundários, oriundos de bases internas da administração tributária do Estado de Goiás. As fontes de informação foram as bases granulares das Notas Fiscais eletrônicas (NF-e) do CEASA/CEARANA-Goiás. O âmbito temporal do estudo concentrou-se no ano de 2024, analisando o volume massivo de itens fiscais para os quais a classificação manual de hortifrúti demandava esforço significativo.

O processo metodológico inicial incluiu etapas de extração, tratamento, padronização e organização dos dados. Posteriormente, construiu-se uma base supervisionada para o treinamento, validação e teste dos modelos de classificação. A análise preliminar envolveu um arquivo completo com mais de 344.000 registros, que seriam classificados binariamente como hortifrúti ou não hortifrúti.

A classificação automática de descrições textuais em documentos fiscais insere-se no contexto de problemas clássicos de classificação de textos curtos. Tais descrições são caracterizadas por alta variabilidade lexical, baixo contexto semântico e presença de ruídos, exigindo técnicas específicas de pré-processamento e modelagem (Manning et al., 2008; Salton e Buckley, 1988). Bases fiscais reais frequentemente apresentam desbalanceamento de classes, o que pode comprometer o desempenho preditivo dos modelos (Fávero e Belfiore, 2021).

A etapa de pré-processamento dos dados consistiu na aplicação de técnicas de limpeza e normalização textual (Manning et al., 2008). Isso incluiu padronização de caracteres, remoção de acentos, conversão de números para “NUM” e eliminação de espaços duplicados. Foram utilizadas

stop words

como “de”, “da”, “do”, “para”, “com”, “em”, “no”, “na”, “kg”, “un”, “und”, “cx”, “sc”, “gr”, “ml”, “gtin” e “cm”, e uma expressão regular para remover palavras isoladas.

Para a representação dos dados textuais, optou-se pela extração de características baseada em n-gramas, incluindo unigramas, bigramas e trigramas. Essa abordagem foi escolhida para capturar o contexto semântico em descrições curtas, mitigando a ambiguidade de termos isolados (Manning et al., 2008; Fávero e Belfiore, 2021). A técnica TF-IDF foi empregada para transformar os dados textuais em representações numéricas, refletindo a importância relativa dos termos no corpus (Salton e Buckley, 1988).

A escolha dos algoritmos de classificação considerou sua eficiência computacional e adequação a problemas de classificação textual em espaços de alta dimensionalidade. Foram utilizados o algoritmo Naive Bayes e o Passive-Aggressive Classifier, um algoritmo de aprendizado online baseado em modelos lineares. Ambos são reconhecidos na literatura por seu bom desempenho e capacidade de generalização em cenários com grande volume de dados e alta variabilidade textual (Manning et al., 2008; Ng e Jordan, 2002).

Para a construção incremental e supervisionada das bases de treinamento e validação, adotou-se a técnica de

active learning

(Settles, 2012; Marcacini e Rezende, 2012). Essa estratégia visou priorizar a seleção de exemplos mais informativos para o processo de aprendizagem, reduzindo o esforço de supervisão. Inicialmente, construiu-se uma base supervisionada mínima com 700 registros. O processo seguiu um fluxo iterativo de treinamento, predição, identificação dos casos mais incertos, validação manual e atualização da base de dados.

O conjunto de dados foi dividido em subconjuntos de treinamento (80%) e validação (20%), utilizando amostragem estratificada para preservar a proporção entre as classes. Essa abordagem é relevante em cenários com desbalanceamento de classes, contribuindo para uma avaliação robusta do desempenho dos modelos (He e Garcia, 2009). A avaliação dos modelos foi realizada por meio de métricas quantitativas de classificação, incluindo acurácia, precisão, revocação (

recall

), F1-score e análise da matriz de confusão.

3. Resultados e Discussão

A pesquisa teve como objetivo principal desenvolver, implementar e avaliar modelos de aprendizado de máquina para automatizar a classificação de dados fiscais, com foco na identificação de itens de hortifrúti comercializados no CEASA-Goiás, visando otimizar o cálculo do Índice de Participação dos Municípios (IPM) no Estado de Goiás. Os resultados obtidos demonstram a viabilidade e a eficácia da aplicação dessas técnicas, culminando em uma solução automatizada com alta acurácia e melhorias significativas nos processos de gestão tributária.

Inicialmente, a coleta de informações envolveu a análise de um arquivo completo com mais de 344.000 registros de notas fiscais eletrônicas de 2024. A tarefa central consistiu na classificação binária desses itens, determinando se pertenciam ou não à categoria de hortifrúti. Este volume massivo e a complexidade dos dados sublinharam a necessidade de uma abordagem automatizada para lidar com o processamento técnico e evitar barreiras na apuração do IPM.

Na análise exploratória dos dados textuais, ferramentas de visualização como nuvens de palavras foram empregadas. A nuvem de palavras inicial, baseada em 344.863 registros, revelou a predominância de termos como “tomate” e “batata”, seguindo a Lei de Zipf. Essa distribuição de frequência, onde poucos termos concentram a maior parte da massa de probabilidade, indicou um desafio de viés para o aprendizado de máquina, pois o modelo poderia aprender a frequência de transações em vez de características semânticas discriminativas.

A transição para uma nuvem de palavras com 31.746 registros distintos, obtida pela remoção de duplicidades, alterou significativamente a distribuição dos termos. Essa estratégia reduziu a influência de produtos com maior volume de vendas, evidenciando uma diversidade lexical mais ampla na base e permitindo que itens menos frequentes se tornassem mais visíveis. Essa abordagem foi crucial para mitigar o viés causado pela repetição de registros e identificar ruídos não relacionados ao domínio hortifrúti.

O desafio científico identificado caracterizou-se como um problema de classificação de textos curtos em ambientes ruidosos, onde as descrições fiscais sofrem de escassez de dados e falta de contexto sintático (Aggarwal & Zhai, 2012). A presença de prefixos e abreviações não padronizadas exigiu que o vetorizador e o modelo fossem robustos à alta variância lexical. A utilização da técnica TF-IDF foi justificada para penalizar termos ruidosos com baixa discriminatividade e valorizar termos técnicos específicos, mitigando o impacto do baixo contexto semântico (Salton & Buckley, 1988; Rossi, 2015).

A análise estatística do corpus revelou que a média de palavras por registro era de 2,62, com 78% das descrições contendo até três termos. Esse comportamento é característico de bases fiscais com descrições curtas e não estruturadas, o que dificulta a extração de significado. Para capturar o contexto semântico em descrições tão concisas, optou-se pela extração de características baseada em n-gramas (unigramas, bigramas e trigramas), conforme recomendado por Fávero e Belfiore (2021) e Manning et al. (2008).

A representação dos dados textuais em formato numérico, essencial para algoritmos de aprendizado de máquina, foi realizada com a técnica TF-IDF. Essa configuração permitiu capturar não apenas palavras isoladas, mas também padrões compostos frequentes nas descrições fiscais, aumentando a capacidade discriminatória do modelo. A escolha dos algoritmos de classificação considerou sua eficiência computacional e adequação a problemas de classificação textual em espaços de alta dimensionalidade.

Dois algoritmos foram selecionados para o treinamento inicial: o Naive Bayes e o Passive-Aggressive Classifier. O Naive Bayes, baseado no Teorema de Bayes, é conhecido por sua simplicidade, baixo custo computacional e rápida convergência, sendo frequentemente utilizado como modelo de referência (Ng & Jordan, 2002). O Passive-Aggressive Classifier, por sua vez, é um algoritmo de aprendizado online baseado em modelos lineares, projetado para lidar eficientemente com grandes volumes de dados e descrições textuais de alta dimensionalidade (Manning et al., 2008).

Para o treinamento e validação dos modelos, o conjunto de dados foi dividido em subconjuntos de treino (80%) e validação (20%), utilizando amostragem estratificada para preservar a proporção entre as classes. Essa abordagem é crucial em cenários com desbalanceamento de classes, contribuindo para uma avaliação mais robusta e representativa do desempenho dos modelos (He & Garcia, 2009). As métricas de acurácia, precisão, revocação e F1-score foram utilizadas para mensurar o desempenho.

No primeiro treinamento, o modelo Multinomial Naive Bayes alcançou uma acurácia de 79,29%. Seu relatório de classificação indicou uma precisão de 0,76 e revocação de 0,95 para a classe 0, e precisão de 0,89 e revocação de 0,57 para a classe 1. A matriz de confusão revelou 78 acertos e 4 erros para a classe 0, e 25 erros e 33 acertos para a classe 1, evidenciando maior dificuldade na identificação da classe minoritária.

Em contraste, o Passive-Aggressive Classifier demonstrou um desempenho superior no treinamento inicial, atingindo uma acurácia de 82,86%. Para a classe 0, obteve precisão de 0,80 e revocação de 0,94, enquanto para a classe 1, alcançou precisão de 0,89 e revocação de 0,67. A matriz de confusão mostrou 77 acertos e 5 erros para a classe 0, e 19 erros e 39 acertos para a classe 1, indicando uma maior capacidade de identificar corretamente a classe minoritária em comparação ao Naive Bayes.

Essa superioridade do Passive-Aggressive Classifier pode ser atribuída às suas diferenças estruturais, especialmente sua capacidade de se adaptar a cenários com alta variabilidade textual e dimensionalidade, conforme discutido por Manning, Raghavan e Schütze (2008). Contudo, é importante notar que essas comparações iniciais foram baseadas em métricas pontuais de um único particionamento, sem validação cruzada ou testes estatísticos formais, o que exige cautela na interpretação das diferenças.

Diante da inexistência de uma base previamente rotulada e validada, e do elevado volume de registros, a rotulagem manual completa de todo o conjunto de dados era inviável. Por isso, adotou-se a técnica de “active learning” para priorizar a seleção de exemplos mais informativos para o processo de aprendizagem, reduzindo o esforço humano necessário na etapa de supervisão, conforme preconizado por Settles (2012) e Marcacini e Rezende (2012).

A estratégia de aprendizado ativo fundamentou-se na combinação de dois critérios de incerteza: a probabilidade estimada pelo modelo Multinomial Naive Bayes e a margem de decisão fornecida pelo modelo Passive-Aggressive. Um score de incerteza combinado foi calculado para priorizar amostras com menor confiabilidade na classificação. Esse processo gerou planilhas com descrições de produtos associadas aos maiores valores de incerteza, indicando instâncias onde o modelo teve baixa segurança na decisão.

Observou-se que descrições relacionadas a componentes mecânicos, por exemplo, foram corretamente classificadas como não hortifrúti (Classe 0), mas com elevados valores de incerteza. Isso sugeriu que o modelo realizou tais classificações com base em padrões pouco representativos, aproximando-se do limiar de decisão. Para a Classe 1 (hortifrúti), produtos com descrições compostas ou atípicas, como variedades menos comuns, também apresentaram menor confiança na predição.

A seleção criteriosa desses exemplos, localizados na região de fronteira entre as classes, para revisão manual e posterior incorporação à base de treinamento, representou uma estratégia eficiente de enriquecimento dos dados. Ao incluir instâncias da região de incerteza, o classificador passou a reconhecer padrões antes ignorados, refinando as fronteiras de decisão e reduzindo a taxa de erros nas iterações subsequentes, conforme os princípios de Settles (2012).

Após a adição de 112 itens à base de treino por meio do “active learning”, um novo treinamento foi realizado. Os resultados indicaram que a acurácia do Multinomial Naive Bayes foi de 78,53%, e a do Passive-Aggressive foi de 80,37%. Essa melhoria não foi significativa, e em alguns casos, houve uma ligeira piora na acurácia, sugerindo que a simples adição de dados não garantia um aprimoramento linear do modelo.

Em um passo subsequente, foram incluídos 189 novos itens apontados pelo “active learning”, utilizando apenas a probabilidade de erro do Multinomial Naive Bayes. Com esse novo treinamento, a acurácia do Multinomial Naive Bayes subiu para 86,00%, e a do Passive-Aggressive para 87,00%. Embora houvesse melhoria, a evolução do desempenho ao longo dos ciclos de treinamento não se mostrou linear, com ganhos iniciais mais expressivos e posterior estabilização, indicando que a qualidade dos dados adicionados é mais impactante do que a quantidade.

Para a avaliação final do desempenho dos modelos em um cenário próximo ao ambiente de produção, foi construída uma base de validação independente, composta por mais de 30 mil registros devidamente verificados pela equipe gestora do IPM. Essa base foi utilizada para garantir métricas mais representativas, excluindo registros selecionados para treinamento para evitar sobreposição, conforme as recomendações de Fávero e Belfiore (2021).

Na base de validação, o modelo Multinomial Naive Bayes apresentou acurácia de 88,10% para a Classe 1, enquanto o Passive-Aggressive Classifier atingiu 77,42% de acurácia para a mesma classe. A diferença entre o desempenho no treinamento e na validação foi atribuída à maior diversidade de descrições na base de validação e ao desbalanceamento entre as classes, que reduziu a sensibilidade do modelo para a Classe 1 em dados não vistos (Fávero & Belfiore, 2021).

O comportamento do Passive-Aggressive Classifier mostrou-se mais estável entre treino e validação em comparação ao Naive Bayes, o que é esperado para modelos lineares com aprendizado online em dados textuais de alta dimensionalidade (Manning, Raghavan & Schütze, 2008). A queda de desempenho do Naive Bayes na validação reforçou a limitação da hipótese de independência condicional entre atributos, especialmente quando o vocabulário do conjunto de validação diverge do treinamento.

A análise do pré-processamento de dados revelou que muitos valores que não distinguiam o produto estavam entrando no classificador, gerando confusão. Para otimizar os resultados, foram implementadas regras de pré-processamento mais rigorosas, incluindo a remoção de acentos, a conversão de todos os números para a palavra “NUM”, a remoção de espaços duplicados e a inclusão de diversas palavras-chave como “kg”, “un”, “cx”, “sc”, “gr”, “ml”, “gtin”, “cm” na lista de stop words, além de uma regex para remover palavras sozinhas.

Mesmo com esses tratamentos, a barreira de classificação de 95% não foi alterada inicialmente. Uma análise mais aprofundada constatou que alguns itens na base de treino tinham apenas um exemplo, o que confundia o classificador. Para resolver isso, a base foi quadruplicada, garantindo exemplos suficientes para o classificador em todas as divisões de treino e teste, o que resultou em melhorias significativas no desempenho.

Após o refinamento do pré-processamento e a expansão da base de treino, o Multinomial Naive Bayes alcançou uma acurácia de 98,21% no treino e 96,05% na validação, com 28.814 acertos e 1.186 erros na base de validação. Esse resultado demonstrou um avanço substancial na capacidade do modelo de classificar os itens fiscais de hortifrúti.

O Passive-Aggressive Classifier, com os mesmos ajustes de pré-processamento e expansão da base, atingiu uma acurácia ainda maior, de 98,81% no treino e 96,54% na validação. Na validação, foram registrados 28.963 acertos e 1.037 erros. Essa performance superior do Passive-Aggressive reforça sua adequação para cenários com alta variabilidade textual e grande volume de dados, superando o Naive Bayes em termos de acurácia final.

A acurácia final de 96,54% obtida pelo Passive-Aggressive Classifier na base de validação está em linha com os resultados reportados na literatura de classificação de documentos fiscais brasileiros. Laruccia (2022), por exemplo, obteve 96,7% de acurácia com um classificador ensemble para classificação binária de notas fiscais eletrônicas. Isso valida a eficácia da abordagem proposta e implementada neste estudo para aprimorar a gestão tributária estadual.

Em síntese, a pesquisa demonstrou que a combinação de técnicas de Processamento de Linguagem Natural, algoritmos de aprendizado supervisionado e estratégias de aprendizado ativo é uma alternativa eficaz para a automação da classificação de dados fiscais. A acurácia superior a 95% na identificação de produtos de hortifrúti, a redução no tempo de processamento e a melhoria na integridade dos dados confirmam a contribuição da solução automatizada para maior transparência, confiabilidade e precisão das informações fiscais no cálculo do IPM, otimizando o uso de recursos humanos.

4. Conclusão

O presente estudo buscou desenvolver, implementar e avaliar modelos de aprendizado de máquina para automatizar o tratamento e a classificação de dados fiscais, com foco na identificação de itens de hortifrúti comercializados no CEASA-Goiás, visando otimizar o cálculo do Índice de Participação dos Municípios (IPM) no Estado de Goiás. Verificou-se a viabilidade e eficácia da aplicação dessas técnicas, culminando em uma solução automatizada que alcançou acurácia superior a 95% na identificação de produtos de hortifrúti. Observou-se uma redução significativa no tempo de processamento em comparação ao método manual, além de uma diminuição de inconsistências e melhoria na integridade dos dados utilizados no cálculo do IPM. A combinação de técnicas de Processamento de Linguagem Natural, algoritmos de aprendizado supervisionado e estratégias de aprendizado ativo mostrou-se uma alternativa eficaz para a automação da classificação de dados fiscais. Essa solução automatizada contribuiu para maior transparência, confiabilidade e precisão das informações fiscais, otimizando o uso de recursos humanos e aprimorando a gestão tributária estadual.

Contudo, o estudo apresentou limitações importantes, como a dependência da qualidade das descrições originais dos documentos fiscais e a restrição da análise a um único contexto institucional. Adicionalmente, as comparações entre os modelos basearam-se em métricas pontuais de um único particionamento de treino e teste, sem a aplicação de testes estatísticos formais de significância, o que exige cautela na interpretação das diferenças de desempenho. Para estudos futuros, sugere-se explorar a aplicação de validação cruzada (k-fold) e testes estatísticos formais para uma comparação mais robusta dos classificadores. Recomenda-se também a utilização de modelos baseados em redes neurais e técnicas de balanceamento de classes para aprimorar ainda mais a capacidade de generalização e a sensibilidade a classes minoritárias em bases de dados desbalanceadas.

Referências Bibliográficas

FÁVERO, L.P.; BELFIORE, P. 2021. Data Science para Negócios: Conceitos, técnicas e aplicações. 1ed. Elsevier, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

INTERIAN, R.; CARPANESE, I.; MELLO, B.; RIBEIRO, C. C. Red flag algorithms for Brazilian electronic invoices: outlier detection and price risk classification. International Transactions in Operational Research. Disponível em https://repositorio.usp.br/item/003154046 acesso em 12/10/2025: 1533-1553

LARUCCIA, J. B. Classificação automática de notas fiscais eletrônicas para utilização de créditos tributários de PIS/PASEP e COFINS. 2022. Trabalho de Conclusão de Curso (MBA) – Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2022. Acessado em https://bdta.abcd.usp.br/item/003125927 dia 01/10/2025

MANNING, C. D.; RAGHAVAN, P.; SCHÜTZE, H. Introduction to Information Retrieval. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.

SALTON, G.; BUCKLEY, C. 1988. Term-weighting approaches in automatic text retrieval. Information Processing

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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22 de outubro de 2026

Previsão da Inadimplência Agregada no Sistema Financeiro Brasileiro por Modelo Sarimax com Variáveis Macroeconômicas

A inadimplência agregada no sistema financeiro brasileiro é um indicador crucial de risco de crédito, cuja previsão é regulamentada pelas Resoluções CMN n.° 4.557/2017 e 4.966/2021 para a mensuração prospectiva de perdas esperadas. Modelou-se e previu-se a inadimplência agregada por meio do modelo SARIMAX, projetando sua trajetória até dezembro de 2026 sob cenários otimista, base e pessimista. Utilizaram-se 164 observações mensais (julho/2012 a fevereiro/2026) e variáveis macroeconômicas como desemprego, Selic, IPCA, IBC-Br e endividamento das famílias. A especificação com variáveis contemporâneas foi selecionada com base em critérios de informação e estabilidade dos coeficientes, e o diagnóstico dos resíduos confirmou adequação estatística, com MAPE de 3,12%. A inadimplência histórica variou entre 4,33% e 7,64%. A estimação identificou o desemprego (β = 0,2534; p < 0,001) e a Selic (β = 0,2128; p < 0,001) como principais determinantes positivos, com forte persistência temporal (AR(1) = 0,8965). A Selic exibiu correlação crescente com a inadimplência (r = 0,62 no lag 12), enquanto o desemprego demonstrou efeito contemporâneo (r = 0,33). As projeções indicaram inadimplência entre 6,30% e 7,98% em dezembro de 2026, com uma amplitude de 1,68 ponto percentual, evidenciando implicações diretas para o dimensionamento de provisões nas instituições financeiras. Palavras-chave: Desemprego; Modelagem preditiva; Política monetária; Provisão de perdas; Séries temporais.

22 de outubro de 2026

Fatores de Engajamento das Partes Interessadas na Transferência Internacional de Tecnologia para um Hospital Público

Este estudo descreveu os fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia em um hospital público, com foco no planejamento. O objetivo foi descrever esses fatores condicionantes, conforme a percepção de profissionais. Realizou-se um estudo de caso único, aplicando um questionário a 25 profissionais e utilizando análise de conteúdo, complementada por tabulações descritivas. Os principais obstáculos identificados foram resistência à mudança (72%), financiamento (64%), falta de comunicação (60%) e burocracia (40%). Apenas 28% dos respondentes reconheceram a existência de ferramentas adequadas para gestão de stakeholders, enquanto 48% negaram e 24% não souberam informar. Cruzamentos exploratórios indicaram variações na avaliação de influência conforme o tempo de atuação, mas não estabeleceram relações causais. A falta de engajamento foi associada a atrasos, baixa adesão, desperdício de recursos, falhas de comunicação, comprometimento da absorção de conhecimento e riscos à segurança do paciente. As conclusões restringiram-se às percepções do grupo pesquisado e fundamentaram recomendações preliminares para comunicação e coordenação intersetorial.

Palavras-chave: Estudo de caso; Gestão de projetos; Inovação em saúde; Partes interessadas; Setor público.

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