Artigo

30 de setembro de 2026

Análise do desempenho financeiro de um escritório de advocacia de pequeno porte

Análise do Desempenho Financeiro de um Escritório de Advocacia de Pequeno Porte

Anderson Soares Sutero; Isabela Romanha de Alcantara

DOI: 10.22167/2675-6528-202602653

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A gestão financeira eficiente configura-se como um pilar estratégico essencial para a sustentabilidade e a competitividade de escritórios de advocacia, especialmente no segmento de micro e pequenas empresas. O objetivo do presente estudo foi realizar uma análise do desempenho financeiro de um escritório de advocacia de pequeno porte, visando identificar fragilidades econômico-financeiras. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso de abordagem quantitativa e objetivo descritivo, fundamentado na análise documental de registros internos do exercício de 2025. A metodologia compreendeu a estruturação da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) e Fluxo de Caixa e do Balanço Patrimonial, permitindo a aplicação de indicadores de rentabilidade, estrutura de capital e solvência conforme os padrões contábeis vigentes. Os resultados apontaram uma lucratividade de 77,75% e uma margem operacional de 78,08%, o que demonstrou uma elevada eficiência técnica na prestação de serviços. Contudo, a análise horizontal identificou uma volatilidade expressiva nas receitas mensais, com picos de faturamento concentrados em meses de liquidação de honorários de êxito e sucumbência. Adicionalmente, os índices de liquidez imediata de 4,66 e a liquidez corrente de 26,96 indicaram uma elevada solvência, embora a concentração de recursos em adiantamentos a sócios exigiu monitoramento. Identificou-se ainda que o elevado volume de repasses para clientes (R$ 910.697,13 no ano) exigiu controles segregados rigorosos. Concluiu-se que, apesar da rentabilidade robusta, a sustentabilidade do negócio a longo prazo dependeu da formalização de processos financeiros, da criação de reservas de capital de giro e da diversificação da carteira para mitigar os riscos da sazonalidade jurídica.

Palavras-chave: Estudo de Caso; Escritório de Advocacia; Gestão Financeira; Indicadores de Desempenho.

1. Introdução

O setor de serviços desempenha um papel central na economia brasileira, contribuindo significativamente para o Produto Interno Bruto (PIB) e para a geração de empregos. Em 2023, este segmento representou cerca de 70,4% do PIB e aproximadamente 60% dos empregos formais no país, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2025). Sua relevância advém da diversidade, abrangendo desde serviços profissionais, jurídicos e contábeis até áreas como saúde, educação, tecnologia da informação e turismo.

A dinâmica recente do setor de serviços demonstra uma recuperação consistente após o período da pandemia de COVID-19. Em maio de 2025, o volume total de serviços alcançou um patamar 17,5% superior ao nível pré-pandemia de fevereiro de 2020, impulsionado pela digitalização de processos e pela expansão da demanda em segmentos de maior valor agregado (IBGE, 2025). Este desempenho reforça a necessidade de práticas de gestão estruturadas em setores de alta competitividade, como o jurídico, que acompanha essa expansão.

Nesse cenário, a profissionalização da gestão financeira em escritórios de advocacia configura-se como um fator estratégico essencial para a sustentabilidade e a competitividade organizacional (Assaf Neto, 2020; Gitman, 2001; SEBRAE, 2024). Contudo, as Micro e Pequenas Empresas (MPEs) ainda enfrentam obstáculos estruturais na gestão financeira. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE, 2024) indica que cerca de 60% das MPEs brasileiras apresentam dificuldades no controle de custos, na previsão do fluxo de caixa e na precificação de serviços.

Os escritórios de advocacia de pequeno porte não estão imunes a essa realidade, replicando os desafios de gestão econômico-financeira das MPEs. A ausência de práticas sistematizadas limita a capacidade de planejamento, reduz a previsibilidade orçamentária e compromete a estabilidade econômica. Esses efeitos são agravados por custos fixos relevantes, ciclos de recebimento prolongados e alto índice de inadimplência, impactando diretamente a liquidez e a rentabilidade (Assaf Neto, 2020; Gitman, 2001).

A análise de desempenho financeiro emerge, portanto, como uma ferramenta crucial para diagnosticar a saúde econômica de um escritório. Grupos de indicadores como eficiência de custos, equilíbrio operacional, liquidez e rentabilidade permitem avaliar, de forma objetiva, a capacidade do negócio de gerar resultados, sustentar suas operações e honrar compromissos de curto e longo prazo (Gitman, 2001; Assaf Neto, 2020). Essa análise transforma a gestão administrativa em resultados mensuráveis, fornecendo subsídios para o planejamento, controle e tomada de decisão gerencial.

A advocacia, em particular, enfrenta o desafio de conciliar a excelência técnica com a sustentabilidade financeira, especialmente em escritórios de pequeno porte que operam sob pressão de custos fixos elevados. A gestão financeira torna-se uma condição essencial para a sobrevivência e o crescimento do negócio, demandando análises contínuas para ajustes de preços e realocação de recursos (SEBRAE, 2024; Assaf Neto, 2020; Gitman, 2001; Marion, 2018). Apesar dos avanços na literatura sobre gestão e controladoria em serviços, observa-se uma lacuna prática e teórica quanto à aplicação estruturada de análises financeiras em escritórios de advocacia de pequeno porte.

Essa carência de abordagens empíricas direcionadas ao contexto jurídico evidencia a necessidade de pesquisas que aliem o rigor da análise financeira ao caráter aplicado da gestão de serviços. No contexto específico da unidade objeto deste estudo, a pesquisa justifica-se pela ausência histórica de uma análise financeira formal e sistemática, onde a tomada de decisão se baseava majoritariamente na intuição em detrimento de indicadores técnicos. A necessidade deste diagnóstico emergiu durante reuniões de alinhamento que identificaram fragilidades nos controles vigentes, motivando a implementação de um sistema de gestão (ERP) para organizar as informações e permitir o monitoramento real do desempenho. Ademais, a atuação do pesquisador como gestor financeiro da empresa propicia a realização de uma pesquisa-ação, voltada a transformar dados brutos em ferramentas estratégicas para a sustentabilidade do negócio. Diante desse cenário, o objetivo deste trabalho foi realizar uma análise do desempenho financeiro de um escritório de advocacia de pequeno porte, visando identificar fragilidades econômico-financeiras.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem metodológica quantitativa, conforme as diretrizes de Gil (2019). A escolha da abordagem quantitativa justificou-se pela necessidade de traduzir informações em números, permitindo a classificação e análise objetiva dos dados coletados por meio de recursos e técnicas estatísticas. Quanto aos objetivos, a pesquisa foi de caráter descritivo, buscando caracterizar o desempenho econômico-financeiro da unidade de análise em um período definido, sem a pretensão de estabelecer relações de causalidade (Gil, 2019).

A estratégia de pesquisa adotada foi o estudo de caso, que possibilitou uma análise aprofundada da unidade selecionada a partir de múltiplas fontes de evidência. O objeto empírico foi um escritório de advocacia de pequeno porte, estabelecido em 2011 e consolidado como sociedade em 2014. Sua atuação concentra-se nas áreas de Direito Trabalhista, Previdenciário e Cível na região da Grande São Paulo, prestando serviços a pessoas físicas e jurídicas, além de atuar como correspondente jurídico para outras bancas.

A estrutura operacional do escritório é composta por sócios, advogados, assistentes e estagiários, complementada por uma rede de parceiros e especialistas externos, como peritos e consultores, acionados conforme a natureza e a complexidade das demandas. A seleção desta unidade de análise justificou-se pela oportunidade de observar, na prática, os desafios enfrentados por gestores jurídicos que, frequentemente, priorizam a atividade fim em detrimento dos controles financeiros e gerenciais sistematizados.

A coleta de dados foi realizada em etapas específicas. Primeiramente, no que tange aos aspectos éticos, obteve-se um Termo de Anuência junto ao escritório de advocacia, formalizando a autorização para acesso e utilização dos dados financeiros internos estritamente para fins acadêmicos. Este procedimento garantiu a proteção e o sigilo das informações sensíveis da empresa, assegurando a ética da pesquisa e o anonimato da instituição e dos indivíduos envolvidos, com tratamento agregado e confidencial dos dados.

Adicionalmente, foram realizadas entrevistas não estruturadas com periodicidade semanal junto à proprietária da empresa. Esses diálogos visaram validar o escopo da coleta de dados e acompanhar a evolução do cálculo dos indicadores. Por se tratar de uma pesquisa-ação, na qual o pesquisador atuou como gestor financeiro da unidade, as entrevistas serviram como base para a interpretação qualitativa dos fenômenos observados e o alinhamento entre os dados extraídos e a realidade operacional.

A captação dos dados financeiros ocorreu a partir de registros internos e do sistema de gestão do escritório, o ERP Conta Azul. As informações abrangeram o período de janeiro a dezembro de 2025. A escolha deste recorte temporal justificou-se pela disponibilidade e integridade dos dados, uma vez que o sistema ERP atingiu seu pleno funcionamento e organização sistêmica a partir de janeiro de 2025, garantindo a fidedignidade do conjunto de dados.

Os dados coletados incluíram planilhas de fluxo de caixa, balanço patrimonial, controles de receitas de honorários, registros de custos e a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE). Para a organização do Balanço Patrimonial e a classificação das contas, adotaram-se os critérios contábeis descritos por Ribeiro (2017). Os elementos do ativo foram dispostos em ordem decrescente de liquidez, e as obrigações no passivo seguiram a ordem de exigibilidade, visando refletir com maior precisão a solvência e a saúde financeira da entidade no curto e longo prazo.

A estruturação dos ativos do escritório compreendeu duas classes principais. No ativo circulante, incluíram-se contas de disponível, como movimentações bancárias e aplicações financeiras de liquidez imediata; contas de clientes, como duplicatas a receber, reembolsos e repasses; e outros créditos, que abrangiam títulos a receber e adiantamentos a sócios. O ativo não circulante foi composto por ativos imobilizados, como móveis e utensílios, e suas respectivas depreciações e amortizações.

Para os passivos, definiram-se as classes de passivo circulante e patrimônio líquido. O passivo circulante englobou obrigações com fornecedores, tributos a recolher, encargos trabalhistas e previdenciários, e outras obrigações operacionais. O patrimônio líquido agrupou o capital social subscrito e o saldo de lucros ou prejuízos acumulados, representando os recursos investidos pelos sócios e o resultado gerado pela operação.

A análise de desempenho financeiro foi empregada para mensurar a capacidade de geração de resultados e a eficiência operacional do escritório, utilizando indicadores econômico-financeiros, conforme Gitman (2001) e Assaf Neto (2020). Esses indicadores são fundamentais para a análise da rentabilidade, da estrutura de custos e do equilíbrio operacional das empresas, permitindo a interpretação quantitativa do desempenho ao longo do tempo.

A análise da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) realizou-se por meio de exames vertical e horizontal de seus componentes, como Receita Líquida, Custos dos Serviços Prestados e Despesas Operacionais. Essa abordagem, conforme Iudícibus (2017), permitiu compreender a composição percentual dos resultados e as variações temporais que impactaram o desempenho financeiro, seguindo os preceitos de Assaf Neto (2020) para garantir a fidedignidade dos índices de lucratividade.

A análise foi conduzida de forma comparativa, mês a mês, e consolidada para o período total, visando descrever o desempenho econômico-financeiro do escritório. Os indicadores financeiros selecionados para fundamentar a avaliação do desempenho econômico-financeiro do escritório foram segmentados em três categorias principais: rentabilidade, liquidez e estrutura patrimonial.

No grupo de rentabilidade, analisaram-se a Lucratividade e a Margem Operacional. A Lucratividade foi calculada como o percentual do lucro líquido obtido sobre a receita total, mensurando a capacidade da organização de gerar retorno após a dedução de todas as despesas e tributos (Assaf Neto, 2020). A Margem Operacional indicou a eficiência da gestão na administração dos custos e despesas diretamente vinculados à atividade principal, refletindo o lucro obtido antes das despesas financeiras e impostos (Marion, 2018).

Para a avaliação da liquidez, empregaram-se os índices de Liquidez Corrente e Liquidez Imediata. A Liquidez Corrente foi calculada pela razão entre o ativo circulante e o passivo circulante, indicando a capacidade de pagamento da organização no curto prazo. O índice de Liquidez Seca não foi considerado, visto que, na prestação de serviços jurídicos, o estoque é inexistente, tornando sua aplicação redundante para esta análise.

A Liquidez Imediata foi determinada pela razão entre as disponibilidades e o passivo circulante, refletindo a disponibilidade financeira instantânea (caixa e bancos) frente às dívidas de curto prazo. Quanto à estrutura patrimonial, examinaram-se o Capital de Giro Líquido (CGL), calculado como o ativo circulante subtraído do passivo circulante, e a Participação de Capital de Terceiros (PCT), que mensurou a proporção do passivo circulante e não circulante em relação ao patrimônio líquido.

3. Resultados e Discussão

A análise do desempenho financeiro do escritório de advocacia de pequeno porte, referente ao exercício de 2025, revelou um cenário de robustez em termos de rentabilidade, mas também expôs fragilidades estruturais e operacionais que demandam atenção gerencial. Os dados patrimoniais indicaram uma sólida base de capital próprio, com um Patrimônio Líquido de R$ 571.796,75 e um Passivo Circulante de apenas R$ 21.911,23. Essa configuração sugere um baixo endividamento de curto prazo, o que, à primeira vista, confere uma imagem de estabilidade financeira à organização, conforme os preceitos de uma gestão patrimonial equilibrada.

No que concerne aos indicadores de liquidez, a pesquisa identificou uma liquidez corrente de 26,96 e uma liquidez imediata de 4,66. A liquidez corrente, que representa a capacidade de o escritório cobrir suas dívidas de curto prazo, demonstrou que para cada R$ 1,00 de dívida, a organização possuía R$ 26,96 em ativos financeiros. Este patamar é significativamente superior à média observada em estudos de caso do setor, como os índices de 6,99 e 4,47 apurados pela Fundace/USP, e excede largamente o intervalo considerado saudável pela literatura financeira geral, que varia entre 1,5 e 2,0 (XP Investimentos; Stripe).

Apesar dos elevados índices de liquidez, uma análise mais aprofundada da composição do Ativo Circulante revelou uma fragilidade importante. Verificou-se que R$ 394.370,33, correspondendo a 66,7% do Ativo Circulante, estavam alocados em adiantamentos a sócios. Essa concentração de recursos, embora formalmente parte do ativo, na prática, já saiu do fluxo operacional do escritório para a esfera privada dos sócios. Conforme destacado por Ribeiro (2017), ativos sem um fluxo de conversão em caixa previsível podem comprometer a solvência real da entidade em momentos de crise, gerando uma falsa sensação de segurança patrimonial e limitando a liquidez operacional disponível para investimentos ou expansão.

A participação de capital de terceiros no financiamento do escritório foi de 3,83%, o que reforça a constatação de que a maior parte das operações é sustentada por capital próprio. Essa baixa dependência de dívidas de terceiros contribui para a solidez patrimonial, mas a gestão dos adiantamentos a sócios emerge como um ponto crítico. A ausência de um fluxo de caixa efetivo para esses recursos pode, em última instância, forçar o escritório a buscar crédito externo para cobrir necessidades de capital de giro, mesmo possuindo um patrimônio líquido formalmente elevado, o que contraria a lógica de uma gestão financeira prudente.

A Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) consolidada para 2025, calculada com base em uma Receita Operacional Líquida (ROL) de R$ 784.763,50 (após dedução de impostos do Simples Nacional da Receita Bruta de R$ 861.436,64), apresentou indicadores de rentabilidade notáveis. A lucratividade (margem líquida) foi de 77,75%, indicando que para cada R$ 100,00 de receita líquida, o escritório converteu aproximadamente R$ 77,75 em lucro líquido. Este patamar é considerado elevado para o setor de serviços jurídicos, sinalizando uma estrutura de custos bem controlada e uma alta agregação de valor intelectual nos serviços prestados.

Adicionalmente, a margem operacional apurada foi de 78,08%. A pequena diferença entre a lucratividade e a margem operacional demonstra que as despesas financeiras e os itens não operacionais tiveram um impacto mínimo no resultado final. Isso reforça a conclusão de que a performance econômica do escritório é majoritariamente sustentada pela eficiência de sua atividade-fim, ou seja, a prestação de serviços jurídicos. A consistência desses indicadores de rentabilidade sublinha a capacidade do negócio de gerar resultados positivos e manter uma operação lucrativa, mesmo em um setor competitivo.

Contudo, a análise da sazonalidade da receita e do lucro líquido ao longo de 2025 revelou uma volatilidade expressiva. Observou-se uma relação direta entre o volume de receitas e a geração de lucro, o que sugere uma estrutura de custos variáveis e fixos bem gerenciada. O pico de faturamento ocorreu em setembro, atingindo R$ 113.197,69, acompanhado pelo maior lucro mensal de R$ 89.979,00. Em contraste, o mês de maio registrou o menor desempenho econômico, com receita de R$ 43.414,24 e lucro de R$ 12.910,05. Essa oscilação é característica da prestação de serviços advocatícios, onde o recebimento de honorários de êxito e sucumbência pode gerar variações significativas no resultado mensal.

Essa volatilidade expõe a fragilidade de um modelo de negócio excessivamente dependente de honorários de êxito. Para mitigar esses riscos, a literatura sugere a implementação de ferramentas como o Fluxo de Caixa Prospectivo (Kassai, 1997), que permite simular cenários futuros e antecipar escassez de caixa. A constituição de uma reserva de capital de giro, utilizando os excedentes dos meses de pico, também é crucial para cobrir custos fixos em períodos de retração, garantindo a solvência sem a necessidade de recorrer a créditos externos. A diversificação de receitas, por meio de contratos de assessoria mensal recorrente (honorários de partido), pode reduzir a dependência da sazonalidade jurídica e estabilizar a Receita Líquida, conforme apontado por Ramírez-Urquidy et al. (2018) sobre a importância do planejamento para a sustentabilidade de pequenos negócios.

A Análise Horizontal (AH) do faturamento confirmou a volatilidade significativa, com quedas de -29,37% em março e -29,57% em maio. O mês de maio, com R$ 43.414,24, foi o de menor faturamento do ano. A recuperação se deu a partir de junho, culminando no pico de setembro (R$ 113.197,69), que representou um crescimento de 105,32% em relação ao mês anterior. Esse pico foi impulsionado pela liquidação simultânea de Honorários de Sucumbência (R$ 28.046,10) e Honorários Trabalhistas (R$ 48.541,39), evidenciando a concentração de recebimentos em eventos específicos do calendário jurídico.

A sazonalidade observada sugere que o segundo semestre tende a concentrar o encerramento de fases processuais e a liberação de alvarás, muitas vezes decorrentes de ações iniciadas após os períodos de maior rotatividade de pessoal no início do ano. Em outubro, a receita permaneceu elevada em R$ 105.585,04, impulsionada por um volume excepcional de Honorários Previdenciários Administrativos, que somaram R$ 65.669,60. Este dado ressalta a importância da diversificação das fontes de receita para a estabilidade financeira do escritório, mitigando os impactos das flutuações inerentes à advocacia contenciosa.

A Análise Vertical (AV) da Receita Bruta mensal, que detalhou a composição da estrutura de custos e a margem de lucro, evidenciou a rigidez dos custos fixos do escritório. Em maio, as despesas administrativas atingiram seu pico de representatividade, consumindo 48,32% da receita bruta, o que resultou na menor margem líquida do ano, de 34,06%. Em contraste, em meses de alta produtividade, como setembro, as despesas administrativas representaram apenas 9,58% da receita bruta, permitindo que a fatia destinada ao lucro líquido se expandisse para 80,43%. Esse comportamento confirma a eficiência operacional da banca em períodos de alto volume, mas também alerta para a necessidade de reservas de contingência para os meses de baixa arrecadação.

Em fevereiro, as despesas administrativas representaram apenas 5,02% da receita, um ponto de eficiência que maximizou o lucro devido ao aumento da receita não ser acompanhado por um aumento proporcional nos custos fixos. No entanto, em maio, a queda no faturamento fez com que as mesmas despesas administrativas consumissem 48,32% da Receita Operacional Líquida (ROL), demonstrando que, em cenários de retração, quase metade da arrecadação é utilizada para a manutenção da estrutura básica. Em média, as despesas administrativas mantiveram-se entre 15% e 20% da receita ao longo do ano, indicando que o escritório necessita de um faturamento médio acima de R$ 50.000,00 para sustentar sua estrutura e permitir reinvestimentos e retiradas de lucros pelos sócios.

A alta rentabilidade do escritório, com uma margem operacional de 78,08%, é consistente com a natureza intelectual dos serviços jurídicos, onde o capital humano é o principal insumo e os custos fixos são relativamente estáveis, conforme Santos (2022). No entanto, a oscilação de receita e a dependência de honorários de êxito, como apontado por Moura (2025), geram picos de lucro que podem mascarar períodos de baixa arrecadação, expondo o negócio a riscos estruturais. A rigidez da estrutura de custos, onde as despesas administrativas consomem uma parcela significativa da receita em cenários de retração, reflete a fragilidade administrativa comum a PMEs, muitas vezes limitada pela baixa percepção e priorização de problemas gerenciais (Kassai, 1997).

A análise do Fluxo de Caixa, focada na movimentação financeira real, revelou que o escritório iniciou o ano de 2025 com um saldo disponível de R$ 105.478,25, mantendo saldos positivos na maioria dos meses. Um aspecto crucial identificado foi o elevado volume de repasses para clientes, que totalizaram R$ 910.697,13 no acumulado anual. Esses valores representam recursos de terceiros, como indenizações e alvarás, que transitam pelas contas do escritório antes de serem transferidos aos clientes, não compondo a Receita Operacional Líquida. Em julho de 2025, houve um pico de repasses de R$ 200.817,28, evidenciando a função do escritório como intermediário financeiro em processos judiciais.

O expressivo volume de repasses para clientes, que superou o próprio faturamento líquido da empresa, impõe desafios que vão além da técnica contábil, adentrando a responsabilidade civil e a ética profissional. As diretrizes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e os princípios de transparência financeira exigem a segregação absoluta entre honorários (recursos próprios) e valores de clientes (recursos de terceiros). A ausência de contas bancárias específicas para essa finalidade pode distorcer a percepção do fluxo de caixa real, levando os gestores a considerar o saldo bancário inflado por repasses como capital de giro disponível (Brasil, 1994; OAB, 2015).

A necessidade de implementação de mecanismos de custódia mais sofisticados é evidente, incluindo conciliações bancárias diárias e, preferencialmente, o uso de subcontas ou contas de trânsito. Essa prática não apenas protege o patrimônio dos sócios contra questionamentos de má gestão de recursos de clientes, mas também garante que a análise de indicadores de rentabilidade seja feita sobre uma base de dados limpa, refletindo o desempenho operacional genuíno do escritório sem a interferência de valores que apenas transitam pela contabilidade. Os tributos (Simples Nacional – DAS) totalizaram R$ 76.673,14 no ano, e a análise das saídas demonstra que, apesar dos custos fixos operacionais estáveis, o fluxo de caixa é fortemente influenciado pelo trânsito de valores de terceiros, reforçando a necessidade de reservas de liquidez para suportar a operação sem depender exclusivamente dos honorários de curto prazo.

Em síntese, o estudo revelou que, embora o escritório de advocacia apresente uma elevada rentabilidade e eficiência operacional, a sustentabilidade a longo prazo é comprometida pela significativa volatilidade das receitas, a dependência de honorários de êxito e a concentração de recursos em adiantamentos a sócios que distorcem a liquidez real. A gestão financeira deve, portanto, focar na formalização de processos, na criação de reservas de capital de giro e na diversificação da carteira de clientes, além de implementar controles rigorosos para os repasses de valores de terceiros, a fim de mitigar os riscos da sazonalidade jurídica e garantir uma base sólida para a tomada de decisões estratégicas.

4. Conclusão

O presente estudo buscou realizar uma análise do desempenho financeiro de um escritório de advocacia de pequeno porte, com o intuito de identificar fragilidades econômico-financeiras em sua gestão. Verificou-se que a operação demonstrou elevada rentabilidade, com uma margem líquida de 77,75% e operacional de 78,08%, indicando alta eficiência técnica na prestação de serviços e controle de custos. Contudo, observou-se uma significativa volatilidade nas receitas mensais, impulsionada pela concentração de honorários de êxito e sucumbência, o que expõe o negócio a riscos de sazonalidade. Adicionalmente, identificou-se que, apesar dos altos índices de liquidez corrente de 26,96 e imediata de 4,66, a real disponibilidade de recursos era comprometida pela elevada alocação em adiantamentos a sócios. O expressivo volume de repasses para clientes, que totalizou R$ 910.697,13 no ano, exigiu a necessidade de controles segregados rigorosos para evitar distorções no fluxo de caixa e na percepção da liquidez.

A principal contribuição deste trabalho reside no diagnóstico detalhado da saúde econômico-financeira do escritório, transformando dados brutos em informações estratégicas para a tomada de decisão gerencial. As fragilidades identificadas, como a dependência da sazonalidade jurídica e a distorção da liquidez por adiantamentos a sócios, limitam a sustentabilidade a longo prazo. Sugere-se, como encaminhamento gerencial, a formalização de processos financeiros, a criação de reservas de capital de giro e a diversificação da carteira de clientes, além da implementação de mecanismos de custódia mais sofisticados para os repasses de terceiros. Para estudos futuros, recomenda-se a análise de indicadores de rentabilidade sobre o investimento, aprofundamento em táticas de planejamento financeiro para mitigar a sazonalidade e a investigação do impacto de controles gerenciais na estrutura de custos de sociedades de advogados de pequeno porte.

Referências Bibliográficas

Assaf Neto, A. 2020. Finanças Corporativas e Valor. 8ed. Altas, São Paulo, SP, Brasil.

Brasil. 1994. Lei nº 8.906, de 4 de julho de 1994. Dispõe sobre o Estatuto da Advocacia e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Diário Oficial da União, Brasília, 05 jul. 1994. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/18906.htm. Acesso em: 09 mar. 2026.

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Kassai, S. 1997. As Empresas de Pequeno Porte e a Contabilidade. Caderno de Estudos (FIPECAFI), São Paulo, SP, Brasil, v. 9, n. 15, p. 60-74, jan.-jun. 1997.

Marion, J.C. 2018. Contabilidade Empresarial. 19ed. Altas, São Paulo, SP, Brasil.

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Ramírez-Urquidy, M.; Aguilar-Barceló, J. G.; Portal-Boza, M. 2018. The Impact of Economic and Financial Management Practices on the Performance of Mexican Micro-Enterprises: A Multivariate Analysis. Revista Brasileira de Gestão de Negócios (Review of Business Management), São Paulo, SP, Brasil, v. 20, n. 3, p. 319-337, jul.-set. 2018.

Ribeiro, O.M. 2017. Série + em Foco – Estrutura e Análise de Balanços. 12ed. Saraiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

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Stripe [Referência completa não encontrada no documento original]

XP Investimentos [Referência completa não encontrada no documento original]

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

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22 de outubro de 2026

Observatório Digital da Amazônia: Ciência de Dados Aplicada à Análise de Indicadores Sociais, Econômicos, Ambientais e de Saúde

O estado do Amazonas enfrentou desafios históricos na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), decorrentes de barreiras geográficas, desigualdades socioeconômicas e limitações estruturais. Descreveu-se, neste estudo, o desenvolvimento e a implementação de um geoportal de informações em saúde, concebido para apoiar o monitoramento, a avaliação e o planejamento no contexto amazônico. Adotou-se uma abordagem de estudo de caso descritivo, baseada em análise documental e dados secundários, abrangendo o mapeamento de funcionalidades, a infraestrutura técnica e as etapas de validação da ferramenta. O Portal foi desenvolvido com tecnologias abertas e integrou múltiplas bases de dados nacionais, oferecendo dashboards interativos, mapas temáticos e repositório digital de documentos. Entre os resultados, destacaram-se a visualização georreferenciada de indicadores-chave, a possibilidade de análises comparativas temporais e a utilização da plataforma na revisão de planos de saúde e no redirecionamento de ações estratégicas. O portal pode representar um avanço na governança digital e na gestão baseada em evidências, com potencial de replicabilidade para outros territórios de alta complexidade, desde que acompanhada de investimentos em infraestrutura tecnológica, capacitação profissional e articulação interinstitucional.

Palavras-chave: Amazônia; Avaliação em Saúde; Saúde Digital; Sistemas de Informação em Saúde.

22 de outubro de 2026

Aprendizado Contínuo como Fator de Crescimento Organizacional na Percepção dos Colaboradores

O impacto do aprendizado contínuo e da gestão do conhecimento no crescimento das organizações foi estudado em um cenário de globalização e constantes mudanças. O objetivo do estudo foi analisar a percepção dos colaboradores sobre a cultura de aprendizagem e sua importância para o desenvolvimento pessoal e profissional. Os dados foram obtidos por meio de uma pesquisa anônima, de abordagem quantitativa, utilizando um formulário com questões do tipo “survey” aplicado a 87 profissionais dos setores de tecnologia, saúde, educação, comércio e serviços. Os resultados indicaram que os colaboradores possuíam uma percepção positiva sobre a contribuição do aprendizado contínuo para o crescimento pessoal e organizacional, reconhecendo seus benefícios para o desenvolvimento de novas habilidades, inovação e competitividade. Contudo, observou-se que o incentivo à troca de conhecimento interno e a oferta de treinamentos práticos ainda apresentavam médias moderadas de concordância. Concluiu-se que o aprendizado contínuo contribui significativamente para o desenvolvimento individual e organizacional, sugerindo que as empresas devem desenvolver políticas estratégicas de aprendizado direcionado para novas habilidades, visando maior vantagem competitiva e inovação.

Palavras-chave: Aprendizagem contínua; Autodesenvolvimento; Crescimento organizacional; Gestão do conhecimento; Inovação.

22 de outubro de 2026

Previsão da Inadimplência Agregada no Sistema Financeiro Brasileiro por Modelo Sarimax com Variáveis Macroeconômicas

A inadimplência agregada no sistema financeiro brasileiro é um indicador crucial de risco de crédito, cuja previsão é regulamentada pelas Resoluções CMN n.° 4.557/2017 e 4.966/2021 para a mensuração prospectiva de perdas esperadas. Modelou-se e previu-se a inadimplência agregada por meio do modelo SARIMAX, projetando sua trajetória até dezembro de 2026 sob cenários otimista, base e pessimista. Utilizaram-se 164 observações mensais (julho/2012 a fevereiro/2026) e variáveis macroeconômicas como desemprego, Selic, IPCA, IBC-Br e endividamento das famílias. A especificação com variáveis contemporâneas foi selecionada com base em critérios de informação e estabilidade dos coeficientes, e o diagnóstico dos resíduos confirmou adequação estatística, com MAPE de 3,12%. A inadimplência histórica variou entre 4,33% e 7,64%. A estimação identificou o desemprego (β = 0,2534; p < 0,001) e a Selic (β = 0,2128; p < 0,001) como principais determinantes positivos, com forte persistência temporal (AR(1) = 0,8965). A Selic exibiu correlação crescente com a inadimplência (r = 0,62 no lag 12), enquanto o desemprego demonstrou efeito contemporâneo (r = 0,33). As projeções indicaram inadimplência entre 6,30% e 7,98% em dezembro de 2026, com uma amplitude de 1,68 ponto percentual, evidenciando implicações diretas para o dimensionamento de provisões nas instituições financeiras. Palavras-chave: Desemprego; Modelagem preditiva; Política monetária; Provisão de perdas; Séries temporais.

22 de outubro de 2026

Fatores de Engajamento das Partes Interessadas na Transferência Internacional de Tecnologia para um Hospital Público

Este estudo descreveu os fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia em um hospital público, com foco no planejamento. O objetivo foi descrever esses fatores condicionantes, conforme a percepção de profissionais. Realizou-se um estudo de caso único, aplicando um questionário a 25 profissionais e utilizando análise de conteúdo, complementada por tabulações descritivas. Os principais obstáculos identificados foram resistência à mudança (72%), financiamento (64%), falta de comunicação (60%) e burocracia (40%). Apenas 28% dos respondentes reconheceram a existência de ferramentas adequadas para gestão de stakeholders, enquanto 48% negaram e 24% não souberam informar. Cruzamentos exploratórios indicaram variações na avaliação de influência conforme o tempo de atuação, mas não estabeleceram relações causais. A falta de engajamento foi associada a atrasos, baixa adesão, desperdício de recursos, falhas de comunicação, comprometimento da absorção de conhecimento e riscos à segurança do paciente. As conclusões restringiram-se às percepções do grupo pesquisado e fundamentaram recomendações preliminares para comunicação e coordenação intersetorial.

Palavras-chave: Estudo de caso; Gestão de projetos; Inovação em saúde; Partes interessadas; Setor público.

22 de outubro de 2026

Combate às Perdas Comerciais de Energia Elétrica Utilizando Modelo de Séries Temporais

As perdas comerciais de energia elétrica representaram um dos principais desafios para as distribuidoras, impactando diretamente a sustentabilidade econômica e a qualidade do fornecimento. Avaliou-se a eficiência de modelos de séries temporais, com foco em técnicas de suavização exponencial, na previsão do consumo faturado de unidades consumidoras, para apoiar a identificação de desvios associados a perdas não técnicas. Utilizaram-se dados históricos de consumo mensal de uma distribuidora de energia elétrica no Brasil, segmentados por perfis de comportamento (estacionariedade, tendência e sazonalidade). Aplicaram-se modelos de suavização exponencial simples, Holt e Holt-Winters (aditivo e multiplicativo), comparados a uma média móvel tradicional. O erro percentual absoluto médio (MAPE) foi o critério de avaliação. Adicionalmente, empregou-se a abordagem ETS para seleção automática do modelo e testes de diagnóstico dos resíduos, como Ljung-Box e análise da função de autocorrelação. Os resultados demonstraram que modelos mais robustos apresentaram maior capacidade de adaptação às características das séries e menor erro, com destaque para o desempenho superior em cenários com tendência. Para séries sazonais, o modelo ETS mostrou maior capacidade de adaptação a transições. Concluiu-se que a utilização de modelos de séries temporais mais estruturados contribuiu significativamente para a melhoria da acurácia das previsões e ofereceu suporte analítico relevante para a identificação de perdas comerciais e otimização de processos operacionais e comerciais no setor elétrico.

Palavras-chave: Distribuição de energia; MAPE; Otimização; Previsão de consumo; Suavização exponencial.

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