Artigo

30 de setembro de 2026

A Maturidade na Gestão de Indicadores e a Efetividade das Decisões Data-Driven em Empresas Brasileiras

A Maturidade na Gestão de Indicadores e a Efetividade das Decisões Data-driven em Empresas Brasileiras

Aser Gomes; Fabiano Sannino

DOI: 10.22167/2675-6528-202602692

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

Um estudo investigou a relação entre governança de KPIs, cultura data-driven, capacidades técnicas e efetividade decisória em organizações brasileiras. O objetivo foi identificar perfis de maturidade analítica e analisar a correlação entre essas dimensões e a efetividade decisória. Realizou-se um survey com 42 respondentes, utilizando um questionário Likert de 20 itens. Aplicaram-se análises descritivas, correlação de Spearman, regressão múltipla, análise de clusters k-medoids e análise fatorial exploratória (AFE), com testes de multicolinearidade e viés de método comum. As dimensões de maturidade correlacionaram-se fortemente com a efetividade decisória. A regressão explicou 79,5% da variância, com capacidades analíticas e cultura data-driven como preditores significativos. A governança de KPIs não apresentou efeito direto devido à multicolinearidade. A AFE extraiu três fatores, que divergiram do modelo teórico original. A análise de clusters identificou perfis Iniciante, Intermediário e Avançado, demonstrando que organizações avançadas alcançaram efetividade 2,02 vezes superior. O teste de Harman indicou viés de método comum moderado. Concluiu-se que capacidades analíticas e cultura data-driven foram os determinantes centrais da efetividade decisória, evidenciando um descompasso entre aspectos formais e comportamentais. As limitações incluíram a amostra por conveniência, o delineamento transversal e o viés de método comum moderado.

Palavras-chave: Análise fatorial exploratória; Capacidades analíticas; Cultura orientada a dados; Governança de indicadores de desempenho; Maturidade analítica.

1. Introdução

A aceleração da transformação digital, impulsionada pela emergência de ferramentas de Inteligência Artificial generativa, redefiniu os paradigmas competitivos das organizações. No cenário global, a chamada quarta revolução industrial impôs às empresas a necessidade de reconfigurar modelos de negócio, processos decisórios e estruturas de governança, com os dados assumindo centralidade (Schwab, 2016).

No mercado brasileiro, essa transição apresentou contornos específicos. Enquanto a adoção de tecnologias avançadas, como a Inteligência Artificial generativa, é relatada por uma parcela significativa das empresas, a integração centralizada e estratégica dessas tecnologias ainda é um desafio. Pesquisas históricas já indicavam uma heterogeneidade considerável entre setores e portes organizacionais na capacidade de converter investimentos em tecnologia em resultados de gestão (Bain & Company, 2024; Diniz et al., 2009).

Nesse contexto, a gestão de Key Performance Indicators (KPIs) emergiu como um pilar fundamental da transformação organizacional. KPIs representam o processo sistemático de definição, monitoramento e análise de métricas que traduzem objetivos estratégicos em resultados mensuráveis, funcionando como traduções operacionais da estratégia (Fleury e Fleury, 2001). Sistemas como o Balanced Scorecard, por exemplo, operacionalizaram esse alinhamento, distribuindo objetivos estratégicos em indicadores por diversas perspectivas organizacionais (Kaplan e Norton, 1997).

A tomada de decisões data-driven, por sua vez, constitui o estágio mais avançado da decisão organizacional, onde as escolhas estratégicas e operacionais são fundamentadas em análise sistemática de evidências, visando minimizar vieses cognitivos e incertezas. Essa abordagem transcende a mera utilização de ferramentas tecnológicas, configurando-se como uma cultura organizacional multidimensional (Pereira, 2023), alinhada a abordagens integradas de gestão de processos e tecnologia da informação (Laurindo e Rotondaro, 2006).

No entanto, a implementação madura desses sistemas no Brasil enfrentou desafios particulares. Pesquisas empíricas em empresas industriais brasileiras demonstraram que, embora a adoção formal de sistemas de indicadores estivesse associada a maior clareza estratégica e melhores resultados operacionais, a maturidade na implementação variou significativamente entre os setores (Hourneaux Junior et al., 2005). A literatura nacional já apontava, desde o final dos anos 1990, dificuldades estruturais de integração entre os níveis estratégico, tático e operacional dos sistemas de medição de desempenho (Martins e Salerno, 1998). Além disso, o quadro regulatório, incluindo a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), exigiu que a governança de KPIs incorporasse dimensões de conformidade legal e ética no tratamento de informações (Bioni, 2021; Hirano, 2024).

A premissa teórica de que a governança de KPIs, a cultura data-driven e as capacidades técnicas convergem sinergicamente para aprimorar a tomada de decisões é amplamente reconhecida na literatura de gestão de analytics (Davenport e Harris, 2007; Hirano, 2024). Contudo, a persistência de um “formalismo estrutural” e lacunas comportamentais em organizações brasileiras, como a baixa autonomia e aversão ao erro, sugerem um descompasso entre a existência de sistemas formais e sua efetiva apropriação pela equipe (Caldas e Wood Jr., 1999; Barros e Prates, 1996). Essa lacuna prática e teórica no contexto nacional justifica a necessidade de investigar como esses elementos se relacionam e influenciam a efetividade decisória. Diante desse contexto, o presente trabalho teve como objetivo geral investigar a correlação entre a maturidade na gestão de KPIs e a percepção de efetividade da tomada de decisão data-driven em empresas atuantes no Brasil.

2. Material e Métodos

A pesquisa adotou uma abordagem quantitativa, descritiva e correlacional, utilizando um desenho de survey transversal. O objetivo metodológico foi testar relações hipotéticas entre construtos teóricos, seguindo uma abordagem dedutiva baseada no referencial revisado. O estudo envolveu a coleta de dados com participantes humanos por meio de questionário estruturado, com consentimento livre e esclarecido. O Formulário de Direcionamento Ético foi validado pelo orientador, e o projeto, por tratar de percepções profissionais sem dados sensíveis, não demandou submissão a um Comitê de Ética em Pesquisa. Os dados foram tratados de forma agregada, garantindo o anonimato dos participantes.

O instrumento de coleta foi desenvolvido com base na literatura de maturidade analítica (Pereira, 2023) e gestão de desempenho (Fleury e Fleury, 2001; Kaplan e Norton, 1997). Os construtos foram operacionalizados em itens mensuráveis, decompondo a maturidade na gestão de KPIs em três dimensões: governança, cultura e capacidades técnicas. A operacionalização seguiu validação de conteúdo (Sordi e Meireles, 2011), com construtos adaptados da literatura, sem derivação direta de instrumentos validados por Análise Fatorial Confirmatória. O questionário final estruturou-se em seis seções, incluindo dados demográficos, 20 itens sobre as dimensões de maturidade (Governança de KPIs, Cultura, Capacidades Técnicas) e quatro itens para Efetividade Decisória. Todos os itens de maturidade e efetividade utilizaram escala Likert de cinco pontos (1 = Discordo Totalmente; 5 = Concordo Totalmente), com opção “Não Aplicável” para reduzir o viés de resposta forçada (Bortolotti et al., 2012).

A coleta de dados ocorreu entre 18 e 30 de março de 2026, por meio de divulgação no LinkedIn e contatos profissionais do pesquisador. Foram obtidos 44 registros, dos quais 42 foram considerados válidos após a exclusão de casos que apresentaram respostas “Não Aplicável” em quatro ou mais itens estruturais. Inicialmente, a pesquisa foi planejada para abranger profissionais de analytics e gestão, mas foi ampliada após 26 de março para grupos não especializados devido à baixa adesão, o que introduziu heterogeneidade intencional no perfil dos respondentes.

Os dados foram processados e analisados seguindo um protocolo estruturado. Respostas “Não Aplicável” foram recodificadas como nulos, e registros com quatro ou mais itens omissos foram descartados. Calcularam-se escores compostos para cada construto (média aritmética) e verificaram-se outliers. A análise descritiva incluiu estatísticas básicas e o coeficiente alfa de Cronbach para confiabilidade interna (Hair et al., 2009; Field, 2009). Para escores e correlações, adotou-se o método pairwise deletion, que maximiza o aproveitamento dos dados na presença de valores omissos esparsos. Na análise inferencial, empregou-se a Correlação de Spearman (Field, 2009), Regressão Linear Múltipla (Hair et al., 2009) e Análise de Clusters k-medoids (Partitioning Around Medoids – PAM) (Kaufman e Rousseeuw, 1990), robusta para dados ordinais.

Para controle do viés de método comum (CMV), seguiram-se recomendações de Podsakoff et al. (2003), incluindo anonimato, informação sobre ausência de respostas certas ou erradas, opção “Não Aplicável” e separação estrutural das seções preditoras e critério. Como procedimento estatístico post hoc, aplicou-se o Teste de Fator Único de Harman, submetendo os 20 itens a uma Análise de Componentes Principais sem rotação. O primeiro fator explicou 58,76% da variância total, indicando um CMV moderado. Conduziu-se também uma Análise Fatorial Exploratória (AFE) com PCA e rotação promax (Hair et al., 2009; Field, 2009), avaliando a adequação da matriz de correlações por testes de Bartlett e KMO (Malhotra, 2019). A AFE indicou uma solução de três fatores, explicando 61,6% da variância total após a rotação. As análises foram processadas no ambiente Google Colab com a biblioteca `factor_analyzer`.

A suficiência amostral para regressão linear múltipla com três preditores foi avaliada pelo método de Cohen (1988), que considera o tamanho do efeito esperado, nível de significância e poder estatístico desejado. O R² observado de 0,795 (f² = 3,878), classificado como efeito muito grande, indicou que a amostra de 42 respondentes foi mais do que suficiente para detectar o efeito encontrado, dado um n mínimo de sete para poder de 0,80.

3. Resultados e Discussão

A presente seção detalha os achados da pesquisa, interpretando-os à luz do problema de pesquisa e do referencial teórico adotado. Inicialmente, apresenta-se a caracterização da amostra, seguida pelas estatísticas descritivas das dimensões de maturidade analítica e efetividade decisória. Em seguida, são discutidas as análises de correlação, regressão linear múltipla, clusters e fatorial exploratória, que permitiram testar as hipóteses e identificar padrões. Por fim, são abordadas as implicações gerenciais e proposições estratégicas para cada perfil de maturidade, culminando em uma síntese interpretativa dos resultados e suas contribuições para a compreensão da maturidade analítica no contexto brasileiro.

Caracterização da Amostra

A amostra válida do estudo foi composta por 42 respondentes, predominantemente de organizações de grande porte, com 61,9% dos participantes atuando em empresas com mais de 300 funcionários. Empresas de médio porte (101 a 300 funcionários) representaram 19,0%, enquanto as de pequeno porte (31 a 100 funcionários) e microempresas (até 30 funcionários) somaram 14,3% e 4,8%, respectivamente. Em termos de setor de atuação, os Serviços foram o mais representativo, com 31% dos respondentes, seguidos por Tecnologia e Indústria, ambos com 14,3% cada. Varejo e Saúde contribuíram com 9,5% cada, e Fintechs, Logística e Educação com 7,1% cada. A maioria dos respondentes possuía até seis anos de experiência na função, com 42,9% tendo até três anos e 38,1% entre três e seis anos. Apenas 19,0% possuíam mais de seis anos de experiência. Quanto à função, 31,0% atuavam em posições operacionais não relacionadas a analytics/tecnologia, e 21,4% em posições de liderança não relacionadas a essas áreas, indicando uma diversidade de perspectivas.

Estatísticas Descritivas e Confiabilidade

As análises descritivas das dimensões revelaram que as Capacidades em Analytics apresentaram a maior média (3,03), seguidas pela Efetividade Decisória (3,22), Governança de KPIs (2,98) e Cultura Data-Driven (2,86). Os valores do alfa de Cronbach para todas as dimensões situaram-se entre 0,817 e 0,908, indicando alta confiabilidade interna dos construtos, conforme os critérios de Hair et al. (2009). A análise detalhada dos itens de governança mostrou que processos formais de definição e revisão de KPIs (média de 3,15) e o monitoramento regular (média de 3,10) obtiveram as maiores pontuações. Em contraste, a compreensão dos KPIs pelos colaboradores registrou a menor média (2,67), sugerindo uma lacuna entre a formalização dos sistemas e a apropriação efetiva pela equipe, um achado que ressoa com a literatura sobre barreiras comportamentais no contexto brasileiro (Caldas e Wood Jr., 1999; Barros e Prates, 1996).

A dimensão de efetividade decisória teve seu item de melhoria no desempenho operacional com a maior média (3,40), enquanto o investimento em capacitação analítica (CULT5) obteve a menor média geral (2,51). Essa comparação sugere que, embora a gestão de KPIs esteja associada a melhorias no desempenho, o investimento em desenvolvimento de habilidades analíticas dos colaboradores ainda é um ponto fraco. A proximidade entre as médias e medianas em todas as dimensões indicou uma distribuição de respostas relativamente simétrica, com uma leve assimetria positiva nas Capacidades, o que pode refletir uma percepção ligeiramente mais otimista ou uma maior variabilidade nas avaliações dessa dimensão.

Análise de Correlações

As três hipóteses de pesquisa foram confirmadas, uma vez que todas as dimensões de maturidade (Governança de KPIs, Cultura Data-Driven e Capacidades em Analytics) apresentaram correlações positivas e fortes com a Efetividade Decisória, com coeficientes de Spearman superiores a 0,6. Este resultado está em consonância com modelos teóricos que concebem a maturidade analítica como um fenômeno multidimensional, onde a sinergia entre esses elementos é crucial para aprimorar a tomada de decisões (Pereira, 2023; Hirano, 2024). A correlação mais baixa foi observada entre Governança e Efetividade (0,738), o que pode indicar uma limitação do formalismo isolado, corroborando o relatório da Bain & Company (2024) sobre o excesso de indicadores sem ação efetiva no Brasil. Por outro lado, a correlação mais forte, entre Capacidades e Efetividade (0,874), reforça a ideia de que a capacidade analítica é um pré-requisito fundamental para a competitividade baseada em dados (Davenport e Harris, 2007; Hirano, 2024).

Análise de Regressão Linear Múltipla

O modelo de regressão linear múltipla demonstrou um excelente poder preditivo, com um R² ajustado de 0,779, indicando que as dimensões de Governança, Cultura e Capacidades explicaram conjuntamente cerca de 79,5% da variância na Efetividade Decisória. A análise de diagnóstico revelou multicolinearidade severa, com um VIF médio superior a 5, decorrente das altas correlações entre as variáveis independentes (p entre 0,809 e 0,866). Embora essa condição seja esperada em construtos teoricamente inter-relacionados (Hair et al., 2009; Field, 2009), ela inflaciona os erros-padrão dos coeficientes, exigindo cautela na interpretação dos efeitos individuais. Adotando um nível de significância de 5% (p < 0,05), as Capacidades em Analytics (β = 0,515; p < 0,001) e a Cultura Data-Driven (β = 0,408; p = 0,017) foram preditores estatisticamente significativos da Efetividade Decisória.

Em contrapartida, a Governança de KPIs (β = 0,012; p = 0,936) não atingiu significância estatística direta no modelo de regressão. Este resultado sugere que, no contexto analisado, o investimento em infraestrutura tecnológica, a expertise profissional e a governança de dados (Capacidades) foram os preditores mais robustos, seguidos pela cultura de tomada de decisão baseada em dados. A não significância direta da Governança, apesar de sua correlação com a Efetividade (0,738), pode ser interpretada como um efeito mediado pelas demais dimensões. Ou seja, a governança formal parece traduzir-se em efetividade apenas quando acompanhada por uma cultura e capacidades analíticas efetivas, conforme apontado por Caldas e Wood Jr. (1999) e Barros e Prates (1996) sobre a necessidade de alinhamento entre indicadores, competências e comportamento organizacional (Kaplan e Norton, 1997; Laurindo e Rotondaro, 2006).

Análise de Clusters

A segmentação por clusters k-medoids identificou três perfis de maturidade organizacional, com diferenças estatisticamente significativas entre eles (p < 0,05). O perfil Iniciante, que agrupou 19 organizações (45% da amostra), apresentou médias abaixo de 2,10 em todas as dimensões e uma efetividade decisória de 2,30. O perfil Intermediário, com 13 organizações (31%), registrou médias entre 2,95 e 3,35, e uma efetividade de 3,35. Por fim, o perfil Avançado, composto por 10 organizações (24%), exibiu médias superiores a 4,10 em todas as dimensões e uma efetividade decisória de 4,65. As organizações do perfil Avançado alcançaram uma efetividade decisória 2,02 vezes superior às do perfil Iniciante (4,65 versus 2,30), corroborando achados da literatura sobre a capacidade analítica como fonte de vantagem competitiva (Davenport e Harris, 2007).

A predominância do perfil Iniciante (45%) e a menor proporção do perfil Avançado (24%) indicam que a maioria das organizações pesquisadas ainda se encontra em estágios iniciais de sua jornada analítica. Foram observadas lacunas notáveis em aspectos culturais, como o baixo investimento em capacitação analítica (média de 2,51) e a falta de autonomia para ajustes nos KPIs (média de 2,98). Esses resultados são consistentes com as barreiras comportamentais à gestão orientada por dados no Brasil, conforme discutido por Caldas e Wood Jr. (1999) e Barros e Prates (1996). O relatório da Bain & Company (2024) também corrobora esse cenário, apontando que, apesar da existência de infraestrutura analítica, persistem deficiências em competências humanas e na cultura de experimentação.

Controle do Viés de Método Comum

Considerando o delineamento transversal e a coleta de dados por autorrelato de fonte única, a pesquisa esteve suscetível ao viés de método comum (CMV). Para mitigar seus efeitos, foram implementados controles procedimentais recomendados por Podsakoff et al. (2003), incluindo a garantia de anonimato e confidencialidade, a informação explícita sobre a ausência de respostas certas ou erradas, e a inclusão da opção “Não Aplicável” nos itens Likert. A separação estrutural das seções do questionário, posicionando os construtos preditores antes da variável critério, também foi um controle parcial. O Teste de Fator Único de Harman, aplicado como procedimento estatístico post hoc, revelou que o primeiro fator não rotacionado explicou 58,76% da variância total dos 20 itens. Este valor, superior ao ponto de corte de 50% recomendado, indicou uma ameaça moderada de CMV, sugerindo que o viés pode ter inflacionado as correlações e coeficientes de regressão. Contudo, a literatura reconhece que o Teste de Harman é conservador e pode ser influenciado pela alta correlação teórica entre construtos interdependentes, o que é esperado em modelos de maturidade organizacional (Richardson et al., 2009).

Suficiência Amostral e Poder Estatístico

A avaliação da suficiência amostral para a regressão linear múltipla com três preditores, utilizando o método de Cohen (1988), indicou que, para o R² observado de 0,795 (f² = 3,878), um efeito considerado muito grande, o número mínimo de respondentes para um poder estatístico de 0,80 seria de apenas sete. Com 42 respondentes, a amostra mostrou-se mais do que suficiente para detectar o tamanho de efeito efetivamente encontrado nos dados. No entanto, essa avaliação deve ser interpretada com cautela, pois o f² observado é excepcionalmente elevado, possivelmente inflacionado pelo CMV diagnosticado e pela baixa variabilidade da escala Likert. Caso o efeito real fosse de magnitude moderada (f² = 0,15), a amostra de 42 respondentes seria insuficiente, necessitando de um mínimo de 68, conforme as recomendações de Hair et al. (2009) para efeitos médios com alfa de 0,05 e poder de 0,80.

Análise Fatorial Exploratória

Para verificar a estrutura dimensional do instrumento, conduziu-se uma Análise Fatorial Exploratória (AFE) com base nos 20 itens da escala, utilizando extração por componentes principais e rotação oblíqua promax. A adequação da matriz de correlações foi confirmada pelo teste de esfericidade de Bartlett (χ²(190) = 757,96; p < 0,001) e pela medida de adequação amostral de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO = 0,848), classificada como excelente (Malhotra, 2019). A análise dos autovalores, seguindo o critério de Kaiser, indicou a retenção de três fatores, que explicaram cumulativamente 61,6% da variância total após a rotação. O Fator 1, denominado Infraestrutura Analítica e Autonomia, explicou 19,1% da variância e reuniu itens de capacidades tecnológicas (infraestrutura, governança de dados), autonomia para ajustes de KPIs e agilidade decisória, sugerindo uma dimensão centrada em recursos técnicos e liberdade de ação. O Fator 2, Formalização e Compartilhamento, explicou 17,7% da variância, agrupando itens de processos formais de gestão de KPIs (definição, monitoramento), compreensão dos indicadores pelos colaboradores e compartilhamento de insights, refletindo o caráter estrutural e coletivo da gestão de desempenho. O Fator 3, Efetividade e Cultura de Aprendizado, explicou 24,8% da variância, capturando itens de resultado (ROI, redução de incerteza, melhoria operacional) combinados com liderança data-driven, experimentação e investimentos contínuos, indicando a integração entre cultura analítica e efetividade percebida.

As correlações entre os fatores variaram de 0,544 a 0,646, confirmando a interdependência teórica dos construtos e justificando a escolha da rotação oblíqua (Hair et al., 2009). A solução tridimensional identificada divergiu parcialmente do modelo teórico original de quatro dimensões (governança, cultura, capacidades e efetividade), mas foi consistente com a alta multicolinearidade diagnosticada na regressão e com a literatura que aponta a sobreposição empírica entre governança, cultura e capacidades em estágios iniciais de maturidade analítica (Davenport e Harris, 2007; Hirano, 2024). Essa divergência entre o modelo teórico e a solução fatorial empírica representa uma limitação importante, sugerindo que os respondentes podem não ter distinguido claramente as quatro dimensões conceituais propostas, o que reforça a necessidade de futuras validações psicométricas do instrumento.

Implicações Gerenciais e Proposições Estratégicas por Perfil de Maturidade

Perfil Iniciante

O perfil Iniciante, que representa 45% da amostra, é caracterizado por médias inferiores a 2,10 em todas as dimensões e uma efetividade decisória de 2,30, indicando organizações que ainda não estruturaram sua jornada analítica. Suas forças incluem uma “tabula rasa estratégica”, que permite a adoção de boas práticas sem o custo de reengenharia de sistemas legados, e uma baixa complexidade organizacional, que favorece a implementação de mudanças culturais com menor inércia burocrática (Barros & Prates, 1996). As fraquezas são a carência crítica de infraestrutura, a inexistência de governança formal e uma cultura de aversão ao erro, que inibe a experimentação. Oportunidades residem na apropriação de ferramentas open-source, que podem gerar ganhos rápidos de visibilidade com baixo investimento, e na capacitação básica em alfabetização de dados, que pode elevar a compreensão dos colaboradores sobre o valor dos dados. As ameaças incluem o ceticismo da liderança, que pode inviabilizar iniciativas analíticas, e a “síndrome do piloto eterno”, onde projetos-piloto não escalam por falta de recursos ou governança (Bain & Company, 2024).

Para este perfil, a proposição estratégica é a “Fundação Analítica”, focada no estabelecimento de um mínimo produto viável (MVP) analítico. Recomenda-se a definição de um conjunto básico de até cinco KPIs críticos, acompanhado de um painel executivo simples. Simultaneamente, deve-se implementar um programa de “campeões de dados” para disseminar a cultura de experimentação nos times. A métrica de sucesso inicial não deve ser o ROI contábil, mas sim a redução de incertezas e a frequência de uso dos dashboards. A armadilha a ser evitada é o investimento em tecnologia complexa antes de consolidar a disciplina de governança, o que poderia agravar a carência de infraestrutura e a inexistência de governança formal.

Perfil Intermediário

O perfil Intermediário, abrangendo 31% da amostra, representa organizações com infraestrutura razoável (Capacidades = 3,30) e processos formais (Governança = 3,20), mas que estagnaram em sua evolução, com médias entre 2,95 e 3,35 e efetividade de 3,35. A cultura (2,95) é o principal ponto de estrangulamento, especialmente o baixo investimento em capacitação (CULT5 = 2,51) e o compartilhamento limitado de insights (CULT4). Suas forças incluem uma infraestrutura operante, com ferramentas analíticas que já atendem às necessidades básicas, e processos de monitoramento estruturados, que geram dados históricos. As fraquezas são uma cultura de aprendizado frágil, onde erros não são vistos como insumos para melhoria, baixa autonomia para ajustes de KPIs táticos e sub-investimento em talentos. Oportunidades envolvem a alavancagem da infraestrutura existente para focar na interpretação e ação dos dados, e programas de Data Literacy em escala para toda a organização. As ameaças são a estagnação na mediocridade e a rotatividade de talentos insatisfeitos com a falta de autonomia e aprendizado.

A proposição estratégica para este perfil é a “Ativação Comportamental”, visando quebrar o isolamento dos dados. A estratégia deve focar na criação de comunidades de prática para estimular o compartilhamento de insights (Nonaka & Takeuchi, 1995) e na implementação de horas dedicadas à experimentação, incentivando os colaboradores a testar hipóteses sem medo de errar. Na governança, sugere-se a descentralização controlada, concedendo autonomia para ajustes de KPIs táticos, mas mantendo a governança central para indicadores estratégicos. O indicador-chave para este perfil é o ROI de analytics, que deve ser mensurado para justificar o investimento em capacitação e evitar que a área de dados seja vista como um centro de custo, combatendo o sub-investimento em talentos e a cultura de aprendizado frágil.

Perfil Avançado

O perfil Avançado, que compreende 24% da amostra, apresenta médias superiores a 4,10 e uma efetividade decisória de 4,65, representando o benchmark do estudo. A sinergia entre governança, cultura e capacidades é evidente, resultando em decisões mais ágeis e melhor desempenho operacional. Suas forças incluem alta efetividade decisória, uma cultura de liderança data-driven, onde executivos utilizam dados para escolhas estratégicas, e uma infraestrutura robusta com governança madura. As fraquezas são uma possível complacência, que pode reduzir o ímpeto inovador, e a capacitação ainda não ideal, indicando que o desenvolvimento de pessoas não acompanhou o desenvolvimento tecnológico. Oportunidades incluem a inovação com IA Generativa, aproveitando a base de dados limpa e governada, e a criação de vantagem competitiva sustentável, tornando a maturidade analítica uma capacidade distintiva (Teece, 2007). As ameaças são a perda de talentos para o mercado e a rigidez processual, que pode sufocar a criatividade e a adaptação rápida a mudanças.

Para o perfil Avançado, a proposição estratégica é a “Inovação e Liderança de Mercado”, com a recomendação de migrar de data-driven para data-centric innovation. Isso implica transformar a área de dados em um centro de excelência que antecipa necessidades de negócio, investir em programas de capacitação focados em storytelling com dados e ética algorítmica, e institucionalizar a medição de ROI de cada projeto analítico, vinculando-o a indicadores financeiros objetivos. O grande desafio é equilibrar a governança consolidada com a autonomia plena, permitindo que as equipes experimentem livremente dentro de fronteiras éticas e de segurança de dados. A métrica de sucesso aqui é a capacidade de gerar novos negócios ou modelos de receita a partir de dados, e não apenas otimizar o existente, superando a possível complacência e a capacitação ainda não ideal.

Síntese Integrada e Padrões Transversais

A análise dos resultados revelou um padrão transversal consistente em todos os perfis de maturidade: a dimensão cultural sistematicamente apresentou as menores pontuações quando comparada à governança e às capacidades no mesmo estágio. No perfil Iniciante, a cultura (2,05) foi inferior à governança (2,10); no Intermediário, a cultura (2,95) ficou atrás das capacidades (3,30); e no Avançado, a cultura (4,10) foi o ponto mais baixo do tripé. Este achado corrobora a tese central de Caldas e Wood Jr. (1999) e Barros e Prates (1996), e também de Schein (2010), de que o gargalo da transformação analítica não é primariamente tecnológico, mas sim comportamental. A mera existência de sistemas e processos formais não garante a efetividade se não houver um ambiente que incentive a curiosidade, a experimentação e o compartilhamento de insights.

Independentemente do perfil, a pesquisa sugere uma abordagem integrada que combine investimentos contínuos em infraestrutura, governança de dados e ferramentas de visualização com programas de desenvolvimento de liderança, mecanismos de recompensa por compartilhamento de insights e a criação de um “orçamento de erro” que incentive a experimentação calculada. A transição do perfil Iniciante para o Avançado depende menos do volume de investimento em tecnologia e mais de como a liderança modela o comportamento de uso dos dados no dia a dia. As proposições estratégicas delineadas para cada perfil fornecem um ponto de partida contextualizado, que deve ser adaptado à realidade setorial e de porte de cada organização, visando superar as barreiras comportamentais e culturais identificadas como os principais entraves à efetividade decisória data-driven.

4. Conclusão

O presente estudo investigou a correlação entre a maturidade na gestão de KPIs e a percepção de efetividade da tomada de decisão data-driven em empresas atuantes no Brasil. Verificou-se que as dimensões de governança de KPIs, cultura data-driven e capacidades em analytics correlacionaram-se positivamente e fortemente com a efetividade decisória. A análise de regressão múltipla indicou que as capacidades em analytics e a cultura data-driven foram preditores estatisticamente significativos da efetividade decisória, explicando conjuntamente cerca de 79,5% da variância. A governança de KPIs, embora correlacionada, não apresentou efeito direto significativo no modelo de regressão, sugerindo que sua influência pode ser mediada pelas demais dimensões. A análise de clusters identificou três perfis de maturidade — Iniciante, Intermediário e Avançado — demonstrando que organizações no estágio avançado alcançaram uma efetividade decisória 2,02 vezes superior às iniciantes. Um achado transversal relevante foi a constatação de que a dimensão cultural sistematicamente obteve as menores pontuações em todos os perfis, evidenciando um descompasso entre o formalismo estrutural e os aspectos comportamentais na jornada analítica das organizações brasileiras.

A principal contribuição do estudo reside na proposição de um roteiro estratégico contextualizado para cada perfil de maturidade, visando superar as barreiras comportamentais e culturais identificadas como os principais entraves à efetividade decisória data-driven. As limitações incluíram a amostra por conveniência e o delineamento transversal, que impedem inferências causais definitivas e a generalização para pequenas empresas ou outros setores. Adicionalmente, o viés de método comum moderado e a multicolinearidade severa impuseram cautela na interpretação dos coeficientes individuais de regressão, e a análise fatorial exploratória revelou uma estrutura tridimensional divergente do modelo teórico original, sugerindo uma sobreposição empírica entre os construtos. Para estudos futuros, recomenda-se a realização de pesquisas longitudinais para examinar a causalidade, a utilização de amostragem estratificada e a inclusão de variáveis dependentes objetivas, além da aplicação de Análise Fatorial Confirmatória e Modelagem de Equações Estruturais para aprimorar a validação psicométrica do instrumento e a compreensão dos efeitos mediadores.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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09 de outubro de 2026

Baixa Produção de Conteúdo Gerado Pelo Usuário em Colaborações de Cosméticos nas Plataformas Digitais

Este estudo analisou a relação entre colaborações de marcas, conhecidas como “collabs”, no setor de cosméticos e a produção de conteúdo gerado pelo usuário (UGC) em plataformas digitais. A pesquisa abordou a relevância do tema diante do crescimento do mercado de beleza e da intensificação das estratégias de “co-branding” como ferramenta de diferenciação e inovação. O objetivo principal foi compreender de que forma essas colaborações influenciaram o comportamento do consumidor digital, com foco na criação de UGC e na intenção de compra. Para isso, a metodologia adotada foi exploratória e descritiva, com a aplicação de um questionário online a 493 respondentes da região Sudeste do Brasil. Os dados coletados foram analisados por meio de estatística descritiva. Os resultados indicaram que, embora as “collabs” gerassem engajamento entre os consumidores, a produção de UGC ativo foi baixa, predominando interações passivas como curtidas, salvamentos e reações rápidas. Adicionalmente, as colaborações demonstraram influência limitada na intenção de compra e na disposição a pagar mais pelos produtos. Concluiu-se que, apesar do potencial estratégico das “collabs” para o mercado de cosméticos, sua efetividade dependeu de fatores como a relevância percebida, a identificação com a marca e a presença de estímulos adicionais para a criação de conteúdo pelo usuário.

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09 de outubro de 2026

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Palavras-chave: 5W2H; Matriz de Eisenhower; Matriz GUT; Multitarefa; Procrastinação.

09 de outubro de 2026

Análise de Correspondência Aplicada a Dados Periciais: Identificação de Padrões Para Melhoria dos Serviços de Atendimento

A necessidade de otimizar recursos e compreender a complexa dinâmica criminal motivou a exploração de dados periciais, frequentemente subutilizados em laudos textuais. Aplicou-se a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) em atendimentos periciais na Macrorregião de Bauru, SP. O objetivo foi investigar e identificar padrões de associação entre o tipo de ocorrência, o período do dia, o dia da semana e a localização, visando subsidiar decisões operacionais. Utilizaram-se dados da Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC), coletados entre maio de 2023 e janeiro de 2026. A metodologia englobou a limpeza, transformação e categorização das variáveis, além da construção de matrizes de contingência processadas em Python. A análise descritiva inicial revelou que furtos e colisões predominaram no volume total de ocorrências, enquanto crimes violentos, como homicídios, estupros e feminicídios, representaram uma parcela menor, mas demandaram tempos de resposta significativamente maiores. A ACM mapeou visualmente as correlações estruturais, demonstrando associações claras entre crimes noturnos e de finais de semana com regiões específicas. Identificaram-se dois agrupamentos principais: um perfil noturno e de fim de semana, associado a choques, atropelamentos e suicídios, com destaque para Bauru; e um perfil diurno em dias úteis, dominado por furtos e danos à propriedade. Demonstrou-se que o uso de técnicas exploratórias de aprendizado de máquina transformou dados periciais brutos em informações estratégicas vitais, fornecendo subsídios para a alocação eficiente de equipes e fundamentando a elaboração de políticas públicas baseadas em evidências.

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Palavras-chave: Comportamento do consumidor; Geração X; Jornada de compra híbrida; Transformação digital; Varejo de materiais para construção.

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09 de outubro de 2026

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