Artigo

29 de setembro de 2026

A comunicação científica no CNPq: percepções, desafios e alcance social

A Comunicação Científica no Cnpq: Percepções, Desafios e Alcance Social

Adriana Fontes do Amaral Borges; Ana Carolina Benites Aquino

DOI: 10.22167/2675-6528-202602604

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A comunicação científica institucional enfrenta desafios crescentes de visibilidade e acessibilidade diante das transformações promovidas pelo ambiente digital contemporâneo. O estudo analisou as estratégias de divulgação científica adotadas por um órgão público federal de fomento à Ciência, Tecnologia e Inovação, localizado em Brasília, DF. Objetivou-se identificar limitações e propor aprimoramentos para o fortalecimento institucional e a ampliação do engajamento social. A pesquisa adotou abordagem quantitativa, com levantamento de campo realizado por meio da aplicação de questionários aos públicos interno e externo da instituição. Os resultados evidenciaram um descompasso entre os canais formais priorizados institucionalmente, como e-mail corporativo e site oficial, e os meios preferenciais de consumo de informação do público externo, caracterizados pelo uso intenso de redes sociais e plataformas digitais. Constatou-se que a linguagem excessivamente técnica constitui uma barreira à compreensão pública, enquanto formatos visuais e conteúdos acessíveis foram mais eficazes. Internamente, colaboradores reconheceram a limitada compreensão social da missão institucional e manifestaram interesse em capacitação para aprimorar a comunicação. Concluiu-se que o fortalecimento da divulgação científica depende da adoção de estratégias comunicacionais mais acessíveis, dinâmicas e alinhadas às práticas informacionais contemporâneas, com foco na experiência do usuário e na comunicação interna.

Palavras-chave: Comunicação institucional; Divulgação científica; Engajamento público; Linguagem acessível; Mídias digitais.

1. Introdução

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) estabelece-se como uma das principais agências de fomento à ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no Brasil. Fundado em 1951, o órgão desempenha um papel fundamental na formulação e no fortalecimento da política científica nacional, incentivando a pesquisa, a formação de recursos humanos qualificados e a produção de conhecimento em diversas áreas. Sua trajetória institucional demonstra a relevância estratégica do investimento público em ciência para o desenvolvimento social, econômico e tecnológico do país.

Nos últimos anos, o CNPq tem expandido sua atuação em iniciativas voltadas à divulgação científica, embora a coordenação mais ampla dessas ações esteja vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Nesse contexto, a criação do Programa Nacional de Popularização da Ciência (Pop Ciência), sob a liderança do MCTI, representa um marco importante ao propor ações direcionadas à democratização do acesso ao conhecimento, ao estímulo do interesse público pela ciência e à promoção da inclusão social por meio da CT&I.

A divulgação científica assume, portanto, um caráter estratégico ao promover a aproximação entre ciência e sociedade. Mais do que simplesmente disseminar informações, ela contribui para o desenvolvimento do pensamento crítico, para o fortalecimento da cultura científica e para a ampliação da confiança pública nas instituições de pesquisa. A literatura especializada destaca que, ao se configurar também como uma forma de comunicação política, a divulgação científica deve considerar dimensões como a credibilidade institucional, a linguagem acessível, a participação social e a construção de vínculo com diferentes públicos (Brossard e Scheufele, 2013; Schäfer, 2012).

Contudo, as transformações recentes nos modos de circulação e consumo da informação impõem novos desafios à comunicação institucional. O ambiente digital, caracterizado pela velocidade, interatividade e pela centralidade das redes sociais, redefine as formas de produção, mediação e recepção de conteúdo. Nesse cenário, torna-se cada vez mais necessário que as instituições científicas adaptem suas estratégias comunicacionais às dinâmicas das plataformas digitais, a fim de ampliar seu alcance e sua capacidade de engajamento (Datareportal et al., 2024).

É nesse cenário que se insere a presente investigação, motivada pela necessidade de compreender como as instituições de fomento à pesquisa podem otimizar sua comunicação em um ambiente digital em constante evolução. A problemática central reside na lacuna entre as práticas comunicacionais tradicionais e as expectativas dos públicos contemporâneos, que demandam conteúdos mais acessíveis e dinâmicos. A relevância deste estudo reside na possibilidade de oferecer subsídios para o aprimoramento da comunicação científica institucional no Brasil, discutindo os limites e as potencialidades das estratégias adotadas pelo CNPq. Assim, o estudo poderá contribuir para o desenvolvimento de práticas e políticas públicas de comunicação mais eficazes, fortalecendo o vínculo entre ciência, Estado e sociedade. O objetivo é analisar as estratégias de divulgação científica adotadas atualmente pelo CNPq, com ênfase em sua eficácia comunicacional, nos desafios enfrentados e nas percepções tanto dos profissionais responsáveis por essas ações quanto do público externo.

2. Material e Métodos

A presente investigação adotou uma abordagem metodológica quantitativa, com o propósito de analisar as estratégias de divulgação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O estudo concentrou-se na eficácia comunicacional, nos desafios inerentes e nas percepções dos profissionais envolvidos e do público externo. A pesquisa foi realizada por meio de um levantamento de campo, utilizando questionários estruturados como principal instrumento de coleta de dados.

A elaboração dos questionários exigiu rigor metodológico e atenção à conversão dos objetivos do estudo em perguntas claras e passíveis de análise. Conforme Vieira (2009), a construção de tal instrumento demanda conhecimento técnico e sensibilidade para conciliar a objetividade científica com a compreensão das dimensões humanas. Desse modo, a formulação das questões, a organização lógica e a adequação do conteúdo ao perfil dos entrevistados foram cuidadosamente planejadas.

Para a coleta de dados, foram delimitados dois públicos distintos. O primeiro, denominado público externo, foi composto por indivíduos da sociedade em geral, com idade superior a 18 anos. O segundo, o público interno, incluiu servidores e colaboradores vinculados ao CNPq, localizado em Brasília, DF. A segmentação visou comparar as percepções do público externo sobre a instituição com o nível de conhecimento e envolvimento do público interno nas práticas de divulgação científica.

A escolha por questionários estruturados, aplicados em ambiente digital, permitiu a obtenção de dados padronizados, essenciais para a posterior tabulação e análise quantitativa. Estimou-se uma amostra de aproximadamente 100 participantes, distribuídos entre os dois públicos investigados, buscando garantir a representatividade necessária para os objetivos propostos.

A construção do questionário destinado ao público externo iniciou-se com uma pesquisa exploratória, que identificou temas e dimensões relevantes para o estudo. A partir desse levantamento, elaborou-se uma versão preliminar do instrumento. Esta versão foi revisada por um grupo de colaboradores, que avaliou a pertinência, clareza e objetividade das questões, resultando na consolidação da versão final.

O formulário para o público externo foi estruturado na plataforma digital Google Forms (Anexo I), com uma sequência lógica que facilitou a compreensão e o preenchimento pelos entrevistados. Antes da aplicação em larga escala, o questionário foi submetido a um pré-teste com um grupo reduzido de participantes. Essa etapa permitiu avaliar a clareza das perguntas, o tempo de resposta e a adequação da ordem dos itens, e os ajustes finais foram realizados com base nos resultados obtidos.

A divulgação do questionário externo ocorreu por meios digitais, alinhados ao perfil do público-alvo e aos objetivos da pesquisa. Para facilitar a participação por dispositivos móveis e ampliar o alcance da coleta, utilizou-se uma versão em código de acesso rápido (QR Code). Essa estratégia buscou favorecer a busca ativa por participantes e maximizar a adesão.

O questionário para o público interno (Anexo II) também foi formulado para aplicação em ambiente digital. Contudo, sua implementação exigiu procedimentos institucionais específicos, incluindo a autorização prévia das instâncias competentes do CNPq. Inicialmente, o instrumento foi submetido à apreciação da área de comunicação institucional, que encaminhou a solicitação para análise e aprovação superior.

Durante o período de espera pela aprovação formal, a divulgação ampla do questionário entre os integrantes da instituição não foi possível. No entanto, testes preliminares foram conduzidos com um grupo reduzido de colaboradores, o que permitiu aperfeiçoar a redação das perguntas e a lógica de organização do formulário, garantindo sua adequação antes da liberação oficial.

Após a autorização institucional, uma mensagem de apresentação da pesquisa foi elaborada e encaminhada por meio do canal oficial de comunicação interna do CNPq a todos os integrantes. Observou-se, contudo, uma limitação na taxa de resposta inicial, o que levou à adoção de estratégias complementares de sensibilização e incentivo à participação, como a abordagem presencial nos diferentes setores do órgão, com a disponibilização do QR Code para acesso direto ao formulário.

Em relação aos cuidados éticos, a coleta de dados foi realizada de modo anônimo, garantindo que os entrevistados não pudessem ser identificados individualmente. Os dados foram coletados e analisados de forma agregada, preservando a anonimidade e a privacidade dos participantes. Essa medida assegurou a confidencialidade das informações e o respeito aos direitos dos envolvidos na pesquisa.

A técnica de análise dos dados consistiu na tabulação e organização das respostas obtidas por meio dos questionários. Os dados foram processados para identificar padrões e tendências, permitindo uma análise comparativa entre as percepções dos públicos interno e externo. A metodologia adotada buscou assegurar o maior alcance na coleta de dados, respeitando as especificidades de cada público e garantindo a consistência das informações para a análise dos objetivos propostos.

3. Resultados e Discussão

A pesquisa realizada delineou um panorama abrangente da comunicação científica institucional em um órgão público federal de fomento à Ciência, Tecnologia e Inovação, localizado em Brasília, DF. Os resultados obtidos a partir da coleta de dados junto a dois públicos distintos, o interno e o externo, revelaram importantes diferenças nas percepções e expectativas em relação às estratégias de divulgação científica. De modo geral, observou-se um descompasso entre os canais e formatos comunicacionais priorizados pela instituição e as preferências e hábitos de consumo de informação dos seus públicos, o que aponta para a necessidade de aprimoramentos estratégicos para fortalecer o engajamento social e a visibilidade institucional.

No que concerne ao perfil dos participantes, a amostra do público interno foi composta predominantemente por profissionais com mais de dez anos de vínculo com a instituição. Essa característica sugere uma equipe com elevada maturidade organizacional e um capital intelectual consolidado, o que confere profundidade e experiência às suas percepções sobre a comunicação institucional. Já o público externo, com uma amostra de cem indivíduos, apresentou um alto nível de escolaridade, sendo a maioria composta por pessoas com graduação ou pós-graduação completa, e com idade superior a 45 anos. Esses perfis indicam que as análises foram construídas a partir de segmentos com repertório informacional significativo, o que reforça a consistência das avaliações apresentadas.

Análise do público externo

O levantamento realizado com o público externo revelou que a maioria dos participantes, aproximadamente 80%, já havia ouvido falar do órgão. Essa familiaridade inicial é um indicativo positivo de reconhecimento institucional. A associação mais frequente do órgão foi com o fomento à pesquisa científica, mencionada por 95% dos entrevistados, e com a concessão de bolsas de estudo, citada por 50,5%. Esses dados demonstram que a instituição possui um nível considerável de reconhecimento e que suas funções primárias são amplamente compreendidas pelo público. Contudo, esse reconhecimento não se traduziu em envolvimento direto, uma vez que apenas 12% dos entrevistados afirmaram ter participado de algum programa financiado pelo órgão.

A avaliação da comunicação institucional por parte do público externo foi majoritariamente crítica. Uma parcela expressiva dos entrevistados classificou a divulgação promovida pela instituição como insuficiente, pouco visível ou de difícil acesso. Essa percepção sugere que, apesar do reconhecimento do nome e das funções do órgão, sua presença comunicacional e a clareza das informações disponibilizadas ainda enfrentam limitações significativas. Tal cenário indica que a instituição não está conseguindo converter seu capital de reconhecimento em engajamento ativo e compreensão aprofundada de suas ações, o que compromete a efetividade de sua comunicação.

Em relação aos hábitos de consumo de informação, o estudo evidenciou uma clara predominância do uso de redes sociais e plataformas digitais de grande circulação. Os sites de notícias foram apontados por 71,7% dos entrevistados como fonte de informação, seguidos pelas redes sociais (52,8%) e plataformas como YouTube e Podcasts (49,1%). Esse achado reforça a necessidade de que as estratégias comunicacionais da instituição se adaptem ao ambiente digital, utilizando linguagens e formatos compatíveis com os hábitos contemporâneos de acesso à informação. A persistência em canais tradicionais pode resultar em baixa visibilidade e alcance limitado, afastando o público das informações científicas.

Adicionalmente, aproximadamente 90% dos entrevistados externos manifestaram a necessidade de maior investimento em linguagem acessível e em formatos audiovisuais. A preferência por materiais como vídeos educativos, infográficos e conteúdos visuais foi notável, com 81,3% indicando redes sociais, 75,8% divulgação em universidades e 72,5% parceria com influenciadores como formatos eficientes. Essa demanda contrasta com a predominância de documentos técnicos mais densos, sugerindo que a ampliação da efetividade da divulgação científica institucional não depende apenas da presença em canais digitais, mas também da adequação da forma e da linguagem dos conteúdos produzidos. A comunicação eficaz, nesse contexto, exige uma abordagem mais didática e envolvente.

Em síntese, os resultados do público externo indicam que, embora o órgão seja reconhecido por sua relevância no fomento à pesquisa, sua capacidade de comunicação com a sociedade é percebida como frágil. Essa fragilidade se manifesta na insuficiência de divulgação, na dificuldade de acesso às informações e na linguagem excessivamente técnica. A demanda por estratégias mais acessíveis, dinâmicas e alinhadas às práticas atuais de circulação da informação, especialmente em ambientes digitais e por meio de formatos visuais e audiovisuais, é um ponto crucial para o aprimoramento da comunicação científica institucional.

Análise do público interno

A pesquisa interna, que envolveu 105 colaboradores, revelou uma equipe com significativa maturidade institucional, com a maioria dos entrevistados possuindo mais de dez anos de vínculo com o órgão. Essa longevidade no quadro funcional indica um profundo conhecimento dos processos e da cultura organizacional, o que é um ativo importante para a instituição. O tempo de atuação dos colaboradores, com 51,4% tendo mais de dez anos de casa, reflete um capital intelectual robusto e uma base sólida de experiência que pode ser mobilizada para aprimorar a comunicação institucional.

No que diz respeito ao reconhecimento das funções institucionais, os resultados mostraram um alto nível de conhecimento interno. Cerca de 92% dos participantes identificaram corretamente o financiamento à pesquisa como uma das principais atribuições do órgão, e 78% mencionaram a manutenção da Plataforma Lattes como uma atividade essencial. Esses dados demonstram que os colaboradores possuem um entendimento expressivo das competências centrais da instituição. No entanto, foram identificados equívocos conceituais, com alguns entrevistados atribuindo ao órgão funções que não lhe competem diretamente, como a supervisão de políticas educacionais básicas ou a realização de eventos culturais. Essas interpretações imprecisas sugerem lacunas na compreensão dos limites e da especificidade da atuação institucional, mesmo entre os próprios colaboradores.

No campo da comunicação, os resultados revelaram uma percepção crítica por parte dos colaboradores. A ampla maioria dos entrevistados considerou que a sociedade não compreende plenamente o papel desempenhado pela instituição. Esse dado é particularmente relevante, pois indica que a insuficiência comunicacional não é percebida apenas externamente, mas também é reconhecida internamente pelos profissionais que vivenciam a rotina organizacional. Essa autocrítica interna reforça a urgência de ações para melhorar a clareza e o alcance da comunicação institucional, alinhando as expectativas internas com a percepção externa.

Embora uma parte significativa dos funcionários tenha afirmado sentir-se apta a explicar o papel do órgão, com 53,3% indicando que conseguem explicar com clareza e 41,9% tendo uma noção geral, a maioria manifestou interesse em receber formação complementar. Os colaboradores expressaram o desejo de atuar de maneira mais segura e qualificada como agentes de divulgação institucional, com 52,4% indicando interesse em treinamento recente e 21% em treinamento há mais tempo. Essa demanda por capacitação em comunicação científica evidencia o reconhecimento da importância de uma comunicação eficaz e a disposição interna para contribuir ativamente para o fortalecimento da imagem e da missão do órgão junto à sociedade.

Em suma, a análise do público interno revela uma equipe experiente e com bom conhecimento das funções centrais do CNPq, mas que também identifica falhas na compreensão social da instituição e demonstra interesse em aprimorar suas próprias habilidades comunicacionais. A percepção de que a sociedade não compreende plenamente o papel do órgão, aliada à demanda por capacitação, sugere que a comunicação científica institucional não depende apenas de canais formais, mas também da preparação do público interno para atuar como mediador entre a instituição e a sociedade. A formação comunicacional dos servidores pode, portanto, constituir um elemento estratégico para fortalecer a imagem institucional e ampliar a compreensão pública sobre as funções do órgão.

Discussão comparativa e análise crítica

A comparação entre os dados obtidos com os públicos interno e externo permite identificar diferenças importantes quanto ao perfil dos entrevistados, ao grau de proximidade com o CNPq, ao nível de conhecimento sobre a instituição e às percepções acerca de sua comunicação científica. Enquanto o público interno demonstra maior familiaridade com a estrutura e o funcionamento do CNPq, em razão de sua vivência direta no ambiente institucional, essa proximidade não elimina completamente lacunas de compreensão, com parte dos entrevistados apresentando conhecimento parcial ou impreciso acerca das atribuições do órgão. Já o público externo reconhece o CNPq principalmente por seu papel no fomento à pesquisa e na concessão de bolsas, mas tende a apresentar uma visão mais ampla e menos detalhada de suas funções.

No que se refere à percepção da comunicação institucional, observa-se uma convergência importante entre os dois grupos. Tanto o público interno quanto o externo identificam fragilidades na forma como a instituição comunica sua missão, suas ações e suas oportunidades. Entre os colaboradores do órgão, predomina a percepção de que a sociedade compreende de modo insuficiente o papel do CNPq, o que reforça a necessidade de maior alinhamento institucional e de ações de capacitação em comunicação. Entre os entrevistados externos, por sua vez, destaca-se a avaliação de que as informações são pouco divulgadas, difíceis de localizar e, em muitos casos, apresentadas em linguagem excessivamente técnica.

A comparação dos canais e formatos preferidos também evidencia um descompasso entre os meios privilegiados institucionalmente e os hábitos informacionais do público externo. Enquanto o público interno ainda se apoia sobretudo em canais formais, como e-mails institucionais, portal oficial e trocas interpessoais no ambiente de trabalho, o público externo demonstra preferência por redes sociais, vídeos, podcasts e conteúdos digitais de circulação rápida. Esse contraste sugere que a comunicação do CNPq ainda se encontra fortemente ancorada em lógicas institucionais tradicionais, ao passo que seus públicos externos estão inseridos em dinâmicas midiáticas mais ágeis, visuais e interativas, o que limita o alcance e a efetividade das mensagens.

Esse cenário pode ser interpretado à luz da discussão de Kotler (2021) sobre o chamado “fosso digital”, que descreve a dificuldade de instituições tradicionais em acompanhar as transformações nos modos de consumo e circulação da informação. No caso analisado, essa distância se expressa tanto na diferença entre os canais utilizados por cada público quanto na demanda, especialmente externa, por formatos mais acessíveis, objetivos e compatíveis com o ambiente digital. A instituição, ao não se adaptar plenamente a essas novas dinâmicas, corre o risco de perder relevância e visibilidade junto a parcelas significativas da sociedade.

As demandas do público externo por vídeos explicativos, infográficos e linguagem simplificada reforçam a compreensão de que a divulgação científica deve ir além da mera disponibilização de informações técnicas. Conforme argumenta Bueno (2010), comunicar ciência implica democratizar o acesso ao conhecimento, tornando-o inteligível para públicos não especializados. Assim, a crítica recorrente à baixa acessibilidade da comunicação institucional revela a necessidade de uma estratégia mais pedagógica, inclusiva e orientada à mediação entre ciência e sociedade, transformando dados complexos em narrativas compreensíveis e envolventes.

Além disso, os ruídos observados no público interno em relação às atribuições do órgão apontam para a importância do fortalecimento da comunicação interna. Essa questão pode ser relacionada à perspectiva de Aaker (2015), segundo a qual a consistência da identidade institucional depende de clareza estratégica e de coerência entre os diferentes pontos de contato da organização com seus públicos. Quando os próprios integrantes da instituição não compartilham de forma plenamente alinhada a compreensão de sua missão, a projeção externa da marca tende a se fragilizar, impactando a credibilidade e a eficácia da comunicação externa.

Outro aspecto relevante diz respeito à preferência, sobretudo do público externo, por formatos visuais e conteúdos breves. Em um contexto marcado pela economia da atenção, materiais que favorecem leitura rápida, compreensão imediata e maior apelo visual tendem a ser mais eficazes do que textos extensos e excessivamente burocráticos. Desse modo, a adoção de formatos audiovisuais e de linguagem acessível não deve ser entendida como simplificação indevida, mas como estratégia fundamental para ampliar o alcance e a efetividade da comunicação científica institucional, tornando-a mais atrativa e relevante para a sociedade contemporânea.

Por fim, a análise comparativa mostra que o CNPq dispõe de um capital simbólico importante, especialmente no meio acadêmico, mas ainda enfrenta dificuldades para traduzir esse reconhecimento em comunicação social mais ampla e efetiva. Nesse sentido, os resultados apontam para a necessidade de articular comunicação interna e externa de forma mais estratégica, fortalecendo o endomarketing, capacitando servidores e ampliando a presença institucional em canais e formatos mais aderentes aos hábitos informacionais da sociedade contemporânea. Essa abordagem integrada é essencial para que o órgão possa cumprir seu papel de fomento à ciência e tecnologia, ao mesmo tempo em que promove o engajamento e a compreensão pública de sua missão.

4. Conclusão

O estudo analisou as estratégias de divulgação científica adotadas por um órgão público federal de fomento à Ciência, Tecnologia e Inovação, buscando identificar suas limitações e propor aprimoramentos para o fortalecimento institucional e a ampliação do engajamento social. Verificou-se um notável descompasso entre os canais formais priorizados pela instituição, como e-mail corporativo e site oficial, e os meios preferenciais de consumo de informação do público externo, que se caracterizam pelo uso intenso de redes sociais e plataformas digitais. Constatou-se que a linguagem excessivamente técnica representava uma barreira significativa à compreensão pública, enquanto formatos visuais e conteúdos acessíveis foram percebidos como mais eficazes. Internamente, os colaboradores reconheceram a limitada compreensão social da missão institucional e manifestaram interesse em capacitação para aprimorar a comunicação, indicando uma autocrítica e disposição para o desenvolvimento de novas competências comunicacionais.

A principal contribuição deste trabalho reside na proposição de um caminho para o fortalecimento da divulgação científica, que exige a adoção de estratégias comunicacionais mais acessíveis, dinâmicas e alinhadas às práticas informacionais contemporâneas, com foco na experiência do usuário e na comunicação interna. Embora a pesquisa tenha enfrentado a limitação de uma taxa de resposta restrita no público interno, o que demandou estratégias complementares de coleta, os resultados obtidos permitiram evidenciar a necessidade de a instituição superar o “fosso digital” e articular comunicação interna e externa de forma mais estratégica. Sugere-se que estudos futuros explorem a implementação e os impactos de programas de capacitação em comunicação científica para servidores, bem como a avaliação da efetividade de novos formatos e canais digitais na ampliação do engajamento público com a ciência.

Referências Bibliográficas

Aaker, D.A. 2015. Criando Marcas Fortes. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.

Brossard e Scheufele, 2013 [Referência completa não encontrada no documento original]

Bueno, W.C. 2010. Comunicação científica e divulgação científica: aproximações e rupturas conceituais. Informação & Informação 15(1): 1-12.

Datareportal et al., 2024 [Referência completa não encontrada no documento original]

Kotler, P.; Kartajaya, H.; Setiawan, I. 2021. Marketing 5.0: Tecnologia para a Humanidade. Sextante, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Schäfer, 2012 [Referência completa não encontrada no documento original]

Vieira, 2009 [Referência completa não encontrada no documento original]

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Marketing do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Você também pode gostar

09 de outubro de 2026

Baixa Produção de Conteúdo Gerado Pelo Usuário em Colaborações de Cosméticos nas Plataformas Digitais

Este estudo analisou a relação entre colaborações de marcas, conhecidas como “collabs”, no setor de cosméticos e a produção de conteúdo gerado pelo usuário (UGC) em plataformas digitais. A pesquisa abordou a relevância do tema diante do crescimento do mercado de beleza e da intensificação das estratégias de “co-branding” como ferramenta de diferenciação e inovação. O objetivo principal foi compreender de que forma essas colaborações influenciaram o comportamento do consumidor digital, com foco na criação de UGC e na intenção de compra. Para isso, a metodologia adotada foi exploratória e descritiva, com a aplicação de um questionário online a 493 respondentes da região Sudeste do Brasil. Os dados coletados foram analisados por meio de estatística descritiva. Os resultados indicaram que, embora as “collabs” gerassem engajamento entre os consumidores, a produção de UGC ativo foi baixa, predominando interações passivas como curtidas, salvamentos e reações rápidas. Adicionalmente, as colaborações demonstraram influência limitada na intenção de compra e na disposição a pagar mais pelos produtos. Concluiu-se que, apesar do potencial estratégico das “collabs” para o mercado de cosméticos, sua efetividade dependeu de fatores como a relevância percebida, a identificação com a marca e a presença de estímulos adicionais para a criação de conteúdo pelo usuário.

Palavras-chave: Comportamento online; Co-branding; Engajamento do consumidor; Intenção de compra; Interação digital.

09 de outubro de 2026

Ferramentas e técnicas de gestão do tempo utilizadas por técnicos da capacitação profissional rural e promoção social

A gestão do tempo configura-se como um elemento essencial para a melhoria da produtividade e da qualidade das entregas, ao permitir a organização, priorização e execução eficiente das atividades, contribuindo diretamente para o alcance de metas e a otimização dos resultados no contexto profissional e pessoal. Objetivou-se compreender como práticas, ferramentas e técnicas de gestão do tempo, adotadas por instrutores de formação profissional rural e de promoção social, se associaram a dois desfechos centrais: a realização das atividades diárias planejadas e a percepção do impacto dessas práticas no bem-estar e produtividade. Os dados foram coletados por meio de questionário on-line estruturado, composto por 18 questões, e as análises foram realizadas no ambiente Python com bibliotecas estatísticas. Os resultados revelaram que a elevada formação acadêmica e maturidade profissional não se traduziu em maior eficácia na gestão do tempo. Observou-se amplo conhecimento sobre ferramentas e técnicas, mas sua utilização prática foi limitada e desigual. Ferramentas mais simples e intuitivas, como listas de tarefas, apresentaram maior adesão, enquanto técnicas que exigem transformações comportamentais, como a Técnica Pomodoro, tiveram baixa aplicação. Houve predominância do uso de soluções digitais, com destaque para o Google Agenda. Evidenciou-se uma percepção quase unânime de que a gestão do tempo influencia diretamente a produtividade e o bem-estar. Concluiu-se que a melhoria da gestão do tempo não dependeu exclusivamente da adoção de ferramentas e técnicas, mas, sobretudo, do desenvolvimento de habilidades práticas e comportamentais, aliado a ajustes nas condições de trabalho.

Palavras-chave: 5W2H; Matriz de Eisenhower; Matriz GUT; Multitarefa; Procrastinação.

09 de outubro de 2026

Análise de Correspondência Aplicada a Dados Periciais: Identificação de Padrões Para Melhoria dos Serviços de Atendimento

A necessidade de otimizar recursos e compreender a complexa dinâmica criminal motivou a exploração de dados periciais, frequentemente subutilizados em laudos textuais. Aplicou-se a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) em atendimentos periciais na Macrorregião de Bauru, SP. O objetivo foi investigar e identificar padrões de associação entre o tipo de ocorrência, o período do dia, o dia da semana e a localização, visando subsidiar decisões operacionais. Utilizaram-se dados da Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC), coletados entre maio de 2023 e janeiro de 2026. A metodologia englobou a limpeza, transformação e categorização das variáveis, além da construção de matrizes de contingência processadas em Python. A análise descritiva inicial revelou que furtos e colisões predominaram no volume total de ocorrências, enquanto crimes violentos, como homicídios, estupros e feminicídios, representaram uma parcela menor, mas demandaram tempos de resposta significativamente maiores. A ACM mapeou visualmente as correlações estruturais, demonstrando associações claras entre crimes noturnos e de finais de semana com regiões específicas. Identificaram-se dois agrupamentos principais: um perfil noturno e de fim de semana, associado a choques, atropelamentos e suicídios, com destaque para Bauru; e um perfil diurno em dias úteis, dominado por furtos e danos à propriedade. Demonstrou-se que o uso de técnicas exploratórias de aprendizado de máquina transformou dados periciais brutos em informações estratégicas vitais, fornecendo subsídios para a alocação eficiente de equipes e fundamentando a elaboração de políticas públicas baseadas em evidências.

Palavras-chave: Crimes violentos; Matriz de contingência; Priorização de serviços; Python; Tempos de resposta.

09 de outubro de 2026

O comportamento das gerações de consumidores digitais de materiais para construção: análise da Geração X

Analisou-se o comportamento da Geração X na compra de materiais para construção, considerando a articulação entre canais digitais e físicos e as percepções de varejistas e indústrias sobre esse processo. O objetivo foi investigar como esse público utiliza os canais digitais e físicos no processo decisório e relacionar os achados às respostas de varejistas e indústrias. Realizou-se uma pesquisa descritiva e exploratória, com abordagem quantitativa e interpretação qualitativa, por meio de três questionários aplicados a 37 consumidores, 25 varejistas e 25 representantes da indústria. Os dados de cada grupo foram analisados separadamente e, em seguida, relacionados por eixos temáticos. Os resultados indicaram que os consumidores da Geração X utilizam meios digitais para pesquisa e comparação, mas valorizam a loja física para contato com o produto, confiança e atendimento consultivo. Os varejistas reconheceram a transformação, mas apresentaram diferentes níveis de adaptação, enquanto as indústrias relataram uso heterogêneo de tecnologias e reconheceram seu papel de apoio ao varejo. Concluiu-se que o comportamento da Geração X se caracteriza por uma jornada híbrida, que exige maior integração entre os canais e os agentes da cadeia de materiais para construção.

Palavras-chave: Comportamento do consumidor; Geração X; Jornada de compra híbrida; Transformação digital; Varejo de materiais para construção.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

09 de outubro de 2026

Fundamentos para estruturação de currículos baseados em habilidades de raciocínio

Nas últimas décadas, observou-se uma transição educacional de modelos focados em conteúdo para o desenvolvimento de competências, impulsionada pela ubiquidade da informação. Nesse contexto, as habilidades de raciocínio tornaram-se pedagogicamente cruciais por embasarem a compreensão, relação e adaptação de conteúdos em cenários complexos. Com base nessa perspectiva, buscou-se consolidar um modelo detalhado das habilidades que compõem o raciocínio cognitivo, visando servir de base para a elaboração de currículos e programas pedagógicos. Para tanto, realizou-se uma pesquisa qualitativa e exploratória, que envolveu uma síntese multidisciplinar de conhecimentos da filosofia da mente, epistemologia, semiótica, psicologia cognitiva e neurociência. Essa abordagem proporcionou uma visão abrangente da natureza e das funções do raciocínio humano. O modelo resultante classificou as habilidades em quatro funções cognitivas principais, subdivididas em níveis crescentes de complexidade, que acompanharam o desenvolvimento cognitivo humano. A estrutura final mostrou-se bem fundamentada e aplicável à elaboração de currículos e programas pedagógicos, oferecendo uma taxonomia de habilidades do raciocínio diretamente utilizável no sequenciamento instrucional e na avaliação de competências cognitivas.

Palavras-chave: Currículo baseado em competências; Desenvolvimento cognitivo; Habilidades cognitivas; Pensamento crítico; Raciocínio cognitivo.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade