Imagem Representações midiáticas da gestão escolar e a busca pela democracia

15 de janeiro de 2026

Representações midiáticas da gestão escolar e a busca pela democracia

Autor(a): Douglas Vinícius Souza Silva — Orientador(a): Eliane Quinelato

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Esta pesquisa objetivou compreender as representações da gestão, da escola e da educação em portais de notícias online, partindo da premissa de que a mídia reflete e afeta as percepções sociais. A análise investigou as ideologias veiculadas em textos jornalísticos para informar profissionais da educação, especialmente gestores, sobre os discursos em circulação e, assim, promover a construção democrática da gestão e da sociedade. Buscou-se identificar as percepções midiáticas sobre a escola e a gestão, e como a análise desses discursos pode indicar caminhos para uma gestão democrática que aproxime família, escola e comunidade, sem comprometer a autonomia pedagógica. A investigação foi norteada por questões sobre como a mídia representa a educação, a escola e seus gestores; como essa representação dialoga com a relação entre escola e sociedade; e como essas respostas podem favorecer a construção democrática da gestão escolar.

A relevância da investigação está em identificar como a mídia retrata o ambiente escolar, um passo fundamental para estimular profissionais, famílias e a comunidade a aprimorarem sua relação. A representação midiática revela, por meio da Análise do Discurso, os saberes cotidianos (Fernandes Ferreira, 2020; De Certeau, Giard, Mayol, 1994) sobre a educação. Essa abordagem é crucial diante do progressivo afastamento entre escola e família (Nogueira, Romanelli, Zago, 2000; Oliveira, 2002; Cunha, 1996; Faria Filho, 2020), pois quanto maior o distanciamento, maior a influência da mídia nas percepções mútuas.

A proximidade entre escola, família e comunidade é um pilar da educação democrática (Alves et Lima, 2023; Paro, 2012). O conceito de gestão escolar democrática, embora polissêmico, tornou-se central com a redemocratização do Brasil, impulsionado pela ideia de que a participação social enriquece a educação (Freitas et Pilla, 2006). Este modelo valoriza conselhos deliberativos, associações de pais e a construção coletiva do Projeto Político Pedagógico para descentralizar o poder. Cury (2005) argumenta que tal gestão só é plenamente possível em uma sociedade democrática. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional valida o princípio (Soares, 2011), reforçando que a gestão democrática implica descentralização de poder e de responsabilidades, envolvendo toda a sociedade na construção da qualidade educacional (Neto et Castro, 2011).

A pesquisa adota uma abordagem qualitativo-interpretativista (Moita-Lopes, 1994) para analisar nove matérias de portais de notícias online. O corpus foi selecionado a partir de buscas no Google Notícias em datas comemorativas — Dia do Gestor Escolar (12 de novembro) e Dia do Profissional da Educação (06 de agosto) —, pois a tematização da gestão escolar é escassa em notícias gerais. A busca por “Dia do Gestor Escolar” gerou aproximadamente 160 resultados, e a por “Dia do Profissional da Educação”, cerca de 200. Após aplicar critérios de exclusão (matérias sem relação direta, de caráter institucional ou anúncios), restaram cinco e quatro textos, respectivamente, formando o corpus final de nove matérias.

As matérias foram organizadas em uma tabela com nove categorias de análise: Autoria, Manchete e Localidade; Concepção de Educação; Concepção de Gestão Escolar; Espaço e Estrutura da Escola; Menção sobre Profissionais da Educação; Ações para Melhorias; Desafios Enfrentados; Menção à Comunidade Escolar; e Concepção de Estudante. Todas as categorias foram analisadas para investigar como interferem, direta ou indiretamente, nas possibilidades de gestão escolar. Os textos foram tratados como dados sociais que refletem e agem sobre a realidade, em uma perspectiva pragmática do discurso (Benveniste, 2020). Incluiu-se também um episódio de podcast da Folha de São Paulo, pois seu conteúdo de áudio era mais aprofundado que o texto escrito associado, enriquecendo o corpus com uma plataforma relevante de circulação de saberes. A pesquisa caracteriza-se, portanto, como uma análise documental de produtos sociais que capturam diferentes pontos de vista sobre a realidade educacional (Foucault, 2003).

A análise dos textos revelou uma complexa teia de discursos e um campo de disputa ideológica. Confirmou-se a hipótese inicial de que há um respeito pela escola como instituição validadora de discursos, ao mesmo tempo em que se aponta sua falha em alcançar resultados. As propostas de reinvenção da escola refletem essa disputa: de um lado, a defesa de uma educação meritocrática, hierárquica e alinhada a valores conservadores ou militares; de outro, a de uma educação humanista, focada em igualdade, equidade, direitos humanos e formação para a cidadania democrática.

O podcast da Folha de São Paulo, intitulado “CEO ou bombeiro?”, expõe a tensão entre o gestor administrativo, focado em resultados, e o gestor que lida com crises. O conteúdo apresenta vozes divergentes: um diretor que defende a terceirização da dimensão pedagógica e o poder de demitir funcionários estáveis, e uma secretária de educação que afirma ser a dimensão pedagógica a mais importante. A matéria defende uma gestão democrática baseada no diálogo, mas a concepção de “democracia” permanece genérica, associada a termos como diversidade e pluralidade.

A matéria do portal MídiaNews define a gestão democrática a partir da necessidade de promover a equidade, dando suporte a populações vulneráveis. O texto destaca a participação familiar como desafio central e valoriza o processo eleitoral para a escolha de gestores, que inclui o voto da comunidade. A concepção de democracia aqui vai além do voto, englobando a ideia de que a educação deve ser um instrumento de transformação social.

Os portais Encontro das Águas e Plantão dos Lagos expandem a noção de gestão democrática para incluir todos os profissionais da escola como agentes ativos. A ideia é que cada trabalhador é gestor de uma parte do ambiente, e o diretor é o articulador dessas múltiplas gestões. O relato de um merendeiro que desenvolve um projeto de alimentação com apoio de agências de fomento exemplifica essa gestão horizontal. Adicionalmente, a dimensão do afeto é ressaltada, com a escola sendo vista como uma extensão da família.

Em forte contraste, a matéria da CNN sobre a implementação de escolas cívico-militares revela uma apropriação do termo “democracia” para justificar um modelo autoritário. A polêmica surge quando um gestor proíbe os professores de opinarem sobre o novo modelo, definindo a “comunidade escolar” apenas como “pais e responsáveis”. Embora a Secretaria de Educação posteriormente tenha defendido o direito de voto dos professores, o episódio evidencia uma visão de democracia reduzida ao sufrágio, utilizada para legitimar um sistema baseado em hierarquias rígidas e obediência, o que representa uma violação da liberdade de expressão (Darnton, 2016).

O discurso da meritocracia, alinhado a ideologias neoliberais, aparece na matéria do G1 sobre uma escola em Boa Vista que celebra a “gestão baseada em evidências” focada em resultados quantitativos, como o IDEB. A política de bonificações e premiações por desempenho estimula a competição. Embora mencione um “ensino igualitário”, a lógica meritocrática contradiz a noção de equidade, pois as escolas com maiores dificuldades, que mais precisariam de recursos, são as que não recebem os prêmios. Este modelo reflete a penetração de valores de mercado na educação pública, ampliando as desigualdades sociais (Soares, 2000).

A gestão de crises, especialmente relacionadas à violência no ambiente escolar, foi outro eixo temático. Duas matérias do G1 noticiam casos de racismo cometidos por um diretor e uma professora contra estudantes. As respostas institucionais mostraram-se reativas e superficiais, limitando-se a notas públicas, afastamento dos agressores e promessas vagas de formação, parecendo mais voltadas à contenção de danos de imagem do que a uma transformação real, apesar da legislação que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena existir há quase duas décadas.

Nesses casos de violência, o protagonismo da comunidade escolar e de coletivos sociais se destacou. A pressão exercida por pais, estudantes e organizações foi o principal motor para que as denúncias tivessem consequências, demonstrando que a participação social pode forçar mudanças mesmo na ausência de uma gestão proativamente democrática. A matéria da Agência Brasil, que aponta um aumento de 50% na violência escolar em 2023, corrobora a gravidade do cenário. O texto sugere que a solução passa pela construção de um ambiente seguro, mas os dados indicam uma falha sistêmica. O aumento da violência nas escolas parece coincidir com o avanço de ideologias neoliberais e de extrema-direita, que acirram desigualdades e promovem discursos de ódio (Ferreira, 2023), tornando o ambiente escolar um reflexo das tensões sociais.

A análise contrastiva das matérias mapeia um panorama dos saberes cotidianos sobre educação, revelando um campo de intensas disputas ideológicas. As concepções de gestão democrática variam desde a defesa da vontade da maioria via voto, passando pela promoção da equidade, até a valorização da responsabilidade compartilhada. Em oposição, surgem modelos baseados na hierarquia militar e na meritocracia neoliberal, que promovem valores como competição e individualismo. O aumento da violência escolar sugere que esses valores são contrários à construção de uma cultura de paz e cooperação.

Ao sistematizar e analisar criticamente as representações midiáticas, este trabalho oferece subsídios para que as decisões institucionais no campo da educação sejam mais bem informadas pelas tensões que circulam na esfera pública. Compreender esses discursos é essencial para a prática de uma gestão verdadeiramente democrática. As diferentes visões sobre sua gestão — democrática, meritocrática ou autoritária — têm consequências diretas para a formação das novas gerações e, por extensão, para o tipo de sociedade que se constrói. A escolha por um modelo de gestão escolar e educacional integralmente democrático se apresenta como o caminho mais coerente para a busca e defesa de uma sociedade justa e igualitária. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que as representações midiáticas da gestão escolar revelam uma pluralidade de concepções ideológicas em disputa, cuja compreensão é fundamental para a construção de uma educação e uma sociedade efetivamente democráticas.

Referências:
ALVES, Missiene Lima; LIMA, Maria da Conceição Silva. A gestão democrática e a relação família-escola: desafios e perspectivas. Revista Pedagógica, Chapecó, v. 25, p. 1-22, 2023. DOI: http://dx. doi. org/10.22196/rp. v25i1.7276
BENVENISTE. (2020) Problema de Linguística Geral. Campinas: Pontes Editores, Vol I e II.
CUNHA, M. V. da. “A escola renovada e a família desqualificada: do discurso histórico-sociológico ao psicologismo na educação”. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 186, maio-agosto 1996, p.318-345.
CURY, C. R. J. Gestão democrática da educação pública. In: Gestão democrática da educação Brasília, DF: MEC, out. 2005. p. 14-19. (Boletim 19).
DARNTON, Robert. Censores em Ação, como Estados influenciaram a literatura. Tradução Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016
DE CERTEAU, M.; GIARD, L.; MAYOL, P. (1994). A invenção do cotidiano. 2. Morar, cozinhar. Petrópolis: Vozes, 2013, 12ed.
FARIO FILHO, L. M. de. “Para Entender a Relação Escola-Família – uma contribuição da história da educação”. São Paulo Perspec. 14 (2) • Jun 2000 • https://doi. org/10.1590/S0102-88392000000200007.
FERNANDES FERREIRA, A. C. (2020). Saberes linguísticos cotidianos. Porto Das Letras, 6(5), 324–351. Recuperado de https://sistemas. uft. edu. br/periodicos/index. php/portodasletras/article/view/10399
FERREIRA, G. A ascensão política da extrema-direita e a restrição de direitos sociais no Brasil e nos Estados Unidos da América. São Paulo: Dialética, 2023.
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
FREITAS, K. S. de; PILLA, p. Gestão Democrática da Educação – Caderno de Textos, 2006 – proged. ufba. br.
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SOARES, E. F. A Escola como Organização Educativa: gestão democrática e autonomia. PESQUISA EM PÓS-GRADUAÇÃO – Série Educação. v. 4 n. 7, 2011.
SOARES, Laura Tavares. Os Custos Sociais do Ajuste Neoliberal na América Latina. São Paulo: Cortez, 2000.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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