04 de maio de 2026
Viabilidade e ROIC da armazenagem de grãos no Mato Grosso
Khalil Mohamad El Zoghbi de Lima; Matheus Luís Docema
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O Brasil exerce um papel de liderança agrícola nos mercados globais de alimentos, consolidando-se como o maior produtor e exportador mundial de soja e ocupando a terceira posição na produção e a segunda na exportação de milho. Essa posição de destaque resulta de uma expansão vigorosa da área plantada, que em 2010 compreendia 49,8 milhões de hectares e alcançou 81,6 milhões de hectares em 2024, representando uma taxa de crescimento anual composta de 3,3% (CONAB, 2025). Quando observados especificamente os cultivos de soja e milho, esse índice de crescimento atinge 4%, superando significativamente as demais culturas agrícolas nacionais. Paralelamente à expansão de área, o aumento da produtividade média, que saltou de 3.264 kg por hectare em 2010 para 3.990 kg por hectare em 2024, impulsionou a produção total a um crescimento médio anual de 4,7%. No caso específico do complexo soja e milho, o avanço foi de 5,3% ao ano, evidenciando a eficiência técnica do campo brasileiro.
Contudo, a evolução da infraestrutura de armazenagem de grãos no país não acompanhou o ritmo acelerado da produção (Almeida e Guimarães, 2017). A armazenagem desempenha um papel estratégico fundamental na gestão eficiente da comercialização, pois permite melhores condições de contratação de fretes e a redução da volatilidade de preços entre os períodos de safra e entressafra (CNA, 2022). Além disso, a existência de silos adequados contribui diretamente para a redução de perdas físicas e para a preservação da qualidade nutricional e comercial dos alimentos (De Martini et al., 2009). O subinvestimento crônico em infraestrutura tornou-se evidente nos últimos 15 anos. Em 2010, a produção brasileira era de 162,8 milhões de toneladas, enquanto a capacidade estática de armazenagem somava 138,7 milhões de toneladas, resultando em um déficit de 15%. Em 2024, a produção atingiu 325,7 milhões de toneladas, mas a capacidade estática evoluiu para apenas 210,1 milhões de toneladas, elevando o déficit para 36%.
Enquanto a produção de grãos praticamente dobrou no período analisado, o déficit de armazenagem mais do que duplicou, situando-se muito aquém da capacidade considerada ideal pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, que recomenda uma capacidade de 120% em relação à produção total (Almeida e Guimarães, 2017). Essa defasagem estrutural agrava severamente os problemas de transporte e escoamento, elevando as perdas pós-colheita e os custos logísticos, especialmente os valores de fretes rodoviários (Nogueira Junior e Tsunechiro, 2016). Diante de um cenário onde os investimentos não acompanharam a demanda, torna-se essencial compreender os fatores limitantes, especialmente no estado do Mato Grosso, que detém o maior déficit de armazenagem do país. Considerando o elevado custo de capital no Brasil, é fundamental avaliar se a implantação de estruturas próprias é rentável para o produtor e se o retorno sobre o capital investido supera o custo de oportunidade.
A análise da viabilidade econômica fundamenta-se em indicadores clássicos de finanças corporativas. O Valor Presente Líquido é uma técnica central para a tomada de decisão, calculada a partir dos fluxos de caixa projetados e descontados por uma taxa mínima de atratividade (Costa Jr. et al., 1994). Complementarmente, a Taxa Interna de Retorno identifica a taxa necessária para zerar o valor presente dos fluxos, permitindo a comparação direta com o custo de capital. A geração de valor econômico real ocorre quando o retorno sobre o capital investido excede o custo médio ponderado de capital (Mauboussin, 2022). O indicador de Valor Econômico Adicionado quantifica esse excedente, demonstrando se o projeto efetivamente aumenta a riqueza do investidor após a remuneração de todas as fontes de financiamento.
A metodologia adotada para este estudo possui caráter exploratório e aplicado, utilizando informações primárias de fontes públicas como a Companhia Nacional de Abastecimento, o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária, o Sistema de Informações de Fretes e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. O levantamento compreendeu uma série histórica de 15 anos, abrangendo a produção de soja e milho, a expansão da área plantada e a capacidade estática de armazenagem, iniciando na safra 2010/11 e finalizando com as previsões oficiais para a safra 2024/25. A partir desses dados, projetou-se o déficit de armazenagem para os próximos 10 anos, mantendo o ritmo histórico de crescimento da produção e dos investimentos em infraestrutura.
Para a análise de preços, foram coletadas cotações de soja e milho no mercado físico de Sorriso, Mato Grosso. Os valores foram deflacionados pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna de dezembro de 2024 para eliminar o efeito inflacionário e permitir a análise da sazonalidade real. O diferencial de preços entre safra e entressafra foi calculado para apurar o prêmio médio de comercialização nos últimos 15 anos. A viabilidade econômica foi dimensionada para uma propriedade rural média em Sorriso, considerando as produtividades médias estaduais de 3.340 kg por hectare para soja e 5.900 kg por hectare para milho. A capacidade estática ideal foi definida entre 60% e 70% da produção da fazenda (Cogo, 2013).
O projeto operacional foi orçado para uma estrutura composta por duas unidades de silos secadores com capacidade de 3.000 toneladas cada, totalizando 6.000 toneladas. Os custos de implantação, incluindo unidades de secagem e limpeza, foram estimados em 1 milhão de reais por tonelada, baseando-se em orçamentos de empresas especializadas do setor. Para o cálculo dos benefícios, considerou-se a redução de custos de armazenagem em silos terceirizados, avaliados em R$ 3,77 por tonelada a cada quinzena. Também foram computadas as economias com secagem (R$ 12,03 por tonelada), recepção (R$ 2,85 por tonelada), expedição (R$ 2,90 por tonelada) e limpeza (R$ 4,51 por tonelada), conforme tabelas da Companhia Nacional de Abastecimento. A despesa operacional adicional para manter a estrutura própria foi orçada em R$ 57,3 por tonelada.
Os indicadores econômicos utilizados incluíram o Valor Presente Líquido, a Taxa Interna de Retorno, o Retorno sobre o Capital Investido e o Payback. A taxa mínima de atratividade foi definida como a taxa Selic acrescida de um spread de 3,5%, refletindo o custo de captação atual para estruturas de armazenagem. O Retorno sobre o Capital Investido foi calculado dividindo-se o lucro operacional líquido após impostos pelo capital total investido (Mauboussin, 2022). O Valor Econômico Adicionado foi obtido pela diferença entre o lucro operacional e o produto do capital investido pelo custo médio ponderado de capital. O período de recuperação do investimento foi mensurado pelo tempo necessário para que o fluxo de caixa acumulado se tornasse positivo.
Entre as safras 2010/11 e 2024/25, a produção brasileira de grãos saltou de 162 milhões para 325 milhões de toneladas. A soja apresentou um crescimento anual composto de 5,4%, enquanto o milho avançou 5,2% ao ano (CONAB, 2025). Em contraste, a capacidade de armazenamento evoluiu de 138 milhões para apenas 210 milhões de toneladas. Esse descompasso fez com que o déficit nacional de armazenagem subisse de 15% para 35% da produção total. No Mato Grosso, a situação é ainda mais crítica. A produção estadual passou de 31 milhões de toneladas em 2010/11 para uma previsão de 99 milhões de toneladas em 2024/25. Com uma capacidade estática de 52 milhões de toneladas, o déficit no estado atinge 47%. Projeções indicam que, se o ritmo atual persistir, o Mato Grosso será incapaz de armazenar 63% de sua produção futura em 10 anos.
A análise da sazonalidade revelou que 72% das exportações de soja do Brasil ocorrem entre março e julho, o que pressiona os preços negativamente durante a colheita (Cogo, 2013). Em Sorriso, os melhores preços para a soja concentram-se entre agosto e novembro, enquanto para o milho o pico ocorre entre fevereiro e maio. Nos últimos 15 anos, o prêmio médio de comercialização para quem armazena a soja foi de R$ 13,97 por saca de 60 kg. Para o milho, o prêmio médio foi de R$ 3,29 por saca. Esses valores representam a receita incremental direta obtida pela postergação da venda. Além do ganho de preço, a estrutura própria elimina a necessidade de exportação imediata, que satura a infraestrutura portuária nos meses de pico, onde 70% do volume de soja é escoado (CONAB, 2025).
O investimento total necessário para a estrutura de 6.000 toneladas foi orçado em R$ 5,854 milhões. Para viabilizar o projeto, simulou-se um financiamento integral via fundo de investimento nas cadeias produtivas agroindustriais, com juros de Selic mais 3,5% ao ano e prazo de 120 meses, incluindo 12 meses de carência. O custo do financiamento representa o maior encargo financeiro, totalizando aproximadamente R$ 4,3 milhões em juros ao longo do período. As parcelas iniciais de juros superam as despesas operacionais, tornando o custo do capital a variável mais sensível para a rentabilidade do produtor. No entanto, a operação própria gera benefícios incrementais significativos ao evitar desembolsos com terceiros e capturar prêmios de mercado.
Os resultados financeiros indicaram um Valor Presente Líquido positivo de R$ 406.748, confirmando a viabilidade do investimento sob a ótica do valor do dinheiro no tempo. A Taxa Interna de Retorno foi de 16,6%, superando a taxa mínima de atratividade média de 13,8% calculada para o período. O Retorno sobre o Capital Investido situou-se em 14,17%, valor superior ao custo médio ponderado de capital de 9,97%. Essa diferença resultou em um Valor Econômico Adicionado positivo de R$ 245.508, demonstrando que o projeto não apenas remunera o capital, mas cria riqueza adicional para o produtor rural. O período de recuperação do investimento foi estimado em 17 anos, o que representa pouco mais da metade da vida útil projetada de 30 anos para a estrutura (CONAB, 2025).
Ao comparar esses resultados com a literatura, observa-se que o retorno é consistente, embora existam variações conforme as condições de crédito. Em estudo similar, foi obtida uma taxa interna de retorno de 20,02% para uma estrutura de porte comparável, porém sob condições de juros anuais fixos de 8,5% (Dalchavion et al., 2019). Outra pesquisa encontrou uma taxa interna de retorno de 12% para uma unidade de 10.105 toneladas, utilizando juros de 7,5% ao ano (Vergara et al., 2017). A disparidade entre os índices de rentabilidade decorre principalmente da volatilidade da taxa Selic no Brasil, que eleva o custo de oportunidade e o serviço da dívida. Em mercados internacionais com menor custo de capital, como Gana e Nigéria, os retornos sobre o investimento em armazenagem variam entre 20% e 50%, refletindo prêmios de mercado distintos e menores encargos financeiros (Martey et al., 2025; Oyebamiji et al., 2017).
A análise de sensibilidade demonstrou que o investimento total e o custo do financiamento são os fatores de maior impacto na viabilidade. Uma redução de 10% no valor do investimento inicial elevaria a taxa interna de retorno para 16,8%, enquanto um aumento de 10% a reduziria para 14,08%. O período de carência também se mostrou vital; o adiamento de um ano no início dos pagamentos tem um efeito positivo na taxa interna de retorno superior a uma alteração equivalente no prazo total do financiamento. Pequenas oscilações no custo do capital podem tornar o projeto economicamente inviável se a taxa interna de retorno cair abaixo da taxa mínima de atratividade, o que reforça a necessidade de acesso a linhas de crédito subsidiadas.
A dependência de crédito barato é evidenciada pela forte correlação entre o faturamento das empresas vendedoras de silos e os recursos desembolsados pelo Programa para Construção e Ampliação de Armazéns do governo federal. A regressão linear entre essas variáveis apresentou um coeficiente de determinação de 0,77, indicando que 77% da variação nas vendas de estruturas de armazenagem é explicada pela disponibilidade de crédito do programa governamental, que oferece taxas de 8,5% ao ano, substancialmente inferiores à Selic. Sem esse apoio financeiro, a expansão da capacidade de armazenagem nos moldes necessários para mitigar o déficit nacional torna-se improvável, dado que a rentabilidade operacional pura não sustenta custos de capital elevados por períodos prolongados.
Além dos ganhos financeiros diretos, a armazenagem própria oferece benefícios qualitativos e logísticos. O produtor evita a perda de resíduos, que representam cerca de 2% do volume processado, e elimina o custo do frete curto entre a lavoura e armazéns de terceiros (Dalchavion et al., 2019). A estrutura também permite um controle rigoroso da umidade e da limpeza dos grãos, fatores que influenciam diretamente o preço final pago pelas tradings. No contexto do Mato Grosso, onde o déficit de 47% gera filas extensas nos terminais durante a safra, a autonomia de estocagem traduz-se em poder de barganha e flexibilidade operacional, permitindo que o produtor aguarde janelas de frete mais favoráveis e preços de entressafra mais atrativos.
As limitações deste estudo residem na volatilidade das variáveis macroeconômicas brasileiras, especialmente a taxa de câmbio e a taxa básica de juros, que afetam tanto o custo dos insumos para construção quanto o custo da dívida. Pesquisas futuras poderiam explorar o impacto da integração de sistemas de energia fotovoltaica nas unidades de armazenagem para reduzir os custos operacionais de secagem e aeração. Além disso, a análise de modelos de condomínios de armazéns entre pequenos e médios produtores pode oferecer alternativas para diluir o alto investimento inicial e os custos fixos operacionais, mantendo os benefícios da comercialização estratégica.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que a implantação de uma estrutura armazenadora de 6.000 toneladas em Sorriso, Mato Grosso, é economicamente viável e gera valor econômico positivo. O projeto apresentou um Valor Presente Líquido de R$ 406.748 e uma Taxa Interna de Retorno de 16,6%, superando o custo de capital estipulado. O Retorno sobre o Capital Investido de 14,17% mostrou-se superior ao custo médio ponderado de capital de 9,97%, resultando em um Valor Econômico Adicionado de R$ 245.508. Apesar do longo período de recuperação do capital, fixado em 17 anos, a estrutura mostra-se atrativa para o produtor mato-grossense ao mitigar os efeitos do déficit de armazenagem de 47% no estado e permitir a captura de prêmios de comercialização na entressafra. A viabilidade permanece fortemente condicionada ao acesso a linhas de crédito com taxas competitivas e ao controle rigoroso dos custos de implantação.
Referências Bibliográficas:
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Cogo, C. 2013. Falta espaço, sobra prejuízo a todos. Revista A Granja, Edição 774, p. 12-16
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Oyebamiji, I.T.; M.O, Olatilewa; S.A, Adetayo; S.N, Oyewole. 2017. Economic Appraisal of Inert Atmosphere Silo for Wheat Storage. Annual NAAE Conference, Abeokuta, Nigeria 288335, Nigerian Association of Agricultural Economists. Acesso em: 05 set 2025.
Vergara, W.R.; Oliveira, J.P.C.; Barbosa, F.A.; Yamanari, J.S. 2017. Análise de viabilidade econômico-financeira para aquisição de uma unidade de armazenagem de soja e milho. Revista Gestão da Produção Operações e Sistemas 12(1): 41-41.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq
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