Imagem Variação da incidência de transtornos mentais laborais na região sudeste do Brasil

14 de janeiro de 2026

Variação da incidência de transtornos mentais laborais na região sudeste do Brasil

Autor(a): Enola Júlio Mango — Orientador(a): Adriana Maria Fuzer Grael

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisa a evolução da incidência de transtornos mentais relacionados ao trabalho na região Sudeste do Brasil, em séries temporais de 2015 a 2024, para identificar padrões e determinantes. A investigação delineia o perfil epidemiológico dos trabalhadores afetados, as tendências de notificação e as implicações para a saúde pública e políticas organizacionais. A análise da região Sudeste, economicamente ativa, permite compreender os fatores de risco psicossociais em ambientes de trabalho intensivos, fornecendo subsídios para estratégias preventivas.

A crescente prevalência de transtornos mentais no trabalho é um desafio de saúde pública global (Bailo, et al., 2024), ligada às transformações do sistema capitalista que impõem formas mais intensas de organização do trabalho (Araújo, et al., 2017). A busca por produtividade em detrimento do bem-estar favorece o desenvolvimento de patologias psíquicas. O cenário foi agravado pela pandemia de COVID-19, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022), provocou um aumento global de 25% nos casos de ansiedade e depressão, evidenciando a fragilidade da saúde mental da força de trabalho.

As dinâmicas do modo de produção contemporâneo promovem uma cultura de desempenho que individualiza o sucesso e o fracasso, gerando inadequação e esgotamento (Safatle, 2018). O sofrimento emocional manifesta-se em sintomas como ansiedade crônica, tristeza, irritabilidade, medo, inquietação e reações psicossomáticas como taquicardia e sudorese (Rodrigues, et al., 2024). Tais condições comprometem a qualidade de vida e impactam a produtividade, as relações de trabalho e a estabilidade econômica das organizações e do sistema de saúde.

A deterioração das condições laborais é um fator central. Jornadas extensas, pressão por metas, insegurança no emprego e precarização contribuem para o adoecimento psíquico (Bailo, et al., 2024). A terceirização e a exposição a múltiplos riscos criam um ambiente de vulnerabilidade (Druck, 2011). Adicionalmente, a falta de autonomia, a monotonia e a ausência de reconhecimento são fatores psicossociais que minam a saúde mental do trabalhador (Franco, et al., 2010), intensificando os impactos sobre a saúde.

A distribuição dos riscos não é homogênea. Mulheres enfrentam dupla ou tripla jornada, resultando em índices de notificação de transtornos mentais superiores aos dos homens (Friederick, 2023; Cattani & Rizza, 2024). Profissionais de 35 a 49 anos, no auge da carreira, são mais suscetíveis à síndrome de Burnout devido à dificuldade de conciliar exigências profissionais e vida pessoal (Oliveira et al., 2024). Esse cenário se reflete no aumento de afastamentos pelo INSS e na judicialização de questões de saúde mental (Farias, 2023; Carlotto, et al., 2019). A recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que exige a inclusão da avaliação de riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), é um avanço normativo, embora sua implementação prática seja um desafio (Ministério do Trabalho e Emprego, 2024).

Realizou-se um estudo descritivo, quantitativo e de série temporal, utilizando microdados do Sistema de Informações de Agravos e Notificações (SINAN), disponibilizados pelo DATASUS. A fonte foi a ficha de investigação para transtornos mentais relacionados ao trabalho. O uso de dados secundários públicos isentou a pesquisa de submissão a Comitê de Ética. O período de análise foi de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2024, abrangendo eventos como crises econômicas e a pandemia de COVID-19. Foram incluídos todos os registros de transtornos mentais e comportamentais associados ao trabalho notificados no período.

O recorte geográfico na região Sudeste (SP, RJ, MG, ES) se justifica por sua proeminência demográfica e econômica e pela consolidação de seus sistemas de vigilância em saúde do trabalhador, o que confere maior robustez à análise. As variáveis analisadas incluíram: ano da notificação, idade, sexo, cor/raça, escolaridade, estado de residência, situação no mercado de trabalho, regime de tratamento, diagnóstico específico (CID-10) e conduta geral. A análise foi executada em Python no ambiente Google Colab. Para identificar tendências na série temporal, utilizou-se o teste de Dickey-Fuller aumentado (ADF), com nível de significância de 5% (p < 0,05), conforme metodologia validada (Silveira, et al., 2022).

Os resultados mostram que, entre 2015 e 2024, foram registradas 23.288 notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho no Brasil. A série histórica aponta uma trajetória de crescimento consistente, culminando no maior número de registros em 2024. Este aumento pode refletir tanto uma deterioração real das condições psicossociais no trabalho quanto uma maior conscientização e aprimoramento dos sistemas de vigilância epidemiológica (Silva, et al., 2022; Bailo et al., 2024).

O perfil demográfico dos trabalhadores notificados evidencia vulnerabilidades. As mulheres representam a maioria, com 15.723 registros (67,5%), dado que reflete a sobrecarga da dupla jornada e desigualdades de gênero (Silva et al., 2023). Em relação à cor/raça, 10.259 indivíduos (44,6%) foram declarados brancos. Quanto à escolaridade, 7.643 trabalhadores (32,7%) possuíam ensino superior completo, indicando que o adoecimento atinge também os estratos mais qualificados. A maioria dos casos, 13.616 (58,4%), ocorreu entre empregados com carteira assinada, o que pode estar relacionado à maior estabilidade para buscar diagnóstico e à exposição a riscos em ambientes corporativos (Pimenta, et al., 2024).

A análise por faixa etária mostra que o adoecimento se concentra na população em pico de produtividade. A média de idade foi de 38,98 anos. O grupo mais atingido foi o de 35 a 44 anos, com 8.209 casos (35,7%), seguido pela faixa de 25 a 34 anos, com 6.073 casos (26,3%). Este padrão indica que o período de maior exigência profissional e responsabilidades familiares constitui uma fase de alta vulnerabilidade ao estresse ocupacional (Neto et al., 2024; Rodrigo et al., 2024). A leve redução de notificações em 2020 pode ser atribuída a uma subnotificação decorrente das restrições de acesso a serviços de saúde durante a pandemia de COVID-19.

Geograficamente, a região Sudeste concentra 10.382 casos (44,5% do total nacional). A distribuição é desigual: São Paulo lidera com 5.231 casos (22,5% do Brasil), seguido por Minas Gerais com 4.482 (19,2%), Rio de Janeiro com 669 (2,8%) e Espírito Santo com 35 (0,2%). Essa concentração pode ser explicada pela densidade populacional e industrial, mas também pela maior capacidade de seus serviços de vigilância (Gonçalves e Ferreira, 2024).

A análise de tendência para a faixa etária de 35 a 44 anos na região Sudeste, via teste de Dickey-Fuller aumentado (ADF), confirmou um aumento estatisticamente relevante ao longo dos anos (p = 0,8949). Este resultado reforça que as pressões laborais e sociais sobre este grupo têm se intensificado, resultando em um crescimento contínuo do adoecimento psíquico.

Quanto aos diagnósticos, o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT, CID-10 F43.1) foi responsável por 2.028 casos (8,7%). O TEPT está associado à exposição a eventos traumáticos no trabalho, como acidentes, assédio moral ou pressão psicológica extrema. Um estudo recente corrobora a alta prevalência de TEPT entre trabalhadores brasileiros, associando-a a maior insegurança e incerteza no mundo do trabalho (Muntanelli et al., 2025). A análise da série temporal para o TEPT na região Sudeste, contudo, revelou um comportamento estacionário (p = 0,0002), indicando que sua incidência se manteve em um patamar constante no período.

Em relação às condutas adotadas, o afastamento por situação de desgaste mental foi a medida para 9.421 trabalhadores (40,4%), enquanto a “adoção de mudança na organização de trabalho” foi registrada em 11.354 casos (48,8%). A análise estatística, no entanto, não encontrou aumento significativo em medidas de proteção coletiva ou individual, sugerindo que as ações são mais reativas do que preventivas.

A análise do afastamento por desgaste mental na faixa etária de 35 a 44 anos na região Sudeste revelou uma tendência crescente (p = 0,453), indicando que o número de trabalhadores que necessitam se afastar por esgotamento tem aumentado. Este crescimento, impulsionado pela intensificação do trabalho e pelas dinâmicas da pandemia, evidencia que as medidas institucionais não têm sido suficientes para reverter o quadro. A ausência de impacto efetivo reforça a urgência de políticas mais robustas, focadas na prevenção primária e na promoção de ambientes de trabalho psicologicamente seguros, conforme as diretrizes da NR-01.

A análise temporal da incidência de transtornos mentais no trabalho na região Sudeste, entre 2015 e 2024, evidencia uma tendência de crescimento contínuo, configurando um grave problema de saúde pública. A predominância de casos entre mulheres e trabalhadores de 35 a 44 anos aponta para a intersecção de fatores de risco sociais e laborais. Os resultados sublinham a urgência de as empresas incorporarem a avaliação de riscos psicossociais em suas práticas de gestão, conforme preconiza a NR-01, superando os desafios para transformar a norma em uma realidade protetiva. Este estudo reforça a necessidade de migrar de ações reativas, como o afastamento, para estratégias preventivas e sistêmicas que promovam ambientes laborais saudáveis e seguros.

O monitoramento contínuo por meio de análises de séries temporais é uma ferramenta indispensável para subsidiar políticas públicas e fomentar transformações organizacionais. As limitações inerentes ao uso de dados secundários, como a subnotificação, devem ser consideradas, mas não invalidam a robustez da tendência identificada. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se a tendência crescente e preocupante da incidência de transtornos mentais relacionados ao trabalho na região Sudeste do Brasil entre 2015 e 2024, com perfis demográficos e etários bem definidos.

Referências:
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Bailo, D. W.; Oliveira, A. C. G.; Sauer, V. R.; Marchi, T. Q.; Cavalcante, J. F. G. R.; Ritt, A. F. M.; Silva, R. F.; Macedo, L. V. C.; Francisco, G. P.; Passos, G. O.; Franco, J. S.; Rosa, A. C. F.; Vanessa Mazzardo, V. 2024. Impacto dos Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho no Brasil: Uma Revisão de Dados e Perspectivas Epidemiológicas. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, 6(8): 4723–4733.
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Carlotto, M. S.; Câmara, S. G.; Batista, J. V.; Schneider, G. A. 2019. Prevalência de Afastamentos por Transtornos Mentais e do Comportamento Relacionados ao Trabalho em Professores. PSI UNISC, 3(1):19–32.
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Silva M. V. B.; Silva H. V. C.; Veras J. L. A.; Guimarães F. J. 2023. Profile of notified cases of work-related mental disorders in nurses in Brazil. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental. 15:e12722.
Silva


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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