Resumo Executivo

21 de maio de 2026

Soft Skills e Mentoria: Pilares da Excelência Científica

Mariela Estefany Gislene Vera Roa; Yasminn Talyta Tavares Zagonel

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A formação superior constitui um pilar estratégico para o desenvolvimento humano, tecnológico e econômico, sendo reconhecida como motor de inovação e competitividade internacional. A educação superior impacta diretamente na formação de recursos humanos, na empregabilidade, no crescimento sustentável e na redução da desigualdade social. O investimento no potencial humano para o desenvolvimento é um fator determinante para o avanço de uma nação, uma vez que a educação e o conhecimento são formas de capital tão essenciais quanto os bens físicos. A literatura contemporânea demonstra que a educação, especialmente quando envolve pesquisa, é um motor central do desenvolvimento econômico de alta qualidade, que vai além do crescimento do Produto Interno Bruto e inclui inovação, sustentabilidade e prosperidade compartilhada (Xia; Qiu, 2021). O impacto desse investimento manifesta-se na formação de capital humano qualificado, que aumenta a produtividade e a capacidade de adaptação tecnológica, além de promover o avanço da pesquisa, refletido em indicadores como citações e patentes, e na transformação da estrutura de emprego (Yu; Liu, 2025).

Gestão e liderança são essenciais para a pesquisa científica, garantindo qualidade e progresso institucional. No entanto, habilidades de gerenciamento, colaboração e qualidades intelectuais são frequentemente negligenciadas na formação formal de cientistas. A mentoria é reconhecida como uma habilidade necessária para o desenvolvimento de futuros investigadores, embora essas competências sejam geralmente aprendidas através da experiência prática e observação, o que pode resultar em falta de preparo no início das carreiras (Antes; et al., 2016). Habilidades como comunicação, trabalho em equipe, liderança e resolução de problemas complementam o conhecimento técnico, tornando os cientistas mais eficazes. Integrar o ensino dessas competências na formação acadêmica pode impulsionar a inovação e fortalecer a liderança em pesquisa. O sucesso acadêmico depende não apenas do conhecimento técnico, mas também do desenvolvimento de habilidades interpessoais que garantam a sustentabilidade das carreiras científicas (Khalid; et al., 2024).

A relação entre a qualidade das universidades e o desenvolvimento socioeconômico dos países é evidenciada pela concentração de instituições de prestígio em nações com altos índices de desenvolvimento humano e tecnológico. Países com universidades melhor posicionadas em rankings internacionais tendem a apresentar indicadores econômicos mais elevados, sugerindo que a excelência acadêmica e o desenvolvimento econômico caminham juntos (Lu, 2014). Na América Latina, embora não haja universidades entre as elites globais absolutas, a região destaca-se por reunir uma quantidade significativa de instituições presentes em avaliações internacionais, com o Brasil liderando o volume de universidades ranqueadas. A superação de barreiras estruturais e o investimento em modelos de formação que contemplem habilidades de gestão podem ser o caminho para alcançar maior destaque acadêmico e, consequentemente, maiores índices de desenvolvimento tecnológico e socioeconômico.

A pesquisa foi estruturada a partir de uma análise quantitativa e qualitativa, utilizando indicadores socioeconômicos e documentos institucionais de dez universidades de excelência, sendo cinco brasileiras e cinco dos Países Baixos. As instituições brasileiras selecionadas foram a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Universidade Estadual de Campinas e a Universidade de São Paulo. Do lado holandês, incluíram-se a University of Amsterdam, Wageningen University & Research, University of Groningen, Radboud University e Tilburg University. A escolha dessas instituições baseou-se na posição em rankings internacionais de excelência acadêmica e na disponibilidade de planos estratégicos e diretrizes de formação científica acessíveis para análise documental.

O procedimento metodológico envolveu a coleta de dados de indicadores de desempenho universitário baseados em cinco pilares: ensino, ambiente de pesquisa, qualidade da pesquisa, internacionalização e transferência de conhecimento. Para a análise documental, utilizou-se uma categorização baseada em palavras-chave associadas a diferentes níveis de consciência sobre a importância das habilidades socioemocionais na gestão acadêmica. Foram avaliadas frequências de termos relacionados a habilidades de gerenciamento, colaboração, negócios, qualidades intelectuais, liderança e mentoria. Para contornar as diferenças de extensão entre os documentos, que variavam de 50 a 600 páginas, os dados foram normalizados proporcionalmente ao número total de palavras presentes em cada relatório institucional, garantindo uma comparação justa entre as realidades nacionais distintas.

A análise estatística foi executada no software GraphPad Prism 9, empregando testes de normalidade para verificar a distribuição dos dados. Diante da ausência de distribuição normal, optou-se por métodos não paramétricos, utilizando a correlação de Spearman para avaliar a associação entre as variáveis e o teste T não paramétrico para comparar a frequência das habilidades entre os dois grupos de universidades. O critério de significância estatística adotado foi de p inferior a 0,05. A etapa qualitativa aprofundou a análise a partir dos resultados que apresentaram significância estatística, concentrando-se na leitura detalhada do conteúdo dos planos estratégicos para compreender o contexto institucional e a abordagem adotada pelas universidades em relação ao desenvolvimento de competências de gestão e mentoria.

O detalhamento operacional da pesquisa incluiu a extração de termos específicos como organização, delegação, supervisão, planejamento e eficiência operacional para a categoria de gerenciamento. Para a mentoria, buscaram-se termos como treinamento, desenvolvimento de talentos, orientação, coaching e suporte acadêmico. A análise buscou identificar se a presença dessas habilidades nos documentos estratégicos correlacionava-se com a qualidade da pesquisa medida pelos rankings internacionais. O estudo limitou-se a documentos públicos, o que pode não refletir integralmente as práticas cotidianas, mas oferece um retrato fiel das prioridades institucionais declaradas e das diretrizes que norteiam a formação de novos pesquisadores em ambos os contextos.

Os resultados demonstram que as universidades de prestígio mundial concentram-se majoritariamente em nações desenvolvidas, com uma forte presença na Europa e América do Norte. A análise evidenciou que os países com as melhores universidades também se destacam em índices de inovação e renda per capita. Na comparação direta entre os modelos institucionais, identificou-se que as habilidades de gerenciamento e mentoria apresentaram diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos de países. Essas categorias foram mencionadas com maior ênfase nos planos estratégicos das universidades dos Países Baixos, indicando uma atenção institucional sistematizada à preparação dos pesquisadores nessas dimensões específicas.

A validação do modelo de avaliação de habilidades socioemocionais revelou uma correlação positiva e significativa entre os escores de gerenciamento e mentoria e o indicador de qualidade em pesquisa. Isso demonstra que instituições que valorizam explicitamente tais dimensões em seus documentos estratégicos também apresentam melhor performance científica no cenário internacional. Enquanto as universidades holandesas incorporam essas competências de maneira sistemática às diretrizes institucionais e aos protocolos de avaliação, no Brasil, tais habilidades aparecem de forma mais pontual e dispersa. O sistema brasileiro de avaliação ainda se mostra fortemente dependente de métricas quantitativas e processos centralizados, o que pode limitar a valorização de competências socioemocionais na formação de líderes acadêmicos (Trevisol; Brasil, 2023).

A mentoria para a formação científica no processo de doutoramento é fundamental para assegurar pesquisas de qualidade e promover um ambiente de colaboração. O mentor exerce papel central no desenvolvimento acadêmico, oferecendo orientação técnica e suporte emocional. Para ser eficaz, a mentoria exige não apenas expertise científica, mas também habilidades interpessoais como comunicação e empatia, além de competências intrapessoais como autorregulação e reflexão crítica (Bercht; Kamm, 2025). Uma boa mentoria impacta diretamente a retenção de talentos e a inclusão de grupos sub-representados, favorecendo a integridade da pesquisa. No entanto, a análise documental revelou que as universidades brasileiras tendem a adotar critérios de avaliação mais quantitativos, como avaliações feitas por alunos e indicadores métricos de desempenho vinculados à progressão na carreira docente.

Em contraste, as universidades holandesas destacam-se pela oferta de programas estruturados de qualificação e treinamento docente. Esses programas incluem certificações formais, como a University Teaching Qualification e a Senior Teaching Qualification, que garantem a padronização e o reconhecimento da qualificação docente em nível nacional. O foco holandês reside em práticas de feedback qualitativo, entrevistas anuais e revisões por pares, enquanto no Brasil a devolutiva aos docentes é mais restrita. A existência de programas de treinamento formalizados e integrados às diretrizes institucionais parece ser um diferencial determinante para a qualidade da pesquisa e para a sustentabilidade das carreiras científicas (McIntosh; Antes, 2025).

A gestão de grupos de pesquisa é uma tarefa multifacetada que exige liderança clara e organização estratégica. O líder deve assumir a responsabilidade pela agenda de pesquisa, orçamento e código de conduta, promovendo uma cultura de confiança e integridade (Condon; et al., 2024). A definição de uma agenda estruturada e a diversificação de fontes de financiamento são fundamentais para a sustentabilidade do grupo. A equipe precisa ser formada de maneira estratégica, combinando diferentes perfis e sendo apoiada por treinamento e mentoria (Maaike Verbree; et al., 2011). A complexidade dessa gestão envolve equilibrar a autonomia de pesquisadores experientes com a orientação estruturada aos iniciantes, processo fortemente influenciado pelo contexto institucional.

Nas universidades brasileiras, prevalecem modelos participativos de liderança e uma forte integração entre ensino, pesquisa e extensão, mas há uma dependência acentuada de recursos públicos e desafios relacionados à burocracia administrativa e ao envelhecimento do corpo docente. Já as instituições holandesas valorizam a governança consultiva, a ciência aberta e o financiamento diversificado com forte apoio internacional. O recrutamento na Holanda é estruturado por políticas nacionais de reconhecimento e supervisão múltipla, priorizando a segurança social e a integridade científica. Essas diferenças refletem como a forma de organização dos grupos de pesquisa espelha o tipo de estrutura e governança das próprias universidades.

A função do líder de pesquisa apresenta elevada complexidade, exigindo habilidades que extrapolam a formação acadêmica tradicional. Na Holanda, essa lacuna é parcialmente suprida por programas contínuos de treinamento e certificações nacionais. No Brasil, tais mecanismos de apoio são mais escassos, e muitos pesquisadores aprendem a gestão por tentativa e erro. A literatura indica que a mentoria eficaz vai além da orientação técnica, impactando a criatividade, a autonomia e a carreira científica (Van Der Weijden; et al., 2016). O fortalecimento das habilidades de gestão e mentoria deve ser, portanto, uma prioridade nas políticas acadêmicas brasileiras para reduzir taxas de evasão e aumentar a satisfação e produtividade dos pesquisadores (McManus; et al., 2023).

A mentoria eficaz é reconhecida internacionalmente como um elemento que favorece a autonomia e o avanço de carreira, exigindo competências que vão além do suporte técnico (Lee, 2018). O modelo holandês institucionaliza programas de capacitação e adota protocolos avaliativos que incluem viabilidade e gestão de talentos, alinhando-se às melhores práticas globais. Investir em formação estruturada de mentores e líderes acadêmicos é uma estratégia baseada em evidências para garantir a excelência. A supervisão como mentoria envolve o manejo de poder e a construção de fronteiras colaborativas que são essenciais para o desenvolvimento de novos pesquisadores (Manathunga, 2007).

Embora as correlações encontradas sejam estatisticamente significativas, é necessário cautela na generalização dos resultados, uma vez que fatores externos como financiamento governamental e políticas nacionais também influenciam o desempenho acadêmico. A dependência de documentos institucionais públicos pode não captar a totalidade das práticas cotidianas nos laboratórios e grupos de pesquisa. No entanto, os dados sugerem fortemente que a criação de programas nacionais de certificação docente no Brasil, semelhantes aos modelos europeus, poderia contribuir para padronizar e elevar a qualidade da formação científica, ampliando as competências de supervisão e liderança.

A gestão em grupos de pesquisa no Brasil mostra-se fragilizada em comparação ao contexto holandês, especialmente no que se refere ao suporte institucional para o desenvolvimento de competências não técnicas. A adoção de estratégias mais sistemáticas para o desenvolvimento de habilidades de gestão e mentoria poderia fortalecer a posição das universidades brasileiras no cenário internacional. O alinhamento das práticas de avaliação à promoção de ambientes de pesquisa mais colaborativos, inclusivos e sustentáveis é um passo necessário para a modernização do sistema de pós-graduação nacional.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que o estudo identificou diferenças significativas entre os modelos de formação científica do Brasil e dos Países Baixos, validando a hipótese de que habilidades de gestão e mentoria estão positivamente correlacionadas com a qualidade da pesquisa. As universidades brasileiras, embora apresentem forte engajamento social e modelos participativos, carecem de programas estruturados e certificados de capacitação docente que contemplem competências socioemocionais. O modelo holandês, com suas certificações nacionais e foco em feedback qualitativo, oferece um referencial importante para o fortalecimento da pós-graduação brasileira. A integração sistemática de soft skills na formação de pesquisadores é essencial para garantir a sustentabilidade das carreiras científicas, a integridade da pesquisa e a projeção internacional das instituições de ensino superior.

Referências Bibliográficas:

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BERCHT, Anna Lena; KAMM, Ruth. How mentoring and a shift in mindset and practices can help navigate fast-paced science. ICES Journal of Marine Science, v. 82, n. 6, p. fsae121, 3 jun. 2025.

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KHALID, Aiman; AKHTAR, Samina; SULTAN, Ayesha. Academic Success Beyond Knowledge: The Role of Soft Skills in Students’ Academic Performance at Universities. Review of Applied Management and Social Sciences, v. 7, n. 4, p. 1157–1167, 31 dez. 2024.

LEE, Anne. How can we develop supervisors for the modern doctorate? Studies in Higher Education, v. 43, n. 5, p. 878–890, 4 maio 2018.

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MCINTOSH, Tristan; ANTES, Alison L. Evaluating and supporting leadership, management, and mentoring: a framework for catalyzing responsible research and healthy research environments. Frontiers in Research Metrics and Analytics, v. 10, p. 1569524, 1 jul. 2025.

MCMANUS, Concepta et al. Considerations for continued expansion of the Brazilian post-graduate system. Frontiers in Education, v. 8, p. 987200, 15 mar. 2023.

TREVISOL, Joviles Vitório; BRASIL, André. Evaluation policies for research and graduate education in the Netherlands: lessons on self-evaluation and institutional autonomy. Revista Brasileira de Educação, v. 28, p. e280107, 2023.

VAN DER WEIJDEN, Inge et al. Career satisfaction of postdoctoral researchers in relation to their expectations for the future. Higher Education, v. 72, n. 1, p. 25–40, jul. 2016.

XIA, Xinyan; QIU, Xiaodong. The Impact of the Quality of Higher Education on the Development of Regional Economy—Empirical Analysis Based on Provincial Panel Data: In: 7TH INTERNATIONAL CONFERENCE ON SOCIAL SCIENCE AND HIGHER EDUCATION (ICSSHE 2021). Anais… Xiamen, China: 2021. Disponível em: <https://www.atlantis-press.com/article/125964114>. Acesso em: 19 set. 2025

YU, Lulu; LIU, Yang. Education levels and high-quality economic development. Finance Research Letters, v. 80, p. 107228, jun. 2025.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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