Resumo Executivo

21 de maio de 2026

Flexibilidade no trabalho: retenção de talentos e qualidade de vida

Marília Isabele Ferreira; Lidiane Mendes Barbosa

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A pandemia de COVID-19 revolucionou a forma de trabalhar no Brasil, estabelecendo uma necessidade urgente de distanciamento social que impulsionou uma transição massiva para o trabalho remoto. Essa mudança transformou radicalmente a dinâmica do mercado de trabalho, forçando a busca por soluções que mantivessem a produtividade sem colocar em risco a saúde dos colaboradores. Enquanto diversas organizações enfrentavam desafios como a redução da demanda e a incerteza econômica, o trabalho remoto surgiu como uma alternativa para garantir a continuidade das atividades e proteger o capital humano. A flexibilidade oferecida por essa modalidade rapidamente se mostrou vantajosa tanto para empregadores quanto para empregados, impulsionando um crescimento exponencial do modelo conhecido como home-office em diversos setores da economia (Santos et al, 2023). Com o fim do período crítico da pandemia, a transição de retorno ao trabalho presencial trouxe questionamentos profundos sobre aspectos antes considerados corriqueiros, como o tempo destinado aos deslocamentos e os custos de vida elevados nos grandes centros urbanos. O contraste entre a flexibilidade experimentada durante o isolamento e a rigidez das antigas rotinas profissionais intensificou a necessidade de reequilibrar a vida pessoal e profissional.

Essa nova perspectiva evidenciou a relevância de fatores como tempo, espaço e recursos financeiros na qualidade de vida, impulsionando a busca por modelos de trabalho mais personalizados. A possibilidade de conciliar a vida privada com as exigências laborais de forma equilibrada, eliminando o desgaste do trajeto diário, permitiu que os teletrabalhadores dedicassem mais tempo à família e a atividades de bem-estar. Essa maior flexibilidade contribuiu para uma melhor organização da rotina, aumentando a sensação de controle sobre o próprio tempo e impulsionando a automotivação (Ferreira Jr., 2000). A partir dessas experiências, a realização de atividades laborais fora do espaço físico da empresa tornou-se um fator determinante de atratividade e retenção de talentos, integrando o rol de exigências dos profissionais qualificados. Tal realidade permite que as organizações diversifiquem suas áreas geográficas de recrutamento, ampliando o banco de talentos disponível e gerando vantagens competitivas (Gonçalves, 2024). O conceito de flexibilidade laboral expandiu-se para além do teletrabalho, abrangendo a escolha de dias da semana para atuação presencial, aumento de períodos de ausência programada, flexibilização de horários de início e término da jornada, e até mesmo a adequação do código de vestimenta (Pendell, 2023).

As políticas de trabalho flexível demonstram ser um investimento estratégico, pois a adoção dessas práticas otimiza a gestão de talentos, impulsiona a motivação e reduz a taxa de turnover. Organizações que implementam tais modelos tendem a apresentar maior produtividade e uma posição competitiva fortalecida (Hollinrake, 2023). No entanto, a partir de maio de 2023, observou-se um movimento de retorno forçado ao trabalho presencial em grandes companhias globais. Medidas de retorno físico nem sempre foram bem aceitas pelos trabalhadores, que passaram a ver o trabalho remoto como uma ferramenta essencial de qualidade de vida, percebendo o retorno obrigatório muitas vezes como uma necessidade de reafirmação de controle por parte da gestão (Ding e Ma, 2024). O interesse demonstrado por modelos flexíveis impulsiona a necessidade de compreender como essas formas de organização são percebidas, sendo fundamental para que as empresas entendam o impacto da flexibilização na satisfação e na retenção de talentos em um mercado cada vez mais concorrido.

Para investigar essa dinâmica, utilizou-se uma metodologia de natureza quantitativa, focada no levantamento de dados e medições que permitissem compreender as perspectivas dos profissionais sobre a relação entre flexibilidade e satisfação. O levantamento de dados foi estruturado por meio de um questionário online e anônimo, desenvolvido na plataforma Google Forms e distribuído para uma amostra de profissionais com formação em ensino superior. A escolha desse perfil justifica-se pelo fato de representarem o capital intelectual das organizações, detendo conhecimentos e habilidades que agregam valor e vantagem competitiva (Stewart, 1998). Esses profissionais geralmente possuem maior poder de escolha no mercado e são mais propensos a tomar decisões de troca de emprego baseadas em benefícios não monetários. A pesquisa concentrou-se em colaboradores de áreas administrativas, considerando que funções operacionais de produção possuem limitações intrínsecas para a utilização de ferramentas de flexibilidade devido à natureza das atividades.

O instrumento de coleta contou com 21 questões abrangendo aspectos demográficos, impactos financeiros do trabalho presencial comparado ao remoto e a percepção subjetiva sobre a flexibilidade. A estrutura fundamentou-se na Teoria da Expectativa, que sugere que os colaboradores são motivados quando percebem que seus esforços resultam em recompensas desejadas (Vroom, 1964). Complementarmente, utilizou-se a Teoria da Equidade para analisar a percepção de justiça na distribuição da flexibilidade e nos custos dos diferentes modelos de trabalho, avaliando como desigualdades influenciam o engajamento (Adams, 1963). A ausência de flexibilidade pode gerar uma percepção de injustiça organizacional, tornando essencial o desenvolvimento de estratégias que mitiguem disparidades. O questionário foi divulgado via mensagens instantâneas para grupos de estudantes de pós-graduação e redes de contatos profissionais entre os dias 04 de janeiro de 2025 e 29 de março de 2025. Os dados coletados foram processados e analisados através da plataforma Power BI, permitindo a identificação de tendências, correlações significativas e padrões de percepção.

A análise detalhada dos 157 respondentes revelou um perfil de alta qualificação, com 61,78% da amostra possuindo pós-graduação. Esse dado é crítico, pois indica que os resultados refletem a visão de indivíduos com alto nível de conhecimento e valor de mercado. Quanto ao gênero, 61,78% identificaram-se como mulheres e 36,31% como homens. A faixa etária predominante situou-se entre 25 e 35 anos, representando 47,13% do total, seguida por 27,39% entre 35 e 45 anos. Tais números sugerem uma amostra composta por profissionais estabelecidos em suas carreiras e que permanecerão ativos por um longo período. As áreas de atuação foram diversificadas, com concentrações em departamentos Financeiro (16,56%), Recursos Humanos (15,92%) e Tecnologia da Informação (14,01%), setores cujas funções são majoritariamente realizadas em ambientes de escritório, facilitando a adoção de modelos híbridos ou remotos.

Ao analisar a relação entre o local de trabalho e o interesse por modelos flexíveis, observou-se que a preferência pelo trabalho remoto está fortemente ligada a funções que permitem a execução integral das tarefas a distância. Entre os profissionais que atuam em escritórios, 64,74% demonstraram interesse pelo home-office. Em contrapartida, profissionais de áreas que exigem presença física, como operações, demonstraram maior interesse por flexibilidade de horários e uso de banco de horas em vez do trabalho remoto integral. Isso indica que o profissional possui um entendimento claro de suas atividades e alinha seus interesses às possibilidades reais de sua função. No que tange aos custos, 89,17% dos participantes consideram que o modelo presencial gera mais gastos do que o remoto. Os principais desembolsos identificados no modelo presencial foram combustível (77,7%) e manutenção de veículo (64,3%), enquanto no modelo remoto os gastos concentram-se em internet (58,6%) e energia elétrica (57,3%).

A análise financeira revelou que o gasto médio mensal para a manutenção do trabalho presencial é de R$ 471,78, o que representa aproximadamente 5,67% do salário médio da amostra, calculado em R$ 8.320,00. Para profissionais com salários menores, esse percentual de comprometimento da renda é significativamente superior, o que reforça a percepção de que o trabalho remoto atua como um benefício financeiro indireto. A implementação de políticas de trabalho a distância pode, portanto, reduzir custos pessoais e aumentar a satisfação líquida do colaborador sem necessariamente elevar a folha de pagamento nominal da empresa. No âmbito da qualidade de vida, tanto profissionais com filhos (35% da amostra) quanto sem filhos (65%) atribuíram nota máxima à importância da flexibilidade. Curiosamente, 56% dos respondentes sem filhos deram a nota máxima de importância, superando os 25,4% dos que possuem filhos, o que sugere que a busca por flexibilidade transcende as responsabilidades parentais, focando em saúde mental, bem-estar e otimização do tempo pessoal.

A preferência pelo modelo home-office foi manifestada por 80,2% dos participantes, que o classificaram como de extrema importância para a qualidade de vida. O banco de horas, por outro lado, foi o modelo com menor preferência, sugerindo que oferecer apenas essa modalidade pode não ser suficiente para garantir a satisfação da equipe. Um dado revelador foi a disposição para trocas: 66,24% dos respondentes afirmaram que estariam dispostos a abrir mão de algum benefício corporativo atual em troca de maior flexibilidade. Entre os benefícios mais citados para troca figuram o auxílio academia (19,82%), vale transporte (18,92%) e vale alimentação ou refeição (16,22%). Cerca de 6,31% dos profissionais indicaram inclusive a disposição de aceitar uma redução salarial em troca de flexibilidade, evidenciando que o valor percebido da autonomia sobre o tempo e o espaço de trabalho pode superar o valor monetário direto.

Essa tendência aponta para a viabilidade de pacotes de benefícios flexíveis, onde o colaborador pode montar seu próprio conjunto de vantagens de acordo com suas necessidades individuais (Silva et al, 2024). Diferente do formato tradicional, a personalização permite que a empresa não conceda todos os itens a todos os funcionários, mas estabeleça um sistema de pontos ou pesos para cada benefício (Kerber e Schneider, 2012). Antes da implementação, as organizações devem realizar estudos de viabilidade jurídica e financeira, negociando com sindicatos e estabelecendo termos de consentimento claros. A flexibilidade pode ser integrada a esses pacotes como um item de alto valor percebido, permitindo que aqueles que não podem atuar remotamente acessem outros benefícios compensatórios, mantendo o equilíbrio e a equidade organizacional.

A adaptação ao trabalho remoto exigiu a criação de normas e regulamentações específicas para garantir a segurança jurídica e operacional. Ferramentas de controle de jornada por meio de tecnologias, medidas de proteção de dados confidenciais, uso de VPNs e firewalls tornaram-se essenciais para o bom funcionamento desse modelo (Castro, 2024). Além dos aspectos técnicos, o desenvolvimento de pessoas nesse contexto requer ajustes na cultura organizacional, com foco em comunicação clara, feedbacks constantes e, sobretudo, na construção de uma relação de confiança baseada em resultados e não apenas na presença física (Nogueira e Patini, 2012). O movimento de retorno forçado ao presencial deve ser repensado pelas lideranças, uma vez que a imposição de modelos rígidos pode elevar as taxas de turnover e prejudicar a atratividade da marca empregadora frente a concorrentes que oferecem maior liberdade.

A discussão dos dados reforça que a flexibilidade não é apenas uma preferência passageira, mas uma mudança estrutural nas expectativas do capital intelectual. A percepção de que a produtividade pode ser mantida ou até aumentada no modelo remoto, aliada à redução de custos de deslocamento e à melhoria na qualidade de vida, consolida a flexibilidade como uma ferramenta estratégica de gestão de pessoas. Empresas que ignoram essa realidade correm o risco de perder seus melhores talentos para organizações que adotam uma postura mais adaptável e centrada no colaborador. A possibilidade de utilizar a flexibilidade como um benefício passível de troca oferece uma oportunidade para as empresas otimizarem seus investimentos em benefícios, garantindo que os recursos sejam destinados ao que realmente gera valor para o funcionário.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise demonstrou que a flexibilidade no trabalho é percebida pelos profissionais como um fator essencial para a qualidade de vida e um critério decisivo na escolha de novas oportunidades profissionais. Os dados evidenciaram que a maioria dos colaboradores, especialmente os de alta qualificação, valoriza o modelo home-office acima de benefícios tradicionais e está disposta a realizar trocas estratégicas para manter essa autonomia. A implementação de modelos flexíveis e pacotes de benefícios customizáveis apresenta-se como uma solução eficaz para aumentar a satisfação, reduzir custos operacionais e fortalecer a retenção de talentos, tornando as organizações mais competitivas e atraentes em um mercado de trabalho dinâmico e focado no bem-estar humano.

Referências Bibliográficas:

Adams, J.S. 1963. Toward an understanding of inequity. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 67(5), 422–436. Disponível em: <https://doi.org/10.1037/h0040968>. Acesso em 03 nov. 2024.

Castro, J.G.S. 2024. Regulamentação do teletrabalho no Brasil: direitos e deveres do empregador e do empregado em um ambiente remoto. Disponível em: <https://repositorio.pucgoias.edu.br/jspui/handle/123456789/7510>. Acesso em 17 set. 2025.

Ding, Y.; Ma M. 2024. Return to office mandates. Disponível em: <https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=4675401>. Acesso em 11 jan. 2025

Ferreira Jr., J. 2000. Telecommuting: o paradigma de um novo estilo de trabalho. Revista de Administração de Empresas 7 (3): 8-17. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0034-75902000000300012>. Acesso em 05 out. 2024.

Gonçalves, S.P.; Nogueira, F.; Marques, I.C.P.; Jacinto, J.L.; Pascua, N.O.; Rocha, R.G.; Ramos, R. 2024. O teletrabalho no contexto da transformação digital. Uma perspectiva integradora do passado, presente, futuro e stakeholders. Disponível em: <https://capp.iscsp.ulisboa.pt/index.php/pt/comunicacao/noticias/item/2968-ja-esta-disponivel-o-e-book-do-projeto-o-teletrabalho-no-contexto-de-transformacao-digital-uma-perspetiva-integradora-do-passado-presente-futuro-e-stakeholders>. Acesso em 12 out. 2024.

Hollinrake, K. 2023. Millions to benefit from new flexible working measures. Disponível em: <https://www.gov.uk/government/news/millions-to-benefit-from-new-flexible-working-measures>. Acesso em 11 out. 2024.

Kerber, S.; Schneider, A.M. 2012. Benefícios flexíveis. Disponível em: <https://www.univates.br/revistas/index.php/destaques/article/view/134/132>. Acesso em 13 jan. 2025.

Nogueira, A.M.; Patini, A.C. 2012. Trabalho remoto e desafios dos gestores. Revista de Administração e Inovação 9 (4): 121-152 Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/rai/article/view/79292>. Acesso em 11 jan. 2025.

Pendell, R. 2023. Frontline workers want flexibility too. Disponível em: <https://www.gallup.com/workplace/544775/front-line-workers-flexibility.aspx>. Acesso em 11 out. 2024.

Santos, M.N; Meira, C.A.R; Conde, W.L; Rinaldi, A.E.M. 2023. Duração do trabalho remoto e diagnóstico positivo de COVID-19: análises dos dados da PNAD COVID19. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/1413-81232023289.15162022>. Acesso em 29 set. 2024.

Silva, G.L; Silva, G.N; Vieira, G.V; Lima, J.N; Feitosa, J.A. 2024. A influência dos benefícios flexíveis para atração e retenção de talentos. Disponível em: <https://ric.cps.sp.gov.br/handle/123456789/29735>. Acesso em 14 set. 2025.

Stewart, T.A. 2007. Capital intelectual: a nova vantagem competitiva das empresas. 2.ed. Rio de Janeiro: Campus, 1998. Perspectivas em Ciência da Informação, 4(1). Disponível em: <https://periodicos.ufmg.br/index.php/pci/article/view/23269>. Acesso em 02 jan.2025.

Vroom, V.H. 1964. Work and Motivation. 1. John Wiley & Sons, INC. New York, NY, EUA. Disponível em: < https://pt.scribd.com/document/408299722/WORK-AND-MOTIVATION-Victor-Vroom-pdf >. Acesso em 14 out.2024.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

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