Imagem Modelagem espacial e econométrica das queimadas no Mato Grosso

23 de fevereiro de 2026

Modelagem espacial e econométrica das queimadas no Mato Grosso

Luana Stoppa Ferreira de Souza; Anna Carolina Martins

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este trabalho desenvolveu um modelo estatístico para compreender os fatores que impactam as queimadas no estado do Mato Grosso, utilizando modelagem espacial e análise estatística com base em dados geoespaciais, climáticos, de vegetação e antrópicos. A investigação buscou identificar as principais variáveis impulsionadoras e mitigadoras da ocorrência de focos de calor, a fim de subsidiar políticas públicas para o manejo do uso do solo e a prevenção de incêndios. A análise abrangeu o período de 2011 a 2024, permitindo a captura de tendências temporais e padrões espaciais da dinâmica do fogo no estado.

O aumento global na incidência de queimadas gera preocupações sobre seus impactos ambientais, hídricos e climáticos (Rodrigues et al., 2018). A intensidade e frequência desses eventos são exacerbadas por mudanças climáticas e atividades antropogênicas, ameaçando a estabilidade ecológica e o bem-estar humano (Prior & Eriksen, 2013; Bokhwa & Sarkar, 2017). No Brasil, ecossistemas como os de Mato Grosso são vulneráveis. Pesquisas documentam impactos na disponibilidade hídrica, com reduções nos níveis de aquíferos agravadas por incêndios (Celis et al., 2023). No curto prazo, a destruição da cobertura vegetal reduz a infiltração do solo e intensifica o escoamento superficial, elevando a carga de sedimentos e nutrientes nos corpos d’água (Carvalho-Santos et al., 2019; Pimentel-Rodrigues et al., 2021).

Mato Grosso é uma área de estudo estratégica por concentrar três biomas (Amazônia, Cerrado e Pantanal), apresentar intensa expansão da fronteira agrícola e registrar um histórico de incêndios severos (Berlinck et al., 2022). Estudos recentes indicam aumentos expressivos na ocorrência de queimadas, especialmente no Pantanal e na porção amazônica do estado entre 2016 e 2021 (Alvim et al., 2024; Alvim et al., 2025). A principal motivação é o uso do fogo para conversão e manejo de áreas agrícolas. A emissão de poluentes como monóxido de carbono (CO) e carbono negro (BC) em Mato Grosso foi utilizada como indicador de queima de vegetação em regiões com baixa atividade industrial, reforçando a predominância da fonte agrícola (Alvim et al., 2024).

Estudos em Mato Grosso já empregaram sensoriamento remoto para analisar as queimadas. Lotufo et al. (2020) investigaram a relação entre índices espectrais e a temperatura da superfície, demonstrando alterações no ambiente pós-queimada. Fagundes et al. (2021) e Teixeira et al. (2021) analisaram a distribuição espaço-temporal de focos de calor, correlacionando-os com classes de vegetação, dados pluviométricos e proximidade com vias. Esses trabalhos evidenciam a influência antrópica e climática na dinâmica do fogo. A relevância de tais estudos é reconhecida internacionalmente, com pesquisas similares em outras regiões vulneráveis, como no México (Hernandez-Santiago et al., 2022; Gutiérrez et al., 2023), demonstrando o interesse global no tema. Este trabalho avança na compreensão das interações entre fatores humanos e ambientais que determinam a dinâmica das queimadas em Mato Grosso, por meio de uma abordagem quantitativa que integra múltiplas fontes de dados e técnicas de modelagem econométrica.

A pesquisa adotou uma abordagem quantitativa baseada em análise geoespacial e modelagem estatística. O estudo foi estruturado em quatro etapas: caracterização da área de estudo, coleta e organização dos dados, análise exploratória e modelagem econométrica. O estado de Mato Grosso, terceiro maior do Brasil, abriga os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal, com clima predominantemente tropical (Aw e Am) e economia baseada no agronegócio (IBGE, 2025; Alvares et al., 2013). A sazonalidade climática é marcada, com um período seco entre maio e setembro, que coincide com a maior incidência de queimadas.

Foram coletados dados em painel com observações mensais para 141 municípios de 2011 a 2024, totalizando 23.616 observações. As variáveis geoespaciais foram obtidas via Google Earth Engine (GEE) e incluíram uso e cobertura do solo (MapBiomas), precipitação (CHIRPS), temperatura do ar, umidade do solo e velocidade do vento (ERA5-Land), e focos de queimadas (MODIS/MCD64A1). As variáveis antrópicas, como dados demográficos e agronômicos (área plantada), foram coletadas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2025). Todos os dados espaciais foram agregados ao nível municipal.

Na análise exploratória, foram conduzidas análises descritivas e de tendências. Para mitigar a multicolinearidade entre as variáveis climáticas, aplicou-se a Análise de Componentes Principais (PCA), que gerou componentes ortogonais explicando 95% da variância original. O Fator de Inflação da Variância (VIF) confirmou a ausência de multicolinearidade severa no modelo final (valores < 2). Para a análise de tendências temporais, utilizou-se o teste de Mann-Kendall e o estimador de Theil-Sen para quantificar a magnitude da tendência (slope), seguindo metodologia similar à de Jasechko et al. (2024). A autocorrelação temporal foi verificada com o teste de Durbin-Watson. A associação entre tendências foi avaliada pela correlação de Spearman, e a autocorrelação espacial foi investigada pelo Índice de Moran Global e Local (LISA), utilizando a biblioteca PySAL para identificar clusters geográficos.

A modelagem econométrica dividiu os dados em treino (80%) e teste (20%). A análise partiu de um modelo de Mínimos Quadrados Ordinários (OLS) para um de Efeitos Fixos (FE). A escolha pelo modelo FE foi validada pelo Teste de Hausman (χ² = 59.61; p < 0.001), que indicou a presença de heterogeneidade não observada correlacionada com os regressores, tornando o FE mais consistente que o de Efeitos Aleatórios (RE). Para robustez, foram utilizados erros-padrão clusterizados por município, corrigindo heterocedasticidade e autocorrelação. A qualidade do ajuste foi avaliada pelo R² within e a significância dos coeficientes pelo teste t de Wald. O processamento foi realizado em Python, com as bibliotecas statsmodels, scikit-learn, linearmodels e PySAL.

A análise de tendências temporais (2011-2024) revelou que nenhum município apresentou tendência estatisticamente significativa (p < 0,05) para precipitação e velocidade do vento. A ausência de tendência na precipitação alinha-se com a literatura, que aponta elevada variabilidade interanual no estado (Machado et al., 2014). Para a velocidade do vento, a detecção de tendências requer séries temporais mais longas (Vautard et al., 2010). Em contrapartida, a temperatura média apresentou tendência de aumento em 14 municípios (slope médio de 0,036458). Metade desses municípios também registrou aumento na tendência de queimadas, sugerindo uma relação direta (Moura & Diniz, 2006).

A área plantada exibiu a tendência de crescimento mais acentuada (slope médio de 0,115962), com 121 municípios mostrando aumento significativo, refletindo a expansão da fronteira agrícola. A coincidência dessa tendência com o aumento de queimadas em 34 desses municípios sugere uma forte ligação entre expansão agrícola e uso do fogo (Machado, 2012; Braga et al., 2024). A densidade populacional também mostrou tendência de aumento generalizada. A tendência geral para as queimadas (log) foi negativa (slope médio de -0,0206), influenciada pelo pico extremo de 2020 (Alvim et al., 2024). O método de detecção de pontos de mudança (PELT) confirmou que 2023 marcou um ponto de inflexão, com redução consistente nos focos de calor a partir de 2021.

A análise de autocorrelação espacial (Índice de Moran Global) confirmou agrupamentos geográficos. A temperatura média (I = 0,285) e a área plantada (I = 0,361) apresentaram forte autocorrelação positiva. Para as queimadas, a autocorrelação global foi fraca, mas significativa (I = 0,0808). A análise de Moran Local (LISA) detalhou esses padrões, identificando 15 municípios como Hotspots (Alto-Alto), concentrados na transição entre as mesorregiões Norte e Nordeste, áreas de intensa pressão antrópica. Essas regiões representam os polos de maior risco ambiental.

Foram identificados cinco municípios como Coldspots (Baixo-Baixo), principalmente no Centro-Norte, representando áreas de resiliência. O município de Bom Jesus do Araguaia foi classificado como um outlier espacial (Baixo-Alto), com baixos níveis de queimadas apesar de estar cercado por vizinhos com alta incidência. Este caso sugere a existência de fatores locais de mitigação, como práticas de manejo eficazes ou ações institucionais, que merecem estudos para replicação. A análise espacial mapeou o risco e identificou áreas de resiliência.

A correlação de Spearman revelou associações bivariadas. As variáveis de uso do solo apresentaram as correlações mais fortes, com agropecuária (ρ = 0,942) e floresta (ρ = 0,890) mostrando associação positiva muito forte com as queimadas, confirmando que áreas agrícolas são focos de ignição e florestas são vulneráveis (Santos et al., 2017). A área plantada mostrou correlação positiva moderada (ρ = 0,443). A densidade populacional apresentou correlação negativa fraca (ρ = –0,270), sugerindo que áreas urbanizadas podem atuar como barreiras ao fogo (Lazzarini et al., 2016). As variáveis climáticas mostraram correlações mais fracas: precipitação (ρ = –0,189) e umidade do solo (ρ = –0,139) tiveram correlação negativa, enquanto temperatura (ρ = 0,205) e velocidade do vento (ρ = 0,159) tiveram correlação positiva.

O modelo final de Efeitos Fixos explicou 38,5% da variabilidade das queimadas (R² = 0,3848), com o teste F robusto (F = 68,298; p < 0,001) confirmando a significância conjunta. Os resultados reforçaram a predominância dos fatores antrópicos. A área plantada (β = 0,0896; p < 0,001) e a classe de uso do solo de agropecuária (β = 0,0067; p < 0,001) foram os principais impulsionadores das queimadas. A cada aumento de 1% na área plantada, o número de queimadas tende a aumentar em 0,09%. A densidade populacional exibiu um forte efeito protetivo (β = –1,6144; p < 0,001). A vegetação herbácea e arbustiva também se mostrou positivamente associada às queimadas (β = 0,0007; p = 0,013).

As variáveis climáticas, sintetizadas pela PCA, também foram relevantes. O primeiro componente principal (PC1), um índice de umidade-atmosfera, apresentou um coeficiente negativo e significativo (β = –0,3412; p < 0,001), indicando que condições mais úmidas reduzem a probabilidade de queimadas (Lotufo et al., 2020). O segundo componente (PC2), dominado pela temperatura, também apresentou um coeficiente negativo e significativo (β = –0,2952; p < 0,001). Essa relação inversa sugere que variações térmicas isoladas podem não ser suficientes para aumentar o risco de fogo, possivelmente devido a ações preventivas. O quarto componente (PC4) também foi significativo.

Este estudo analisou os fatores associados à ocorrência de queimadas em Mato Grosso. A análise espacial revelou clusters de alto risco (Hotspots) em áreas de expansão da fronteira agrícola no norte e nordeste, e áreas de resiliência (Coldspots) no centro-norte. O modelo de efeitos fixos confirmou o papel central dos fatores antrópicos, destacando a expansão da área plantada e da agropecuária como principais impulsionadores, enquanto a densidade populacional e condições climáticas úmidas apresentaram efeito protetivo. Os achados reforçam que a dinâmica do fogo resulta da interação entre uso do solo, ação humana e variações climáticas. Os resultados sugerem a necessidade de estratégias territorialmente direcionadas, intensificando a fiscalização nos polos de risco e usando as áreas de resiliência como modelo de governança. A integração de dados socioeconômicos e climáticos em sistemas de alerta e a promoção de práticas agrícolas sustentáveis são essenciais para mitigar a vulnerabilidade da região. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a expansão agrícola e o uso intensivo do solo são os principais impulsionadores das queimadas em Mato Grosso, enquanto condições climáticas mais úmidas e maior densidade populacional atuam como fatores mitigadores.

Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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