
14 de janeiro de 2026
Impactos da gestão democrática no engajamento docente em escolas rurais
Autor(a): Ana Lara De Jesus Pereira Barbosa — Orientador(a): Aparecida Leonir Da Silva
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisa os impactos positivos da gestão democrática no trabalho docente, a partir de um relato de experiência em uma escola pública rural de Petrolina, Pernambuco. A pesquisa investiga como a gestão participativa, ao priorizar o trabalho em equipe e a valorização profissional, favorece o engajamento docente e o desenvolvimento de práticas pedagógicas contextualizadas. A análise foca nas dinâmicas de colaboração, tomada de decisão e sentimento de pertencimento entre os educadores, articulando a prática com os fundamentos teóricos da gestão democrática no Brasil.
A gestão democrática foi formalizada na Constituição Federal de 1988 e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996. Este princípio emergiu de movimentos sociais pela redemocratização da sociedade após a ditadura militar, posicionando a participação como elemento central para a construção de uma escola pública de qualidade (Militão, 2019). A essência da gestão democrática é a participação ativa da comunidade escolar — estudantes, pais, professores, funcionários e gestores — nos processos decisórios. Este modelo busca superar a tradicional estrutura hierárquica e centralizadora que caracterizou a administração escolar no país.
A concepção democrático-participativa entende a escola não como uma entidade neutra ou técnica, mas como uma construção social complexa, influenciada por interações humanas e experiências subjetivas (Militão, 2019). Sob essa ótica, a gestão escolar transcende a administração de recursos para ser compreendida como um processo político e pedagógico. O objetivo é a descentralização do poder, promovendo uma divisão equitativa de funções e responsabilidades. Com isso, busca-se ampliar o envolvimento da comunidade nos desafios e projetos da escola, cultivando um ambiente colaborativo, transparente e mais eficiente para o cumprimento de sua função social e educativa.
Apesar do amparo legal, a efetivação da gestão democrática nas escolas brasileiras enfrenta desafios. Gadotti (2014) aponta o risco de mecanismos de participação, como conselhos escolares, serem percebidos pelos educadores mais como uma obrigação burocrática do que como uma oportunidade de transformação. Isso ocorre, em grande parte, pela ausência de condições objetivas para uma participação efetiva, como tempo para reuniões, dedicação para estudo de pautas e formação para a deliberação coletiva. Sem esses pilares, os espaços deliberativos correm o risco de se tornarem rituais formais, com consultas sem impacto real nas decisões que governam a vida escolar.
Na mesma linha, Paro (1997) argumenta que a gestão democrática é uma utopia a ser perseguida dentro de uma sociedade marcada por contradições e desigualdades. Para o autor, a luta por uma escola democrática é inseparável da luta por uma sociedade mais justa. Essa visão não implica imobilismo, mas posiciona a gestão democrática como um horizonte de luta permanente e um ideal que orienta a prática contra lógicas autoritárias. Transformar a autoridade escolar em um processo participativo é, portanto, um desafio contínuo, permeado por tensões, mas fundamental para abrir caminhos a práticas pedagógicas mais coletivas, críticas e emancipatórias. É partindo dessa compreensão que este estudo analisa como, na prática, os princípios democráticos podem ser implementados para fortalecer o trabalho docente.
A metodologia adotada é qualitativa, fundamentada em um relato de experiência. Este método justifica-se por buscar compreender fenômenos complexos e subjetivos, como as interações sociais e os significados atribuídos pelos sujeitos no ambiente escolar (Lüdke & André, 1986). O relato de experiência permitiu um acesso aprofundado às percepções e aos impactos da gestão democrática na prática docente, possibilitando uma análise detalhada das dinâmicas de colaboração, dos desafios e das estratégias desenvolvidas para promover o engajamento coletivo. A pesquisa foi desenvolvida a partir da vivência da autora como professora da rede municipal de Petrolina-PE, em uma escola na comunidade rural de Nova Descoberta.
A perspectiva da pesquisadora é informada por uma trajetória profissional diversificada. Com formação em Letras pela Universidade de São Paulo e seis anos de experiência docente, a autora atuou previamente na área da cultura, onde desenvolveu um olhar crítico sobre a prestação de serviços públicos e competências educacionais em bibliotecas. Sua atuação posterior nos anos iniciais do Ensino Fundamental proporcionou uma compreensão do processo de alfabetização, conhecimento crucial no contexto pós-pandêmico, no qual estudantes dos anos finais apresentavam lacunas em sua formação básica. Essa bagagem conferiu à pesquisadora uma sensibilidade para analisar as nuances do cotidiano escolar.
O campo de estudo foi a experiência da autora no ano letivo de 2023, quando lecionou Língua Portuguesa para turmas de 6º e 8º anos do Ensino Fundamental e para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). A convivência com uma equipe gestora que adotava práticas alinhadas aos princípios da gestão democrática permitiu a observação direta de como o diálogo, a escuta ativa e a colaboração podem impactar o trabalho docente. A análise dos dados ocorreu em duas etapas: uma revisão de literatura para embasar os conceitos de gestão democrática e engajamento docente, e uma análise reflexiva dos relatos da pesquisadora sobre sua prática pedagógica e as repercussões das ações da gestão.
A abordagem qualitativa, portanto, não se limitou a registrar eventos, mas buscou interpretar as experiências vivenciadas para uma compreensão aprofundada da complexidade do cotidiano escolar. Ao valorizar o contexto, as experiências individuais e coletivas e as dinâmicas internas, a pesquisa revelou processos e práticas frequentemente invisibilizados por análises quantitativas. A articulação entre a vivência prática e o referencial teórico permitiu construir uma análise robusta sobre os efeitos concretos das práticas participativas na construção de uma gestão escolar efetivamente democrática, destacando suas potencialidades e desafios.
A análise dos resultados, baseada na experiência da pesquisadora, identificou um conjunto de práticas da equipe gestora alinhadas aos princípios da gestão democrática (Brasil, 1988; Brasil, 1996). Para contextualizar os achados, a escola, situada na zona rural de Petrolina, atendia estudantes que frequentemente conciliavam os estudos com o trabalho no campo. O acesso a recursos pedagógicos era limitado, com poucos projetores, materiais didáticos insuficientes e internet precária, o que impunha desafios adicionais ao ensino e exigia elevada capacidade de organização e criatividade da equipe.
As práticas democráticas da gestão manifestavam-se de forma proeminente nos encontros de planejamento pedagógico coletivo. Esses momentos eram organizados para transcender a mera transmissão de informações, configurando-se como espaços de escuta, diálogo e construção conjunta de decisões. Essa abordagem ressoa com a perspectiva de Veiga (1998), que define o planejamento como um ato político e pedagógico, e não apenas técnico. Para a autora, o planejamento deve refletir os compromissos do Projeto Político-Pedagógico (PPP) e estar conectado às necessidades da comunidade escolar. A gestão, ao envolver os docentes nesse processo, promovia o compartilhamento de responsabilidades e fortalecia o trabalho coletivo.
Uma prática distintiva observada foi a forma como os encontros de planejamento eram iniciados, com uma integração que envolvia todos os profissionais da escola: equipe de limpeza, cozinha, secretaria, professores, coordenadores e direção. Esses momentos iniciais, com dinâmicas de grupo e reflexões coletivas, fortaleciam os vínculos e cultivavam um sentimento de pertencimento. Essa valorização de todos os trabalhadores da educação reforça a ideia de que a organização escolar é, em si, uma prática educativa, como defende Libâneo (2014). O modo como a instituição funciona, as relações estabelecidas e o acolhimento produzem aprendizagens e moldam uma cultura participativa, demonstrando que a gestão não apenas organiza, mas também educa.
Essa postura participativa se estendia às discussões pedagógicas, que se tornavam oportunidades para ampliar o envolvimento docente nas decisões administrativas. A gestão compartilhava informações institucionais com transparência, convidando os professores a opinar e deliberar sobre o calendário e a organização de eventos, como a Feira de Ciências. Este projeto anual exemplifica a materialização da gestão democrática. A partir de sugestões da gestão, os professores, em grupos, desenvolveram propostas autônomas e interdisciplinares. A dinâmica alinha-se à visão de Paro (1997), para quem a função da gestão é criar condições para que o trabalho docente se desenvolva com autonomia e compromisso social, transformando o planejamento em um espaço formativo.
A Feira de Ciências de 2023 foi um resultado concreto desse processo colaborativo. Os professores tiveram autonomia para decidir sobre a alocação de verbas e planejar suas salas temáticas. Surgiram projetos como uma sala imersiva sobre gêneros textuais, uma exposição de jogos matemáticos, e espaços interdisciplinares como “África” e “Espaço”, construídos em parceria com os estudantes ao longo do ano. A gestão, por meio da coordenação pedagógica, atuou como facilitadora, oferecendo suporte e recursos. Essa dinâmica evidencia como a escuta ativa e a valorização do saber docente fortalecem os vínculos profissionais e potencializam o engajamento dos estudantes e a qualidade do ensino.
A mesma lógica de planejamento coletivo permeava o cotidiano, especialmente nas ações para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Os professores se reuniam semanalmente para planejar atividades interdisciplinares e dias temáticos, buscando tornar a aprendizagem mais significativa para os estudantes, muitos deles trabalhadores rurais, e assim combater a evasão. Além disso, a gestão se destacava pela presença constante no dia a dia, acompanhando as aulas e promovendo um diálogo contínuo com os docentes. Essa proximidade estabelecia uma relação horizontal, baseada no respeito e na confiança, consolidando um ambiente colaborativo.
A diversidade da equipe, composta por profissionais locais e de outras regiões, era vista como uma riqueza. Essa pluralidade de saberes, valorizada pela gestão, permitia a construção de práticas pedagógicas que dialogavam com a realidade dos estudantes, em consonância com os princípios de Paulo Freire (1970), para quem a educação deve partir da realidade concreta dos educandos. Para sistematizar a análise, foi utilizada a matriz SWOT, ferramenta que identifica forças, fraquezas, oportunidades e ameaças (Ferreira et al., 2024). As forças identificadas foram o planejamento coletivo, a valorização da equipe e os projetos interdisciplinares. As fraquezas incluíam a limitação de recursos e a infraestrutura precária.
As oportunidades residiam na possibilidade de parcerias com a comunidade e no acesso a programas de formação, enquanto as ameaças se concentravam no contexto socioeconômico desfavorável dos estudantes e na evasão escolar. A análise SWOT demonstrou que, apesar dos desafios externos, as práticas de gestão democrática criaram uma base sólida para uma cultura escolar colaborativa e resiliente. A matriz serviu não apenas como diagnóstico, mas como ferramenta de planejamento estratégico, orientando a consolidação de uma gestão sensível às necessidades locais e capaz de potencializar os pontos fortes da instituição para mitigar os obstáculos.
A análise do relato de experiência permite concluir que a implementação de uma gestão democrática exerce um impacto positivo e transformador na dinâmica escolar, no trabalho docente e no processo de ensino-aprendizagem. As práticas observadas, como planejamento coletivo, valorização do saber docente, inclusão de todos os segmentos da comunidade escolar e a presença ativa e dialógica da equipe gestora, revelaram-se cruciais para o fortalecimento do engajamento dos professores, a promoção da corresponsabilidade e a consolidação de vínculos colaborativos. A experiência na escola rural de Petrolina-PE demonstrou que a diversidade da equipe, quando valorizada, torna-se um ativo pedagógico, permitindo a criação de projetos interdisciplinares que conectam o conhecimento escolar à realidade dos estudantes.
Este estudo reforça que a gestão participativa, mesmo confrontada com desafios estruturais como a escassez de recursos e contextos de vulnerabilidade social, oferece um caminho viável para a qualificação da educação pública. A utilização da análise SWOT como ferramenta de reflexão estratégica permitiu sistematizar que as forças internas construídas a partir de uma cultura colaborativa podem ser mobilizadas para enfrentar as ameaças externas e aproveitar as oportunidades. A gestão democrática, portanto, transcende a dimensão administrativa e se afirma como um projeto político-pedagógico capaz de transformar o cotidiano escolar, promovendo práticas inovadoras e uma cultura de participação e cidadania. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a implementação de práticas de gestão democrática, como o planejamento coletivo e a valorização docente, impacta positivamente o engajamento profissional e a qualidade do processo de ensino-aprendizagem em um contexto escolar rural.
Referências:
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FERREIRA, J. M.; DE SOUZA, Átila; DE CASTILHOS, C. S.; MELO JÚNIOR, H. G.; CARRETERO, J. dos S.; HOLANDA, M. G.; BATISTA, M. da C.; NARCISO, R. ANÁLISE SWOT NA GESTÃO EDUCACIONAL: ESTRATÉGIAS PARA MELHORIA CONTÍNUA. REVISTA FOCO, [S. l.], v. 17, n. 1, p. e4073, 2024. DOI: 10.54751/revistafoco. v17n1-041. Disponível em: https://ojs. focopublicacoes. com. br/foco/article/view/4073. Acesso em: 29 set. 2025.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.
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LIBÂNEO, José C. Organização e gestão da escola: teoria e prática. São Paulo: Editora Heccus, 2014.
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Militao, S. C. N. (2019). A gestão democrática na legislação educacional nacional: avanços, problemas e perspectivas. Horizontes, 37, e019007. https://doi. org/10.24933/horizontes. v37i0.614.
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VEIGA, Ilma Passos da. Projeto político-pedagógico da escola: uma construção coletiva. In: VEIGA, Ilma Passos da (org.). Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. Campinas: Papirus, 1998. p.11-35.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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