Imagem Gestão pedagógica: desafios da burocracia à liderança transformadora

14 de janeiro de 2026

Gestão pedagógica: desafios da burocracia à liderança transformadora

Autor(a): Carlos Gonçalves — Orientador(a): Milena Pedroso Ruella Martins

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisou a constituição e os conflitos da identidade do gestor escolar, com foco no coordenador pedagógico, investigando a tensão entre o modelo burocrático, a “jaula de ferro” de Weber (2004), e a busca por uma liderança dialógica e colaborativa. A pesquisa descreveu os estilos de coordenação em uma escola privada, analisou como a gestão focada em controle gera conflitos identitários e propôs práticas alternativas baseadas na liderança escolar para superar a lógica burocrática. A investigação pressupôs que a atuação na gestão educacional é marcada por desafios que vão da prática cotidiana às conflitantes perspectivas históricas, tornando a construção de uma identidade profissional coesa uma tarefa complexa.

O referencial teórico de Claude Dubar (1997) fundamenta a análise, postulando a identidade como uma tensão dialética permanente entre a “identidade para o outro”, que corresponde à atribuição formal do cargo e às expectativas institucionais, e a “identidade para si”, que é o modo como o sujeito internaliza essa atribuição, alinhando-a a seus valores e trajetória. Os conflitos identitários centrais investigados neste trabalho emergem do embate contínuo entre o que é oficialmente exigido e o que o gestor deseja assumir em sua atividade.

A perspectiva histórica da função, delineada por Almeida (2012) em seu estudo sobre a rede paulista, é crucial para compreender essa tensão. A autora identifica três perfis: uma coordenação de vanguarda nos anos 60, com foco pedagógico; uma coordenação voltada a projetos especiais entre 1970 e 1995; e, a partir de 1996, um coordenador gestor, implementador de políticas públicas. Esta última fase resultou em uma desvinculação das ações de ensino-aprendizagem, transformando o coordenador em um agente de controle, imerso em tarefas administrativas e consolidando o arquétipo do “coordenador bombeiro”, que atua de forma reativa por estar distanciado da realidade pedagógica.

Este distanciamento da função pedagógica aproxima a gestão escolar do conceito de “jaula de ferro” de Max Weber (2004), um sistema social dominado pela racionalidade instrumental, onde a eficiência e as regras impessoais se sobrepõem às relações humanas. No contexto escolar, essa lógica se manifesta quando o gestor se vê aprisionado em tarefas burocráticas, perdendo a conexão com a missão primordial de desenvolvimento humano. Esta dinâmica, como aponta Heloísa Luck (2012), impede que a liderança potencialize o talento humano e promova uma cultura de colaboração.

Como contraponto, a teoria do agir comunicativo de Jürgen Habermas (1984) propõe um paradigma de racionalidade comunicativa, fundamentado no diálogo livre de coerção e na busca por entendimento mútuo. Aplicada à gestão, essa perspectiva sugere que a superação da “jaula de ferro” passa pela criação de espaços de comunicação autêntica, onde todos os membros da comunidade escolar possam participar das decisões. A pesquisa de Pinazza (2011) corrobora essa visão, apontando a liderança compartilhada e o diálogo como elementos-chave. O problema central investigado foi como os líderes escolares, presos na burocracia, podem transcender essa limitação para reconectar a gestão à sua função pedagógica e humana.

A metodologia foi qualitativa, configurada como um estudo de caso (Yin, 2015; Stake, 1995) para permitir uma análise aprofundada do fenômeno. O campo foi uma escola da rede privada em Jataí, Goiás, com 857 alunos em todos os segmentos da educação básica. A relevância do caso reside em sua estrutura de liderança diversificada, que inclui diretoria pedagógica, coordenação pedagógica, de inclusão e socioemocional, configurando um modelo que potencialmente diverge do padrão burocrático tradicional descrito por Almeida (2012).

A coleta de dados, realizada ao longo de um semestre letivo, empregou múltiplos instrumentos para triangulação. Primeiramente, realizou-se uma revisão bibliográfica sobre a teoria da burocracia de Weber (2004), o agir comunicativo de Habermas (1984) e os estudos sobre liderança educacional de Luck (2009, 2012). Este embasamento teórico foi fundamental para a construção das categorias de análise e para a interpretação dos dados empíricos.

Em segundo lugar, utilizou-se a observação participante. O pesquisador, atuando como coordenador da área socioemocional na instituição, realizou observações sistemáticas focadas nas práticas de liderança, na dinâmica comunicacional e nas manifestações das tensões identitárias. A posição do pesquisador exigiu um exercício constante de reflexividade para analisar a própria prática e a dos colegas de forma crítica, permitindo uma compreensão nuançada dos processos de gestão.

Finalmente, aplicou-se um questionário online aos gestores, com adesão voluntária formalizada pelo Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). O instrumento, composto por perguntas abertas e uma escala Likert, foi respondido por três profissionais que ocupam o cargo de coordenadoras pedagógicas. A análise dos dados seguiu a metodologia de análise de conteúdo de Laurence Bardin (2016), que permitiu a identificação e categorização sistemática dos temas emergentes nos discursos das participantes.

A análise de conteúdo dos questionários permitiu a identificação de cinco categorias centrais. A primeira, “Tensão Identitária entre o Eu Atribuído e o Eu Desejado”, fundamentada em Dubar (1997), emergiu de forma contundente. As coordenadoras relataram um conflito constante entre as responsabilidades burocráticas e suas aspirações de realizar um trabalho pedagógico próximo. Uma participante afirmou que a tensão se materializa na escolha diária entre focar em relatórios ou estar presente em sala de aula, evidenciando como as demandas administrativas se sobrepõem à pertença profissional.

A segunda categoria, “A ‘Jaula de Ferro’ Burocrática”, reflete a influência do conceito de Weber (2004). As participantes destacaram a sobrecarga de demandas administrativas como o principal desafio, resultando na redução do tempo para o acompanhamento pedagógico. Uma coordenadora descreveu a burocracia como uma força que compete com as aspirações pedagógicas, exigindo uma gestão de prioridades que, muitas vezes, marginaliza o essencial. Essa percepção confirma como a racionalidade instrumental aprisiona o gestor, afastando-o de sua função educacional.

A terceira categoria foi o “Arquétipo do ‘Coordenador Bombeiro’”, conforme descrito por Almeida (2012). As gestoras reconheceram que a atuação reativa, focada em resolver problemas urgentes, é uma realidade frequente. Uma participante afirmou que as urgências do dia a dia desviam o foco das ações pedagógicas planejadas. Outra expressou o estresse gerado pelo excesso de demandas que não correspondem às atribuições da função. No entanto, manifestaram uma resistência crítica a esse arquétipo, afirmando que o coordenador deve reinventar e negociar espaços para uma atuação mais pedagógica.

Em contrapartida, a quarta categoria, “Aspirações por Liderança Colaborativa”, revelou um desejo unânime por um modelo de gestão mais humanizado, dialogando com as propostas de Luck (2009), Pinazza (2011) e Habermas (1984). Uma coordenadora definiu como sua principal atribuição o fortalecimento de uma cultura colaborativa, atuando na mediação entre gestão, professores, alunos e comunidade. Outra valorizou a comunicação clara e a mediação de conflitos, descrevendo-se como uma líder empática. Essas falas evidenciam uma concepção de liderança fundamentada no diálogo e na escuta ativa.

A quinta categoria, “Necessidades para Fortalecimento da Identidade Profissional”, apontou caminhos para a superação das tensões. Houve convergência na principal necessidade: a redução de tarefas burocráticas para fortalecer a identidade como líder educacional. Esta percepção reforça que a sobrecarga administrativa é o principal obstáculo a uma identidade profissional integrada. A necessidade de mais tempo para formação continuada também foi mencionada, alinhando-se à visão de Luck (2012). Os resultados da escala Likert corroboraram esses achados, com todas as participantes concordando totalmente que os obstáculos burocráticos dificultam uma atuação focada no desenvolvimento humano e que um modelo de liderança colaborativa traria benefícios para sua identidade profissional.

A discussão dos resultados evidencia que a escola deve ser compreendida como uma comunidade de aprendizagem em liderança, conforme proposto por Luck (2009). A superação da “jaula de ferro” weberiana requer a implementação de estratégias práticas que promovam a liderança colaborativa, como a criação de comitês pedagógicos participativos, a implementação de reuniões de planejamento colaborativo que substituam encontros informativos, e o estabelecimento de programas de mentoria pedagógica horizontal. Essas estratégias distribuem a responsabilidade e fomentam uma cultura de autonomia.

A aplicação do agir comunicativo de Habermas (1984) à gestão escolar é um caminho fundamental para transcender a racionalidade instrumental. Isso significa criar condições para que todos os membros da comunidade escolar participem de forma autêntica dos processos de tomada de decisão, com igual oportunidade de argumentar. Na prática, isso se traduz em círculos de diálogo pedagógico, projetos construídos coletivamente e comitês de avaliação participativa. A liderança, nesse enquadramento, assume a responsabilidade de criar as condições para uma comunicação livre de dominação, onde o melhor argumento, e não a hierarquia, guie as decisões.

A integração dos achados empíricos com o referencial teórico demonstra que as tensões identitárias vivenciadas pelos coordenadores são estruturais. O conflito entre o “eu atribuído” burocrático e o “eu desejado” pedagógico é um sintoma de um modelo de gestão que ainda privilegia o controle em detrimento da colaboração. A aspiração unânime por uma liderança colaborativa e dialógica indica um movimento de resistência e uma busca por ressignificar a função da coordenação, transformando-a de uma prática de fiscalização para uma de liderança educacional transformadora, que orquestra talentos e facilita o diálogo.

A pesquisa demonstrou que os coordenadores pedagógicos vivenciam uma intensa tensão identitária, resultante do conflito entre as excessivas demandas burocráticas e suas aspirações por uma atuação genuinamente pedagógica. A “jaula de ferro” da racionalidade instrumental manifesta-se na sobrecarga de tarefas administrativas que os afasta do trabalho educacional e os aprisiona no arquétipo do “coordenador bombeiro”. Contudo, o estudo também revelou uma forte e convergente aspiração por modelos de gestão fundamentados na liderança colaborativa e no agir comunicativo, que valorizam o diálogo e a participação. As estratégias práticas para a implementação dessa liderança incluem a criação de comitês participativos, planejamento colaborativo e mentoria horizontal. A superação das tensões identitárias, portanto, requer transformações estruturais que privilegiem a comunicação livre de dominação e a gestão participativa, reconceitualizando a coordenação pedagógica como uma prática de liderança que transcende as limitações burocráticas. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a identidade do gestor escolar é marcada por um conflito estrutural entre a burocracia e a pedagogia, e que a superação dessa tensão reside na adoção de um modelo de liderança colaborativa e dialógica, fundamentado no agir comunicativo.

Referências:
ALMEIDA, Laurinda Ramalho de. O coordenador pedagógico e o espaço de mudança. São Paulo: Loyola, 2012.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
DUBAR, Claude. A socialização: construção das identidades sociais e profissionais. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
HABERMAS, Jürgen. The Theory of Communicative Action. Boston: Beacon Press, 1984.
LUCK, Heloísa. Liderança em gestão escolar. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.
LUCK, Heloísa. Liderança em gestão escolar. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
PINAZZA, Mônica Appezzato. Liderança e gestão em contexto educacional em mudança. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED, 34., 2011, Natal. Anais […]. Rio de Janeiro: ANPEd, 2011.
STAKE, Robert E. The Art of Case Study Research. Thousand Oaks: Sage Publications, 1995.
WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
YIN, Robert K. Estudo de Caso: Planejamento e Métodos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2015.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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