Resumo Executivo

06 de maio de 2026

Gestão de Riscos em Projetos de Áreas Classificadas na Indústria de Soja

Luís Felipe Gonçalves Giaconello; Vicente Peixoto da Silva Júnior

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A gestão de projetos consolida-se como uma disciplina fundamental em ambientes industriais de alta complexidade, nos quais a convergência de fatores técnicos, operacionais e normativos exige uma coordenação rigorosa para assegurar a entrega de resultados dentro dos parâmetros de escopo, prazo, custo e qualidade (Kerzner, 2022). Esse cenário torna-se ainda mais desafiador quando as intervenções ocorrem em áreas classificadas, definidas pela norma NBR IEC 60079-10-1 (ABNT, 2022) como locais onde atmosferas explosivas podem se formar devido à presença de substâncias inflamáveis, como gases, vapores ou poeiras, em concentrações suficientes para desencadear ignições. A classificação dessas áreas em zonas zero, um e dois para gases, ou 20, 21 e 22 para poeiras, baseia-se na frequência e duração da presença dessas substâncias, exigindo que qualquer projeto de engenharia adote medidas preventivas extremas para mitigar riscos catastróficos.

No setor de processamento de soja, a utilização do hexano como solvente para a extração de óleo vegetal introduz uma variável crítica de periculosidade. O hexano é um hidrocarboneto altamente volátil e inflamável, o que torna as plantas de extração ambientes permanentemente sensíveis a riscos de explosão. Projetos realizados nessas unidades, como a substituição de equipamentos de grande porte ou ampliações de sistemas, demandam um planejamento que transcende a gestão convencional, integrando de forma indissociável a segurança de processos ao gerenciamento de riscos (Nahime, 2017). Conforme as diretrizes do Project Management Institute (PMI, 2021), um projeto representa um esforço temporário voltado à criação de um resultado único, e sua eficácia em contextos industriais depende da aplicação de práticas estruturadas que considerem não apenas os objetivos comerciais, mas a integridade física dos colaboradores, a preservação do meio ambiente e a continuidade operacional (Almeida et al., 2018).

Os riscos em projetos são eventos incertos que, caso se concretizem, podem gerar impactos positivos ou negativos nos objetivos estabelecidos. Em áreas classificadas, tais eventos frequentemente envolvem falhas técnicas, utilização de ferramentas não certificadas para ambientes explosivos, intervenções não autorizadas e atrasos na aquisição de materiais com certificação de segurança intrínseca (Hillson; Murray-Webster, 2017). A avaliação sistemática dessas variáveis é indispensável para a tomada de decisão assertiva, especialmente sob a égide de normas regulamentadoras severas, como a NR-10, que trata da segurança em instalações elétricas, e a NR-20, voltada à segurança e saúde no trabalho com inflamáveis e combustíveis (Lopes; Fagundes, 2021). Além dos riscos técnicos, falhas gerenciais como escopos mal definidos, cronogramas excessivamente otimistas e falhas de comunicação entre as partes interessadas podem comprometer a viabilidade do empreendimento, exigindo uma abordagem integrada no plano de gerenciamento de riscos (Gomes et al., 2020).

A integração da gestão de riscos deve ocorrer desde a concepção do projeto até o seu encerramento, permitindo a identificação proativa de ameaças e a implementação de medidas mitigadoras eficazes (Kerzner, 2022). No contexto industrial, ferramentas como a Análise Preliminar de Riscos, o Estudo de Perigos e Operabilidade e a Estrutura Analítica de Riscos são fundamentais para o mapeamento de vulnerabilidades em múltiplas esferas, incluindo as dimensões mecânica, elétrica, civil e de gestão (Rosa, 2020). A aplicação dessas metodologias garante a conformidade legal e protege a reputação organizacional, fornecendo subsídios para que a execução do projeto ocorra com previsibilidade e segurança, mesmo em ambientes de alta periculosidade.

A metodologia aplicada neste estudo caracteriza-se como uma pesquisa de caráter aplicado, com abordagem qualitativa e delineamento exploratório, focada no aprofundamento do conhecimento sobre a gestão de riscos em projetos executados em áreas classificadas. O estudo de caso é utilizado como estratégia central, permitindo a compreensão de fenômenos contemporâneos dentro de seu contexto real, conforme as premissas de Yin (2015). O cenário da pesquisa é uma planta industrial de processamento de soja localizada em Araguari, Minas Gerais, que possui uma capacidade de esmagamento de 2200 toneladas diárias. O foco específico reside no setor de extração de óleo, onde foi planejado um projeto de substituição das colunas de absorção, uma intervenção crítica devido à presença constante de hexano e ao consequente risco de atmosferas explosivas.

O processo metodológico fundamenta-se nas boas práticas propostas pelo Project Management Institute (PMI, 2023), especificamente nas etapas de identificação de riscos, análise qualitativa e planejamento de respostas. A coleta de dados foi estruturada por meio de levantamento documental, incluindo o termo de abertura do projeto, a estrutura analítica do projeto, o cronograma geral e memoriais descritivos, além da observação direta e reuniões de brainstorming com especialistas das áreas de projetos, manutenção, suprimentos, produção e segurança do trabalho. A utilização de múltiplas fontes de evidência visa garantir a robustez da análise e a fidedignidade dos riscos mapeados (Yin, 2015).

A etapa de identificação de riscos utilizou a Estrutura Analítica do Projeto como base para o detalhamento dos pacotes de trabalho, permitindo que cada fase da substituição das colunas de absorção fosse escrutinada. Foram realizadas sessões de brainstorming e consultas a registros históricos de projetos similares e acidentes anteriores na unidade. Para a categorização dos riscos, elaborou-se uma Estrutura Analítica de Riscos, organizando os eventos por áreas de atuação, como engenharia, suprimentos, preparação da planta, montagem mecânica e segurança. Essa organização facilita a visualização das fontes de risco e direciona os esforços de mitigação para os pontos de maior vulnerabilidade do projeto.

A análise qualitativa foi conduzida por meio da aplicação de escalas de probabilidade e impacto, variando de um a 10, para classificar a severidade de cada evento. A probabilidade foi avaliada desde eventos raros até aqueles considerados praticamente inevitáveis, enquanto o impacto considerou as consequências sobre o alcance dos objetivos, variando de insignificantes a catastróficos. A combinação desses fatores permitiu o posicionamento dos riscos em uma matriz de probabilidade e impacto, classificando-os em níveis muito baixo, baixo, médio, alto, muito alto e crítico. Essa priorização é essencial para definir quais riscos exigem planos de resposta imediatos e quais podem ser apenas monitorados ao longo do ciclo de vida do projeto.

O planejamento de respostas aos riscos foi estruturado com o auxílio da ferramenta 5W2H, que define as ações propostas, a justificativa, o local de aplicação, os responsáveis, os prazos, o método de execução e os custos estimados. O foco do planejamento concentrou-se nos riscos classificados como alto, muito alto ou crítico, visando a eliminação, mitigação ou transferência das ameaças. As respostas foram integradas ao cronograma e ao orçamento do projeto, garantindo que as medidas de segurança e controle fossem tratadas como atividades intrínsecas à execução técnica, e não como elementos periféricos.

A análise dos resultados inicia-se com a definição detalhada do escopo para a substituição das colunas de absorção. O projeto compreende nove processos prioritários: gestão do projeto, engenharia e documentações, suprimentos e logística, preparação da planta de extração, instalações mecânicas, isolamento térmico, elétrica e instrumentação, segurança e meio ambiente, e encerramento. A decomposição desses processos resultou em uma Estrutura Analítica do Projeto robusta, na qual pacotes de trabalho críticos foram destacados, especialmente aqueles que envolvem a desenergização e isolamento da área, a liberação de equipamentos com hexano residual e as atividades de soldagem e montagem em áreas classificadas.

A aplicação da análise SWOT revelou que o projeto possui forças significativas, como uma equipe técnica experiente em áreas classificadas e o apoio da gestão para a integração com as normas de segurança. Entretanto, fraquezas como a dependência de fornecedores com prazos longos e a complexidade dos requisitos técnicos para o hexano foram identificadas. As oportunidades residem na implementação de novas tecnologias de instrumentação e na capacitação contínua da equipe, enquanto as ameaças mais graves referem-se ao risco de explosões por hexano residual, erros de engenharia na lógica de controle e atrasos logísticos que podem comprometer a janela de parada da planta.

Durante as sessões de brainstorming, foram identificados 40 riscos distintos. No âmbito da gestão, destacam-se o planejamento incompleto das etapas, a subestimação de custos e falhas na comunicação entre as equipes. Na esfera técnica, os riscos incluem o dimensionamento incorreto da nova coluna, a especificação inadequada de materiais para áreas classificadas e falhas no sistema de aterramento e proteção contra descargas atmosféricas. No campo operacional, a liberação inadequada da área para intervenção e a exposição de trabalhadores a vapores inflamáveis surgiram como preocupações centrais. A organização desses dados na Estrutura Analítica de Riscos permitiu observar que a fase de execução concentra a maior densidade de eventos adversos, dependendo diretamente da expertise de empresas terceiras e da supervisão rigorosa das normas de segurança.

A avaliação qualitativa revelou que a maioria dos riscos identificados possui classificação média, situando-se na faixa de nove a 27 pontos na matriz de severidade. Isso ocorre porque, embora o impacto potencial de um acidente em área classificada seja catastrófico, a probabilidade de ocorrência é mantida em níveis baixos devido aos controles já existentes na rotina da indústria, como permissões de trabalho rigorosas e sistemas de detecção de gases. No entanto, 11 riscos foram classificados como de alta ou muito alta prioridade, exigindo ações de tratamento específicas. Entre eles, destacam-se as mudanças de escopo sem controle formal, o fornecimento de materiais fora de conformidade, atrasos na entrega de equipamentos críticos e falhas na lógica de intertravamentos de segurança.

Para o risco de mudanças de escopo sem controle formal, classificado como muito alto, a resposta definida foi a criação de um processo formal de controle de mudanças, garantindo a rastreabilidade e a aprovação técnica de qualquer alteração. O gerente de projetos foi designado como responsável por utilizar uma matriz de mudanças durante todo o ciclo de vida do projeto, sem custos adicionais além do uso de recursos internos. Já para o risco de fornecimento de materiais fora de conformidade, a ação proposta envolve a implementação de um plano de inspeção de recebimento com critérios técnicos rigorosos no almoxarifado, sob responsabilidade do inspetor de qualidade, visando garantir que todos os componentes atendam às especificações de segurança para áreas classificadas.

O risco de atrasos na entrega de equipamentos, que impacta diretamente o cronograma, será mitigado pelo monitoramento ativo do cronograma de fornecimento por parte do coordenador de logística. Essa ação visa garantir a disponibilidade dos materiais conforme o avanço da obra, utilizando o acompanhamento frequente junto aos fornecedores. Para a segurança operacional, o risco de treinamento incompleto da equipe foi endereçado com a realização de capacitações teóricas e práticas antes do início das operações, envolvendo simulações de emergência e procedimentos de operação segura, com custos associados às horas técnicas dos instrutores.

Erros de engenharia e subestimação de custos foram tratados com a atualização de estimativas baseadas em benchmarks e dados históricos, além da integração entre disciplinas via modelos tridimensionais e revisões integradas. Essas medidas visam evitar retrabalhos e falhas na instalação física das colunas. No campo da automação, a validação de malhas e lógicas de controle foi definida como uma etapa crítica antes do comissionamento, para prevenir falhas operacionais que possam levar a condições perigosas. A revisão das lógicas conforme a matriz de segurança funcional será realizada pela equipe de automação, utilizando simulações para validar o comportamento do sistema sob diferentes cenários de falha.

A gestão de lições aprendidas e o encerramento do projeto também receberam atenção no plano de respostas. A falta de registro de lições aprendidas, que prejudica projetos futuros, será mitigada pela implementação de uma ferramenta de registro formal ao final da execução. Da mesma forma, a existência de pendências técnicas que afetam a operação futura será controlada por meio de um checklist detalhado das atividades de encerramento, garantindo que todos os requisitos técnicos e de segurança tenham sido plenamente atendidos antes do aceite final. Essas ações, embora simples em sua execução, são fundamentais para a maturidade da gestão de projetos na organização.

A discussão dos resultados evidencia que a gestão proativa de riscos em ambientes com potencial de atmosferas explosivas não é apenas uma exigência normativa, mas um diferencial estratégico que promove a eficiência operacional. A comparação dos dados encontrados com a literatura técnica reforça que a identificação precoce de ameaças permite uma alocação de recursos mais inteligente, focando nos eventos que realmente podem comprometer a integridade do sistema (Kerzner, 2022). A utilização de ferramentas como a matriz de probabilidade e impacto e o plano de ação 5W2H transforma percepções subjetivas de risco em medidas gerenciais concretas, facilitando a comunicação com as partes interessadas e o monitoramento das ações preventivas.

Observou-se que a complexidade de substituir colunas de absorção em uma planta de extração de óleo exige uma coordenação interdisciplinar sem precedentes. A interface entre a engenharia mecânica, a automação e a segurança do trabalho deve ser contínua, uma vez que uma falha em qualquer uma dessas áreas pode potencializar riscos em outras. Por exemplo, um erro na especificação de um sensor de nível (automação) pode levar ao transbordo de hexano, criando uma atmosfera explosiva que desafia os sistemas de ventilação e as proteções elétricas. Portanto, a visão sistêmica proporcionada pela Estrutura Analítica de Riscos é vital para compreender essas interdependências e garantir que as barreiras de segurança sejam redundantes e eficazes.

As limitações deste estudo residem no fato de o planejamento ter sido realizado com base em dados de projeto e simulações, sem o acompanhamento integral da fase de execução física, devido às restrições temporais da pesquisa. Sugere-se que trabalhos futuros realizem o monitoramento em tempo real das ações de mitigação propostas, avaliando a eficácia dos controles implementados e o comportamento dos riscos residuais durante a operação assistida. Além disso, a aplicação dessa metodologia em outros setores industriais que operam com áreas classificadas, como a indústria petroquímica ou de mineração, poderia fornecer uma base comparativa valiosa para o aprimoramento das práticas de gestão de riscos em ambientes críticos.

A eficácia do plano de gerenciamento de riscos demonstrada neste estudo de caso reforça a necessidade de as indústrias de processamento de soja investirem na maturidade de seus escritórios de projetos. A transição de uma cultura reativa, que lida com problemas à medida que surgem, para uma cultura proativa, fundamentada na antecipação de falhas, é o caminho para reduzir custos com paradas não planejadas e, acima de tudo, garantir a segurança dos trabalhadores. A estruturação de processos claros para a identificação, análise e resposta aos riscos, conforme detalhado nesta pesquisa, serve como um guia prático para profissionais que enfrentam desafios semelhantes em ambientes industriais de alto risco.

Conclui-se que o objetivo foi atingido por meio da aplicação sistemática das ferramentas de gerenciamento de riscos, as quais permitiram a identificação de 40 eventos adversos e a estruturação de planos de ação detalhados para os 11 riscos de maior criticidade no projeto de substituição das colunas de absorção. A metodologia adotada demonstrou ser eficaz para organizar o escopo técnico e integrar as exigências de segurança em áreas classificadas ao planejamento gerencial, promovendo uma visão estruturada das vulnerabilidades operacionais. Os resultados evidenciam que a utilização da Estrutura Analítica de Riscos e da matriz de probabilidade e impacto é essencial para a priorização de esforços, enquanto a ferramenta 5W2H garante a operacionalização das respostas necessárias para mitigar ameaças à integridade física e ao cronograma. O estudo contribui para a consolidação de práticas de gestão proativa na indústria de processamento de soja, ressaltando que a conformidade com normas técnicas e a mitigação de incertezas são pilares indispensáveis para o sucesso de intervenções em ambientes com atmosferas explosivas.

Referências Bibliográficas:

ABNT. NBR IEC 60079-10-1: Atmosferas explosivas – Parte 10-1: Classificação de áreas – Atmosferas explosivas de gás. Rio de Janeiro: ABNT, 2022.

ALMEIDA, J. R.; PEREIRA, T. L.; FERREIRA, D. S. Riscos em projetos industriais: uma abordagem integrada à segurança de processos. Revista Brasileira de Engenharia de Produção, v. 18, n. 3, p. 45–58, 2018.

GOMES, L. R.; MATTOS, A. F.; BRITO, C. T. Gerenciamento de riscos em projetos industriais: fatores críticos de sucesso. Revista Gestão & Tecnologia, v. 20, n. 2, p. 102–118, 2020.

HILLSON, D.; MURRAY-WEBSTER, R. Understanding and Managing Risk Attitude. 3. ed. London: Routledge, 2017.

KERZNER, H. Gestão de Projetos: As melhores práticas. 12. ed. Porto Alegre: Bookman, 2022.

LOPES, T. N.; FAGUNDES, M. G. Gestão de riscos em ambientes industriais críticos: Aplicação de ferramentas integradas. Revista Brasileira de Engenharia de Produção, v. 21, n. 1, p. 101-119, 2021.

NAHIME, B. Estudo de perigos e operabilidade em uma extração de óleo de soja com hexano. 2017. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização) – Escola Politécnica, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017. Disponível em: bdta.abcd.usp.br. Acesso em: 16 mar. 2025

PMI – Project Management Institute. A Guide to the Project Management Body of Knowledge (PMBOK® Guide). 7. ed. Pennsylvania: PMI, 2021.

PMI – Project Management Institute. Process Groups: A Practice Guide. Pennsylvania: PMI, 2023.

ROSA, José Renato L. Gestão de riscos: Modelos, metodologias e aplicações práticas. São Paulo: Atlas, 2020.

YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2015.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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