
01 de abril de 2026
Gestão de projetos e governança na pesquisa epidemiológica longitudinal
Audêncio Victor; Fabiana Da Silva Podeleski
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Pesquisas epidemiológicas de base populacional, especialmente aquelas de caráter longitudinal, exigem a articulação de um conjunto amplo e complexo de atividades que ultrapassam o rigor metodológico estrito. A condução desses estudos demanda ações integradas de logística de campo, coordenação de equipes multidisciplinares, controle rigoroso da qualidade de dados e, fundamentalmente, estratégias que assegurem a continuidade e a sustentabilidade institucional ao longo de sucessivos anos. No entanto, apesar da inegável relevância científica e social de tais investigações, muitas enfrentam entraves operacionais severos, decorrentes majoritariamente da ausência de práticas estruturadas de gestão (Martins et al., 2020). A literatura científica indica que grande parte das dificuldades enfrentadas por projetos de pesquisa de longa duração não se relaciona à qualidade técnica dos protocolos científicos, mas sim à carência de planejamento, organização e controle adequados (Bammer, 2008). Nesse contexto, a aplicação de metodologias consagradas de gestão de projetos contribui de forma expressiva para elevar a eficiência, a previsibilidade e a sustentabilidade desses empreendimentos científicos.
A gestão de projetos é definida como o uso de conhecimentos, habilidades, ferramentas e técnicas para a realização de atividades com objetivos definidos, respeitando restrições de escopo, tempo, custo, qualidade e riscos (PMI, 2021). Embora tais práticas sejam amplamente difundidas nos setores de engenharia, tecnologia e administração, sua aplicação sistemática no campo científico ainda é incipiente. Ferramentas como a Estrutura Analítica do Projeto, cronogramas detalhados, matrizes de responsabilidades, análise de partes interessadas e planos de gerenciamento de riscos podem ser adaptadas ao contexto acadêmico, promovendo maior organização e clareza na condução das atividades (Kerzner, 2022). Em estudos longitudinais, como as coortes, a integridade dos dados depende da gestão eficaz de múltiplas variáveis operacionais. Entre os desafios recorrentes figuram a alta rotatividade de pessoal, a ausência de processos padronizados, a sobrecarga de pesquisadores em formação e a dependência de financiamentos instáveis (Ribeiro et al., 2023). Frequentemente, bolsistas de pós-graduação assumem tarefas críticas, como a coleta de dados e a organização de bancos, o que eleva a vulnerabilidade do projeto frente a interrupções e perda de conhecimento institucional.
A governança em projetos científicos compreende o conjunto de estruturas, papéis, processos decisórios e mecanismos de controle utilizados para orientar e sustentar o desenvolvimento da pesquisa. Uma governança bem estruturada amplia a transparência, facilita o monitoramento de indicadores-chave, promove a integração entre equipes e favorece o diálogo com as partes interessadas institucionais e comunitárias (Ribeiro et al., 2023). Por outro lado, a inexistência dessa estrutura dificulta a tomada de decisões em momentos críticos, compromete a continuidade do projeto durante mudanças de gestão e enfraquece a legitimidade institucional. A análise de um estudo epidemiológico longitudinal sob a ótica da gestão de projetos permite propor uma estrutura de governança científica baseada em boas práticas gerenciais, visando fortalecer a sustentabilidade e a eficiência operacional em pesquisas de longa duração. O foco reside na mitigação de riscos e na criação de um modelo aplicável e replicável em outros projetos semelhantes dentro do cenário acadêmico brasileiro, marcado por limitações orçamentárias e dependência de recursos humanos temporários.
A natureza desta investigação é aplicada, com abordagem qualitativa e caráter exploratório-descritivo. A metodologia combina o estudo de caso de uma coorte epidemiológica de acompanhamento materno-infantil com análise documental e fundamentação teórica robusta. Segundo Gil (2010), a pesquisa aplicada visa gerar conhecimentos voltados à solução de problemas concretos, justificando-se aqui pela necessidade de compreender fenômenos complexos, como processos de trabalho e dinâmicas de comunicação institucional (Minayo, 2012). A abordagem de gestão adotada fundamenta-se no corpo de conhecimento em gerenciamento de projetos, selecionada pela necessidade de aplicar ferramentas reconhecidas internacionalmente em contextos de alta incerteza. Três motivos principais sustentam essa escolha: a gestão de riscos conectada à vulnerabilidade do financiamento e à evasão de participantes; a gestão de partes interessadas para harmonizar interesses conflitantes entre coordenadores, bolsistas e agências de fomento; e a estruturação de papéis para reduzir a sobrecarga de bolsistas e evitar a perda de conhecimento técnico.
O processo de análise concentrou-se em documentos produzidos entre 2017 e 2024, período que abrange o acompanhamento da coorte estudada. O levantamento documental incluiu registros administrativos da coordenação, relatórios de atividades de bolsistas, atas de reuniões de equipe e planos operacionais elaborados coletivamente. Participaram indiretamente do processo a coordenação principal, técnicos administrativos, bolsistas de pós-graduação e estudantes de iniciação científica. A imersão direta no projeto permitiu vivenciar os desafios relatados e sistematizar as informações de forma crítica. Embora o estudo de caso único limite a generalização estatística, as dificuldades observadas são recorrentes em projetos longitudinais conduzidos em universidades públicas, o que confere validade à proposição de práticas aplicáveis a contextos similares.
A definição dos indicadores utilizados para compor a matriz de riscos, a matriz de partes interessadas e a Estrutura Analítica do Projeto ocorreu em três etapas distintas. Primeiramente, realizou-se um levantamento teórico em bases de dados como SciELO, PubMed e Scopus, fornecendo referências sobre gestão de riscos e governança em projetos acadêmicos (PMI, 2021; Kerzner, 2022). Em seguida, a análise documental do caso-base identificou gargalos reais, como conflitos internos e episódios de perda de dados. Por fim, a experiência acumulada pela equipe envolvida auxiliou na definição de critérios práticos de probabilidade, impacto e medidas preventivas. Esse processo metodológico rigoroso assegura que os indicadores reflitam tanto a literatura especializada quanto as evidências empíricas do cotidiano da pesquisa científica.
O detalhamento operacional da coleta de dados envolveu a categorização de informações extraídas de atas de reuniões, onde foram identificadas recorrências de problemas logísticos e falhas de comunicação. Os relatórios de progresso foram analisados para verificar o cumprimento de cronogramas e a execução orçamentária, revelando períodos de maior vulnerabilidade financeira. A análise documental permitiu mapear o fluxo de trabalho desde o recrutamento dos participantes até o armazenamento final dos dados, evidenciando pontos de estrangulamento onde a rotatividade de pessoal causava atrasos significativos. A sistematização dessas informações serviu de base para a construção das ferramentas de gestão propostas, garantindo que cada elemento da estrutura de governança respondesse a uma necessidade observada na prática.
A análise documental permitiu sistematizar evidências relacionadas a riscos, partes interessadas e divisão de atividades no projeto longitudinal. Foram identificados cinco riscos principais que impactam diretamente a viabilidade da pesquisa. O primeiro deles é a evasão de participantes durante o acompanhamento, classificado como crítico devido à sua alta probabilidade e alto impacto na validade estatística dos resultados. Para mitigar esse risco, propõe-se um plano de engajamento contínuo com incentivos não financeiros e comunicação periódica. O segundo risco refere-se à falta de financiamento em fases intermediárias, considerado de impacto elevado. A medida preventiva sugerida envolve a criação de um fundo de contingência e a diversificação das fontes de fomento, evitando a dependência exclusiva de uma única agência.
A rotatividade de bolsistas e a consequente perda de conhecimento institucional configuram o terceiro risco de nível elevado. A alta probabilidade desse evento decorre da natureza temporária das bolsas de estudo. A solução proposta reside na implementação de um repositório institucional robusto e na elaboração de manuais operacionais detalhados, garantindo que os processos sejam mantidos independentemente da permanência dos indivíduos. O quarto risco identificado é a perda de dados por falhas técnicas, com impacto alto, mas baixa probabilidade. A prevenção exige sistemas de backup automatizado em nuvem e protocolos de dupla checagem semanal. Por fim, os conflitos internos entre a coordenação e a equipe técnica, de impacto e probabilidade moderados, devem ser geridos por meio de reuniões regulares e da aplicação de uma matriz de responsabilidades clara.
A estrutura de governança proposta organiza-se em três níveis hierárquicos e funcionais: Comitê Gestor Permanente, Coordenação Executiva e Núcleo Técnico Operacional. Essa divisão permite distribuir funções de forma transparente entre atores estratégicos, táticos e operacionais. O Comitê Gestor Permanente, composto por professores doutores e representantes institucionais, assume a deliberação estratégica e a articulação institucional, sendo essencial para assegurar a continuidade do projeto em longo prazo. A Coordenação Executiva, liderada pelo coordenador principal e apoiada por um gerente de projeto, foca na execução do planejamento, supervisão da equipe e comunicação com as partes interessadas. O Núcleo Técnico Operacional, formado por bolsistas e técnicos de campo, executa as tarefas cotidianas de coleta de dados, limpeza de base e apoio à produção científica.
A análise das partes interessadas revelou interesses diversos e, por vezes, conflitantes. Coordenadores e instituições de ensino possuem alta influência e buscam sucesso técnico-científico e reputação acadêmica. Agências de fomento exigem execução eficiente e prestação de contas rigorosa. Já os bolsistas e pesquisadores em formação priorizam a produção científica e a qualificação profissional. Os participantes da pesquisa, embora com influência média, são fundamentais para o sucesso do estudo, demandando privacidade e retorno social dos resultados. A ausência de canais formais de engajamento fragiliza essas relações e compromete a legitimidade do projeto. Portanto, a governança deve equilibrar os interesses institucionais de longo prazo com as demandas operacionais imediatas.
A Estrutura Analítica do Projeto organiza as atividades em seis macroetapas: planejamento inicial, recrutamento e capacitação, coleta de dados, gerenciamento de dados, comunicação e relatórios, e encerramento com foco na sustentabilidade. A decomposição do trabalho em pacotes específicos reduz a sobrecarga de funções e permite um monitoramento mais preciso do progresso. No planejamento inicial, definem-se escopo, cronograma e orçamento. O recrutamento e capacitação envolvem a seleção e o treinamento rigoroso da equipe. A coleta de dados abrange a logística de campo e a aplicação de instrumentos. O gerenciamento de dados foca na criação de bancos seguros e padronização de processos. A comunicação e relatórios garantem o alinhamento entre os níveis de gestão. Por fim, o encerramento prevê a análise final e a proposição de continuidade.
Os desafios identificados no caso-base, como a perda de memória institucional e a fragilidade financeira, estão alinhados às observações de Minayo (2012) sobre a carência de uma cultura de planejamento em ambientes acadêmicos. A falta de protocolos de integração para novos membros da equipe agrava a descontinuidade operacional. Diferentemente de estudos transversais, as pesquisas longitudinais estão mais expostas a riscos acumulados ao longo do tempo. No contexto brasileiro, limitações orçamentárias e a ausência de equipes administrativas permanentes tornam a gestão ainda mais complexa (Ribeiro et al., 2023). A matriz de riscos construída demonstra que a antecipação de problemas e a implementação de respostas planejadas são elementos-chave para a maturidade da gestão (Rabechini Junior e Carvalho, 2009).
A adoção de estruturas de governança em projetos acadêmicos não é apenas desejável, mas necessária para promover a eficiência e a transparência institucional (Tachizawa e Resende, 2020). O modelo proposto busca equilibrar a autonomia acadêmica com a responsabilidade administrativa. Embora as ferramentas do corpo de conhecimento em gestão de projetos tenham origem corporativa, sua adaptação ao contexto científico mostra-se viável e benéfica. A literatura recente enfatiza a importância de uma abordagem híbrida, que combine a flexibilidade da cultura científica com o rigor da gestão tradicional (Vergara, 2021). Esse hibridismo é vital em projetos onde o tempo é uma variável crítica para a consistência dos dados.
A fragmentação das atividades em unidades menores, conforme proposto na Estrutura Analítica do Projeto, permite maior adaptabilidade diante de mudanças inesperadas, uma característica valorizada em ambientes de pesquisa complexos (Bammer, 2008). A criação de subgrupos técnicos com lideranças definidas para áreas como logística e gestão de dados favorece a especialização e reduz erros operacionais. Martins et al. (2020) reforçam que a distribuição clara de funções é um instrumento essencial para o monitoramento de resultados intermediários. A implementação de protocolos operacionais padronizados minimiza a dependência de indivíduos específicos, protegendo o projeto contra a alta rotatividade de bolsistas.
A sustentabilidade de uma coorte epidemiológica depende da capacidade da instituição em manter o engajamento dos participantes e a fluidez dos recursos. A análise evidenciou que falhas na comunicação interna e externa podem comprometer a coleta de dados e a imagem do projeto perante a comunidade. A governança proposta atua como um sistema de mediação de interesses, garantindo que as metas científicas sejam atingidas sem negligenciar as necessidades das partes envolvidas. O uso de plataformas digitais para backup e gestão de documentos é uma medida prática que eleva a segurança da informação e facilita a auditoria por agências de fomento.
As limitações deste estudo incluem a ausência de validação empírica da estrutura de governança proposta por meio de entrevistas ou grupos focais. A análise baseou-se estritamente em documentos e fundamentação teórica, o que pode omitir percepções subjetivas dos atores envolvidos. Além disso, o foco em um estudo de caso único restringe a generalização dos achados para todas as áreas da ciência. Contudo, a imersão profunda no fenômeno forneceu insumos valiosos para formulações aplicáveis em contextos similares de universidades públicas brasileiras. Recomenda-se que pesquisas futuras realizem comparações entre projetos longitudinais públicos e privados para validar a eficácia do modelo de governança sugerido.
A investigação sobre a percepção de gestores e bolsistas quanto aos mecanismos institucionais de apoio também é necessária para aprimorar as práticas de gestão. O desenvolvimento de indicadores de maturidade em gestão de projetos aplicados especificamente à pesquisa científica pode oferecer uma métrica clara para agências de fomento. Estimular a inclusão de critérios de governança em editais de financiamento e políticas de avaliação acadêmica garantirá um melhor retorno social dos investimentos em ciência. A integração entre o rigor científico e a eficiência administrativa é o caminho para assegurar que grandes estudos epidemiológicos cumpram sua missão de gerar conhecimento para a saúde pública de forma sustentável.
Conclui-se que o objetivo foi atingido ao propor uma estrutura de governança em três níveis — Comitê Gestor Permanente, Coordenação Executiva e Núcleo Técnico Operacional — que responde aos gargalos operacionais identificados em pesquisas epidemiológicas longitudinais. A análise evidenciou que a ausência de mecanismos institucionais permanentes, a dependência de equipes rotativas e a falta de padronização de processos são fatores críticos que comprometem a continuidade e a qualidade dos dados. A aplicação de ferramentas como a matriz de riscos, a matriz de partes interessadas e a Estrutura Analítica do Projeto demonstrou ser viável e necessária para mitigar vulnerabilidades, reduzir a sobrecarga de pesquisadores e assegurar a sustentabilidade institucional. Embora baseada em um estudo de caso único, a proposta oferece subsídios para que outros projetos de longa duração repensem seus modelos de gestão, otimizando recursos e ampliando o impacto social da produção científica brasileira por meio de maior previsibilidade e eficiência operacional.
Referências Bibliográficas:
Bammer, Gabriele. Integration and Implementation Sciences: building a new specialization. Ecology and Society, v. 13, n. 2, p. 1–15, 2008.
Gil, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
Martins, Simone Vasconcelos et al. Gestão da pesquisa científica: uma proposta de estrutura organizacional. Revista Brasileira de Pós-Graduação, v. 17, n. 38, p. 215–236, 2020.
Minayo, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2012.
PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE [PMI]. Um guia do conhecimento em gerenciamento de projetos (Guia PMBOK®). 7. ed. Newtown Square, PA: Project Management Institute, 2021.
Rabechini Junior, Roque; Carvalho, Marly Monteiro de. Gestão de projetos: teoria, práticas e competências. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2009.
Ribeiro, L. C., Silva, R. A., & Souza, M. T. (2023). Os desafios da sustentabilidade em projetos científicos no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, 28(1), 45–58.
Tachizawa, Takeshy; Resende, Elisabeth Froes. Gestão com pessoas: uma abordagem aplicada às estratégias de negócios. 4. ed. São Paulo: FGV Editora, 2020.
Vergara, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. 16. ed. São Paulo: Atlas, 2021.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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