
19 de janeiro de 2026
Gestão da formação docente em ensino religioso na escola católica
Autor(a): Tatiane Aparecida de Almeida — Orientador(a): Luciana Cristina de Souza
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo de caso único analisou a formação continuada de docentes de Ensino Religioso em uma rede confessional católica, investigando a interface entre a gestão de pessoas e a pedagógica. A pesquisa buscou evidenciar práticas que assegurem os direitos de aprendizagem dos estudantes por meio de um ensino significativo, contextualizado e comprometido com o desenvolvimento integral, considerando os pressupostos do caráter confessional católico da instituição. Estratégias que consolidam a disciplinaridade do componente são fundamentais para a excelência pedagógica e a segurança institucional, alinhando as práticas pedagógicas aos objetivos educacionais e valores institucionais para minimizar riscos e fortalecer a proposta educativa.
A atuação das escolas católicas no Brasil contemporâneo insere-se em um cenário de transformações no campo educacional, marcadas pela diversidade religiosa, exigências acadêmicas e concorrência. Dados da Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (ANEC, 2021) evidenciam uma diminuição da presença das escolas católicas no sistema privado de ensino, apontando um desafio estrutural relacionado à sua identidade, gestão pedagógica e capacidade de manter relevância. Este contexto desafia as instituições confessionais a revisitarem suas práticas de gestão, especialmente na condução de componentes como o Ensino Religioso, que se torna um espaço estratégico para a formação integral dos estudantes.
Com a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), o sistema educacional brasileiro assumiu o compromisso com a liberdade religiosa e o respeito à diversidade. Essa mudança legislativa exigiu das instituições confessionais uma pedagogia mais inclusiva e dialógica. Nesse cenário, o Ensino Religioso deve articular a identidade confessional com uma abertura ao pluralismo, transformando-se em pilar para o desenvolvimento de competências, diálogo e formação ética. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reforça essa necessidade, estabelecendo competências que demandam uma abordagem científica e não proselitista do fenômeno religioso (Brasil, 2018).
Simultaneamente, as escolas católicas enfrentam tensões internas entre a doutrina oficial e as diversas expressões culturais e religiosas dos estudantes. A literatura sobre a religiosidade brasileira (Holanda, 2013; Ribeiro, 1995; Tavares, 2013) revela que a vivência da fé no país é atravessada por sincretismo e adaptação cultural. Essa realidade demanda das instituições um olhar sensível à religião vivida pelos alunos, que muitas vezes difere das práticas institucionais. O desafio é ampliado pela pressão por resultados acadêmicos e pela necessidade de uma gestão qualificada, que equilibre a tradição confessional com as demandas de um mundo plural e secularizado (Alves, 2020).
Diante deste cenário, a gestão do Ensino Religioso em uma escola católica precisa articular a formação continuada dos professores com a missão institucional e as diretrizes curriculares. A consolidação do componente como espaço de desenvolvimento de competências, diálogo e formação ética depende da capacidade da gestão em fornecer subsídios que fortaleçam a identidade das escolas católicas sem negligenciar as exigências legais e sociais. A análise de práticas de gestão e estratégias formativas, como a proposta neste estudo, oferece um caminho para compreender como esses desafios podem ser enfrentados, garantindo a relevância e a sustentabilidade da educação católica no século XXI.
A pesquisa foi um estudo de caso único, estratégia que permitiu uma análise aprofundada do fenômeno em seu contexto real. A abordagem possibilitou compreender como a gestão escolar do Ensino Religioso, com seus desafios e perspectivas para a formação docente, se estrutura em práticas pedagógicas situadas. A escolha justifica-se pela oportunidade de explorar a complexidade de um sistema organizacional consolidado, gerando insights relevantes para outras instituições similares (Yin, 2005; Eisenhardt & Graebner, 2007).
A abordagem dedutiva combinou procedimentos bibliográficos, documentais e de coleta de dados primários. A análise documental examinou diretrizes institucionais como propostas pedagógicas, planos de formação, matrizes curriculares e regimentos. Questionários abertos foram aplicados aos docentes para identificar seus desafios e percepções sobre as práticas formativas. Para complementar, foram realizadas observações sistemáticas durante encontros de formação e atividades pedagógicas, permitindo captar aspectos da gestão e da implementação curricular em tempo real. A análise dos dados foi conduzida por meio de análise de conteúdo, e a triangulação de dados foi empregada para promover maior robustez interpretativa.
O campo empírico foi uma rede de ensino católica privada em Minas Gerais, que atua em todos os segmentos da educação básica. A instituição foi selecionada por apresentar uma estrutura organizacional consolidada e um histórico de investimento na formação de professores de Ensino Religioso, configurando-se como um ambiente propício para a investigação, permitindo analisar um caso em que a gestão da formação docente é uma prioridade estratégica.
As reflexões sobre os conceitos de campo de saber e área do conhecimento revelaram conflitos semânticos. Embora ambos se refiram ao ensino superior, não são sinônimos. O Parecer CNE/CES n° 968 de 1988 foi um marco na conceituação, embora a definição inicial de áreas do conhecimento fosse superficial. Para Bitencourt (2008), as áreas de conhecimento se fundamentam em um viés epistemológico e científico, consolidado no sistema de ensino superior brasileiro, referindo-se às modalidades tradicionais de graduação, pós-graduação e extensão.
A noção de campos de saber surgiu em 1996 com a nova LDB. Conforme o Parecer CES 968/98, um campo de saber propõe um recorte específico de uma área do conhecimento, de suas aplicações ou de uma articulação entre elas. Essa flexibilidade foi pensada para atender a interesses diferentes das modalidades tradicionais. Bitencourt (2008) argumenta que o campo de saber surgiu para se diferenciar das áreas do conhecimento, propondo uma abordagem mais dinâmica que permite a articulação de diferentes perspectivas para responder a demandas emergentes.
Nesse horizonte, Barros (2011) desenvolveu um esquema com dez elementos constitutivos de um campo disciplinar: campo de interesses (objeto de estudo), singularidade, campos intradisciplinares (especializações), padrão discursivo (vocabulário), metodologias (conforme Lakatos e Marconi, 2010), aporte teórico, oposições e diálogos interdisciplinares, interditos (o que não pertence à disciplina), rede humana (comunidade científica) e o olhar sobre si (consciência histórica). Este arcabouço é fundamental para examinar os pressupostos de uma disciplina como o Ensino Religioso.
A complexidade da aprendizagem impulsiona a especialização e a reflexão que movimentam a teoria e a prática disciplinar. Edgar Morin (2000), em “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, defende que a educação deve reconhecer a humanidade comum e a diversidade, criticando a ciência centrada em disciplinas por ignorar o que está entre e além de suas fronteiras. A interação entre o ser humano e o meio constrói conhecimentos e valores. A reflexão sobre os campos intradisciplinares (Barros, 2011) dialoga com a visão de Morin (2000) ao reconhecer que a complexidade do conhecimento exige tanto especialização quanto a capacidade de olhar para dentro da própria disciplina.
A instituição analisada, uma rede privada com mais de nove décadas de atuação em Minas Gerais, exemplifica a aplicação desses princípios. A Gerência de Identidade e Pastoralidade coordena o Ensino Religioso, buscando fortalecer a identidade de uma “Escola em Pastoral” através de quatro áreas: Evangelização e Identidade, Cidadania e Solidariedade, Ensino Religioso e Projeto de Vida. A área de Gestão do Ensino Religioso assegura a coerência pedagógica e pastoral do componente, cujo objeto de estudo, o conhecimento religioso, é construído a partir das Ciências Humanas e Sociais, com destaque para a Ciência da Religião. O programa visa ao letramento religioso dos estudantes, permitindo-lhes analisar as manifestações religiosas de forma crítica.
A equipe docente do Ensino Religioso, com vinte profissionais, é acompanhada pela Liderança institucional, que zela pela coerência pedagógico-pastoral, avalia a capacidade técnica para contratações e coordena o planejamento. A análise revelou que os docentes enfrentam desafios ao abordar o fenômeno religioso, especialmente na dificuldade de separar seu papel profissional de suas experiências religiosas pessoais. Essa questão se relaciona com a interação entre sistemas de valores e crenças que, segundo Prat-I-Pubill (2018), são interpretações automáticas do mundo. Docentes sem sólida compreensão da Ciência da Religião como base epistemológica podem incorrer em viés dogmático, ter dificuldades de contextualização e enfrentar desafios metodológicos, limitando o diálogo inter-religioso e o pensamento crítico dos alunos.
A análise curricular identificou uma fragilidade na autocompreensão dos programas. Até 2022, o programa mesclava Teologia e Ciências da Religião. A partir de 2023, a abordagem teológica foi reservada para programas de evangelização, e o componente passou a se basear na Ciência da Religião. No entanto, a variação terminológica entre “Ensino Religioso” (Fundamental) e “Cultura Religiosa” (Médio) gerou incompreensões sobre o método e a identidade disciplinar. A Ciência da Religião, como disciplina autônoma e não normativa, oferece a base para superar essa fragmentação. Usarski (2020) define a identidade da disciplina a partir de sete elementos, incluindo o foco no objeto religião, o caráter hermenêutico e empírico, a abstinência de julgamento, o caráter comparativo, a complementaridade dos ramos histórico e sistemático, o repertório interdisciplinar e a demarcação em relação à Teologia.
Diante desses desafios, foi elaborado um Plano de Formação Docente, partindo do entendimento de que o alinhamento estratégico é essencial. A formação continuada é crucial, pois muitos docentes de Ensino Religioso não possuem graduação na área. Investir em capacitação que articule conhecimento científico, reflexão pedagógica e pastoral permite que os docentes atuem com segurança e promovam a interdisciplinaridade. A reflexão sobre a prática, inspirada em Paulo Freire, que destaca o respeito à autonomia do educando, é fundamental. O docente deve construir novas formas de ver o mundo, alinhadas ao tom pedagógico e pastoral de uma escola católica. Um desafio adicional foi a seleção de materiais didáticos com conteúdos sensíveis, o que reforça a necessidade de um perfil docente capacitado e de acompanhamento institucional para minimizar riscos.
Em suma, a análise revelou avanços, como a consolidação de referenciais teóricos consistentes e a valorização da interdisciplinaridade. O alinhamento com a BNCC aponta para um esforço de superação da fragmentação do conhecimento e para a construção de um componente curricular que dialoga cientificamente com a complexidade do mundo. Contudo, os resultados também expuseram fragilidades que precisam ser enfrentadas por meio de estratégias formativas mais robustas, maior clareza metodológica e ampliação da investigação empírica. Este movimento crítico abre a possibilidade de fortalecer o Ensino Religioso como área de conhecimento, garantindo sua relevância pedagógico-pastoral e assegurando os direitos de aprendizagem dos estudantes.
A formação docente, pensada a partir da perspectiva de área de conhecimento, é um eixo estratégico para o fortalecimento do Ensino Religioso na Educação Católica. A construção de um Plano de Formação promove o alinhamento teórico-metodológico e o amadurecimento intelectual dos docentes. A capacidade do professor de se manter imparcial, inclusive diante de sua própria religião, permite-lhe assumir um posicionamento científico adequado. A identidade institucional é o eixo que dá sentido e coesão à instituição, traduzindo-se em práticas coerentes com sua missão. A Educação Católica articula conhecimento, valores e fé para formar cidadãos críticos e comprometidos. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a formação continuada docente, fundamentada na Ciência da Religião, é um eixo estratégico para consolidar a gestão pedagógica do Ensino Religioso em escolas católicas, alinhando identidade confessional e excelência acadêmica.
Referências:
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ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO CATÓLICA DO BRASIL. Apresentação de dados do mercado confessional educacional no Brasil. Documento interno, Brasília, 2021.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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