Resumo Executivo

04 de maio de 2026

Gestão Criativa e Stakeholders no Projeto Sustentável Tarsila Amarela

Júlia Mendes de Paoli; Luís Felipe Vendramim

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A criatividade constitui uma característica intrínseca ao gerenciamento de projetos contemporâneo, atuando como ferramenta indispensável para a resolução de problemas complexos e o enfrentamento de desafios que emergem em ambientes dinâmicos. No cenário das organizações modernas, a capacidade criativa provê abordagens necessárias para garantir eficiência, eficácia e competitividade em mercados marcados pela imprevisibilidade e pela mutabilidade constante (Pires e Varajão, 2024). Quando o foco recai sobre projetos de natureza cultural e artística, a criatividade assume o papel de elemento central, permitindo que a expressão artística de cada criador se manifeste como um reflexo da comunidade e do tempo em que se insere. Tais iniciativas não apenas geram experiências estéticas, mas também estimulam diálogos fundamentais, engajam indivíduos em reflexões profundas e promovem conexões humanas autênticas que transcendem a trivialidade do cotidiano, tornando-se, portanto, ativos imprescindíveis para o desenvolvimento social.

O setor cultural demonstra um potencial significativo para impulsionar o crescimento econômico, fomentar a geração de novos postos de trabalho e aprimorar o ambiente sociocultural de uma região (Jankauskaité, 2014). Nesse contexto, a criatividade funciona como o motor de um crescimento sustentável e inovador, atribuindo à cultura uma função estratégica na formação da identidade de uma sociedade e na disseminação de informação e conhecimento. Apesar de o fomento a projetos culturais no território brasileiro possuir raízes históricas que remontam ao século 19, observa-se uma lacuna considerável na literatura acadêmica dedicada especificamente ao gerenciamento desses projetos, tanto em âmbito nacional quanto global. É notório que, nessas iniciativas, os criadores frequentemente operam sob severas restrições de recursos financeiros, o que intensifica a dependência do suporte proveniente das partes interessadas. Longe de inviabilizar a execução, essa limitação de capital muitas vezes atua como um catalisador para a inovação, exigindo soluções criativas para a captação de recursos e para a superação de obstáculos operacionais.

A definição de parte interessada, ou stakeholder, abrange qualquer indivíduo, grupo ou organização que possua a capacidade de afetar, ser afetado ou sentir-se afetado por decisões, atividades ou resultados decorrentes de um projeto (PMI, 2017). No âmbito do gerenciamento dessas partes, estruturam-se quatro processos fundamentais: a identificação dos atores envolvidos, o planejamento do engajamento, o gerenciamento propriamente dito desse engajamento e o monitoramento contínuo das relações estabelecidas. Em projetos culturais, a gestão desses atores representa um desafio particular para os gestores, que precisam equilibrar expectativas e exigências que sofrem alterações constantes. Surge, então, a necessidade premente de estabelecer métodos eficazes para gerir interesses multifacetados e garantir que o valor gerado pelo projeto seja percebido por todos os envolvidos (Jankauskaité, 2014).

A sustentabilidade aplicada ao gerenciamento de projetos emergiu como um tema de relevância crítica na contemporaneidade. Trata-se de uma abordagem empresarial que busca o equilíbrio entre os pilares social, econômico e ambiental, visando satisfazer as necessidades presentes das partes interessadas sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprirem suas próprias demandas (APM, 2019). Os stakeholders demonstram um interesse crescente nos valores agregados aos projetos, e a percepção de benefícios sustentáveis atua como um fator determinante para o engajamento contínuo. Compreender o retorno que um projeto artístico oferece à sociedade, para além do interesse organizacional estrito, permite a criação de uma cadeia de crescimento sustentável. A escassez de literatura sobre projetos artísticos sustentáveis reforça a importância de investigar como gerir tais iniciativas e de que maneira o engajamento das partes interessadas pode ser potencializado em ambientes mutáveis.

O estudo de caso focado no desfile-performance intitulado Tarsila Amarela, realizado pela marca-laboratório WTNB em parceria com o Instituto Tarsila do Amaral em 28 de maio de 2024, em São Paulo, serve como base para esta análise. O projeto envolveu uma rede complexa de partes interessadas, incluindo patrocinadores, veículos de mídia, convidados, fornecedores e pesquisadores. O conceito norteador da iniciativa foi a sustentabilidade, aplicada de forma multidimensional: ambiental, econômica e social. A proposta buscou promover a educação, a inclusão comunitária e o reaproveitamento sistemático de matérias-primas, demonstrando como a organização e o planejamento rigorosos, frequentemente subestimados em áreas artísticas, são vitais para mitigar riscos e garantir o sucesso da execução.

A condução desta investigação seguiu uma abordagem qualitativa e descritiva, fundamentada na premissa de que a pesquisa qualitativa busca interpretar os significados que os indivíduos atribuem às suas experiências no mundo social (Brandão, 2001). No contexto de um desfile de moda, a experiência transcende a funcionalidade, abrangendo dimensões visuais, sensoriais, táteis e simbólicas. O valor de um projeto criativo não pode ser mensurado estritamente por métricas financeiras ou pelo cumprimento de cronogramas; ele reside na forma como os stakeholders vivenciam a entrega. Um evento dessa natureza só atinge plenamente seus objetivos se for capaz de despertar um engajamento profundo em seus participantes. Portanto, a gestão deve considerar não apenas os aspectos técnicos, mas também as percepções e os significados emocionais carregados pela experiência.

A equipe responsável pelo projeto deve dedicar esforços para compreender as emoções, crenças e valores das partes interessadas, uma vez que esses elementos podem representar tanto ameaças quanto oportunidades para os resultados pretendidos (PMI, 2021). A satisfação de um patrocinador, por exemplo, depende diretamente da clareza na comunicação e do alinhamento das entregas, influenciando a viabilidade de colaborações futuras. No caso do projeto analisado, a identificação inicial das partes interessadas foi um passo crucial, englobando representantes da marca, diretores criativos, equipes de produção, profissionais de relações públicas, modelos, stylists, fotógrafos, maquiadores, costureiras e fornecedores.

Para estruturar o engajamento de forma estratégica, utilizou-se a técnica de mapeamento baseada na matriz de interesse e poder. Essa ferramenta permite classificar os atores de acordo com seu nível de autoridade e sua preocupação com os resultados do projeto (PMI, 2017). A análise revelou que, na iniciativa Tarsila Amarela, a maioria das partes interessadas possuía alto poder e um interesse que variava de médio a alto, visto que cada função desempenhada era essencial para a viabilidade do desfile. Além da posição na matriz, a gestão considerou fatores como atitude, expectativas e proximidade com o projeto para modular as interações e garantir a motivação contínua da equipe e dos parceiros.

Projetos criativos e independentes caracterizam-se por uma volatilidade inerente, enfrentando mudanças frequentes em orçamentos e concepções artísticas. Tais iniciativas beneficiam-se da integração de metodologias ágeis e do design thinking. A combinação dessas abordagens reduz as probabilidades de falha, pois o design thinking foca na compreensão profunda do problema e das necessidades dos usuários, enquanto as metodologias ágeis fornecem a estrutura operacional para entregas incrementais e feedbacks rápidos (Vukosav, 2021). No contexto do desfile, o foco no usuário — representado pelas partes interessadas — permitiu a criação de soluções alinhadas às expectativas, garantindo espaço para a inovação e para a adaptação rápida a imprevistos.

A aplicação do design thinking também facilitou a inclusão dos stakeholders no processo de definição do que constituiria uma prática sustentável relevante para o projeto. Ao adotar a cocriação, foi possível agregar valor desde as etapas iniciais, comunicando a sustentabilidade de forma orgânica e intuitiva para patrocinadores e público. Esse processo alinha-se ao conceito do tripé da sustentabilidade, que preconiza o equilíbrio entre os impactos econômicos, sociais e ambientais (Elkington, 1998). Este modelo serve como base para as práticas de governança ambiental, social e corporativa, sendo adotado por empresas que buscam associar suas marcas a valores éticos e responsáveis.

No pilar econômico, o projeto buscou o fortalecimento da imagem da marca WTNB, atraindo parceiros como Heineken, Nespresso Brasil e Senac Pindamonhangaba, que buscam associar suas identidades a práticas sustentáveis. No âmbito social, a iniciativa proporcionou oportunidades educacionais para estudantes de moda, que participaram da confecção das peças sob a orientação da designer, além de promover a diversidade na seleção do elenco. No aspecto ambiental, destacou-se a utilização de tecidos garimpados, o emprego de algodão regenerativo, a reutilização de materiais na cenografia e a criação de acessórios a partir de resíduos como garrafas de vidro recicladas e borra de café.

Para coletar dados sobre a experiência dos envolvidos, elaborou-se um questionário estruturado com base nos princípios do gerenciamento de projetos, abordagens ágeis e design thinking. O instrumento buscou identificar sucessos e falhas no gerenciamento criativo, além de avaliar a percepção sobre a importância da figura do gerente de projetos na concepção de eventos artísticos. O questionário foi distribuído de forma anônima para representantes de todas as áreas identificadas, garantindo uma visão holística do processo. Complementarmente, realizaram-se análises de comunicações internas, trocas de e-mails e repercussões na mídia especializada para triangular as informações obtidas.

A amostra de respondentes foi composta por 21 indivíduos, representando uma diversidade de funções, desde a diretoria de arte e relações públicas até fornecedores e convidados. Embora algumas áreas fossem compostas por apenas uma ou duas pessoas, garantiu-se que cada segmento tivesse ao menos um representante na pesquisa. Os resultados indicaram que os maiores sucessos do projeto residiram na incorporação de práticas sustentáveis como parte integrante do processo criativo, no equilíbrio alcançado entre a visão artística e a viabilidade técnica, e na inovação demonstrada tanto no conceito quanto na execução das atividades.

Um dado relevante aponta que 61,9% dos participantes perceberam de forma clara a implantação das práticas sustentáveis, o que resultou em uma melhoria direta na percepção e no engajamento com a marca. Esse índice reflete a eficácia da comunicação do valor agregado pela sustentabilidade, despertando o interesse de stakeholders em acompanhar a trajetória da marca a longo prazo. No que tange à criatividade na gestão, 83,3% dos respondentes avaliaram a abordagem como inovadora e eficiente, destacando a flexibilidade permitida para o desenvolvimento dos trabalhos individuais. A totalidade dos participantes afirmou ter sido incentivada a contribuir com ideias, evidenciando uma cultura de gestão colaborativa e participação ativa.

Entretanto, o alinhamento entre a gestão e as partes interessadas apresentou nuances importantes. Enquanto 52,3% dos envolvidos identificaram um alinhamento claro de expectativas, 47,7% relataram dificuldades pontuais em aspectos de comunicação e logística. Além disso, 33,3% dos participantes sugeriram que o envolvimento das partes interessadas poderia ter sido ainda mais intenso. Esses números reforçam a necessidade de um monitoramento rigoroso de atores com alto poder e alto interesse, cujas demandas complexas exigem uma atenção constante do gestor para evitar ruídos informacionais.

O principal desafio apontado pela maioria dos participantes foi a escassez de tempo e de recursos para o desenvolvimento pleno das ideias. Em projetos artísticos independentes, a limitação orçamentária é uma realidade onipresente, tornando o engajamento dos stakeholders e a organização administrativa ainda mais vitais. Sem a disposição das partes interessadas em fornecer recursos — sejam eles financeiros, materiais ou intelectuais — a execução do projeto torna-se inviável. A análise qualitativa das respostas abertas revelou que, para futuras edições, seria fundamental fortalecer as parcerias de patrocínio, garantindo que as empresas apoiadoras compreendam seu papel não apenas como financiadoras, mas como facilitadoras do processo artístico, evitando que o caixa da marca seja sobrecarregado.

Sugestões de melhoria também incluíram a escolha de locações que considerem melhor a escala das peças apresentadas e uma divisão de tarefas mais granular, com uma equipe de apoio expandida. Por outro lado, o público convidado expressou um alto nível de satisfação, não identificando necessidades de alteração na experiência proporcionada. As interações interpessoais e as devolutivas por e-mail confirmaram um clima organizacional positivo, caracterizado pela facilidade de comunicação e pela ausência de conflitos significativos entre os membros da equipe, o que contribuiu para o sucesso midiático e a entrega de materiais audiovisuais de alta qualidade.

A análise da repercussão na mídia corroborou o êxito do projeto. Veículos como FFW, Harper’s Bazaar e Metrópoles destacaram a união entre moda e arte, ressaltando o uso de denim regenerativo, botões criados a partir de resíduos de café e a recuperação têxtil. A sustentabilidade foi um tema recorrente em todas as matérias publicadas, demonstrando que o valor das práticas adotadas foi comunicado com precisão para os formadores de opinião. Esse apoio midiático é fundamental para fortalecer o discurso da marca, conferindo visibilidade e atraindo novos parceiros e comunidades interessadas em propostas de economia circular.

A integração entre a expertise da WTNB e de parceiros como a Nespresso Brasil exemplifica como o uso de materiais sustentáveis pode transformar o que seria o fim de um ciclo de consumo no início de um novo processo produtivo. A confecção de aviamentos a partir de resíduos industriais demonstra a viabilidade da moda circular quando há um gerenciamento criativo focado na inovação. O alcance das metas de comunicação e a percepção positiva dos stakeholders mais influentes indicam que o projeto conseguiu equilibrar suas ambições artísticas com responsabilidades socioambientais de forma eficaz.

A experiência das partes interessadas, coletada antes, durante e após o evento, mostrou-se diretamente vinculada ao êxito global da iniciativa. A adoção de metodologias que priorizam o valor entregue e a experiência humana permitiu minimizar os impactos das limitações financeiras. Ao convidar os atores envolvidos a participarem ativamente da construção de soluções, o gestor promove uma proximidade que gera um sentimento de pertencimento e coautoria, elementos essenciais para a sustentabilidade de marcas independentes no mercado contemporâneo.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que a criatividade aplicada ao gerenciamento de projetos artísticos e sustentáveis é um fator determinante para o sucesso institucional e artístico. A utilização de ferramentas estruturadas de gestão, como o mapeamento de stakeholders e a integração de metodologias ágeis com o design thinking, permitiu superar as restrições de recursos e transformar desafios operacionais em oportunidades de inovação. A análise do projeto Tarsila Amarela evidenciou que a sustentabilidade, quando tratada como um valor central e não apenas como um acessório discursivo, potencializa o engajamento das partes interessadas e fortalece a imagem da marca perante a sociedade e a mídia. A articulação entre criatividade, cocriação e responsabilidade socioambiental amplia o impacto cultural dos projetos, consolidando relações duradouras com patrocinadores e comunidades. O gerenciamento estratégico das partes interessadas, conduzido com sensibilidade artística e rigor técnico, abre caminhos para a evolução de iniciativas culturais independentes, promovendo um setor mais consciente, organizado e resiliente.

Referências Bibliográficas:

Association for Project Management (APM). 2019. APM Body of Knowledge. 7ed. APM. Buckinghamshire, England.

Brandão, Z. 2001. A dialética macro/micro na sociologia da educação. Cadernos de Pesquisa. N. 113. São Paulo, SP, Brasil.153-165.

E, John. 1998. Partnerships from Cannibals with Forks: The Triple Bottom Line of 21st-Century Business. Capstone Publishing Limited. UK.

Jankauskaité, D. 2014. Analysis of Stakeholder Management within Cultural Projects. Foundation of the Cracow University of Economics. Knowledge – Economy – Society: Problems of Management and Financing Economic Activity. Krakov, Poland. 97-108.

Pires, L.; Varajão, J. 2024. Creativity as a topic in project management – A scoping review and directions for research. Elsevier Ltd. Thinking Skills and Creativity. Vol. 51. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.tsc.2024.101477. Acesso em: 11 de outubro de 2024.

PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE (PMI). 2017. Guia do Conhecimento em Gerenciamento de Projetos (Guia PMBOK). 6ed. PMI. Pensilvânia, Estados Unidos.

PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE (PMI). 2021. Guia do Conhecimento em Gerenciamento de Projetos (Guia PMBOK). 7ed. PMI. Pensilvânia, Estados Unidos.

Vukosav, D. 2021. Como usar a abordagem design thinking para melhorar seu processo ágil. PMI. Pensilvânia, Estados Unidos. Disponível em: https://www.pmi.org/learning/library/2021/01/06/02/41/pt-design-thinking-melhorar-o-processo-agil-12877?. Acesso em: 10 de abril de 2025.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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