04 de maio de 2026
Gamificação no Engajamento de Stakeholders em Obras de Irrigação
João Pedro Kassab e Silva; Maria do Carmo Assis Todorov
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A indústria da construção civil constitui um pilar fundamental para o desenvolvimento econômico e humano, sendo caracterizada por um ambiente de alta complexidade, singularidade e mutabilidade que exige estratégias de gerenciamento rigorosas (Pereira e Azevedo, 2020). Dentro desse vasto setor, a implantação de sistemas de irrigação em jardins residenciais emerge como uma etapa crítica do paisagismo, demandando conhecimentos multidisciplinares que abrangem desde a hidráulica e elétrica até a botânica e o gerenciamento operacional. No contexto brasileiro, especificamente no estado de São Paulo, essa atividade enfrenta desafios estruturais significativos, como a escassez de mão de obra qualificada e o envelhecimento da população ocupada, o que dificulta a atração de novos talentos (SINDUSCON/SP, 2024). A realidade das obras de irrigação é marcada por uma força de trabalho onde mais de 50% dos envolvidos atuam na informalidade e a vasta maioria não possui formação superior, resultando em um conhecimento predominantemente empírico e transmitido de forma assistemática no canteiro de obras (SINDUSCON/SP, 2024).
Essa configuração setorial está profundamente alinhada às dinâmicas do neoliberalismo contemporâneo, que promove a ascensão da chamada economia sob demanda ou “Gig Economy”. Nesse modelo, o vínculo empregatício tradicional é substituído por relações de trabalho independentes, temporárias e muitas vezes mediadas por plataformas digitais, fenômeno frequentemente descrito como “uberização” (Camargo, Melo e Jacob, 2024). Embora tal dinâmica prometa autonomia e flexibilidade, ela transfere os riscos e custos operacionais integralmente para o trabalhador, que se vê desprovido de garantias trabalhistas mínimas e em um estado de disponibilidade permanente (Camargo et al., 2024). Paralelamente, observa-se o crescimento do contingente de jovens que não estudam e não trabalham, os denominados “nem-nem”, que representam cerca de 19,8% da população jovem brasileira (Shirasu e Arraes, 2019). A baixa atratividade do setor da construção, somada à discrepância entre o ensino teórico e as demandas práticas do mercado, agrava a dificuldade de engajamento desse grupo em ocupações braçais (Shirasu e Arraes, 2020).
Diante desse cenário de baixa retenção e desmotivação, a gamificação surge como uma ferramenta estratégica capaz de reinventar processos produtivos. A gamificação consiste na aplicação de elementos de design de jogos em contextos que não são jogos, visando aumentar o engajamento e a motivação intrínseca dos indivíduos ao focar na experiência humana em vez de apenas na eficiência funcional (Chou, 2019). Em projetos de irrigação, onde o trabalho é fisicamente exaustivo e realizado sob condições climáticas adversas, a aplicação de frameworks motivacionais pode transformar a percepção do trabalhador sobre suas tarefas, oferecendo caminhos de progressão e reconhecimento que mitigam a rotatividade. O gerenciamento eficaz das partes interessadas torna-se, portanto, o eixo central para garantir que os objetivos do projeto sejam atingidos em um ambiente volátil e competitivo (PMI, 2021).
A fundamentação metodológica para a estruturação de um framework de engajamento baseia-se na compreensão de que uma obra é um esforço temporário para criar um produto exclusivo, assemelhando-se diretamente à definição de projeto (PMI, 2021). A complexidade inerente a esses empreendimentos exige que a gestão não se limite aos aspectos técnicos, mas integre as expectativas de todos os atores envolvidos, desde o cliente financiador até o ajudante responsável pela abertura de valetas. A necessidade de inovação na gestão de pessoas na construção civil é urgente, especialmente para tornar o setor atrativo para a população subocupada, que em São Paulo representa 6% dos trabalhadores da indústria (SINDUSCON/SP, 2024). Assim, a integração entre a teoria da gestão de stakeholders e as mecânicas de gamificação propicia um ambiente de trabalho mais coeso e resiliente às pressões do mercado neoliberal.
Para a elaboração do framework proposto, adotou-se uma abordagem qualitativa de natureza aplicada, utilizando o método da pesquisa-ação. Este método permite que a investigação ocorra simultaneamente à intervenção prática, promovendo melhorias contínuas no processo analisado enquanto se aprofunda o conhecimento sobre o fenômeno (Thiollent, 2011). O objeto de estudo concentrou-se na implantação de sistemas de irrigação em jardins residenciais, analisando a atuação de técnicos, ajudantes, engenheiros, arquitetos e administradores. A empresa selecionada para o estudo possui 25 anos de atuação no mercado, o que proporcionou uma base histórica sólida para comparar os modelos tradicionais de contratação com as novas dinâmicas de trabalho autônomo que surgiram nos últimos cinco anos.
A coleta de dados foi estruturada em três pilares fundamentais: entrevistas semiestruturadas, observação participante e análise documental. Foram entrevistados três técnicos de irrigação, três ajudantes ativos e seis ex-ajudantes, totalizando 12 colaboradores diretos, além de clientes, paisagistas e empreiteiros. As entrevistas buscaram identificar motivações, expectativas e percepções sobre os demais atores do projeto. A observação participante ocorreu durante a execução de nove obras distintas, realizadas entre os meses de fevereiro e julho, em terrenos de médio porte variando entre 2.000 e 3.500 metros quadrados. Durante esse período, registrou-se minuciosamente o comportamento das equipes, as dificuldades operacionais e as interações entre os diferentes níveis hierárquicos. A análise documental complementou o processo, examinando relatórios de progresso, contratos e cronogramas utilizados antes e depois da implementação das estratégias de engajamento.
O detalhamento operacional da pesquisa-ação envolveu a criação de uma Estrutura Analítica do Projeto (EAP) específica para a irrigação, dividida em sete fases críticas: formalização do negócio, logística, comunicação, montagem da infraestrutura hidráulica, montagem da infraestrutura elétrica, montagem da casa de máquinas e acabamento. Cada uma dessas fases foi mapeada em um diagrama de Gantt para identificar os pontos de maior envolvimento de cada stakeholder. Com base nesse mapeamento, aplicou-se a matriz de poder versus interesse e a matriz de impacto versus influência. Essas ferramentas permitiram categorizar os atores e direcionar os esforços de gestão para aqueles com maior capacidade de afetar o sucesso da obra.
A etapa subsequente consistiu na aplicação do framework Octalysis, que decompõe a motivação humana em oito vetores principais, como significado épico, realização, empoderamento, posse, influência social, escassez, curiosidade e perda (Chou, 2016). Para cada categoria de stakeholder, formulou-se uma hipótese motivacional que gerou uma estratégia prática testada em campo. Por exemplo, para os ajudantes, a estratégia focou no vetor de realização e progressão de carreira, enquanto para os técnicos, o foco foi no equilíbrio entre recompensa financeira e responsabilidade pela qualidade. A eficácia dessas intervenções foi monitorada por meio de indicadores de desempenho (KPIs) específicos, como o número de faltas, a quantidade de retrabalho e o nível de satisfação do cliente ao término da obra.
O processo de análise das entrevistas revelou padrões distintos de engajamento. Os clientes, embora possuam alto poder por serem os financiadores, apresentam um interesse que oscila conforme o progresso visual da obra. Paisagistas e engenheiros demonstraram um engajamento técnico elevado, mas muitas vezes desconectado das dificuldades operacionais enfrentadas pelas equipes de campo. Já os ajudantes e empreiteiros foram identificados como atores de baixo interesse inicial, mas com alto potencial de impacto negativo caso não sejam devidamente gerenciados. Essa discrepância reforçou a necessidade de um framework que padronizasse a comunicação e criasse incentivos tangíveis para os níveis operacionais.
A execução das nove obras serviu como laboratório para o refinamento das hipóteses. Cada ciclo de intervenção começava com o alinhamento das expectativas na fase de formalização do negócio e terminava com uma avaliação pós-obra. A transição dos ajudantes para um modelo de contratação por obra, embora tenha aumentado a remuneração média, trouxe desafios de consistência nas práticas executadas, o que exigiu a criação de manuais visuais e relatórios de acompanhamento mais didáticos. A análise dos resultados permitiu não apenas validar a eficácia das estratégias de gamificação, mas também identificar limitações sistêmicas, como a sobrecarga de trabalho dos engenheiros responsáveis pela gestão de múltiplas frentes simultâneas.
Os resultados obtidos através da aplicação das matrizes estratégicas indicaram que o engenheiro e o cliente ocupam o quadrante de alto poder e alto interesse, sendo os principais decisores do projeto. O técnico de irrigação, por sua vez, possui um interesse elevado, pois a execução bem-sucedida é sua fonte direta de renda e reputação, mas seu poder de influência na concepção do projeto é limitado. Em contrapartida, os ajudantes e empreiteiros situam-se em uma zona de baixo interesse, focando-se predominantemente no cumprimento da jornada diária para garantir o recebimento do pagamento, o que os torna peças críticas que exigem monitoramento constante para evitar atrasos e desperdícios de materiais.
A análise detalhada da experiência do cliente, sob a ótica do framework Octalysis, revelou que sua motivação é alimentada pelo sentimento de posse e pela expectativa de ver o sistema funcionando. Durante as nove obras testadas, a implementação de relatórios semanais com ilustrações visuais do progresso reduziu significativamente o número de cobranças ansiosas direcionadas à administração. No entanto, observou-se que em obras com complicações técnicas severas, a eficácia desses relatórios diminuiu, pois a pressão pelo término do serviço sobrepôs-se à necessidade de informação. A modernização do documento de entrega, transformando-o em um guia didático com design intuitivo, resultou em um alto índice de satisfação, permitindo que o cliente sentisse maior domínio sobre a tecnologia adquirida e reforçando o vetor de influência social ao compartilhar o resultado com terceiros.
Para o corpo administrativo da empresa, a hipótese testada foi de que o aumento na frequência das trocas de informações reduziria a necessidade de buscas constantes por dados dispersos. A estratégia de realizar reuniões semanais de alinhamento, em substituição às quinzenais, reduziu o volume de ligações e mensagens urgentes. Contudo, essa mudança gerou um efeito colateral de sobrecarga na agenda dos engenheiros e arquitetos, que precisaram reorganizar suas atividades de campo para atender à demanda burocrática. Esse resultado evidencia que o engajamento administrativo depende de um equilíbrio delicado entre a disponibilidade de informação e a capacidade operacional de processá-la sem comprometer a execução técnica.
No que tange aos engenheiros e arquitetos, as motivações são complexas e envolvem desde o fechamento do negócio até a realização profissional com a entrega final. A estratégia de criar um montante financeiro previsto para lidar com perdas de peças e retornos em obras mostrou-se altamente eficaz. Ao compartilhar a sobra desse montante com o técnico de irrigação caso a obra fosse finalizada sem desperdícios, criou-se um incentivo direto para a atenção aos detalhes. Os técnicos passaram a ser mais criteriosos na conferência de materiais e na execução de conexões hidráulicas, reduzindo drasticamente o índice de retrabalho. Entretanto, essa medida elevou a competição interna, gerando em alguns casos um clima de ressentimento entre colegas quando as metas de economia não eram atingidas de forma equânime.
O engajamento dos técnicos de irrigação é movido primordialmente pela necessidade financeira e pela curiosidade em atuar em diferentes ambientes. A aplicação da componente de maior remuneração vinculada à qualidade da obra mitigou a ansiedade desses profissionais em finalizar o serviço rapidamente para iniciar o próximo contrato. Observou-se que, ao se sentirem parceiros nos resultados financeiros, os técnicos assumiram uma postura mais proativa na resolução de problemas em campo, evitando repassar decisões simples para a engenharia. Essa mudança de comportamento é fundamental em um contexto de “uberização”, onde a autonomia deve vir acompanhada de responsabilidade técnica para garantir a sustentabilidade do modelo de negócio.
A categoria dos ajudantes apresentou os resultados mais expressivos e transformadores. Identificados inicialmente como o grupo de menor motivação, os ajudantes frequentemente enxergam o trabalho pesado como uma ocupação temporária e sem perspectivas. A estratégia implementada consistiu na criação de um sistema progressivo de carreira baseado na EAP do projeto. O plano previa que, após completar ciclos de 150 dias em cada etapa (abertura de valetas, montagem hidráulica, montagem elétrica e acabamento), o ajudante estaria apto a liderar sua própria equipe como técnico. Durante o período de avaliação, não houve registro de faltas nas três equipes analisadas. Os ajudantes demonstraram um entusiasmo renovado ao perceberem que o esforço braçal era um investimento em sua própria formação profissional, e não apenas uma tarefa repetitiva.
A discussão desses dados à luz da teoria neoliberal revela que a gamificação pode atuar como um contraponto às precarizações da “Gig Economy”. Ao oferecer uma estrutura de progressão e recompensas que mimetiza a estabilidade de uma carreira tradicional, o framework consegue atrair e reter trabalhadores que, de outra forma, abandonariam o setor. A redução da rotatividade de ajudantes tem um impacto direto na eficiência operacional, pois diminui o tempo gasto com treinamento de novos funcionários e aumenta a coesão da equipe. A análise das entrevistas com ex-ajudantes corroborou essa visão, pois muitos relataram que deixaram a área justamente pela percepção de que não havia espaço para crescimento ou aprendizado além das tarefas mais básicas e exaustivas.
As limitações identificadas durante a pesquisa-ação, como a sobrecarga administrativa e a competição excessiva entre técnicos, sugerem que o framework deve ser aplicado com flexibilidade e ajustes constantes. A gestão de stakeholders em obras de irrigação não é um processo estático, mas uma negociação contínua de interesses em um ambiente de alta pressão. A utilização de indicadores de desempenho permitiu uma visão objetiva da eficácia das estratégias, mas a percepção subjetiva dos colaboradores, captada nas observações participantes, foi o que realmente permitiu entender as nuances da motivação humana no canteiro de obras. A integração de dados quantitativos e qualitativos consolidou a robustez do framework proposto.
A implicação prática desses resultados para o setor da construção civil é vasta. O modelo testado nas obras de irrigação pode ser replicado em outras especialidades que sofrem com a informalidade e a falta de mão de obra jovem. Ao transformar a jornada de trabalho em uma experiência de aprendizado estruturada e gamificada, as empresas podem mitigar os efeitos negativos da “uberização” e criar um diferencial competitivo na atração de talentos. A sustentabilidade social do setor depende da capacidade das organizações em oferecer não apenas salários competitivos, mas também significado e perspectivas de futuro para todos os níveis da hierarquia produtiva.
Conclui-se que o objetivo foi atingido por meio do desenvolvimento e da validação de um framework que integra a gestão estratégica de partes interessadas e mecânicas de gamificação, resultando em melhorias tangíveis no engajamento e na eficiência operacional de projetos de irrigação. A pesquisa demonstrou que a aplicação de matrizes de poder e interesse, aliada à estrutura Octalysis, permite identificar as motivações intrínsecas de cada ator, possibilitando intervenções personalizadas que reduzem a rotatividade e o retrabalho. O sistema de progressão de carreira para ajudantes e os incentivos financeiros vinculados à qualidade para técnicos mostraram-se ferramentas eficazes para enfrentar os desafios da precarização do trabalho no cenário neoliberal. Embora o período de avaliação tenha sido limitado a nove obras, os achados indicam que a humanização dos processos de gestão e a clareza nas expectativas de crescimento são fundamentais para a sustentabilidade econômica e social da construção civil. Recomenda-se que futuras investigações ampliem o tempo de monitoramento dos indicadores para avaliar a perenidade dos resultados e explorem a automação dos relatórios visuais para reduzir a carga administrativa sobre o corpo de engenharia.
Referências Bibliográficas:
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Chou, Y. K. 2019. Actionable gamification: Beyond points, badges, and leaderboards. Packt Publishing Ltd, Birmingham, Reino Unido.
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Pereira, L. L. e Azevedo B. F. 2020. O Impacto da Pandemia na Construção Civil: O Papel da Gestão no Cenário Atual. Revista Boletim do Gerenciamento. 20(20): 71-80.
Project Management Institute (PMI). 2021. Um Guia do Conhecimento em Gerenciamento de Projetos (Guia PMBOK®) – 7ª ed. Newtown Square, PA, EUA: Project Management Institute.
Shirasu, M. R. e Arraes, R. A. 2019. Decisão dos Jovens Brasileiros: trabalhar e/ou estudar ou nem-nem. Pesquisa e Planejamento Econômico – PPE. 49(02): 97-130.
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Sindicato da Indústria e da Construção Civil de Grandes Estruturas no Estado de São Paulo (SINDUSCON/SP). 2024. Caracterização do perfil socioeconômico da mão de obra do setor da construção civil brasileira e paulista. Disponível em: https://sindusconsp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/v3-Perfil-da-Mao-de-Obra-da-construcao-VF-1-2.pdf. Acesso em: 25 out. 2024.
Thiollent, M. 2011. Metodologia da pesquisa-ação.18ed. Cortez: São Paulo, SP, Brasil.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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