Resumo Executivo

21 de maio de 2026

Estratégia de meia rota na otimização do last-mile

Paola Moraes de Souza; Felipe Miranda de Souza Almeida

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O cenário do comércio eletrônico no Brasil atravessa uma fase de transformação profunda, impulsionada pela aceleração tecnológica e pela mudança nos hábitos de consumo que priorizam a praticidade e a conectividade. Estima-se que o mercado digital brasileiro apresente um salto expressivo, saindo de um patamar de 349 bilhões de reais em 2023 para atingir 557 bilhões de reais até o ano de 2027, o que representa um crescimento projetado de 59,6% (Vicente, 2025). Esse avanço supera o desempenho do varejo tradicional e coloca a logística em uma posição estratégica central, uma vez que a eficiência na entrega é o fator determinante para garantir que os produtos cheguem aos consumidores com a pontualidade e a qualidade exigidas (Fuertes, 2024). A jornada de um produto adquirido on-line é complexa e envolve múltiplas etapas, iniciando-se no armazenamento, passando pelos processos de separação e embalagem, conhecidos como picking e packing, e percorrendo diversos centros de distribuição até chegar à unidade responsável pela entrega final ao destinatário. Essa última etapa, tecnicamente denominada last-mile ou última milha, é reconhecida como a fase mais crítica e desafiadora de toda a cadeia de suprimentos (Move Ideias, 2024).

A relevância da última milha reside no fato de que ela representa o ponto de contato direto com o cliente e, simultaneamente, o nível menos eficiente da logística, concentrando, em média, 28% do custo total de transporte (Ranieri et al., 2018). Embora seja a etapa mais onerosa, ela é fundamental para a sustentabilidade do modelo de negócio no comércio eletrônico, exigindo que as empresas busquem constantemente a otimização de seus processos para manter a rentabilidade sem comprometer o nível de serviço (Mangiaracina et al., 2019). A complexidade dessa fase é acentuada por variáveis urbanas como o tráfego intenso, as restrições de estacionamento, as distâncias percorridas e as exigências específicas dos consumidores, que demandam janelas de entrega cada vez mais curtas (Boysen et al., 2021). Diante desse contexto, o gerenciamento eficiente dos custos logísticos torna-se um diferencial competitivo indispensável para a fidelização do cliente. A aplicação de conceitos de gerenciamento de projetos, incluindo o planejamento detalhado e o monitoramento contínuo, permite estruturar operações mais resilientes e sustentáveis (Martins e Laugeni, 2022). Uma abordagem estratégica baseada na otimização de rotas surge como uma solução eficaz para minimizar o consumo de combustível, elevar a produtividade da frota e aprimorar o cumprimento dos prazos estabelecidos (TOTVS, 2023). O objetivo deste estudo concentra-se na análise detalhada da etapa de entrega last-mile em uma empresa de logística de médio porte, visando a proposição de melhorias operacionais que garantam a eficiência e a qualidade do processo.

Para a execução deste estudo, adotou-se a metodologia de pesquisa-ação, que se mostra adequada para investigar fenômenos contemporâneos dentro de seu contexto real, permitindo uma análise profunda das variáveis envolvidas e a intervenção direta para a melhoria do processo (Gil, 2002). A abordagem metodológica foi qualitativa, sustentada por uma robusta coleta de dados quantitativos, o que possibilitou a mensuração precisa de indicadores e a realização de comparações objetivas entre diferentes cenários operacionais (Denzin, 2006). A empresa analisada opera no segmento de e-commerce e gerencia sua própria logística, realizando a expedição diária de aproximadamente 4500 pacotes a partir de seu centro de distribuição localizado em Sumaré, no estado de São Paulo. O atendimento abrange quatro cidades principais do interior paulista: Campinas, Indaiatuba, Jundiaí e Bragança Paulista. A frota operacional é composta por 50 motoristas ativos que trabalham de forma contínua. O foco da análise concentrou-se na cidade de Campinas, que detém 31% do volume total de vendas da empresa e apresenta um perfil urbano diversificado, com alta concentração de estabelecimentos comerciais e residenciais, o que impõe desafios logísticos significativos como congestionamentos e dificuldades de acesso a condomínios.

O estudo foi estruturado em um período de duas semanas. Na primeira semana, realizou-se o diagnóstico do modelo de roteirização atual. Os dados operacionais foram coletados por meio de um formulário on-line preenchido diariamente pelos 20 motoristas que atuam na região de Campinas ao final de cada jornada. Simultaneamente, utilizou-se o sistema de gerenciamento de transporte da empresa, o Transportation Management System, para validar as informações e garantir a integridade dos registros. Os indicadores-chave de desempenho, conhecidos como KPIs, incluíram o tempo total de rota, que compreende o intervalo entre a saída do centro de distribuição e a conclusão da última entrega; a quantidade de pacotes entregues por veículo; e a métrica de tempo por pacote, que indica a produtividade individual durante o período de entrega efetiva. Além dos indicadores operacionais, aplicou-se um formulário focado em rentabilidade para identificar as principais despesas dos motoristas, como combustível e manutenção veicular, e os valores pagos pela empresa por cada diária realizada. Com base nesse diagnóstico, propôs-se um novo formato de roteirização para a segunda semana, avaliando a proximidade geográfica entre os locais de entrega e a viabilidade de expansão das rotas existentes.

A análise dos dados da primeira semana revelou que a operação atual é executada por motoristas experientes, sendo que 65% deles realizam a mesma rota há mais de um ano, o que confere um conhecimento consolidado sobre a região atendida. A jornada de trabalho inicia-se às 06:00 com o carregamento dos veículos, e as saídas ocorrem até às 07:00. Em média, os motoristas trabalham seis horas por dia, finalizando suas atividades por volta das 13:00, dentro do horário comercial que se estende até às 18:00. O volume médio de entregas registrado foi de 69,8 pacotes por motorista, com um tempo médio de 5,3 minutos por pacote entregue. No entanto, observou-se uma variação significativa nesse indicador, oscilando entre 3,6 e 11,3 minutos, dependendo das características da região, como a predominância de prédios com portaria centralizada ou bairros residenciais que exigem a entrega ponto a ponto. O custo operacional para a empresa nesse modelo fixo foi de 230 reais por diária, resultando em um custo médio de 3,30 reais por pacote entregue.

Identificou-se uma oportunidade de otimização através da implementação da estratégia denominada meia rota. Essa proposta consiste em aproveitar o tempo ocioso dos motoristas que finalizam suas rotas precocemente e o deslocamento já realizado até a região de destino para incluir um incremento de carga. O modelo sugerido prevê a adição de 25 a 45 pacotes por veículo, o que representa um aumento de 40% a 60% no volume de uma rota convencional. Essa definição baseou-se na capacidade média de entregas por hora e no tempo de trabalho ainda disponível até o fim da jornada comercial. Na simulação desse cenário, a média de pacotes entregues por dia saltou para 100,2, enquanto a jornada de trabalho foi estendida para uma média de 9,2 horas. Com o início do percurso às 07:00, os motoristas passariam a finalizar as entregas por volta das 16:00, permanecendo dentro do limite estabelecido de 18:00. O tempo médio por pacote apresentou um leve incremento, situando-se em 5,5 minutos, o que é natural dado o período de adaptação ao novo volume de trabalho.

A comparação entre o modelo original e a proposta de meia rota demonstrou um acréscimo de 43,6% na ocupação dos veículos, o que equivale a um incremento real de 30,4 pacotes por motorista. Do ponto de vista da eficiência da frota, essa mudança permitiria realizar o mesmo volume total de entregas na cidade de Campinas com apenas 14 motoristas, em vez dos 20 utilizados anteriormente, representando uma redução de 30% na frota necessária. Essa constatação está em harmonia com as teorias de logística urbana que defendem a agregação de entregas em regiões próximas como uma prática essencial para enfrentar os desafios da última milha (Daganzo, 2005). A otimização não apenas reduz o número de veículos em circulação, contribuindo para a sustentabilidade urbana, mas também ataca diretamente a ociosidade operacional detectada na primeira fase do estudo.

Sob a ótica financeira, a transição para o modelo de meia rota exige uma mudança na estrutura de remuneração para garantir a motivação dos motoristas e a viabilidade do negócio. No modelo atual, o gasto diário da empresa com os 20 motoristas em Campinas é de 4600 reais para a entrega de 1396 pacotes. Na proposta de remuneração variável, sugeriu-se o pagamento de 2,00 reais por cada pacote adicional entregue na meia rota, além da base já existente. Na simulação para a entrega de 1403 pacotes, o custo total para a empresa seria reduzido para 4172 reais, atingindo um custo de 2,97 reais por pacote. Isso representa uma economia diária de 428 reais e uma redução de 9,8% no custo unitário por entrega. Para o motorista, o impacto é positivo, pois seu faturamento médio diário passaria de 230 reais para aproximadamente 298 reais, um aumento de 29,6% na renda. Considerando um mês com 26 dias trabalhados, o faturamento mensal do entregador poderia atingir 7748 reais, um incremento de 1768 reais em relação ao modelo anterior.

A discussão dos resultados evidencia que a maior parte das despesas dos motoristas está concentrada no consumo de combustível, que representa 70% dos custos, seguido pela manutenção veicular com 25% e pedágios com 5%. Como a estratégia de meia rota foca em entregas em regiões adjacentes às rotas já percorridas, o aumento na quilometragem não é proporcional ao aumento no volume de pacotes, o que torna o deslocamento muito mais eficiente. A redução do custo por pacote é uma estratégia fundamental para a competitividade no e-commerce, conforme apontado por Ballou (2006), que destaca a roteirização eficiente como um pilar para a redução de custos na distribuição urbana. Além disso, a valorização do trabalho do motorista por meio de uma remuneração atrelada à performance tende a melhorar a qualidade do serviço prestado e a retenção desses profissionais, que possuem um conhecimento geográfico valioso para a operação.

A implementação dessa melhoria operacional também traz implicações para a gestão de projetos dentro da organização. O uso de ferramentas de monitoramento e a análise constante de indicadores permitem que a empresa identifique gargalos em tempo real. Um ponto de atenção identificado para pesquisas futuras é a necessidade de integrar dados de quilometragem percorrida de forma mais precisa, uma vez que essa variável reflete diretamente o desgaste do veículo e o consumo de combustível. Outro fator relevante é a análise da densidade de entregas em outras cidades atendidas pela empresa, pois regiões com menor densidade podem não apresentar o mesmo potencial de ganho com a estratégia de meia rota. A padronização dos processos de coleta de dados via sistemas digitais é essencial para evitar vieses e garantir que a tomada de decisão seja baseada em evidências sólidas (PMI, 2021).

A análise detalhada do last-mile em Campinas demonstrou que a otimização de rotas não é apenas uma questão técnica de geolocalização, mas um desafio de gestão que envolve o equilíbrio entre produtividade, custos operacionais e satisfação dos colaboradores. A transição de um modelo de rotas fixas e subutilizadas para um modelo dinâmico e denso permite que a empresa absorva o crescimento do volume de vendas projetado para os próximos anos sem a necessidade de expansão imediata da frota. Isso reforça a importância do planejamento logístico estratégico para a sustentabilidade do negócio no longo prazo (Prestex, 2023). A combinação de análise de dados, conhecimento do território e aplicação de conceitos de eficiência operacional possibilita não apenas ganhos financeiros, mas também uma melhoria na experiência final do consumidor, que recebe seus produtos de forma mais ágil e confiável.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise da etapa de entrega last-mile permitiu identificar ineficiências no modelo atual e propor uma alternativa viável de otimização de rotas. A implementação da estratégia de meia rota demonstrou ser capaz de reduzir o custo por pacote em 9,8% para a empresa, ao mesmo tempo em que possibilita um aumento de 29,6% na remuneração dos motoristas. A redução de 30% na frota necessária para o mesmo volume de entregas comprova a eficácia da agregação de carga em regiões próximas para elevar a produtividade operacional. O estudo reforça que o planejamento estratégico e o monitoramento contínuo de indicadores são fundamentais para garantir a rentabilidade e a competitividade no dinâmico mercado do comércio eletrônico brasileiro.

Referências Bibliográficas:

BALLOU, R. H. Gerenciamento da cadeia de suprimentos: planejamento, organização e logística empresarial. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2006. Acesso em: 6 jul. 2025.

BOYSEN, N.; DORNDORF, U.; SCHOLL, A. Last-mile delivery: a survey on innovative transportation concepts. European Journal of Operational Research, v. 293, n. 3, p. 802–817, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ejor.2020.11.023. Acesso em: 3 maio 2025.

DAGANZO, C. F. Logistics Systems Analysis. 4. ed. New York: Springer, 2005. Acesso em: 6 jul. 2025.

DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. Acesso em: 6 jul. 2025.

FUERTES. Logística e e-commerce: as demandas do mercado online. 2024. Disponível em: https://pointsistemas.com.br/logistica-e-ecommerce/. Acesso em: 29 jun. 2025.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

MANGIARACINA, R.; PEREGO, A.; SEGHEZZI, A.; TUMINO, A. Soluções inovadoras para aumentar a eficiência da entrega de última milha no comércio eletrônico B2C: uma revisão de literatura. International Journal of Physical Distribution & Logistics Management, v. 49, n. 9, p. 901–920, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1108/IJPDLM-02-2019-0048. Acesso em: 3 maio 2025.

MARTINS, P. G.; LAUGENI, F. P. Administração da Produção. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2022. Disponível em: https://pt.slideshare.net/slideshow/administrao-da-produo-petronio-g-martins-fernando-p-laugenipdf/254154541.

MOVE IDEIAS. Etapas no processo do ciclo de pedidos na Logística: do recebimento até a entrega ao cliente final. 2024. Disponível em: https://moveideias.com.br/etapas-do-processo-do-ciclo-de-pedidos-na-logistica-do-recebimento-ate-a-entrega-ao-cliente-final/. Acesso em: 29 jun. 2025.

PMI – Project Management Institute. Guia PMBOK® – Um Guia do Conjunto de Conhecimentos em Gerenciamento de Projetos. 7. ed. Newtown Square, PA: PMI, 2021.

PRESTEX. Planejamento logístico: entenda sua importância e como fazer. Blog Prestex, 2023. Disponível em: https://www.prestex.com.br/blog/planejamento-logistico/. Acesso em: 29 jun. 2025.

RANIERI, L.; DIGIESI, S.; SILVESTRI, B.; ROCCOTELLI, M. Uma revisão das inovações em logística de última milha em uma visão de redução de custos de externalidades. Sustainability, v. 10, n. 3, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.3390/su10030782. Acesso em: 3 maio 2025.

TOTVS. Logística para e-commerce: importância e principais desafios. Blog TOTVS, 2023. Disponível em: https://www.totvs.com/blog/gestao-logistica/logistica-para-e-commerce. Acesso em: 29 jun. 2025.

VICENTE, Â. O impulso do e-commerce no Brasil: perspectivas até 2027. 2025. Disponível em: https://www.ecommercebrasil.com.br/artigos/o-impulso-do-e-commerce-no-brasil-perspectivas-ate-2027. Acesso em: 3 maio 2025.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Quem editou este artigo

Mais recentes

Você também pode gostar

Quer ficar por dentro das nossas últimas publicações? Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade