Resumo Executivo

21 de maio de 2026

Divulgação Científica em Startups: Da Tecnologia ao Valor de Mercado

Priscila Gomes Barcellos; Milene Rocha Lourenço Leitzke

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

No atual cenário econômico global, as startups emergem como agentes fundamentais da inovação e do desenvolvimento tecnológico, sendo caracterizadas pela busca de modelos de negócios repetíveis e escaláveis em ambientes de incerteza elevada. No entanto, a transição de uma descoberta científica realizada em ambiente acadêmico para um produto comercializável exige mais do que excelência técnica; demanda uma comunicação capaz de transpor as barreiras do conhecimento especializado. A eficácia comunicacional nessas organizações não se limita à mera transmissão de dados, mas envolve a habilidade de traduzir mensagens de forma clara e objetiva para garantir a compreensão e o engajamento de diferentes públicos. Conforme aponta Bucchi (2013), o estilo na comunicação científica desempenha um papel determinante na percepção pública da ciência, influenciando como as inovações são recebidas pela sociedade. Para as startups de base tecnológica, esse desafio é acentuado pela natureza altamente especializada de seus produtos, o que pode criar um distanciamento entre a proposta de valor da empresa e a percepção de investidores e consumidores finais.

A divulgação científica assume, portanto, uma função estratégica ao democratizar o acesso ao conhecimento e reduzir as barreiras de linguagem entre a comunidade técnica e o mercado. Marandino e Santos (2020) destacam que a apropriação social do conhecimento científico depende de práticas que traduzam conteúdos complexos sem comprometer a precisão das informações. No ambiente das startups, essa prática é essencial para que descobertas inovadoras sejam valorizadas fora dos laboratórios. A construção de uma imagem institucional sólida e credível é fundamental para a sobrevivência em mercados competitivos, e a transparência proporcionada por uma comunicação acessível facilita a percepção do impacto social das inovações. Esse aspecto é cada vez mais valorizado por investidores que adotam critérios ambientais, sociais e de governança, conhecidos pela sigla ESG, conforme discutido por Lima (2020). A integração da divulgação científica aos planos de negócios, desde as fases iniciais, torna-se uma necessidade para garantir a sustentabilidade e o crescimento organizacional.

A comunicação estratégica em startups deve ir além da simples exposição de dados técnicos, abrangendo ações que construam a marca e promovam a diferenciação competitiva. Sousa (2021) argumenta que as barreiras comunicacionais em empresas de base científica muitas vezes decorrem de uma subestimação do papel estratégico da comunicação por parte dos fundadores, que tendem a priorizar o desenvolvimento operacional. A utilização de ferramentas como o storytelling e materiais visuais é apontada como uma forma eficaz de equilibrar a complexidade técnica com o apelo emocional necessário para o engajamento. Barreto e Souza (2021) evidenciam que o uso de canais digitais contribui significativamente para a construção da reputação da startup, desde que a linguagem seja adaptada ao perfil de cada público. A percepção de valor, definida por Keller (2017) como a avaliação subjetiva dos benefícios em relação aos custos percebidos, está diretamente ligada à capacidade da empresa de comunicar seu potencial de inovação de forma convincente.

Para investigar as estratégias de comunicação e seu impacto, este estudo utilizou um levantamento de campo do tipo survey, caracterizando-se como uma pesquisa aplicada com objetivos exploratórios e descritivos. A metodologia foi desenhada para captar as nuances da percepção de diferentes perfis de público em relação à clareza e acessibilidade das informações transmitidas por startups científicas. A coleta de dados foi estruturada por meio de questionários disponibilizados para três grupos distintos, segmentados pelo nível de conhecimento prévio sobre ciência e tecnologia. O primeiro grupo, denominado público especializado, foi composto por profissionais diretamente ligados às áreas de ciência e tecnologia, como cientistas e engenheiros, com o objetivo de avaliar o rigor e a precisão técnica das mensagens. O segundo grupo incluiu indivíduos familiarizados com temas científicos, possuindo conhecimento básico ou intermediário, mas sem formação especializada. O terceiro grupo consistiu no público leigo, representando consumidores e investidores sem background técnico, cuja percepção é crucial para avaliar a eficácia da tradução do conhecimento científico para o mercado.

O instrumento de coleta de dados foi composto por 13 questões, abrangendo variáveis quantitativas e qualitativas. Foram incluídas perguntas fechadas para mensurar o grau de clareza, o interesse despertado pelo conteúdo e a percepção sobre o uso de termos técnicos. Além disso, utilizou-se a métrica do Net Promoter Score para avaliar a probabilidade de recomendação da startup, servindo como um indicador da lealdade e do engajamento gerado pela comunicação. As perguntas abertas permitiram que os participantes fornecessem feedbacks detalhados sobre o que mais chamou a atenção e o que poderia ser melhorado na forma como a startup se comunica. A análise dos dados quantitativos seguiu os preceitos de Field (2013), utilizando estatística descritiva para identificar tendências centrais e variações na percepção entre os grupos. Para os dados qualitativos, aplicou-se a técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2011), permitindo a categorização das respostas e a identificação de padrões relacionados às barreiras de compreensão.

O processo operacional da pesquisa envolveu a distribuição digital do formulário, garantindo o anonimato dos respondentes e a diversidade da amostra. A segmentação dos participantes foi validada logo no início do questionário, onde cada indivíduo se autoidentificou em um dos três grupos propostos. Essa etapa foi fundamental para garantir que as análises subsequentes refletissem fielmente as discrepâncias de percepção baseadas no nível de conhecimento técnico. A utilização de uma abordagem mista, integrando elementos qualitativos e quantitativos, proporcionou uma visão abrangente do fenômeno estudado, conforme sugerido por Creswell e Plano Clark (2018). A escolha por esse desenho metodológico justifica-se pela necessidade de não apenas quantificar a insatisfação ou clareza, mas também compreender as razões subjacentes às dificuldades de interpretação enfrentadas pelo público não especializado.

Os resultados obtidos revelaram uma predominância de participantes na faixa etária entre 25 e 44 anos, perfil considerado economicamente ativo e estratégico para a tomada de decisão em investimentos e consumo de tecnologia. Em relação à percepção da clareza da comunicação, os dados demonstraram uma divisão nítida: enquanto os especialistas avaliaram as mensagens de forma positiva, o público leigo apresentou altos índices de dificuldade. Especificamente, 33,3% dos respondentes do grupo leigo classificaram a comunicação como nada clara. Ao somar as percepções negativas, observa-se que 44,4% desse público encontrou sérias barreiras para compreender a mensagem transmitida. Esse achado corrobora as discussões de Carvalho e Silva (2021) sobre os desafios da acessibilidade na divulgação científica, indicando que o excesso de rigor técnico muitas vezes ocorre em detrimento da clareza necessária para o público geral.

A análise da acessibilidade ao conteúdo reforçou essa tendência, com o público leigo avaliando a comunicação como pouco ou nada acessível. A principal causa identificada para essa baixa acessibilidade foi o uso excessivo de jargões e tecnicismos. Os dados indicam que 66,6% dos leigos identificaram o uso de termos técnicos como uma barreira, sendo que 33,3% reportaram a presença de muitos termos técnicos e outros 33,3% notaram alguns termos que dificultaram a compreensão. Apenas 11,1% dos participantes desse grupo consideraram a linguagem simplificada. Essa falha na simplificação do discurso cria uma barreira de entrada, transformando a comunicação, que deveria ser uma ferramenta de engajamento, em um fator de exclusão. Conforme discutido por Lima e Castro (2022), a incapacidade de traduzir a ciência em valor compreensível compromete a estratégia de marketing e limita o potencial de aceitação do produto no mercado.

O impacto dessa falha na comunicação foi mensurado de forma objetiva através do Net Promoter Score. A pesquisa revelou que 33,3% dos respondentes atribuíram a nota 7 para a probabilidade de indicar a startup, o que os classifica como passivos. De acordo com a metodologia de Reichheld (2003), os passivos são indivíduos satisfeitos, mas não leais, que podem ser facilmente atraídos pela concorrência. No contexto deste estudo, a alta incidência de notas 7 sugere que, embora a inovação tecnológica possa ser percebida como interessante, a barreira comunicacional impede que o público se torne promotor entusiasmado da marca. A dificuldade em converter o potencial tecnológico em uma narrativa inclusiva transforma o que seria uma vantagem competitiva em um risco de comunicação, afetando a sustentabilidade organizacional a longo prazo.

A avaliação sobre a capacidade de atrair investidores consolidou as conclusões sobre a ineficácia das estratégias atuais para públicos não técnicos. Apenas 33,3% dos respondentes afirmaram com clareza que a comunicação da startup seria capaz de atrair investimentos. A resposta mais frequente foi talvez, com 44,4%, enquanto 22,2% não souberam opinar. A predominância de incerteza, totalizando 66,6% da amostra, evidencia que a comunicação falha em gerar o convencimento necessário no ambiente de captação de recursos. Em cenários de alta incerteza, o investidor busca propostas de valor nítidas e vantagens competitivas evidentes, conforme Porter e Barnes (2018). Quando a mensagem é sobrecarregada de tecnicismos, a percepção de risco aumenta, dificultando a viabilização financeira de projetos inovadores.

Os feedbacks qualitativos coletados reforçaram a necessidade urgente de adaptação da linguagem. Participantes do grupo leigo sugeriram que tornar a linguagem o mais simples possível ajudaria a ampliar o alcance da empresa, demandando maior facilidade e simplicidade nos termos técnicos. Expressões como nada acessível e narrativa mais inclusiva foram recorrentes nas respostas abertas, indicando uma desconexão entre o repertório da startup e o de seus stakeholders. Por outro lado, os participantes com conhecimento intermediário ressaltaram que, quando a comunicação consegue mostrar o impacto social da tecnologia, a confiança e a credibilidade aumentam. Essa divergência de percepção evidencia a importância da segmentação: o que satisfaz o especialista não é adequado para o leigo. Martins e Alves (2021) defendem que a adaptação da linguagem é uma premissa para a inclusão e para a eficácia da comunicação estratégica em ambientes de inovação.

A discussão dos resultados aponta para o fato de que a comunicação científica em startups não pode ser uniforme. É necessário modular o discurso de acordo com o interlocutor, utilizando o rigor técnico para pares e especialistas, mas adotando metáforas, analogias e storytelling para investidores e consumidores. A pesquisa demonstra que a clareza não é apenas um detalhe estético, mas uma condição essencial para a percepção de valor. A ineficácia comunicacional identificada nos grupos não especializados compromete a construção de pontes entre o conhecimento técnico e a sociedade, dificultando a democratização da ciência. Pereira (2022) alerta que a carência de estratégias sólidas de divulgação voltadas ao consumidor final é uma lacuna comum no ecossistema de startups, o que pode resultar em perda de oportunidades estratégicas e financeiras.

As limitações deste estudo incluem o tamanho da amostra e a concentração em perfis específicos, o que sugere a necessidade de pesquisas futuras que ampliem a amostragem e testem diferentes formatos de conteúdo, como vídeos explicativos e infográficos interativos. A comparação entre startups de diferentes setores também poderia fornecer insights sobre como a complexidade inerente a cada área afeta a comunicação. No entanto, os dados apresentados são suficientes para afirmar que a tradução conceitual é um pilar indispensável para o sucesso comercial de empresas de base tecnológica. A comunicação deve ser entendida como um processo contínuo de aprendizado e adaptação, integrado à cultura organizacional para garantir que a inovação seja não apenas desenvolvida, mas também compreendida e adotada pelo mercado.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise demonstrou que as startups de base científica enfrentam dificuldades críticas na tradução de suas inovações para públicos não especializados, resultando em baixa clareza e incerteza entre potenciais investidores. A discrepância entre a percepção de especialistas e leigos evidencia que o uso excessivo de termos técnicos atua como uma barreira à acessibilidade, refletindo-se em um elevado índice de participantes passivos e em uma atratividade de capital comprometida. A eficácia da comunicação estratégica nessas organizações depende obrigatoriamente da segmentação de público e da adoção de práticas de divulgação científica que priorizem a clareza e o impacto social da tecnologia. Portanto, a adaptação da linguagem e a construção de narrativas acessíveis são condições essenciais para converter o potencial tecnológico em valor de mercado, garantindo a sustentabilidade financeira e a consolidação das startups no ecossistema de inovação.

Referências Bibliográficas:

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Marketing do MBA USP/Esalq

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