
25 de fevereiro de 2026
Educação Financeira Crítica no Ensino Fundamental para Crianças de Classe Média Baixa
Diego Tadeu de Oliveira Rocha; Maria Angela Dias dos Santos Minatel
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisa a implementação da educação financeira no quinto ano do Ensino Fundamental em uma comunidade escolar rural de classe média baixa, a partir das práticas pedagógicas e registros institucionais de um projeto específico. A pesquisa busca analisar os sentidos atribuídos ao dinheiro nas práticas pedagógicas, considerando sua dimensão social e histórica; examinar as aproximações entre educação financeira e empreendedora; analisar a Feira do Empreendedorismo Mirim como estratégia pedagógica; e discutir o papel da gestão escolar na proposição de projetos contextualizados. A investigação parte do pressuposto de que a educação financeira, desvinculada de discursos mercadológicos, torna-se um instrumento pedagógico eficaz para a formação crítica e a construção de práticas econômicas conscientes.
A relevância da temática se consolida nos debates educacionais, impulsionada por políticas públicas e pela popularização de conceitos financeiros. No entanto, as abordagens difundidas são frequentemente superficiais e descontextualizadas para a realidade da educação básica, especialmente em escolas públicas, desconsiderando especificidades socioculturais. A defesa da obrigatoriedade da educação financeira, muitas vezes sustentada por interesses mercadológicos, nem sempre reflete sobre a viabilidade de sua implementação pedagógica, gerando um hiato entre a norma e a prática docente. Este cenário demanda propostas que superem a mera transmissão de técnicas de controle de gastos, avançando para uma formação que promova a cidadania e a compreensão crítica das estruturas econômicas.
A literatura reforça a importância da educação financeira para a formação cidadã. Cerbasi (2004) enfatiza que competências financeiras contribuem para escolhas conscientes, impactando a qualidade de vida. Clason (2002) argumenta que o conhecimento financeiro é um caminho para a autonomia, enquanto Weatherford (1997), ao analisar a história do dinheiro, evidencia seu papel como instrumento de poder e organização social, tornando sua compreensão imprescindível para a cidadania. Tais aportes indicam a necessidade de práticas pedagógicas que superem o enfoque técnico, incorporando dimensões críticas e sociais para que os estudantes analisem as relações econômicas de forma complexa.
No âmbito das políticas educacionais, observa-se a ampliação de iniciativas para inserir a educação financeira nos currículos. Em São Paulo, a disciplina tornou-se obrigatória no Ensino Médio e anos finais do Fundamental a partir de 2024, e outras redes estaduais produzem materiais orientadores (SEDUC-SP, 2024; SEDU-ES, 2023). Apesar desses avanços, persistem desafios relacionados à adequação dos conteúdos à realidade dos estudantes, à formação docente e à construção de propostas que articulem criticamente educação financeira e a função social da escola, conforme a LDB (BRASIL, 1996). A superação desses desafios exige um esforço coordenado para desenvolver projetos contextualmente significativos.
Nesse cenário, insere-se a experiência desenvolvida em uma escola pública no distrito de Rechã, zona rural de Itapetininga/SP. A comunidade escolar, majoritariamente de classe média baixa e dependente de atividades industriais locais, evidencia a necessidade de práticas educativas que articulem os conteúdos escolares às condições de vida da comunidade. A gestão escolar, em articulação com os docentes, planejou práticas pedagógicas sobre a historicidade do dinheiro, formas de trabalho e organização econômica, culminando na Feira do Empreendedorismo Mirim, uma estratégia integradora e alinhada à Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017).
Este estudo é uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa, desenvolvida como um estudo de caso. A metodologia permite a análise aprofundada de práticas pedagógicas em um contexto institucional específico, considerando suas dimensões de forma integrada (YIN, 2001). O estudo de caso é adequado para investigar um fenômeno contemporâneo em seu contexto real, especialmente quando as fronteiras entre ambos não são evidentes, o que se aplica à análise de um projeto pedagógico cuja eficácia depende das condições socioeconômicas da comunidade. A investigação fundamenta-se na análise documental, examinando registros institucionais e materiais pedagógicos para interpretar sentidos e intencionalidades formativas. O corpus documental incluiu: planos de aula, materiais pedagógicos, registros da Feira do Empreendedorismo Mirim e documentos normativos.
A análise seguiu os princípios da análise de conteúdo (BARDIN, 2011), com etapas de leitura, categorização e interpretação. As categorias analíticas, definidas a priori, foram: educação financeira em perspectiva crítica; práticas pedagógicas contextualizadas; educação empreendedora no Ensino Fundamental; protagonismo estudantil; e o papel da gestão escolar. As práticas pedagógicas foram fundamentadas na pedagogia histórico-crítica (SAVIANI, 2012) e na psicologia histórico-cultural (VYGOTSKY, 2008), compreendendo a educação financeira e empreendedora como práticas socialmente situadas. Quanto aos aspectos éticos, a pesquisa documental preservou o anonimato de estudantes e professores, com finalidade exclusivamente acadêmica.
A etapa inicial do projeto envolveu uma formação pedagógica com as docentes, conduzida pelo gestor escolar. A ação evidencia o caráter formativo da função diretiva, que, segundo Paro (2012), deve assegurar as condições pedagógicas para o trabalho docente. Nessa concepção, a gestão escolar transcende a administração de recursos, configurando-se como prática pedagógica intencional. Ao conduzir o processo formativo, o gestor tensiona o paradigma burocrático-administrativo, que fragmenta a gestão do trabalho pedagógico. A experiência demonstra uma atuação diretiva comprometida com a formação contínua, o acompanhamento das práticas e a construção de projetos educativos socialmente referenciados. O gestor assume um papel de mediador entre políticas educacionais, currículo e as necessidades da comunidade. Tal postura reforça a gestão como indutora de processos pedagógicos significativos, alinhando-se à função social da escola defendida por Libâneo (2013).
Os registros da formação docente indicam que a proposta partiu da problematização das concepções das professoras sobre dinheiro, buscando construir coletivamente uma abordagem crítica. Ao promover espaços de reflexão, o gestor contribuiu para a ressignificação do trabalho docente, deslocando a educação financeira de uma abordagem instrumental para uma perspectiva formativa. Essa atuação favorece uma cultura escolar reflexiva, na qual os professores se reconhecem como sujeitos de formação permanente, conforme a pedagogia da autonomia de Freire (1996).
As aulas iniciais problematizaram os sentidos do dinheiro, partindo das concepções dos estudantes. Rodas de conversa revelaram representações associadas à sobrevivência e necessidades básicas, refletindo uma visão pragmática. A abordagem respeitou os conhecimentos prévios dos alunos, que, segundo Weisz (2000), são construções elaboradas nas interações cotidianas. Para promover avanços conceituais, foi implementada a atividade “Mercado da Sala”, com metodologias ativas que privilegiam a aprendizagem pela experiência (MORAN; MASSETO; BEHRENS, 2013). A proposta permitiu abordar conceitos como escassez e planejamento, além de desenvolver habilidades socioemocionais. A experiência dialoga com a neurociência da educação, que ressalta a relevância das emoções e do engajamento para a aprendizagem significativa (MORAIS; ALMEIDA, 2012). Sob a perspectiva de Vigotski (2008), a atividade, ao articular experiência, reflexão e mediação docente, favoreceu a atribuição de novos significados às práticas financeiras.
Na sequência, as atividades focaram na compreensão histórica e cultural do dinheiro. A abordagem cronológica iniciou com o escambo, destacando o valor econômico como construção social (GUIMARÃES, 2016), e avançou até as primeiras moedas. Foi implementada a metodologia “Feira das Civilizações”, articulando a pedagogia histórico-crítica (SAVIANI, 2012) e a psicologia histórico-cultural (VYGOTSKY, 2008). A proposta partiu dos saberes prévios para conduzir os alunos à apropriação de conhecimentos sistematizados. A atividade também se apoiou em estudos de neuroeducação, que evidenciam como contextos significativos aumentam a retenção do conhecimento (SOUZA, 2017; ZORZI, 2011). Os estudantes, em grupos, pesquisaram e confeccionaram réplicas de moedas, simulando interações comerciais históricas. A dinâmica permitiu a compreensão de relações de valor e escassez, possibilitando a análise crítica do dinheiro como instrumento social e reforçando uma educação como prática libertadora (FREIRE, 1996).
A abordagem de ativos, passivos, investimentos e orçamento familiar evitou um viés técnico, priorizando a problematização das relações entre consumo e responsabilidade social. O trabalho partiu de situações-problema do cotidiano das famílias, em diálogo com a perspectiva de Weisz (2000). A noção de investimento foi ampliada, incorporando reflexões sobre educação e sustentabilidade, alinhando-se a estudos que defendem a educação financeira como formação cidadã (LUSARDI; MITCHELL, 2014). A mediação docente foi central para a análise crítica, em um processo socialmente mediado (VIGOTSKI, 2008), articulando a educação financeira à empreendedora ao evidenciar a importância do planejamento e da tomada de decisões conscientes (DRUCKER, 1985; DORNELAS, 2018).
A culminância do projeto foi a Feira do Empreendedorismo Mirim, que articulou conhecimentos teóricos e práticos para desenvolver autonomia e pensamento crítico. O empreendedorismo foi situado como instrumento de intervenção social, ética e econômica. O trabalho iniciou com a apresentação do conceito e o convite a empreendedores locais, reforçando a articulação entre prática social e reflexão crítica (SAVIANI, 2008; FREIRE, 1996). Os estudantes participaram de todas as etapas, desde a concepção das ideias até a comercialização. Os produtos, como itens artesanais e hortaliças da horta escolar, articularam a educação empreendedora à ambiental. A feira, aberta à comunidade, inseriu os estudantes em interações sociais complexas, mobilizando habilidades e permitindo a aplicação de conceitos como valor e investimento, em uma abordagem transversal alinhada à BNCC (BRASIL, 2017). A avaliação final contribuiu para o desenvolvimento da metacognição.
A discussão sobre Educação Financeira no Ensino Fundamental I exige superar concepções reducionistas, inserindo a temática em um contexto de desigualdades e consumo exacerbado, o que demanda da escola uma abordagem crítica. A proposta dialoga com os quatro pilares da educação de Delors (1998), contribuindo para uma formação integral. Sob a ótica da pedagogia histórico-crítica, Saviani (2008) entende a educação como mediação, e inserir a educação financeira no currículo garante o acesso a saberes fundamentais para a compreensão da lógica do capital. A perspectiva construtivista de Ferreiro (1999) também se faz presente, ao considerar a aprendizagem como processo ativo e socialmente situado. Destaca-se a atuação do gestor escolar como articulador do projeto, ultrapassando o paradigma burocrático e assumindo seu papel de educador (PARO, 2012), reafirmando a gestão escolar como prática pedagógica capaz de articular formação docente, currículo e realidade social.
Conclui-se que a implementação da educação financeira no quinto ano do Ensino Fundamental, analisada a partir do contexto socioeconômico e dos registros das práticas, revela-se pedagogicamente pertinente quando orientada por uma abordagem crítica e contextualizada. A análise permitiu apreender os sentidos atribuídos ao dinheiro, considerando suas dimensões social e histórica, e evidenciar as aproximações entre educação financeira e empreendedora. A Feira do Empreendedorismo Mirim configurou-se como estratégia integradora, ao articular teoria e prática de forma interdisciplinar, favorecendo o protagonismo estudantil. Evidencia-se o papel fundamental da gestão escolar na proposição e consolidação de projetos contextualizados, reafirmando a educação financeira como instrumento para a construção de uma consciência crítica e cidadã. A experiência demonstra que, ao afastar-se de discursos mercadológicos, a educação financeira se converte em ferramenta para o desenvolvimento da autonomia e da capacidade de análise da realidade econômica, contribuindo para a formação integral dos estudantes. Conclui-se que o objetivo geral foi atingido: analisou-se com sucesso a implementação da educação financeira, demonstrando seu potencial formativo quando abordada de forma crítica e contextualizada no Ensino Fundamental.
Referências:
BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2011.
BERNHEIM, B. D.; GARRET, D. M. Os efeitos da educação financeira no ambiente de trabalho: evidências a partir de uma pesquisa com famílias. Economia Pública, São Paulo, v. 87, n. 7–8, p. 1487-1519, 2003.
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SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO (SEDUC-SP). Educação Financeira no Contexto Escolar: práticas docentes e experiências efetivas – 1ª edição / 2024. São Paulo: SEDUC-SP
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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