Imagem Desafios e perspectivas da implementação do Open Health no Brasil

14 de janeiro de 2026

Desafios e perspectivas da implementação do Open Health no Brasil

Autor(a): Bianca Braz Souza Lage — Orientador(a): Camilla Guimarães

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo explora os desafios e oportunidades na implantação do “Open Health” no Brasil, com foco nos pilares de segurança, interoperabilidade e adesão dos usuários. A investigação, baseada em literatura especializada e evidências empíricas coletadas junto a profissionais e potenciais usuários, busca identificar as barreiras críticas e os fatores de sucesso que podem moldar o futuro deste ecossistema de dados de saúde. A análise contextualiza as dimensões culturais, regulatórias e socioeconômicas que influenciam a viabilidade e a equidade do modelo proposto para o território nacional.

O mercado de saúde brasileiro é um ecossistema complexo, composto por órgãos reguladores (Ministério da Saúde, ANS, ANVISA), operadoras de planos de saúde, prestadores de serviços como hospitais e clínicas, a indústria farmacêutica e, mais recentemente, HealthTechs. Na base deste sistema estão os usuários, cujo engajamento é fundamental para a sustentabilidade de qualquer iniciativa transformadora (Saúde Business, 2024).

A transformação digital no setor de saúde brasileiro nas últimas duas décadas, com inovações como o prontuário eletrônico e a telemedicina, estabeleceu as bases para um modelo de cuidado mais integrado e proativo (Wellbe, 2024). Neste cenário de crescente digitalização, a proposta do “Open Health” representa o próximo passo na evolução da governança de dados em saúde no país.

Em 2022, um relatório do Ministério da Saúde e da ANS estabeleceu as diretrizes para a implementação do “Open Health” no Brasil, com um horizonte até 2028. Inspirado em modelos como o “Open Finance” e o “My Health Record” australiano, o projeto visa criar uma plataforma estatal para o compartilhamento seguro e consentido de dados de saúde, permitindo o gerenciamento das informações dos cidadãos em tempo real. O objetivo é assegurar que cada brasileiro tenha acesso rápido e transparente ao seu histórico de saúde, promovendo maior autonomia e aumentando a eficiência sistêmica (PricewaterhouseCoopers – PwC, 2023).

A implementação do “Open Health” promete oportunidades como a integração de sistemas fragmentados e a personalização do cuidado, alinhando-se às tendências globais de saúde digital (PwC, 2023; Saúde Business, 2024). Contudo, enfrenta desafios críticos como a interoperabilidade entre sistemas legados, a garantia da segurança de dados sensíveis em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018), e a promoção da adesão por parte de uma população com diferentes níveis de literacia digital.

Para investigar esses desafios, a pesquisa adotou uma abordagem de métodos mistos, integrando técnicas quantitativas e qualitativas para capturar tanto a amplitude das percepções da população quanto a profundidade das opiniões de especialistas. A combinação de métodos fortalece a validade dos achados, permitindo a triangulação de dados e uma visão mais completa do fenômeno (Creswell, 2014; Yin, 2016).

Na etapa quantitativa, foi aplicado um questionário online estruturado com 14 questões, baseado em estudos prévios (PwC, 2023; Saúde Business, 2024; Wellbe, 2024). O instrumento utilizou escalas de Likert para mensurar a familiaridade com tecnologias de saúde, o conhecimento sobre o “Open Health”, as expectativas e as preocupações com a privacidade dos dados. A análise dos dados coletados empregou técnicas de estatística descritiva.

Para a abordagem qualitativa, foram selecionados intencionalmente cinco consultores especializados de segmentos estratégicos distintos: captação de novos negócios, gestão de operadoras, administração hospitalar, auditoria e indústria farmacêutica. A coleta de dados ocorreu por meio de um questionário digital com seis perguntas abertas, estruturado em torno dos eixos de segurança, interoperabilidade e adesão dos usuários.

A análise das respostas qualitativas seguiu os princípios da análise de conteúdo (Bardin, 2011) e da análise temática reflexiva (Braun & Clarke, 2006). O processo envolveu codificação, categorização e uma síntese interpretativa. A triangulação desses dados com os resultados quantitativos conferiu maior robustez à análise. A pesquisa seguiu rigorosamente as diretrizes éticas, garantindo o anonimato e o consentimento livre e esclarecido de todos os participantes.

A amostra quantitativa foi composta por 102 respondentes, com predominância do gênero feminino (62%), da faixa etária de 18 a 34 anos (46,1%) e de residentes da região Sudeste (83,3%), um viés comum em pesquisas digitais que reflete desigualdades de acesso (Vonkovski et al., 2020). Esse perfil demográfico, com populações mais jovens e conectadas, pode indicar maior aceitação de inovações tecnológicas (Kotler & Keller, 2021). Adicionalmente, 76,5% dos participantes possuíam plano de saúde, o que pode impactar as expectativas, já que consumidores com maior familiaridade com serviços privados podem ter um “valor percebido” mais alto para soluções digitais (Solomon, 2002).

A etapa qualitativa contou com cinco consultores especializados, cujos perfis diversificados enriqueceram a análise. A heterogeneidade de fontes, conforme defendido por Churchill & Peter (2005), favorece uma visão mais robusta do fenômeno. A triangulação das perspectivas de diferentes stakeholders melhora a validade externa dos achados. Os consultores destacaram benefícios como a redução de desperdícios, mas também apontaram desafios como a falta de padronização, a cultura de compartilhamento de dados incipiente e os altos custos de implementação, alinhando-se com análises que apontam a necessidade de superar barreiras estruturais (Medeiros, 2023).

A segurança da informação emergiu como a principal preocupação tanto para os respondentes do questionário quanto para os especialistas. Os dados quantitativos revelam que 46,1% dos participantes consideram a garantia de privacidade um fator essencial para a adoção do “Open Health”. Essa percepção é corroborada pela análise qualitativa, que reforça o temor de vazamentos de dados e do uso inadequado de informações. A convergência de visões evidencia que a confiança é um pilar social determinante para a adesão (Vonkovski et al., 2020). Os consultores aprofundaram a análise, destacando o alto custo de tecnologias de segurança, os vazamentos recorrentes em outras plataformas e a ausência de protocolos claros na LGPD para o uso secundário de dados. A literatura reforça que confiança e utilidade percebida são fatores centrais para a intenção de uso de novas tecnologias (Davis, 1989; Venkatesh & Davis, 2000), e que transparência e controle funcionam como “sinais de qualidade” que reduzem a incerteza (Parasuraman et al., 1988; Gefen & Straub, 2004).

A interoperabilidade foi identificada como pilar central para a efetividade do “Open Health”. No levantamento quantitativo, 46,1% dos respondentes indicaram que o principal objetivo da iniciativa é a integração de informações. No entanto, 25,5% declararam não saber informar qual o objetivo, revelando uma lacuna de conhecimento. Embora 54,9% acreditem que o “Open Health” possa aumentar a eficiência do sistema, a incerteza ainda é alta (40,2%). Na etapa qualitativa, os consultores foram unânimes em apontar a falta de padronização de dados e a baixa maturidade cultural e tecnológica de muitas organizações como os maiores entraves para a interoperabilidade no Brasil.

Experiências internacionais reforçam esses desafios. Nos Estados Unidos, o padrão FHIR (Fast Healthcare Interoperability Resources) representou um avanço, embora sua adoção desigual reflita a fragmentação do sistema (ONC, 2023). Na União Europeia, o GDPR forneceu uma base regulatória, mas a interoperabilidade plena do European Health Data Space (EHDS) ainda é um objetivo (European Commission, 2022). A experiência australiana com o “My Health Record” ilustra que a integração enfrenta dificuldades que só são superadas com ajustes regulatórios e engajamento contínuo (ADHA, 2023). Para o Brasil, a lição é que a interoperabilidade exige padrões técnicos nacionais, cultura de compartilhamento e incentivos econômicos (Medeiros, 2023; PwC, 2023).

A adesão dos usuários ao “Open Health” apresenta um quadro paradoxal. O conceito é desconhecido por 74,5% dos entrevistados, mas a disposição para utilizar plataformas digitais de saúde é alta: 81,4% afirmaram que usariam. A análise por faixa etária revelou um padrão geracional, com mais de 90% de adesão entre os jovens de 18 a 34 anos, caindo para 57,9% entre os maiores de 60 anos. Outro dado relevante é o ceticismo dos profissionais de saúde: 60% deles veem ganhos limitados, enquanto 43,3% do público leigo acredita em “muitos benefícios”. A literatura sobre difusão de inovações explica que a adoção pode ocorrer mesmo com baixo conhecimento, desde que o valor percebido seja claro e o esforço de uso seja baixo (Rogers, 2003; Davis, 1989).

Os consultores entrevistados identificaram fatores que podem estimular ou dificultar a adesão. Entre os estímulos, destacam-se a melhor coordenação do cuidado e a eliminação da repetição de exames. Por outro lado, os principais dificultadores foram a resistência cultural de profissionais, as barreiras tecnológicas para idosos e os problemas de infraestrutura digital em regiões remotas. O caso do “My Health Record” australiano corrobora que a baixa adesão inicial foi revertida com campanhas educativas e reforço da autonomia do cidadão (ADHA, 2023). No Brasil, a adesão será elevada somente se os usuários perceberem valor agregado, simplicidade no uso e garantias de privacidade.

A experiência do “Open Finance” no Brasil oferece lições valiosas, pois ambos os ecossistemas se baseiam em regulação robusta e consentimento informado do usuário (Banco Central do Brasil, 2021). Os dados desta pesquisa ecoam essa lógica, com 46,1% dos entrevistados destacando a segurança como fator-chave. Os consultores sugerem a necessidade de uma entidade reguladora neutra, similar ao papel da FEBRABAN. Contudo, a transposição de aprendizados encontra limites, pois o setor de saúde apresenta desafios como a menor maturidade digital e a maior sensibilidade dos dados, exigindo adaptações às especificidades do mercado (Marques & Furlan, 2022).

Este estudo demonstrou que a implementação do “Open Health” no Brasil é uma empreitada complexa, com potencial de valor e riscos distribuídos nos eixos de segurança, interoperabilidade e adesão. A confiança é a pedra angular do sistema, com 46,1% dos respondentes condicionando sua participação a garantias de proteção de dados. Essa percepção é amplificada pelos especialistas, que apontam os custos de segurança e a falta de diretrizes claras como fatores de risco. A literatura sobre aceitação de tecnologia sustenta que a percepção de risco é uma barreira fundamental, e que a confiança é construída por meio de transparência e controle (Davis, 1989; Gefen & Straub, 2004; McKnight et al., 2002). Em interoperabilidade, a fragmentação sistêmica e a ausência de padrões técnicos emergem como os principais entraves, um desafio que exige uma combinação de regulação, incentivos econômicos e gestão da mudança cultural (Churchill & Peter, 2005).

Em relação à adesão, os resultados apontam para um paradoxo: um baixo conhecimento sobre o tema (74,5%) coexiste com uma alta disposição de uso (81,4%), desde que os benefícios sejam tangíveis e o uso seja simplificado (Rogers, 2003). O sucesso da iniciativa dependerá de estratégias de comunicação eficazes e de um design centrado no usuário, com atenção especial aos grupos com maior risco de exclusão digital. As lições do “Open Finance” são instrutivas, mas a maior sensibilidade dos dados de saúde exige uma abordagem que priorize a equidade. As limitações deste estudo, como a amostra quantitativa não probabilística, sugerem a necessidade de pesquisas futuras com amostras mais representativas. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a viabilidade do Open Health no Brasil depende da articulação sistêmica entre governança robusta, padrões técnicos claros, estratégias de inclusão digital e a construção de confiança junto aos usuários.

Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Digital Business do MBA USP/Esalq

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