
10 de fevereiro de 2026
Comparação de métodos automatizados e tradicionais para avaliação da transluscência de ovos
Sergio Luis de Castro Junior; Renato Máximo Sátiro
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O presente estudo investiga a viabilidade do uso de machine learning para comparar métodos automáticos de extração da transluscência da casca de ovos com a avaliação visual tradicional, e para identificar se características não intrusivas podem inferir medições destrutivas. A qualidade dos ovos é um pilar na avicultura de postura, influenciando a aceitação pelo consumidor, a segurança alimentar e a viabilidade econômica. A integridade da casca é determinante para o valor comercial, atuando como barreira contra contaminações (Roberts, 2004). Manter padrões de qualidade elevados é essencial para mitigar perdas econômicas decorrentes de ovos com defeitos estruturais, que são frequentemente rejeitados na cadeia de suprimentos (Ledvinka et al., 2012).
A indústria avícola utiliza diversos parâmetros para aferir a qualidade do ovo. A espessura da casca, um indicador de resistência (Yan et al., 2014), é tipicamente medida por métodos intrusivos que exigem a quebra do ovo, tornando-o inviável para comercialização. Esta prática gera perdas e limita a amostragem em larga escala, tornando o controle de qualidade dispendioso e ineficiente (Ketta e Tumová, 2018). Consequentemente, a busca por métodos não intrusivos que permitam a coleta de dados precisos sem comprometer a integridade do produto tornou-se uma prioridade.
Neste contexto, a transluscência da casca surge como uma variável promissora. Esta característica, ligada à microestrutura e composição da casca, reflete a uniformidade da deposição de cálcio e a presença de deformações que podem comprometer a resistência mecânica (Shi et al., 2023; Xuan e Zheng, 2024). A avaliação convencional da transluscência é realizada por inspeção visual sob iluminação controlada, um método funcional, porém subjetivo, dependente da experiência do avaliador e propenso a inconsistências, o que limita sua padronização e escalabilidade (Orellana et al., 2023; Neto et al., 2024). A subjetividade e o tempo demandado representam gargalos para a indústria, que necessita de processos de avaliação rápidos e objetivos.
O avanço de tecnologias como visão computacional e inteligência artificial oferece uma solução para superar as limitações dos métodos tradicionais. A combinação de processamento de imagem com algoritmos de machine learning permite a extração e análise de características da casca de forma automatizada e objetiva (Aragua e Mabayo, 2018; Abd Aziz et al., 2020). Essas tecnologias já demonstraram potencial para medir dimensões, estimar peso e identificar defeitos em ovos, consolidando-se como alternativas aos métodos manuais e destrutivos (Yang et al., 2023; Çevik et al., 2022). O aprendizado de máquina, em particular, é uma ferramenta poderosa para processar grandes volumes de dados e identificar padrões sutis (Bischof et al., 2024).
Estudos recentes exploraram o potencial do machine learning na avaliação da qualidade de ovos. Pesquisas como a de Sehirli e Arslan (2022) aplicaram algoritmos para classificar ovos com base na unidade Haugh. De forma análoga, de Oliveira-Boreli et al. (2023) validaram o uso do Shape Index, obtido por análise de imagem, como método não destrutivo para classificar a qualidade de ovos. Estes trabalhos reforçam o potencial da integração entre análise de imagem e aprendizado de máquina. O presente estudo se insere nesta vanguarda, buscando validar um método automatizado para a medição da transluscência e explorar sua capacidade, em conjunto com outras variáveis não intrusivas, de predizer parâmetros de qualidade obtidos de forma destrutiva.
A mensuração das variáveis seguiu protocolos precisos. O peso total do ovo e o peso da casca foram medidos com balança eletrônica (0,01 g). As dimensões (comprimento e largura) foram aferidas com paquímetro digital. Para a espessura da casca, as amostras foram lavadas, secas por 48 horas e medidas em três pontos com um micrômetro digital, utilizando-se a média. A avaliação da transluscência convencional seguiu a metodologia de Orellana et al. (2023), baseada na inspeção visual sob iluminação padronizada. A transluscência automática foi calculada por um algoritmo de processamento de imagem que segmenta a imagem com base na intensidade luminosa e calcula a razão entre a área translúcida e a área total do ovo.
A análise de dados foi conduzida em R e dividida em duas etapas. A primeira focou na automação da quantificação da transluscência, comparando a classificação manual (A, B, C) com os valores numéricos obtidos automaticamente. Foram empregados três algoritmos de classificação: Support Vector Machine (SVM), K-Nearest Neighbors (KNN) e Naive Bayes. Os dados foram padronizados e divididos em conjuntos de treinamento (75%) e teste (25%), com validação cruzada estratificada de 10 folds. O desempenho dos modelos foi avaliado por matrizes de confusão e métricas como acurácia, precisão, recall e F1-score (Tan et al., 2016). A escolha dos modelos baseia-se na sua eficácia em problemas de classificação em domínios biológicos (Lin et al., 2010; Dong et al., 2020).
A segunda etapa investigou a substituição de variáveis intrusivas (peso e espessura da casca) por preditores não intrusivos. Uma matriz de correlação de Spearman foi construída para identificar associações. Em seguida, foram desenvolvidos modelos de regressão com os algoritmos Random Forest e SVM para prever o peso e a espessura da casca a partir de variáveis como peso total, dimensões e transluscência automática. O desempenho foi quantificado por R², erro médio (EM) e raiz quadrada do erro médio (RQEM). Para interpretar a contribuição de cada preditor, foi utilizada a análise de valores SHAP (SHapley Additive exPlanations), que atribui a importância de cada variável para previsões individuais (Mangalathu et al., 2020).
A análise descritiva revelou correspondência entre a classificação manual da transluscência e a medição automática. Houve um aumento progressivo da transluscência média percentual do grupo A para o C. Para ovos de casca branca, as médias foram 3,21% (A), 5,69% (B) e 10,14% (C); para os de casca vermelha, 2,99% (A), 5,83% (B) e 12,21% (C). Ovos de casca vermelha apresentaram maior variabilidade, especialmente no grupo C (desvio padrão de 4,51%, valor máximo de 25,52%), sugerindo que a pigmentação pode interagir com a microestrutura. A distribuição dos dados confirmou o padrão crescente das medianas de A para C e a maior dispersão no grupo C, reforçando a concordância entre os métodos.
Em relação às características físicas, ovos de casca branca apresentaram valores médios ligeiramente superiores de peso total (58,35 g vs. 56,65 g), comprimento (56,58 mm vs. 56,05 mm) e largura (43,47 mm vs. 43,13 mm), com menor dispersão. O peso médio da casca foi similar (8,09 g para brancos e 8,02 g para vermelhos), mas a espessura média da casca foi maior nos ovos brancos (0,44 mm) do que nos vermelhos (0,39 mm). A variabilidade da espessura foi maior nos ovos brancos (desvio padrão de 0,10 mm), em contraste com a maior variabilidade da transluscência nos ovos vermelhos. Este achado sugere que espessura e transluscência não estão associadas de forma linear.
Na classificação automatizada da transluscência, os modelos SVM, KNN e Naive Bayes demonstraram desempenho robusto, com acurácias gerais superiores a 90%. SVM e KNN alcançaram acurácia idêntica de 91,55%, com precisão, recall e F1-score elevados (acima de 0,900) para as classes A e B. O Naive Bayes apresentou acurácia de 90,14%. O desafio comum foi a identificação da classe C, que apresentou um F1-score inferior, de 0,778. As matrizes de confusão confirmaram que a maioria dos erros ocorreu na distinção entre as classes B e C, indicando uma sobreposição nos valores de transluscência que dificulta a separação.
A dificuldade em discriminar a classe C sugere que a fronteira entre transluscência moderada e alta é sutil. O alto desempenho geral valida a abordagem automatizada como um substituto viável para a inspeção visual. A escolha entre os modelos pode ser orientada por critérios secundários, dado seu desempenho similar. Para aprimorar a sensibilidade na classe C, estratégias futuras poderiam incluir a engenharia de novos atributos de imagem que capturem texturas ou padrões espaciais de transluscência, além de técnicas de balanceamento de classes.
A análise de correlação de Spearman revelou associações fracas entre a transluscência e as demais variáveis. A maior correlação foi com a espessura da casca (r = 0,258), seguida pelo peso da casca (r = 0,192). As correlações com variáveis morfométricas foram insignificantes (r < 0,07). Este resultado indicou que a transluscência, por si só, possui poder preditivo limitado para inferir propriedades estruturais da casca. As fortes correlações entre as próprias variáveis morfométricas, como peso total e largura (r = 0,883), eram esperadas.
Os modelos de regressão confirmaram os desafios. Para a predição da espessura da casca, tanto o Random Forest quanto o SVM apresentaram baixo poder explicativo, com R² de aproximadamente 0,13. Os modelos foram incapazes de capturar a variabilidade da espessura, sugerindo que esta é determinada por fatores biológicos complexos não representados pelas variáveis utilizadas. Portanto, a substituição da medição direta da espessura por modelos preditivos baseados nestes dados não se mostrou viável.
Em contraste, a predição do peso da casca revelou uma diferença entre os modelos. O SVM demonstrou desempenho moderado, alcançando um R² de 0,358, explicando cerca de 36% da variabilidade do peso da casca com preditores não intrusivos. O modelo Random Forest falhou, apresentando um R² negativo. A análise SHAP revelou que, para o modelo SVM, o peso total do ovo foi o preditor mais influente, superando as contribuições da altura, largura e transluscência. Este achado é intuitivo, dada a relação alométrica esperada entre o peso total do ovo e o de seus componentes.
As limitações preditivas decorrem da natureza multifatorial da qualidade da casca; variáveis como linhagem genética, idade e nutrição das aves, não controladas neste estudo, exercem forte influência (Abdelqader et al., 2013; Santos et al., 2024). A ausência desses preditores limita o poder explicativo dos modelos. Além disso, a ampliação do conjunto de dados e a inclusão de maior variabilidade biológica poderiam melhorar a generalização. A aplicação de engenharia de atributos mais sofisticada, como a extração de características texturais da imagem, poderia fornecer preditores mais informativos.
Em conclusão, este estudo demonstrou que a combinação de visão computacional e machine learning permite a classificação automatizada da transluscência da casca de ovos com alta acurácia, concordando com a avaliação manual. Os modelos SVM, KNN e Naive Bayes alcançaram acurácias superiores a 90%, validando a abordagem como uma ferramenta objetiva. A principal limitação foi a menor precisão na classificação da categoria de maior transluscência. Na tentativa de substituir medições intrusivas, os resultados foram mistos: a predição da espessura da casca mostrou-se inviável, mas o modelo SVM apresentou potencial moderado para estimar o peso da casca a partir de características não destrutivas, principalmente o peso total do ovo.
As implicações práticas são significativas, apontando para um futuro onde a avaliação da qualidade dos ovos pode ser automatizada, reduzindo custos e eliminando a subjetividade. No entanto, a substituição completa de medições destrutivas ainda requer avanços, especialmente na engenharia de atributos e na incorporação de uma gama mais ampla de variáveis preditoras. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se a viabilidade do uso de técnicas de machine learning para
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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