O <i>churn</i> e a ciência de dados: novas fronteiras na retenção de clientes

Coluna

Data Science Analytics

Tecnologia

26 de setembro de 2025

O churn e a ciência de dados: novas fronteiras na retenção de clientes

Abordagens preditivas capturam padrões sutis de comportamento e permitem antecipar sinais de insatisfação

A retenção de clientes tornou-se um dos pilares para a sustentabilidade e o crescimento das empresas diante da competitividade contemporânea. A perda de clientes, ou churn, representa não apenas a interrupção de uma fonte de receita, mas também custos adicionais associados à aquisição de novos consumidores.

Nesse contexto, os avanços em ciência de dados e inteligência artificial estão transformando a maneira como as organizações enfrentam esse desafio, utilizando ferramentas capazes de antecipar a evasão e orientar estratégias de retenção personalizadas.

A capacidade de prever o churn deixou de ser apenas um diferencial competitivo e passou a ser uma necessidade estratégica. Por meio de modelos estatísticos e algoritmos de aprendizado de máquina, grandes volumes de dados podem ser convertidos em informações que orientam decisões, permitindo identificar clientes em risco antes que tomem a decisão de cancelar.

Essa transformação não fica apenas no campo teórico. Diversos estudos comprovam como abordagens preditivas conseguem capturar padrões sutis de comportamento. Um exemplo é a utilização de Modelos Ocultos de Markov (HMM) para prever a saída de usuários em redes complexas, isto é, ambientes digitais com milhares de pontos interconectados e em constante mudança, como ocorre em plataformas distribuídas ou serviços de grande escala. Com essa técnica, foi possível alcançar altos níveis de acurácia e reduzir custos de manutenção, demonstrando como a modelagem estatística pode aumentar a eficiência de sistemas dinâmicos (Kaur, 2022).

Os resultados também aparecem em setores diretamente ligados ao consumo, como o e-commerce. Nessa área, modelos híbridos que combinam regressão logística com técnicas avançadas como o XGBoost mostraram desempenho superior na previsão de cancelamentos. Ao integrar dados transacionais, perfil de clientes e comportamento pós-venda, esses modelos alcançaram índices de acerto acima de 85%, reforçando a importância de análises multifacetadas (X. Li & Li, 2019).

Aplicações em Setores Estratégicos

O setor de telecomunicações, historicamente impactado por altas taxas de churn, tem sido um campo fértil para o uso de ciência de dados. Pesquisas recentes revelam que variáveis como hábitos de visualização, consumo de conteúdo e regularidade nos pagamentos são fortes preditores da permanência ou saída de clientes. Modelos que utilizam algoritmos como Random Forest ou XGBoost atingiram acurácia próxima de 99%, destacando-se pela robustez e aplicabilidade em cenários de larga escala (Y. Li et al., 2021; Wagh et al., 2024; Pamina et al., 2019).

Abordagens de deep learning também vêm sendo exploradas. Modelos que integram redes neurais recorrentes, como BiLSTM, com redes convolucionais (CNN) conseguem capturar tanto padrões temporais quanto contextuais no comportamento dos consumidores, obtendo ganhos expressivos em precisão (Khattak et al., 2023). Outra frente promissora é o uso da análise de sentimentos em mídias sociais, como o X (Twitter), que permite identificar sinais de insatisfação em tempo real e agir de forma preventiva (Almuqren et al., 2021).

Além das telecomunicações, outros setores também se beneficiam dessas técnicas. No mercado de seguros, ensembles de deep learning melhorados por algoritmos de busca e otimização alcançaram quase 98% de acurácia na previsão de churn, evidenciando o potencial de modelos mais sofisticados (Jajam & Challa, 2023). Já em sistemas gamificados — que são plataformas que utilizam elementos típicos de jogos, como pontos, rankings e recompensas, aplicados em contextos como educação, mobilidade ou programas de fidelidade — e no varejo, estudos mostraram que até mesmo dados mínimos, como tempo de uso e regularidade de participação, são suficientes para treinar modelos preditivos eficazes (Dingli et al., 2017; Loria & Marconi, 2021).

O avanço da ciência de dados transformou a previsão de churn em uma disciplina estratégica, capaz de orientar empresas na construção de planos de retenção mais eficazes e personalizados. Seja por meio de modelos estatísticos, algoritmos de aprendizado de máquina ou deep learning, o objetivo é sempre o mesmo: antecipar a saída de clientes e agir antes que isso aconteça.

Em um ambiente no qual adquirir novos consumidores é cada vez mais caro, investir em soluções baseadas em dados para manter aqueles que já fazem parte da base deixou de ser apenas uma vantagem competitiva, tornou-se uma necessidade para a sustentabilidade e o sucesso a longo prazo.

Para ter acesso às referências desse texto clique aqui

Quem publicou esta coluna

José Erasmo Silva

José Erasmo Silva é professor, formado em Matemática e Administração, com mais de 25 anos de experiência em gestão empresarial e de pessoas. É mestre e doutor em Administração, com foco em Finanças, e especialista em Data Science e Analytics e em Finanças e Controladoria. Realizou pós-doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atualmente, atua como professor orientador no MBA em Data Science, Inteligência Artificial e Analytics da USP/Esalq e leciona na EEP/FUMEP e na rede estadual de ensino de São Paulo.

Você também pode gostar

09 de outubro de 2026

Baixa Produção de Conteúdo Gerado Pelo Usuário em Colaborações de Cosméticos nas Plataformas Digitais

Este estudo analisou a relação entre colaborações de marcas, conhecidas como “collabs”, no setor de cosméticos e a produção de conteúdo gerado pelo usuário (UGC) em plataformas digitais. A pesquisa abordou a relevância do tema diante do crescimento do mercado de beleza e da intensificação das estratégias de “co-branding” como ferramenta de diferenciação e inovação. O objetivo principal foi compreender de que forma essas colaborações influenciaram o comportamento do consumidor digital, com foco na criação de UGC e na intenção de compra. Para isso, a metodologia adotada foi exploratória e descritiva, com a aplicação de um questionário online a 493 respondentes da região Sudeste do Brasil. Os dados coletados foram analisados por meio de estatística descritiva. Os resultados indicaram que, embora as “collabs” gerassem engajamento entre os consumidores, a produção de UGC ativo foi baixa, predominando interações passivas como curtidas, salvamentos e reações rápidas. Adicionalmente, as colaborações demonstraram influência limitada na intenção de compra e na disposição a pagar mais pelos produtos. Concluiu-se que, apesar do potencial estratégico das “collabs” para o mercado de cosméticos, sua efetividade dependeu de fatores como a relevância percebida, a identificação com a marca e a presença de estímulos adicionais para a criação de conteúdo pelo usuário.

Palavras-chave: Comportamento online; Co-branding; Engajamento do consumidor; Intenção de compra; Interação digital.

09 de outubro de 2026

Ferramentas e técnicas de gestão do tempo utilizadas por técnicos da capacitação profissional rural e promoção social

A gestão do tempo configura-se como um elemento essencial para a melhoria da produtividade e da qualidade das entregas, ao permitir a organização, priorização e execução eficiente das atividades, contribuindo diretamente para o alcance de metas e a otimização dos resultados no contexto profissional e pessoal. Objetivou-se compreender como práticas, ferramentas e técnicas de gestão do tempo, adotadas por instrutores de formação profissional rural e de promoção social, se associaram a dois desfechos centrais: a realização das atividades diárias planejadas e a percepção do impacto dessas práticas no bem-estar e produtividade. Os dados foram coletados por meio de questionário on-line estruturado, composto por 18 questões, e as análises foram realizadas no ambiente Python com bibliotecas estatísticas. Os resultados revelaram que a elevada formação acadêmica e maturidade profissional não se traduziu em maior eficácia na gestão do tempo. Observou-se amplo conhecimento sobre ferramentas e técnicas, mas sua utilização prática foi limitada e desigual. Ferramentas mais simples e intuitivas, como listas de tarefas, apresentaram maior adesão, enquanto técnicas que exigem transformações comportamentais, como a Técnica Pomodoro, tiveram baixa aplicação. Houve predominância do uso de soluções digitais, com destaque para o Google Agenda. Evidenciou-se uma percepção quase unânime de que a gestão do tempo influencia diretamente a produtividade e o bem-estar. Concluiu-se que a melhoria da gestão do tempo não dependeu exclusivamente da adoção de ferramentas e técnicas, mas, sobretudo, do desenvolvimento de habilidades práticas e comportamentais, aliado a ajustes nas condições de trabalho.

Palavras-chave: 5W2H; Matriz de Eisenhower; Matriz GUT; Multitarefa; Procrastinação.

09 de outubro de 2026

Análise de Correspondência Aplicada a Dados Periciais: Identificação de Padrões Para Melhoria dos Serviços de Atendimento

A necessidade de otimizar recursos e compreender a complexa dinâmica criminal motivou a exploração de dados periciais, frequentemente subutilizados em laudos textuais. Aplicou-se a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) em atendimentos periciais na Macrorregião de Bauru, SP. O objetivo foi investigar e identificar padrões de associação entre o tipo de ocorrência, o período do dia, o dia da semana e a localização, visando subsidiar decisões operacionais. Utilizaram-se dados da Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC), coletados entre maio de 2023 e janeiro de 2026. A metodologia englobou a limpeza, transformação e categorização das variáveis, além da construção de matrizes de contingência processadas em Python. A análise descritiva inicial revelou que furtos e colisões predominaram no volume total de ocorrências, enquanto crimes violentos, como homicídios, estupros e feminicídios, representaram uma parcela menor, mas demandaram tempos de resposta significativamente maiores. A ACM mapeou visualmente as correlações estruturais, demonstrando associações claras entre crimes noturnos e de finais de semana com regiões específicas. Identificaram-se dois agrupamentos principais: um perfil noturno e de fim de semana, associado a choques, atropelamentos e suicídios, com destaque para Bauru; e um perfil diurno em dias úteis, dominado por furtos e danos à propriedade. Demonstrou-se que o uso de técnicas exploratórias de aprendizado de máquina transformou dados periciais brutos em informações estratégicas vitais, fornecendo subsídios para a alocação eficiente de equipes e fundamentando a elaboração de políticas públicas baseadas em evidências.

Palavras-chave: Crimes violentos; Matriz de contingência; Priorização de serviços; Python; Tempos de resposta.

09 de outubro de 2026

O comportamento das gerações de consumidores digitais de materiais para construção: análise da Geração X

Analisou-se o comportamento da Geração X na compra de materiais para construção, considerando a articulação entre canais digitais e físicos e as percepções de varejistas e indústrias sobre esse processo. O objetivo foi investigar como esse público utiliza os canais digitais e físicos no processo decisório e relacionar os achados às respostas de varejistas e indústrias. Realizou-se uma pesquisa descritiva e exploratória, com abordagem quantitativa e interpretação qualitativa, por meio de três questionários aplicados a 37 consumidores, 25 varejistas e 25 representantes da indústria. Os dados de cada grupo foram analisados separadamente e, em seguida, relacionados por eixos temáticos. Os resultados indicaram que os consumidores da Geração X utilizam meios digitais para pesquisa e comparação, mas valorizam a loja física para contato com o produto, confiança e atendimento consultivo. Os varejistas reconheceram a transformação, mas apresentaram diferentes níveis de adaptação, enquanto as indústrias relataram uso heterogêneo de tecnologias e reconheceram seu papel de apoio ao varejo. Concluiu-se que o comportamento da Geração X se caracteriza por uma jornada híbrida, que exige maior integração entre os canais e os agentes da cadeia de materiais para construção.

Palavras-chave: Comportamento do consumidor; Geração X; Jornada de compra híbrida; Transformação digital; Varejo de materiais para construção.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

09 de outubro de 2026

Fundamentos para estruturação de currículos baseados em habilidades de raciocínio

Nas últimas décadas, observou-se uma transição educacional de modelos focados em conteúdo para o desenvolvimento de competências, impulsionada pela ubiquidade da informação. Nesse contexto, as habilidades de raciocínio tornaram-se pedagogicamente cruciais por embasarem a compreensão, relação e adaptação de conteúdos em cenários complexos. Com base nessa perspectiva, buscou-se consolidar um modelo detalhado das habilidades que compõem o raciocínio cognitivo, visando servir de base para a elaboração de currículos e programas pedagógicos. Para tanto, realizou-se uma pesquisa qualitativa e exploratória, que envolveu uma síntese multidisciplinar de conhecimentos da filosofia da mente, epistemologia, semiótica, psicologia cognitiva e neurociência. Essa abordagem proporcionou uma visão abrangente da natureza e das funções do raciocínio humano. O modelo resultante classificou as habilidades em quatro funções cognitivas principais, subdivididas em níveis crescentes de complexidade, que acompanharam o desenvolvimento cognitivo humano. A estrutura final mostrou-se bem fundamentada e aplicável à elaboração de currículos e programas pedagógicos, oferecendo uma taxonomia de habilidades do raciocínio diretamente utilizável no sequenciamento instrucional e na avaliação de competências cognitivas.

Palavras-chave: Currículo baseado em competências; Desenvolvimento cognitivo; Habilidades cognitivas; Pensamento crítico; Raciocínio cognitivo.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade